IAC – Não se pode auditar uma dívida sem se suspender o seu pagamento porque não se pode derrotar os agiotas em unidade com os caloteiros e porque não se pode demonstrar a democracia sem se ter democracia. Em suma, com o PS a esquerda não avança e a esquerda já devia saber disso.

Ana Benavente, aqui com João Soares.

A Iniciativa Auditoria Cidadã (IAC) é a mais recente prova disso. Não se ganha o retrato da Ana Benavente sem contrapartidas e as que a IAC está a assumir, em nome de uma unidade sem princípios com o PS, liquidam a sua seriedade. Sem questionar as boas intenções da iniciativa – auditar as contas da dívida – uma primeira leitura dos seus documentos deixam perceber algumas contradições. Vejamos:

Dizem querer “identificar parcelas ilegítimas da dívida pública”, não vendo que assim assumem que há uma parte da dívida que nos diz respeito, legitimando-a antes mesmo de serem abertos os livros de contas. Dizem que “o corolário lógico de uma auditoria cidadã” é “uma reestruturação da dívida”, optando por não ver que ao contrário do que afirmam a renegociação dos termos será sempre feita pelos “credores”, com os resultados que conhecemos ainda há tão pouco tempo, na vizinha Grécia. Em suma, mais manifesto menos manifesto e face ao intervalo de intervenção que definiram, o mais certo é os companheiros da IAC conseguirem dar legitimidade a um negócio que só interessa aos verdadeiros caloteiros.

Para haver “rigor e precisão na detecção de dívida legítima, ilegítima, insustentável ou odiosa” esta não pode ser feita ombro a ombro com uma parte significativa dos representantes políticos dos patrões. Conceber que a auditoria sem o recurso à suspensão do pagamento da dívida pode abrir uma saída para a “crise” é como ir ao hospital e ficar contente apenas com o diagnóstico. A cura não é um juízo moral, um processo de intenções ou a repetição do caminho que provocou a doença. Recuperando uma ideia do Eric Toussaint, o tempo é de escolher entre “a dívida ou a vida”.

Off topic: A avaliar pela rapidez com que o Ricardo Santos Pinto replicou o formato das mentiras do Sócrates, a ver quanto tempo teremos que esperar pelo top dos tempos modernos. Ainda assim, o PS, em materia de calote, não leva mesmo lições de ninguém.

 

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64 respostas a IAC – Não se pode auditar uma dívida sem se suspender o seu pagamento porque não se pode derrotar os agiotas em unidade com os caloteiros e porque não se pode demonstrar a democracia sem se ter democracia. Em suma, com o PS a esquerda não avança e a esquerda já devia saber disso.

  1. Renato, há efectivamente uma parte da dívida que é, pelo menos, minha.

    Sabes, é que eu cometi aquele pecado mortal de, em vez de ir colaborar com o sistema financeiro, aforrar as minhas poupanças em certificados de aforro. Eu sei, é imperdoável.
    Ainda por cima fiz quase toda a escolaridade em escolas públicas. Uma vergonha, bem sei.
    Tenho uma mãe pensionista — que desfaçatez! Para culminar, até já fui ao centro de saúde a hospitais públicos.
    Uma vez que me assaltaram até apresentei queixa na polícia… e houve outra vez que chamei o 112! Imagine-se!!!

    Desempregada, alguns trabalhos que ainda vou tendo são para o CCB, mais dinheiro público — despesa ou dívida, não sabemos, porque a auditoria não está feita. Mais vergonha. E dou graçinhas a Marx pelo Conservatório, pelo Instituto Gregoriano, a Orquestra Sinfónica Portuguesa, o Coro do Teatro São Carlos, instituições públicas que mantêm uma boa parte da minha potencial concorrência empregada e fora dos concursos a que me candidato. Um horror de desfaçatez minha, bem sei.

    Sou, de facto, uma vergonha nacional, mas essa parte da dívida é minha.

    Quem não sabe há-de achar que a dívida são os submarinos do Portas e o BPN. Mas se pensarmos dois segundos percebemos que não. Nada disso.

    Quanto às acusações que fazes de haver contrapartidas por ter gente do PS na plataforma, não te passa pela cabecinha que a difamação e as acusações infundadas são crime? Dá-me provas dessas contrapartidas.

    • Renato Teixeira diz:

      Ao que tu chamas de dívida sobra, e muito, PIB para o pagar. O que cobramos de impostos e o que produzimos, dá e sobra para as tuas necessidades de “crédito”. É precisamente essa confusão que a IAC, colocada nestes termos, reforça.

      • Gentleman diz:

        «’Ao que tu chamas de dívida sobra, e muito, PIB para o pagar. O que cobramos de impostos e o que produzimos, dá e sobra para as tuas necessidades de “crédito”.»

        Em que baseias tal mirabolante conclusão? Em dados ou em wishful thinking?

        • Renato Teixeira diz:

          Os números chegarão em breve Gentleman, vai ter que ter paciência. Vá espreitanto tabém o site do Comité, na resposta à Helena, que vai ver o quanto das teses que mandou ao lixo, afinal de tudo estavam certas.

    • A.Silva diz:

      Cara Helena, se fez tudo isso e nunca pagou impostos, acho bem que assuma a divida e se chegue à frente para a pagar, mas sabe, eu e muitos como eu, desde que trabalhamos que pagamos os nossos impostos que servem (ou deviam servir) para pagar esses “luxos” de que fala.

      • Alguém lhe chamou luxos. Ah… olha… foi você!

        E sim, como digo mais abaixo, a construção e equipamento completo de um hospital faz-se com dívida. Não há impostos que cheguem para os equipamentos modernos necessarios para uma sala de operações devidamente equipada. Em recessão a dívida á algo de perfeitamente normal.
        Não é essa dívida que nos põe problemas, a não ser que as condições de negociação não sejam os normais.

        • notrivia diz:

          Não é o custo do hospital ou da escola que é o factor de endividamento. É a ‘derrapagem’ orçamental associada ao custo. Sucessivos governos (PS,PSD,PSD-PP) tem uma política infalível nesta actividade (a da ‘derrapagem’).
          Já que falou no CCB:

          http://www.dn.pt/inicio/interior.aspx?content_id=662061

          Cite-se o exposto(2ª metade do 2º paragrafo):

          “…viu o CCB (1988-1993), criado em parceria com Manuel Salgado, sofrer muitas críticas, fosse pela sua relação volumétrica com o Mosteiro dos Jerónimos, fosse pelas derrapagens orçamentais: estima-se que terá custado 40 milhões de contos, quando o orçamento inicial rondava sete milhões.”

          E esta é uma estimativa simpática. Algures em meados dos anos 90 alguém soltou a goela e as tantas era do senso comum (para quem prestava atenção a estas coisas) que o derrape escorregou para a zona dos 60 milhões… A acompanhar vinha a sede da CGD (Culturgest) no Campo-Pequeno. Comentava-se que o orçamento inicial sendo a volta de 10 ou 12 milhões teria “derrapado” para qualquer coisa a volta dos 110 milhões… Casa da Musica, outro conto. Mas isso são obras emblemáticas claro está, mas as outras não sendo, não escapam ao desfalque… Perdão, ao ‘derrape’!:

          http://economia.publico.pt/Noticia/o-grande-embuste-do-preco-das-obras-publicas-1247611

          Dê uma vista de olhos, mas por favor faça a sua pesquisa, quem sabe, encontrará muitos outros casos para partilhar.

          Os acima mencionados ‘luxos’ seus e de outros tantos nem centavos são.

          • É tudo isso… quem sabe se mais. Não sei o que se vai descobrir na auditoria.
            A questão é que na dívida está o custo original (normal, digamos) da escola e a derrapagem.

            Se assim fosse, e façamos um exercício que é de imaginação, não podemos fingir que já sabemos tudo o que se vai encontrar na auditoria. Mas nesse caso, a auditoria iria anotar uma escola de custo x com derrapagem de y.

            Resultados na mão, os cidadãos podem depois decidir que consideram legítima a parcela da dívida x e ilegítima a parcela y. No entanto, todas são dívida.

            Quanto ao CCB tudo isso é muito certo e também tenho pena que o palácio que lá estava debaixo tenha desaparecido. Fui contra a construção e preferia que lhe tivessem encontrado outro lugar. E quem lá trabalha dentro até tem muito mais críticas a fazer ao projecto arquitectónico no seu todo.
            Mas é facto que Lisboa precisava de um espaço cultural daquele género e que tem tido e feito muitos espectáculos úteis. É facto que abriu a cultura “erudita” a um público que se sente intimidado com o S. Carlos ou a Gulbenkian e não os frequenta, mas frequenta o CCB.
            Uma coisa são os custos das derrapagens na construção, as opções de local e os custos que lhe estejam inerentes, os problemas no projecto e o acrescento de custos inerente, outra são os ordenados de quem lá trabalha, os cachets dos músicos, actores, as obras de manutenção (sabe que o palco do grande auditório tem que ser afagado todos os anos e que consequentemente a madeira se vai gastando e é preciso um palco novo de dez em dez anos, sob pena de simplesmente abrir um buraco e matar – o sub-palco tem umas dezenas de metros de altura – quem lá estiver no momento?). Qualquer uma destas parcelas que seja paga com um empréstimo torna-se dívida, parte do bolo que é a dívida pública.

            Por isso é que é precisa a auditoria, para separar, explicar cada parcela, cada parte e dar a informação ao povo, que decide se a acha legítima ou não.

  2. Não sou eu que lhe chamo dívida. É o nome técnico da coisa. E não há trabalho sério com confusão nos termos!
    A escola ou os hospitais são despesa, mas se a dívida é contraída para os financiar, é dívida contra hospitais. Os certificados de aforro e todos os outros títulos são mesmo dívida pública. Não há outro nome possível.

    Afinal és tu quem parte de resultados finais para analisar só partes da dívida: tiras o nome dívida aos certificados de aforro, chamas-lhe (não sei, o que é que lhe chamas? Manel? Maria Amélia?) outra coisa qualquer e pronto. Ela tem que ser toda analisada e depois decide-se com base no relatório final o que é ilegítimo ou ilegal. Vamos concluir certamente que uma parte são os certificados de aforro de muitas avozinhas do país. Vamos encontrar outras parcelas certamente justificáveis e que se consideram muito justas. Também se hão-de encontrar parcelas contraídas para coisas como o BPN e se calhar outras negociatas ilegais ou ilegítimas que nem imaginamos! Por isso é que tem que se avaliar tudo!

    Na Irlanda, por exemplo, e ainda voltando aos títulos de dívida como os certificados de aforro, não puseram em causa os títulos em si, mas descobriram uma série de operações de mercado que mexeram no valor dos títulos e que com isso fizeram aumentar o valor global da dívida pública. Ou seja, há uma parcela legítima: os certificados e os juros que lá estão acordados desde o início, o valor nominal, portanto; e uma parcela ilegítima, a que fez valorizar em demasia os títulos no mercado financeiro e que fez aumentar em bolha o valor da dívida pública sem uma contrapartida real.

    • Renato Teixeira diz:

      Certificados de aforro são poupança, qual é a dúvida? Boa parte deles de trabalhadores da classe média e da classe média baixa, que recorreram à segurança, mal paga, desta aplicação. Quem tem bagulho a sério aplica-o, como sabes, noutro tipo de investimento.

      A dívida não foi usada para a despesa e a ter sido é ainda mais grave. Posto que o PIB é maior que a despesa, alguém andou a meter ao bolso o dinheiro dos nossos impostos.

      Espreita o que vem dizendo o Comité pela Anulação da Dívida: http://www.cadpp.org/en/node/4 ou mo CADTM: http://www.cadtm.org/Eric-Toussaint-Uma-rebeliao-na

      • Os certificados são poupança para os aforristas. Do ponto de vista económico são mesmo dívida. São títulos de dívida pública chamados certificados de aforro ou obrigações do tesouro.

        • E sim, a dívida é usada para construir escolas, hospitais, etc. Para a despesa corrente não sabemos, mas para obras em escolas, renovações, compras de grandes equipamentos cirúrgicos tecnologicamente avançados, achas mesmo que não?

        • João Valente Aguiar diz:

          «Os certificados são poupança para os aforristas. Do ponto de vista económico são mesmo dívida. São títulos de dívida pública chamados certificados de aforro ou obrigações do tesouro.»

          Renato, a Helena tem razão neste ponto. Isso é dívida pública, sem dúvida nenhuma. É um tipo de obrigação do tesouro.
          Mas o que eu acho é que, do meu ponto de vista, não devemos ir pela conversa da dívida legítima ou ilegítima. Na verdade, a dívida pública é um mecanismo que o grande capital financeiro usa para sacar carradas de dinheiro aos Estados. Não existe Estado moderno sem dívida pública, como é impossível perceber o capital financeiro sem o ligar à dívida pública. Logo, a luta contra a dívida pública – que os bancos obrigaram os Estados a endividar-se (ou alguém é santinho ao ponto de achar que a relação entre eles é uma “normal” relação contratual?) – representa muito da luta anti-capitalista que é hoje ainda mais necessária. Diz a Helena Romão num dos comentários que a dívida é usada para construir escolas e hospitais. Pois é, de facto. Mas não teria de ser. Se o Estado não permitisse a fuga de capitais em massa do país (ou no mínimo, os taxasse), se o Estado não desse benefícios fiscais loucos aos bancos e aos grandes grupos económicos, ou se o Estado não tivesse literalmente dado cerca de 9 mil milhões de euros ao sector financeiro em 2009 (o que atirou o défice do Estado de cerca de 3 mil milhoes de euros para pouco mais de 12 mil milhões – e isto vem num relatório do Tribunal de Contas de 2010), portanto, o Estado em nada teria de se endividar. Ao mesmo tempo, se o Estado emitisse moeda (de modo regrado) não teria de se endividar esdruxulamente. Dívida que apenas interessa ao grande capital financeiro.

          A luta pela suspensão da dívida deve passar precisamente pela luta e nisto concordo em absoluto contigo Renato, como é óbvio. Não há outro caminho. Até porque, e isto não foi ainda abordado nesta caixa de comentários, quando as coisas voltarem a uma certa normalidade (se é que isso vai acontecer completamente, mas isso é outra história) o mecanismo vai voltar: sacar impostos aos trabalhadores, cortar nas despesas sociais nos salários e nas pensões, fechar serviços públicos em massa, não ter mecanismos próprios de financiamento, voltar a pedir emprestado aos bancos… Esse “empréstimo” pode ser menor – até porque o Estado vai ter menos despesas com saúde, educaçao, etc. – mas vai continuar a acontecer. A luta contra o pagamento da dívida é uma luta importantíssima. Se países como Portugal e a Grécia suspendessem o pagamento da dívida o domínio do capital financeiro ficaria seguramente afectado. E não há outra saída: ou sangrar e vermo-nos a morrer dolorosamente ou mudar de paradigma.

          • notrivia, a ideia da auditoria cidadã é precisamente pôr nas mãos de todos a informação sobre cada parcela da dívida pública, para que se possa decidir o que se quer fazer. Por isso, é mesmo para partilhar: o arranque na Convenção de Dezembro, o desenrolar do processo e os resultados finais – não só para “partilhar”, mas para ter participação de todos quantos queiram.

          • Renato Teixeira diz:

            O compromisso já está estabelecido no manifesto. Pela renegociação é que esta auditoria vai, e assim não vai a lado nenhum.

          • João Valente Aguiar,
            tem razão na questão dos impostos. Claro que se o sistema fiscal fosse equitativo e justo, muita da dívida seria desnecessária.

            Mas dívida existiria quase sempre. Nós somos um país em desenvolvimento, há de facto crises sistémicas (qualquer que seja o sistema – não vou entrar pela discussão do sistema pretendido, que seria bem mais longa), há catástrofes naturais, etc. A dívida pública é um dos instrumentos do estado para se financiar e poder fazer face às necessidades da população. A dívida pública não é por definição agiota. Tem sido encarada assim, mas é porque lhes é permitido, não porque isso faça parte da definição de dívida. Aqui entrariam ainda várias outras discussões (o que é o FMI e porque raio se tornou num agente de agiotagem e desgraça, o mesmo para o BCE, regulamentação da banca privada, arquitectura e institucionalização de toda a UE, etc.).

            Por exemplo, em contexto de recessão e crise, o défice orçamental é quase um dever do estado (que não é cumprido actualmente, mas falo da utopia do que seria um estado a cumprir o seu papel nos moldes ideais) – exporta-se menos, há desemprego, há empresas a fechar – é dever do estado orçamentar o suficiente para prover a todos os problemas da população e isso significa défice. Como coincide com uma época em que há menos impostos, menos compra de certificados de aforro, etc., este défice implica dívida. Se for feita em condições de boa fé e respeito por todas as partes, não há razão para que esta dívida “utópica” seja ilegítima ou ilegal.

          • Renato, as palavras têm significados específicos e é preciso usá-los, senão às tantas andamos todos a dizer a mesma coisa, mas como temos dicionários diferentes, andamos para aqui às turras sem necessidade.

            Imagina que no fim há uma parte declarada claramente ilegal, outra é legal. Outra é legal, mas ilegítima. Outra é legal, legítima, mas impossível de pagar nas condições estipuladas. As pessoas poderão defender o que quiserem relativamente a essas parcelas todas, mas um exemplo de reestruturação seria (e lembro que é um exemplo, já que essa decisão deverá caber à população e não à minha cabeça):
            – declarar que não se paga a parte ilegal;
            – pagar a a parte legal e legítima, acordando prazos exequíveis para a economia do país;
            – declarar que não se paga a parte gravemente ilegítima com responsabilidade directa dos credores nessa ilegitimidade;
            – declarar que se paga a parte menos gravemente ilegítima, quando essa ilegitimidade não resulta de responsabilidade directa do credor; sendo que esta só é paga em último lugar, depois da dívida legítima;

            Uma parte paga-se, outra não, outra renegoceia-se. E a renegociação, quando parte do devedor, resulta muito melhor que quando parte do credor, não é a mesma coisa, como às vezes se lê. O credor espera até estarem criadas as condições de desespero em que o devedor aceita qualquer coisa; o devedor pode negociar antes disso, ainda com “armas” na mão.
            Isso tudo junto é que é reestruturação.

            Não há qualquer conclusão a priori. Resultado a priori é falar de auditoria, mas começando por gritar “não pagamos”. Ainda não se sabe o que é, mas não pagamos.

          • Renato Teixeira diz:

            “A renegociação, quando parte do devedor, resulta muito melhor que quando parte do credor”

            Para lá do facto de considerarem o sistema financeiro “credor”, mesmo sem ver as contas, algo bem mais estapafurdio do que se dizer que enquanto não abrirem os livros e contas não pagamos, não vejo onde é que é mais delirante acreditar que a auditoria que vai partir dos cidadãos, vai ser a bitola de quem for fazer a renegociação. Dizer que o objectivo é renegociar é assumir que temos que pagar um calote sem ver as contas primeiro.

      • RuiB diz:

        «A dívida não foi usada para a despesa e a ter sido é ainda mais grave. Posto que o PIB é maior que a despesa, alguém andou a meter ao bolso o dinheiro dos nossos impostos.»

        A confusão que vai por essa cabeça, Renato. Os impostos são receita do Estado, cujo Orçamento tem o lado das receitas e o lado das despesas; se estiver equilibrado, não há défice.

        Mas o OE não é igual ao PIB. As receitas e as despesas do Estado são muito menores que o PIB. Por exemplo, no próximo ano de 2012, segundo a previsão, a receita pública total e a despesa pública total (incluindo o pagamento de juros) equivalerão, respectivamente, a 42,5% e 47% do PIB.

        O PIB é sempre muito maior que a despesa, mesmo com um gasto público irrepreensivelmente utilizado em benefício dos mais necessitados, dos trabalhadores e das populações. Concluir daí que «alguém andou a meter ao bolso o dinheiro dos nossos impostos» é simplesmente disparatado.

        A Helena Romão está cheia de razão nesta discussão.

        • Renato Teixeira diz:

          Se as despesas são menores do que o PIB a dívida não tem razão de ser. Assim sendo, falar em legitimidade de uma parte da dívida, o que acrescenta?

          • flash diz:

            Renato,
            O PIB é o produto interno bruto.

          • Renato Teixeira diz:

            Pensava que era o Produto Indevidamente Brutalizado.

          • RuiB diz:

            A necessidade do endividamento público vem do facto das despesas do Estado, quaisquer que sejam, serem superiores às suas receitas. Não vem do facto das despesas do Estado serem inferiores à riqueza produzida no país (ao PIB). Que raio de confusão, moço.

          • Renato Teixeira diz:

            Rui B, deixe lá a confusão, de facto as receitas não se limitam ao PIB. Ainda assim foque-se no facto de que a despesa não é maior do que as receitas, e estas estão também relacionadas com o PIB. Se fizer apenas as contas as receitas directas dos impostos, estas são suficientes para os ministérios nucleares em matéria de garantia de direitos adquiridos.

  3. Além disso repara: a auditoria pode-se organizar. É uma trabalheira, mas faz-se.
    Mas a suspensão de pagamento, declara-se onde? No Rossio? E tem consequências como? Quem pode, afinal, declarar a suspensão da dívida; quem é que tem esse poder?

    É que o Cavaco e o Passos, nenhum deles é argentino. A Argentina foi dos raros países a suspender o pagamento. Teve êxito, é certo. Mas foi decretado pelo Presidente e nem o Cavaco nem o Passos o vão fazer.

    • Renato Teixeira diz:

      Ah, tá certo, vão fazer a auditoria cidadã e já agora chamar o Boaventura para cordenar o grupo de estudos. Ou será o Cravinho? 🙂

      A suspensão conquista-se, a par da auditoria, naturalmente. Uma auditoria per si, feita exclusivamente para e pelos cidadãos, que problema resolve se não for acompanhada por medidas concretas? Se a iniciativa for aceite por uma comissão liderada por PS e PSD, ou no caso, pelo PS, que idoneidade terá essa auditoria? Benavente a auditar, também, as dívidas de um governo do qual fez parte? Desculpa, mas não faz qualquer sentido nem mesmo se ela tiver ascendência argentina.

      Como bem lembras, em frente ao palácio Rosada e ao longo da Avenida de Maio isso foi possível e correu bem. Porque não havemos de o conseguir cá?

  4. Porque não vai acontecer. E não foi em frente ao palácio. Foi lá dentro.

    Quanto ao resto, a auditoria não é feita pelo governo pela mesma razão que não é feita pela Price Coopers Waterhouse (ou outra semelhante): não seria isenta.

    Por outro lado, no Equador, que foi até hoje o ÚNICO país que fez uma auditoria oficial, a coisa não teve resultados positivos. Foi o Presidente que decidiu sozinho o que era ou não legítimo, repudiou uma parte pequeníssima do que era ilegítimo e nessa altura isso foi até um desânimo para os brasileiros e os argentinos que estavam em pleno processo de auditoria cidadã. Portanto, uma auditoria feita pelo estado não é mesmo boa ideia, até quando é aparentemente feita por governos muito bem intencionados.

    Não sei quem estará na Comissão de auditoria, aliás isso será uma coisa a ver na Convenção. Não é a plataforma. Não confundir ambas.

    Traduzi alguns textos a este propósito que vão ser lançados no site (http://auditoriacidada.info/) durante os próximos dias. Podes ir acompanhando e ver as descrições dos processos sul-americanos por quem esteve envolvido.

    Quanto à Ana Benavente e a todos os restantes cidadãos com cartão partidário: foram contactadas várias pessoas e aderiu quem concordou com a iniciativa e a premissa de uma auditoria cidadã. Os textos que falam numa auditoria isenta à dívida pública e a toda a formação desta situação foram escritos a várias mãos e acordados por todos em plenário. Se isso lhes causa engodos com os respectivos partidos, não é connosco. Cada um sabe de si, aderiu e mantém-se por vontade própria e é bem vindo. Não fizemos controlo de cartões partidários, aliás esses controlos foram extintos há muito tempo (e ainda bem, certo?).

    • Renato Teixeira diz:

      Nada acontece dentro dos Palácios sem a pressão da rua. O argumento é curto, e aplica-se igualmente à auditoria.

      O problema com a Benavente é político. O PS é parte importante no calote, aceitar a sua presença, negociar uma posição política plausivel à sua participação, é fazer tudo ao contrário e amnistiar um dos dois principais ladrões e o partido com mais responsabilidades na dívida em Portugal.

      • Mas para que te hei-de dizer que não houve qualquer negociação para a entrada de qualquer um dos cidadãos que formam a plataforma, se tu tens isso como um dogma e te recusas a acreditar no que VÁRIAS pessoas da plataforma te dizem? Não vale a pena esta discussão, pois não?
        Somos todos mentirosos e tu tens razão porque tens e meteste na cabeça que é assim…

        E se o teu problema são governantes PS, porque raio tens tanto problema só com a Ana Benavente? É ignorância relativa aos restantes? Fica-te mal!

        Sobre a América do Sul houve eleições que puseram em vários governos gente de esquerda e que quis resolver o problema genuinamente. No caso do Equador, como te disse, foi uma ordem do Presidente Correa que fez a auditoria.
        Ou seja, houve pressão nas ruas para acabar com governos ditatoriais impostos pelos EUA mas, uma vez eleitos governos de esquerda (e eu nisso sou como tu, tb não acho que o PS actual seja de esquerda – só que não identifico todos os cidadãos dentro do PS pela mesma bitola – portanto quando digo esquerda quero mesmo dizer esquerda da verdadeira) não foi necessária mais pressão. Os governos trataram dos países sozinhos sem precisarem que a rua lhes explicasse a cada dia o que isso queria dizer.

  5. Já que adiantaste o Cravinho e o Boaventura, enganaste-te: vai ser o Constâncio! 😛

  6. ruca diz:

    A IAC tem a Ana Benavente, que aceitou as premissas de uma auditoria cidadã. O Renato está em conluio com os camaradas do 31 da Armada que fazem um vídeo contra o “despesismo” de Sócrates e ficam caladinhos quanto a submarinos, BPN e quejandos. Cada um faz a unidade que quer ou que pode.

    • Renato Teixeira diz:

      Eu não me centralizo ao 31. A IAC centraliza-se à Ana Benavente. Tudo dito, portanto.

      • Não, TU centralizas a IAC na Ana Benavente. Na IAC há dezenas de pessoas a trabalhar por igual e não há centralismo nenhum.
        ( e ainda vou percebendo a diferença entre ti e o 31 da Armada 😉 )

  7. LM R diz:

    A “pressão da rua”, se bem me lembro, recebeu o corralito com os cacerolazos. E quando chegou a pesificación, não me parece que a reacção popular tenha sido de apoio à coisa…

  8. Tiago Mota Saraiva diz:

    Renato, como sabes sou dos que me oponho violentamente a considerar o PS um partido de esquerda e/ou em pensar considerar esse partido para uma qualquer simulação de convergência de esquerda.
    Isso é bem diferente de achar que os eleitores e/ou ex-dirigentes do PS podem integrar movimentos unitários de esquerda.
    Há uma diferença substancial.

    • João Valente Aguiar diz:

      Oh Tiago. Concordo contigo em tudo menos na penúltima frase. Então o Guterres é um ex-dirigente do PS, ou o Alegre, ou até o Sampaio… E se calhar o Marocas tb já não é oficialmente dirigente do PS sem D. Não concordo nada com ex-dirigentes nacionais do PS. Esses gajos sabem mto bem o que andam a fazer, não são o Joaquim Manel da secção do PS de Freixo de Espada à Cinta que ainda acha que esse partido é de esquerda.

    • Renato Teixeira diz:

      No PS não há ex-dirigentes Tiago. Enquanto se é, é, e todos esses são.

      • Tiago Mota Saraiva diz:

        Caríssimos, a Ana Benavente e o Cravinho não são bem a mesma coisa que o Soares ou o Pina Moura… Há ex-dirigentes e ex-dirigentes.

        • Renato Teixeira diz:

          Pois há. Veja-se o Alegre. Os ex-dirigentes cumprem um papel histórico no PS. Travar a sangria à esquerda. São duplamente perigosos, portanto.

  9. Felipão diz:

    E o burro sou eu, Renatinho?

  10. Ricardo Serrano diz:

    “Ainda por cima fiz quase toda a escolaridade em escolas públicas. Uma vergonha, bem sei.”

    “E dou graçinhas a Marx pelo Conservatório…”

    Naturalmente.

  11. Diogo diz:

    Então os Indignados estão a ser Infiltrados? Será que não têm dois dedos de testa?

  12. kirk diz:

    Parcialmente de acordo com o Tiago, valha isso o que valer. O PS abandonou, há anos, os principios da solidariedade social que o amarravam ao universo da esquerda. Actualmente nao passa dum partido sem ideologia, um partido de tecnocratas, orbitando as politicas liberais alemã e francesa. Bom, mas isso não quer dizer, como bem diz o Tiago, que no PS não haja quadros, ex-dirigentes, militantes, com os quais nao se deva contar para relançar a esquerda.
    Aqui para nós, meus caros, eu gostava que esse relançamento se fizesse em dias de minha vida. Ora se nos propomos afastar, por puro sectarismo, todos aqueles que não encaixam no nosso guião estamos mal. A Esquerda não é uma área que seja pertença de alguém; é uma área vasta e de limites algo difusos, onde cabem o pc, o bloco, sectores catolicos progressistas, sectores do ps que não se revêem na actual camada dirigente, jovens da geração á rasca, em suma todos os que se opõem as politicas liberais e que nao estão organizados formalmente em qq partido ou organização.
    Agora, só uma pergunta: porque raio é que nao se pode auditar a dívida sem a suspender? Se todos estamos de acordo como penso que estamos, que a dívida só será suspensa se este governo quiser, que não quer, se Cavaco quiser, que não quer, ou se o governo for abaixo e for eleito um governo de esquerda, coisa quenão acontecerá nos proximos tempos, temos então que a dívida nunca será auditada. Em suma, defender a suspensão da divida para que ela possa ser auditada é objectivamente achar que a mesma nunca será auditada.
    E mais, se se conseguir uma auditoria da divida, penso que isso representa um passo tremendo, representa uma vitória para todos os que se opõem ao saque de que estamos a ser vitimas, Um passo de cada vez, Ok?

  13. tantas vezes vai a bilha à fonte... diz:

    Tranquilo.. isto está a caminhar para ninguém pagar. é que andam a apertar o nó a muito país , demasiados.. e quem tudo quer , tudo perde. e já deviam saber que é assim , os agiotas , já levaram na corneta muitas vezes. grande sorte se desta vez só ficarem a arder com os números no pc.

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  15. sopas diz:

    Percebi. Fixe era uma comissão de auditoria composta só e exclusivamente pelo Renato e pela Raquel Varela. Assim, sim. O que se poupava em assinaturas.

  16. closer diz:

    No 18 de Brumário, Marx afirmou que as coisas acontecem sempre duas vezes: a primeira como tragédia, a segunda como farsa. A nossa primeira tragédia aconteceu durante o PREC onde o sectarismo e o vanguardismo iluminado dos defensores da linha justa de todas as forças em presença, ajudou ao desenlace do 25 de Novembro. A farsa são estes vossos posts ( fora com a Benavente, fora com o Louçã, fora com o Jerónimo, fora com todos os imundos traidores que não querem como o guru Toussaint a suspensão imediata da dívida). Pelo menos, fazem-me rir.

    O Renato deve pensar que os outros são parvos, ou uma espécie de carne para canhão da vossa sapiência política. Durante a última campanha eleitoral, defendeu uma aliança entre o PCP, o BE e outras forças de esquerda que deveriam concorrer unidas. Até aí, nada a apontar. Eu também o defendi. Mas, o que há de sumamente original nas vossas ideias, é que na vossa concepção, o PCP, o BE e os outros só davam os braços e as pernas. A cabeça, ou seja, o programa político, vinha directamente dos iluminados da revista Rubra ou da FER. Eles é que são a vanguarda, eles é que sabem tudo.

    Vocês, os verdadeiros revolucionários que não se deixam contaminar pelo vírus reformista dos principais partidos de esquerda, só têm um caminho a seguir: deixarem-se da infame táctica do entrismo como faz a FER com o BE e como fizeram muitos trotsquistas da vossa tendência em muitos partidos social-democratas da Europa e apresentarem uma plataforma própria às próximas eleições como já o fizeram para as eleições do SPGL. Não sei se nessa altura perceberão a pequena diferença que existe entre os nossos desejos e a realidade.

    PS: Em 1991, quando concorreu às eleições legislativas, a FER teve 6661 votos o que corresponde, sem tirar nem pôr, ao número de revolucionários que existiam nessa altura em Portugal. Os outros, ou eram reaccionários, ou eram lacaios da Ana Benavente

    [Closer, as referências à Raquel Varela foram apagadas. O que tiver a dizer, terá que se dirigir à sua caixa de comentários]

    • Renato Teixeira diz:

      Closer, confesse, você adorava ser trotsquista. Isso ou algum lhe roubou a mulher da sua vida ou o deixo à espera no altar. Das luminárias vanguardistas do Largo do Rato continuarei sem esperar nada de novo, mas compreendo que o Closer lhes queira seguir os passos.

  17. closer diz:

    Desesperadamente procuro encontrar em si, Renato Teixeira, que tenha jeito para alguma coisa. Análise política (não posso dizer comentário que ele ofende-se) é o que se vai vendo; futebol, é melhor nem falar; agora dedica-se à psicanálise de mercearia, sobre motivações ocultas da minha parte, sobre uma mulher que me abandonou. É isso mesmo: acertou na mouche.

    Já agora fique também a saber que todas as noites antes de dormir, leio um bocado da Revolução Traída e depois tenho sonhos húmidos com a Ana Benavente. Mas o que ressalta de tudo isto é que o Renato Teixeira não responde a nenhum dos meus argumentos. E não responde porque não pode (e, neste caso, é um inepto político) ou porque não quer ( e então devia desligar a caixa de comentários). Às questões que lhe coloquei nada responde. Ou melhor, desconversa. Onde é que aprendeu essa técnica? Com Sócrates ou com Passos Coelho?

    • Renato Teixeira diz:

      Não se pode contrapor argumentos ao vazio. O Closer é todo ele um caso de abandono amoroso, ao qual lamentavelmente nada posso fazer para ajudar. Bons sonhos e melhores desejos.

  18. José Augusto Faria da Costa diz:

    onde andavam estes pensadores antes da crise?

  19. A fazer o mesmo activismo de sempre. Acontece é que fora do clima de crise ninguém repara, toda a gente acha que são uns extremistas tontinhos, que o mainstream é que é bom e tem razão… até precisarem de nós.
    Antes do activismo, andávamos a aprender a ler e a jogar ao elástico ou à apanhada, como os outros putos todos.

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