O CHILENO AUGUSTO PINOCHET, O AMERICANO MILTON FRIEDMAN E O PORTUGUÊS VITOR GASPAR (Ou: porque é que Otelo Saraiva de Carvalho não pode falar num golpe militar progressista que reponha a democracia em Portugal e o ministro das Finanças pode mostrar-se admirador sem escrúpulos do conselheiro económico de Augusto Pinochet??)

1. AVISO AO LEITOR MAIS SENSÍVEL: Este post é um meio ensaio e meio panfleto que relata factos verídicos, por cá ocorridos (ou em decorrência, até nós o permitirmos!). E, como diria Mehdi Kacem, ao pé disto até o filme “Hannibal” parecerá um simples conto de fadas.

O chileno Augusto Pinochet

Diz o nº 4 do artigo 46º da “Constituição da República Portuguesa”, como sabemos, que “não são consentidas associações armadas nem de tipo militar, militarizadas ou paramilitares, nem organizações racistas ou que perfilhem a ideologia fascista.”. Ora a frase também tem que significar que não são (não devem ser) consentidas simpatias por associações militares ou paramilitares (etc.) que perfilhem a ideologia fascista, nomeadamente através da simpatia pelos seus colaboradores directos, a saber: não deveriam ser consentidas simpatias por generais criminosos que atentam contra a nossa espécie e vida colectiva, através da simpatia específica pelas suas políticas, nomeadamente económicas protagonizadas por “distintos” conselheiros e outros colaboradores. E só assim se pode cumprir este artigo da Constituição.

2. Ora, vem este arrazoado a propósito do facto do ministro Vítor Gaspar exibir a sua grande admiração (é o economista que mais admira) pelo conselheiro de economia de Pinochet, Milton Friedman. E quem é este sujeito, o ídolo do “nosso técnico” das Finanças?

Desaparecido deste mundo apenas em 2006, aos 94 anos de idade, foi o mais fanático e assanhado defensor do laissez faire na economia, um dos infelizmente mais famosos economistas do século XX, sucessivamente o primeiro conselheiro de Augusto Pinochet, inspirador de Nixon e Reagan, com discípulos que, como se vê, chegam aos dias de hoje e à nação mais ocidental da Europa que nos calhou habitar.

Destrutivo e cego protagonista de vários desastres económicos (ao qual agora Portugal se candidata alegremente), há muito que as suas tenebrosas ideias foram erradicadas da América do Sul (onde pontificaram no Chile e Argentina). Como dizia, pela mão do ministro Vítor Gaspar seu “fã”, as suas ideias regressam agora, infelizmente ao Portugal de 2011 (até quando??), tornado laboratório para um novo crime económico anunciado. Portugal (e, de certo modo, a Europa e parte do mundo) sujeitam-se agora ao monstro por Friedman criado, o chamado “monetarismo”:

Preconiza esta doutrina uma redução da massa monetária em circulação (e temos já em Portugal este corte de 2 ou 3 salários, política já iniciada por Teixeira dos Santos, na função pública e reformas), ligada a uma aplicação absurda de impostos (na restauração, por exemplo) para forçar falências sobre falências de modo a gerar “mais competitividade” (uma palavra que, quando a ouço, vontade me dá de sacar logo o meu revolver). Ou seja, consiste isto em institucionalizar uma total lei da selva na sociedade onde apenas sobreviverão os mais fortes e mais corruptos.

3. Por isso há quem diga, e muito acertadamente, que esta estranha personagem (o ministro das Finanças, que há dias no debate parlamentar sobre o – seu – Orçamento eu não vi uma única vez levantar a cabeça e o olhar para o hemiciclo, antes se mantendo permanentemente de cabeça em baixo olhando quiçá para os seus papeis e hieroglífica letra, como sem graça chegou a dizer), há quem diga, sim e com razão, que esta personagem se está nas tintas para o défice, estando antes interessado em ressuscitar o monetarismo de Friedman para um Portugal tornado laboratório, ou campo de batalha experimental de desfecho previsível.

O português Vítor Gaspar

Recuemos no tempo.

4. Em 1973, ex-alunos chilenos de Friedman em Chicago entraram de imediato ao serviço de Pinochet logo logo no dia seguinte à sangrenta tomada do poder pelo general. Depois, em Abril de 1975, já o regime fascista de Pinochet teria averbado uma sinistra conta de mais de 30 000 assassinatos e número idêntico de prisioneiros políticos, escrevia o ídolo de Vítor Gaspar ao protagonista deste mar de sangue, o general Pinochet:

Permita-me antes de mais que lhe diga o quanto, eu e a minha mulher, estamos agradecidos pela calorosa hospitalidade com que nos brindaram tantos chilenos durante a nossa breve visita ao país; sentimo-nos como se realmente estivéssemos na nossa própria casa.

Portanto, sentia-se Friedman, aí, numa casa ensanguentada, como se estivesse no seu próprio lar. É natural que a personagem do governo português não chegue a este ponto, embora sobre isto não se tenha pronunciado quando refere Freidman como o “seu” economista, sendo ainda um tanto ou quanto chocante ouvi-lo acusar (a que ponto chegámos!!) e culpar a oposição política (PCP e BE) portuguesa às suas conhecidas e nada originais políticas, ou seja, CULPAR-NOS de um eventual fracasso económico no cumprimento do pacto com a troika (como se esse cumprimento nos interessasse).

Na citada carta, depois de salamaleques e mais salamaleques, prossegue Milton Friedman com oito conselhos (numerados) económicos para o general tendentes a destruir toda e qualquer réstia de “socialismo” (de que festeja a “morte” em Setembro de 1973), elevando a coisas sagradas a desestatização acelerada, a desregulamentação económica e as privatizações, receita “infalível” contra a inflação com sucesso em poucos meses (fazendo lembrar aqueles charlatães que prometem a um tipo com trombose que jogará futebol na próxima semana).

5. Ora, se substituirmos “inflação” por “défice”, temos nesta carta de Friedman a Pinochet, seguramente, uma importante fonte bibliográfica do ministro Vítor Gaspar. Outra fonte do mesmo género, outra cartilha a seguir por Vítor Gaspar é certamente o documento preparado pelos ex-alunos chilenos de Friedman (que este certamente não desconhecia, nem desconhecia a finalidade nem o início da sua provável aplicação), documento que logo a 12 de Setembro de 1973 (um dia depois do golpe) já estaria em cima da mesa dos generais, documento intitulado “El Ladrillo”.

Tudo isto foi posto em prática, lá como cá (será possível?). Entretanto, até meados de 80, o PIB chileno cai cerca de 30%, sendo sabido que até há bem pouco tempo cerca de 40% de chilenos viviam abaixo do limiar da pobreza (e 1% da população detinha 40% da riqueza nacional chilena), sendo a mesma percentagem, sensivelmente, os que não tinham nenhum tipo de Segurança Social. E em 1982, no Chile, a taxa de desemprego rondava os 20%. E é isto que agora se propõe para Portugal – ou então o ministro que o desminta. (Espero sentado.)

6. Eu não sei se temos de questionar o “técnico” Vítor Gaspar sobre o crescimento negativo de 4% (o mais certo) que Portugal irá para o próximo ano colher, mas temos, sim, de o questionar sobre a receita milagrosa do seu ídolo Milton Friedman no Chile de Pinochet. O que pensa Vítor Gaspar desta receita e o que nos propõe de diferente?

Enfim: sabendo nós que o inspirador económico de Pinochet, por acaso, também é o inspirador de Vítor Gaspar, conhecendo nós o resultado das políticas económicas do americano, consentiremos nós esta realidade em que estamos a ser metidos, sendo que nada disto foi sufragado em eleições nenhumas??

O americano Milton Friedman (junto a um ilustre desconhecido, julgo que também americano)

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