O CHILENO AUGUSTO PINOCHET, O AMERICANO MILTON FRIEDMAN E O PORTUGUÊS VITOR GASPAR (Ou: porque é que Otelo Saraiva de Carvalho não pode falar num golpe militar progressista que reponha a democracia em Portugal e o ministro das Finanças pode mostrar-se admirador sem escrúpulos do conselheiro económico de Augusto Pinochet??)

1. AVISO AO LEITOR MAIS SENSÍVEL: Este post é um meio ensaio e meio panfleto que relata factos verídicos, por cá ocorridos (ou em decorrência, até nós o permitirmos!). E, como diria Mehdi Kacem, ao pé disto até o filme “Hannibal” parecerá um simples conto de fadas.

O chileno Augusto Pinochet

Diz o nº 4 do artigo 46º da “Constituição da República Portuguesa”, como sabemos, que “não são consentidas associações armadas nem de tipo militar, militarizadas ou paramilitares, nem organizações racistas ou que perfilhem a ideologia fascista.”. Ora a frase também tem que significar que não são (não devem ser) consentidas simpatias por associações militares ou paramilitares (etc.) que perfilhem a ideologia fascista, nomeadamente através da simpatia pelos seus colaboradores directos, a saber: não deveriam ser consentidas simpatias por generais criminosos que atentam contra a nossa espécie e vida colectiva, através da simpatia específica pelas suas políticas, nomeadamente económicas protagonizadas por “distintos” conselheiros e outros colaboradores. E só assim se pode cumprir este artigo da Constituição.

2. Ora, vem este arrazoado a propósito do facto do ministro Vítor Gaspar exibir a sua grande admiração (é o economista que mais admira) pelo conselheiro de economia de Pinochet, Milton Friedman. E quem é este sujeito, o ídolo do “nosso técnico” das Finanças?

Desaparecido deste mundo apenas em 2006, aos 94 anos de idade, foi o mais fanático e assanhado defensor do laissez faire na economia, um dos infelizmente mais famosos economistas do século XX, sucessivamente o primeiro conselheiro de Augusto Pinochet, inspirador de Nixon e Reagan, com discípulos que, como se vê, chegam aos dias de hoje e à nação mais ocidental da Europa que nos calhou habitar.

Destrutivo e cego protagonista de vários desastres económicos (ao qual agora Portugal se candidata alegremente), há muito que as suas tenebrosas ideias foram erradicadas da América do Sul (onde pontificaram no Chile e Argentina). Como dizia, pela mão do ministro Vítor Gaspar seu “fã”, as suas ideias regressam agora, infelizmente ao Portugal de 2011 (até quando??), tornado laboratório para um novo crime económico anunciado. Portugal (e, de certo modo, a Europa e parte do mundo) sujeitam-se agora ao monstro por Friedman criado, o chamado “monetarismo”:

Preconiza esta doutrina uma redução da massa monetária em circulação (e temos já em Portugal este corte de 2 ou 3 salários, política já iniciada por Teixeira dos Santos, na função pública e reformas), ligada a uma aplicação absurda de impostos (na restauração, por exemplo) para forçar falências sobre falências de modo a gerar “mais competitividade” (uma palavra que, quando a ouço, vontade me dá de sacar logo o meu revolver). Ou seja, consiste isto em institucionalizar uma total lei da selva na sociedade onde apenas sobreviverão os mais fortes e mais corruptos.

3. Por isso há quem diga, e muito acertadamente, que esta estranha personagem (o ministro das Finanças, que há dias no debate parlamentar sobre o – seu – Orçamento eu não vi uma única vez levantar a cabeça e o olhar para o hemiciclo, antes se mantendo permanentemente de cabeça em baixo olhando quiçá para os seus papeis e hieroglífica letra, como sem graça chegou a dizer), há quem diga, sim e com razão, que esta personagem se está nas tintas para o défice, estando antes interessado em ressuscitar o monetarismo de Friedman para um Portugal tornado laboratório, ou campo de batalha experimental de desfecho previsível.

O português Vítor Gaspar

Recuemos no tempo.

4. Em 1973, ex-alunos chilenos de Friedman em Chicago entraram de imediato ao serviço de Pinochet logo logo no dia seguinte à sangrenta tomada do poder pelo general. Depois, em Abril de 1975, já o regime fascista de Pinochet teria averbado uma sinistra conta de mais de 30 000 assassinatos e número idêntico de prisioneiros políticos, escrevia o ídolo de Vítor Gaspar ao protagonista deste mar de sangue, o general Pinochet:

Permita-me antes de mais que lhe diga o quanto, eu e a minha mulher, estamos agradecidos pela calorosa hospitalidade com que nos brindaram tantos chilenos durante a nossa breve visita ao país; sentimo-nos como se realmente estivéssemos na nossa própria casa.

Portanto, sentia-se Friedman, aí, numa casa ensanguentada, como se estivesse no seu próprio lar. É natural que a personagem do governo português não chegue a este ponto, embora sobre isto não se tenha pronunciado quando refere Freidman como o “seu” economista, sendo ainda um tanto ou quanto chocante ouvi-lo acusar (a que ponto chegámos!!) e culpar a oposição política (PCP e BE) portuguesa às suas conhecidas e nada originais políticas, ou seja, CULPAR-NOS de um eventual fracasso económico no cumprimento do pacto com a troika (como se esse cumprimento nos interessasse).

Na citada carta, depois de salamaleques e mais salamaleques, prossegue Milton Friedman com oito conselhos (numerados) económicos para o general tendentes a destruir toda e qualquer réstia de “socialismo” (de que festeja a “morte” em Setembro de 1973), elevando a coisas sagradas a desestatização acelerada, a desregulamentação económica e as privatizações, receita “infalível” contra a inflação com sucesso em poucos meses (fazendo lembrar aqueles charlatães que prometem a um tipo com trombose que jogará futebol na próxima semana).

5. Ora, se substituirmos “inflação” por “défice”, temos nesta carta de Friedman a Pinochet, seguramente, uma importante fonte bibliográfica do ministro Vítor Gaspar. Outra fonte do mesmo género, outra cartilha a seguir por Vítor Gaspar é certamente o documento preparado pelos ex-alunos chilenos de Friedman (que este certamente não desconhecia, nem desconhecia a finalidade nem o início da sua provável aplicação), documento que logo a 12 de Setembro de 1973 (um dia depois do golpe) já estaria em cima da mesa dos generais, documento intitulado “El Ladrillo”.

Tudo isto foi posto em prática, lá como cá (será possível?). Entretanto, até meados de 80, o PIB chileno cai cerca de 30%, sendo sabido que até há bem pouco tempo cerca de 40% de chilenos viviam abaixo do limiar da pobreza (e 1% da população detinha 40% da riqueza nacional chilena), sendo a mesma percentagem, sensivelmente, os que não tinham nenhum tipo de Segurança Social. E em 1982, no Chile, a taxa de desemprego rondava os 20%. E é isto que agora se propõe para Portugal – ou então o ministro que o desminta. (Espero sentado.)

6. Eu não sei se temos de questionar o “técnico” Vítor Gaspar sobre o crescimento negativo de 4% (o mais certo) que Portugal irá para o próximo ano colher, mas temos, sim, de o questionar sobre a receita milagrosa do seu ídolo Milton Friedman no Chile de Pinochet. O que pensa Vítor Gaspar desta receita e o que nos propõe de diferente?

Enfim: sabendo nós que o inspirador económico de Pinochet, por acaso, também é o inspirador de Vítor Gaspar, conhecendo nós o resultado das políticas económicas do americano, consentiremos nós esta realidade em que estamos a ser metidos, sendo que nada disto foi sufragado em eleições nenhumas??

O americano Milton Friedman (junto a um ilustre desconhecido, julgo que também americano)

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57 Responses to O CHILENO AUGUSTO PINOCHET, O AMERICANO MILTON FRIEDMAN E O PORTUGUÊS VITOR GASPAR (Ou: porque é que Otelo Saraiva de Carvalho não pode falar num golpe militar progressista que reponha a democracia em Portugal e o ministro das Finanças pode mostrar-se admirador sem escrúpulos do conselheiro económico de Augusto Pinochet??)

  1. Diogo says:

    O Vítor Gaspar ainda vai acabar mal. Ouçam o que vos digo. Nem que tenha de ser eu a fazê-lo.

  2. Carlos Vidal says:

    Julgo que, politicamente, vai acabar muito mais do que mal.

  3. Diogo says:

    O Vítor Gaspar não é um discípulo fanático de um lunático (Milton Friedman). Ambos são, muito simplesmente, funcionários bancários.

    O seu papel é transferir a riqueza das famílias, das empresas e do Estado para as mãos do Monopólio Bancário Internacional. E digo monopólio porque só um monopólio teria poderes para impor o impedimento a um Banco Central Europeu de emprestar directamente aos Estados Nacionais e forçá-los a pedir emprestado aos bancos comerciais a um juro muito superior.

    É este Monopólio Bancário que tem de ser destruído, destruindo os seus esbirros – na Política, nos Media, nos Tribunais.

  4. Carlos Fernandes says:

    Pois, concordo aqui com os comentários anteriores, é pena é a cegueira e o fanatismo ideológico de muita gente, que os impede de pensar com objectividade e com a cabeça fria e sem paixões, ora aqui o problema é que a tal malta banqueira do capitalismo – e americano, ainda por cima – é que financiou a Revolução Russa em 1917. Nem capitalismo, nem comunismo, a outra face da mesma moeda!

  5. Caro Carlos Vidal,

    Parabéns pela sua lucidez. É mesmo isso. O que impressiona é que depois de tanta gente na academia ter documentado isso Portugal possa ser desventrado dessa mesma maneira! Em Itália já não há democracia. Na Grécia já não há democracia. E em Portugal o que é que há?

    Abraços
    João Martins

    • Carlos Vidal says:

      Há uma democracia de plástico, como sempre.
      Onde um partido se apresentou com um programa, ganhou a coisa, e depois aplica outra coisa sem nenhuma relação com aquela que se apresentou ou se candidatou ao contrato.

      • Luis Moreira says:

        Um golpe de estado contra um governo eleito? Isto, por enquanto é uma democracia! Lá na Rússia é que o Putin arranjou um palhaço pobre para fazer duo. E em Cuba o Raul faz o mesmo papel. Você é rídiculo!

        • Carlos Vidal says:

          Ridículo é o meu caro L. Moreira mais quem o ensina a pensar (pensar?).
          O que V. diz da Rússia e de Cuba aconteceu esta semana na Europa “democrática”.
          Aqui, muito pior – pois 2 líderes (e não interessa a sua “qualidade”) eleitos pela “democracia” acabaram de ser apeados sem qualquer interferência da dita “democracia”.

          V. vota?
          Então, o que aconteceu é que, aqui, na Europa, acabaram de meter o seu voto num sítio que eu cá sei.

          • vcx says:

            Ainda não percebeste que votas num parlamento e não directamente num governo? Que os governos não cumpram o que prometem, é condenável. Agora acusar de falta de democracia quando não se percebe naquilo que se vota, é ignorância voluntária.

  6. Cá vai mais uma achega;

    Dezenas de milhares de pessoas manifestaram-se hoje em Lisboa contra o governo fascista que nos governa. Funcionários públicos, militares e polícias desceram à rua para protestar contra o austeritarismo recessivo destruidor de milhões de vidas humanas. Ontem foi aprovado o orçamento que arruina a economia do país e que provoca uma derrocada no Estado Social. No mesmo dia Vitor Gaspar começou a preparar a nação para a derrocada económica que o mesmo provocou. A “culpa” não é das desastrosas políticas impostas pela Troika e pelos bons alunos que as põem em prática. A “culpa” é da esquerda que protesta e mobiliza as populações no sentido de não permitirem que se institucionalize o novo fascismo. Já aqui tinha referido isso. No final do desastre, não são as políticas que são desastrosas que destruiram a vida das pessoas e as estruturas institucionais do país, os fascistas vão dizer que são as pessoas a quem elas se destinavam que não servem essas boas políticas. Um desastre.

    PS: Acabei de ouvir D. José Policarpo a dizer que esta crise não é destrutiva e que acredita (uma questão de fé) que a crise vai ser “purificadora” (o termo usado foi este, sem aspas). A alta hierarquia da igreja quer mesmo dar razão a Marx quando este dizia ser a religião o ópio do povo. Hoje ainda, Silvio Berlusconi apresentou a sua demissão em Itália, ironias da história, os “mercados” fizeram aquilo que a democracia nunca conseguiu fazer.
    Aqui: http://macloule.blogspot.com/

    • Carlos Vidal says:

      As manifestações de hoje revelaram um dado fundamental:
      quer as forças de segurança (Polícia e GNR), quer as forças militares posicionam-se contra o governo. Ora, deste modo, não tem o governo onde se apoiar em caso de justificada e legítima insubordinação civil. Uma vez que também as forças armadas (sargentos, creio) já disseram que a missão do exército é a defesa das populações………. precisamente, perante uma ofensiva do governo (que, a esta hora, deve andar de cabeça à banda).

    • a puta da Igreja está feita com este governo e serve-o para herdar (do que ficar) da segurança social. Depois deste post ainda consigo sentir mais ódio ao PPD/PSD – obrigado Carlos Vidal.
      E quanto ao CDS… nem se fala: o CDS dá-me asco!

      • Carlos Vidal says:

        Considerando o já dito, e aqui mesmo neste blogue sublinhado, pelo bispo Januário Torgal Ferreira (e também, creio, pelo antigo bispo de Setúbal), considerando o peso de certas vozes contestatárias e/ou críticas vindas da Igreja, até acho mais: acho que este governo vai acabar completamente isolado – nem Igreja, nem forças de segurança, nem exército, nem população, nada vai ficar do lado dessa gente. Absolutamente nada nem ninguém. Ou talvez eu me engane, e lá apareça um tal António José Seguro a dar uma última mão a esse pessoal, à espera de uma folga mítica, 5 ou 6 anos depois, que permita ainda dar aos portugueses 1/5 de um já extinto subsídio de férias. Enfim, só pode salvar este bando de neoliberais radicais um “socialista” meio atarantado que não sabe o que faz nem como se chama.

        • Carlos Vidal says:

          Ou melhor, a Igreja é astuta. Saberá saltar do barco deste “governo” (se nele embarcar) quando for altura. Isto vai ser pior que o “Naufrágio do Medusa” (do Géricault).

    • Já o Hitler perante a derrota do nazismo acabou acusando “o povo alemão ” de o ter traído ou abandonado; que retirar daqui: fanatismo absoluto e ordem divina para matar? dada afinal por quem?
      Num excerto de entrevista dada pelo D. José Policarpo há tempos dizia já o meritíssimo “que a assistência hospitalar devia regressar toda novamente ás misericórdias” (cito de memória), claro que este programa serve às mil maravilhas a tal pretensão porque não há-de ter o homem “fé na purificação” em curso!

      • irmãluciadecalcuta says:

        MAS,FODE-SE,pq os mellos e outros querem os hospitais !
        Não há duvida q os povos se teem que levantar e ir para rua e julgar estes PSICOPATAS E TERRORISTAS SOCIAIS E para eles a pena capital.Não foi assim com o Gadaffi?Portanto,não teem moralidade.Julgamento popular com PENA DE MORTE para os vampiros e seus lacaios-e, eu conheço alguns.

    • E o 1º, não fez ele ontem um rasgado elogio ao castigo dos incumpridores, ” porque havia o BCE de ter que comprar divida de caloteiros e povos malandros” (cito de memória); há que fazer a tal “purificação” de que fala o D. José…

  7. xatoo says:

    hão-de passar alguns bons anos até se descobrir os crimes que estes gasparzinhos andam a cometer
    Provas fortalecem hipótese de que Pablo Neruda foi assassinado

  8. faff says:

    Pois, como diria Michel Chossudovsky, este Gasparinho mais não é do que um dos Boys de Chicago, versão cópia ou actualização daqueles que, no Chile de Pinochet, deram início à Globalização Neoliberal, um produto velho reciclado ao serviço do deus mercado, um homúnculo desprezivel ao serviço do capital.

  9. xatoo says:

    bom, adiantando mais qualquer coisinha…
    esta história gira sempre em redor da mesma História: a PROPRIEDADE DOS MEIOS DE PRODUÇÃO através dos quais a classe dominante oprime a classe que nada mais tem para vender senão a força do seu trabalho.
    - no Friedman da nossa versão do Gasparzinho neoliberal temos uma manipulação grosseira dos mercados (a partir do exterior com a colaboração doa lacaios internos) por forma a colocar as acções das empresas a nacionalizar a preços irrisórios para que as grandes multinacionais as possam comprar ao preço da uva mijona. É um crime económico contra a sociedade cometido por traidores.
    - no Friedman versão Pinochet tratou-se de garantir aos interesses estrangeiros a propriedade da fonte de 90% do PIB chileno: a indústria do cobre cujo principal explorador era a multinacional norte americana Anaconda Company. Como era vital para a gestão social do país, e vinha já do anterior governo, Allende nacionalizou-a a preços de mercado, numa medida que foi votada no parlamento por TODOS os partidos, incluindo os da direita. Mas a ordem de intervenção no Chile dada por Kissinger/Admin Nixon tem uma data ANTERIOR à aprovação do decreto de nacionalização do governo de Allende.
    a Anaconda fundada no século XIX era uma pequena empresa mineira do Montana, até ser comprada em 1889 pelos banqueiros judeus Rothschilds pela módica quantia para a época de 7,5 milhões de dólares. Com a manipulação de mercados através do “copper collar” a partir de 1920 a empresa dominava já a colocação de politicos, a informação através da compra de jornais, tendo-se convertido no maior monopólio mundial do cobre do século XX.
    Com a nacionalização das minas do Chile em 1971 a Anaconda perdeu 2/3 da produção de cobre, deixando de ter força para manipular o mercado. Depois do golpe militar de Pinochet em 1973 a Anaconda recebeu 250 milhões de dólares de indemnizações. Que mais dizer? que Kissinger também é judeu? não se pode, senão aí vêm os cães de fila ladrar as alucinadas bojardas anti-semitas

  10. Dédé says:

    Se Otelo tivesse ficado lá por onde se escafedeu no dia 25 de Novembro, teria sido melhor para ele , e para quem defende Abril.

  11. am says:

    recordando José Afonso:

    Se o Pinochet concordasse
    Já em Fátima haveria
    Mais de trinta mil vermelhos
    A arder de noite e de dia

  12. De says:

    Embora concorde com algumas das coisas escritas pelo Diogo,não é o caso quando este apelida de “lunático” uma coisa como Friedman.
    Friedman é muito mais do que isso.Mesmo muito mais do que um funcionário bancário.
    Carlos Vidal trouxe aqui este personagem sombrio,esta sinistra figura, que se pautou pela defesa de um modelo económico catastrófico para a humanidade (que não para os que se Friedman servia).
    Ele marcou a agenda do movimento neo-conservador:
    “Em primeiro lugar, os governos deveriam abolir todas as regras e regulamentações que se
    interpunham no caminho da acumulação de lucros. Em segundo, deveriam vender todos os
    activos que possuíam e que podiam ser administrados pelas corporações, com fins lucrativos.E em terceiro, precisavam cortar dramaticamente os fundos destinados aos programas sociais.Dentro dessa fórmula tripartida de desregulamentação, privatização e cortes, Friedman ainda oferecia especificações.Os impostos, no caso de precisarem existir, deveriam ser baixos,taxando ricos e pobres na mesma importância fixa. As corporações deveriam ser livres para vender seus produtos em qualquer lugar do mundo, e os governos deveriam ser impedidos de proteger as propriedades e as indústrias locais.Todos os preços, inclusive o preço do trabalho,seriam definidos pelo mercado. O salário mínimo deveria ser abolido. Para as privatizações,Friedman oferecia actividades como os cuidados com a saúde, o serviço de correios, a educação, as aposentadorias e até mesmo os parques nacionais .
    A contra-revolução da Escola de Chicago pretendia eliminar todas as formas de proteção que os trabalhadores haviam conquistado e todos os serviços públicos que o Estado oferecia com o objetivo de aparar as arestas do mercado.”
    “A visão de Friedman coincidia exatamente com os interesses das grandes multinacionais,
    cujo apetite natural ansiava por novos mercados desregulados. No primeiro estágio da
    expansão capitalista, esse tipo de crescimento voraz era propiciado pelo colonialismo
    - por meio da “descoberta” de novos territórios e da apropriação da terra sem precisar
    pagar por ela, e depois pela extracção de suas riquezas sem oferecer recompensas às populações nativas. A guerra que Friedman travou contra o “Estado de bem-estar” e o “grande governo” acenava com a promessa de nova fonte de riquezas – só que desta vez não era pela conquista de novos territórios, mas pela transformação do próprio Estado numa
    nova fronteira, leiloando seus serviços públicos e activos por um preço muito abaixo de seu real valor.”
    Friedman apostou na formação de”economistas” chilenos na sua escola.Tal projecto começou em ..1956!Em 1965 o projecto foi ampliado para incluir estudantes de toda a América Latina,em especial provenientes do Brasil,México e Argentina.
    “Os alunos que se submeteram ao programa, em Chicago ou na franquia que funcionava em Santiago, ficaram conhecidos em toda a região como os “rapazes de Chicago”.
    Com mais financiamentos da USAID, os rapazes de Chicago do Chile viraram embaixadores do “neoliberalismo”…”A educação desses chilenos decorreu de um projeto específico arquitetado nos anos 1950 para influenciar o desenvolvimento do pensamento econômico no Chile.”
    Mas “o projecto” não estava funcionando.”Foi no Chile – o epicentro do experimento de Chicago – que a derrota na batalha das idéias se tornou mais evidente. Na histórica eleição de 1970, o país tinha avançado para a esquerda de tal forma que os três maiores partidos políticos eram a favor da nacionalização da principal fonte de renda do país: as minas de cobre então controladas pelas grandes mineradoras dos Estados Unidos . ” Em outras palavras, o Projeto Chile,da escola de Chicago era um fiasco muito caro. Como guerreiros ideológicos que travavam uma batalha de ideias contra os adversários de esquerda, os Rapazes de Chicago falharam na sua missão.Não só o debate econômico continuava a tender para a esquerda, como os rapazes de Chicago tinham-se tornado tão marginalizados que não conseguiam sequer um registro no espectro eleitoral chileno.
    Isso poderia ter terminado assim, com o Projeto Chile sendo apenas uma pequena
    nota de rodapé na história, mas algo aconteceu para tirar os rapazes de Chicago da obscuridade: Richard Nixon foi eleito presidente dos Estados Unidos. Friedman logo se entusiasmou: Nixon ” tem uma política externa imaginativa e efetiva no conjunto”.

    Em nenhum outro lugar ela foi mais imaginativa do que no Chile.

    A democracia tinha se tornado inóspita para os rapazes de Chicago, no Chile; a ditadura seria mais conveniente.”
    (excertos de THE SHOCK DOCTRINE: THE RISE OF DISASTER CAFITALISM
    2007 by Naomi Klein)

    O resto sabe-se como se processou e como tudo estava pronto quando Pinochet esmagou o governo de Allende.A experiência das ideias neo-liberais de Friedman iria começar num palco especificamente montado para o efeito e à altura dos planos da extrema-direita.As multinacionais arreganharam ainda mais os dentes.O sangue foi o adubo com que os chilenos regaram o “triunfo” da experiência de Friedman.Os resultados de tal experiência real são História e já foram descritos por Carlos Vidal.

    Friedman viajará ao lado de nomes como Nixon,Reagan e Thatcher.Também aí a História registará os efeitos de tal pandilha.A crise do sistema económico-financeiro de 2008 é filha directa da sua actividade em prol dos seus interesses e da sua classe

    São os projectos desta “besta” que Gaspar quer transplantar para Portugal.São reconhecíveis
    algumas das ideias fortes do “mestre”.
    Um nojo tudo isto

    Bravo Carlos Vidal pelo post e pelo exposto.
    Que nunca lhe doa a voz!
    Abraço

  13. Caro Vidal,
    a história chilena de Friedman e sus muchachos da escola de Chicago é apenas o primeiro de uma longa série de episódios que passaram por outros países da latino-américa, antes de se transferirem para a velha albion governada pela sra. Tatcher, para a Rússia de Ieltsin, para as repúblicas de leste – checa, polaca, e caminhando ainda mais para oriente chegaram aos famosos “tigres asiáticos”, acabando por se fixar na China, onde depois de Tienamen assistimos à emergência das formas mais brutais de exploração capitalista da força de trabalho.
    Ao ponto de ainda esta semana os europeus terem que ouvir críticas à sua falta de “produtividade” da boca de um alto responsável chinês.
    Face a isto, para extirpar o mal só lá vamos banindo todos os discípulos friedmanitas, nem que para isso tenha que ser o povo a “suspender a democracia burguesa”.

    • Carlos Vidal says:

      Concordo claramente com o banimento de todos os discípulos friedmanianos, e podemos começar pela nossa casa.
      O sentido deste post era/é este: eu quero (e comigo muitos mais) saber se o actual ministro das Finanças, Vítor Gaspar, assume e rejubila com os números e resultados económicos das ditaduras onde Friedman esteve envolvido. Quero saber isto, primeiro porque Friedman é o ídolo assumido de V. Gaspar, segundo porque os resultados são catastróficos: Chile, Argentina, Grã- Bretanha, EUA, etc.
      Sobre a China, gostaria de falar depois: os números disponíveis (ainda há dias usei de uma fonte chinesa – noutro post – não desmentida, onde se mencionavam os gastos daquele país para a manutenção e reforço de um serviço nacional de saúdo gratuito, entre outros elementos. A China, todos concordarão, merece uma análise à parte), e a realidade daquele país é complexo. Mas, certo, eu sei, ou julgo saber, Friedman também visitou a China. Mas o seu modelo não é absolutamente nada friedmaniano. Mas os outros exemplos citados, são!

  14. xatoo says:

    Friedman foi o guru e porta-voz do monetarismo. Analisou as causas da inflação em cerca de 12 países de economias – onde demonstrou de modo persuasivo que a quantidade de dinheiro a trabalhar numa economia explica o fenómeno da inflação como resultante de, nas suas próprias palavras: “too much money chasing too few goods”, so
    se calhar o PCC aprendeu algo:
    a China exporta as mercadorias enfiando-as nos wal-marts e outros depósitos de tralha e fica com o dinheiro, o qual investe na compra de titulos nos paises de economia capitalista. Parece-me uma boa politica na defesa da independência e soberania do povo. O consumo no Ocidente sustenta ganhos para o banco central da China, o qual não se integra na rede neoliberal global.
    Quanto às “formas mais brutais de exploração capitalista da força de trabalho” quem explora de facto os trabalhores chineses com custos irrisórios são os imperialistas, com a nova divisão social do trabalho (com inicio em Kissinger/Nixon). O Nixon é esteve na China e abriu portas para esse modelo, que um dia será suplantado, atingindo o trabalho de um chinês o equivalente ao salário de um ocidental. Pelo menos a rápida decadênccia do Ocidente assim o indica…

  15. A says:

    Pinochet criou um país com a melhor economia da América do Sul depois do fantoche da URSS Allende trazer a fome e a repressão. Já a ditadura castrista mantém a população no limiar da fome e rouba a Venezuela para viver. Pinochet criou um Fundo de pensões que não perdeu um tostão. E não fuzilou ninguém … o regime caiu na Rua!

    • Carlos Vidal says:

      Eis um comentário de uma ignorância indignante.
      É preciso não saber nada de essencial para dizer uma coisa destas: é o contrário, claro, que está em jogo – Pinochet destruiu, fabricando uma das sociedades latinas mais desiguais, uma das melhores economias do continente.
      E basta ler – atenção – o Preâmbulo de “El Ladrillo” (!!), pois aí vem dito com todas as palavras que o Chile é das sociedades mais desenvolvidas da América do Sul: só que estes chilenos formados em Chicago por Friedman achavam que era preciso des-socializar a economia, desestatizá-la, porque (vá lá saber-se porquê) se consideravam “não-marxistas”. Desestatizando faziam-na (à economia) “correr” mais depressa. O que aconteceu foi o aparecimento de uma pobreza “competitiva”, e nada mais. É ler, e por aqui me fico, pois um admirador de certa criatura não merece comentário mais alongado.

    • De says:

      “E não fuzilou ninguém” diz este fdp:
      “Victor Jara tentou se livrar do documento de identidade para não ser identificado, mas acabou sendo reconhecido por um oficial. No Estádio, o cantor foi torturado por quatro dias. Há controvérsias sobre sua morte. Alguns afirmam que suas mãos foram cortadas antes da execução. Tal versão talvez tenha surgido com a similaridade das figuras de Jara e Che Guevara.
      No entanto, relatos de presos presentes no estádio reunidos pela viúva de Victor, Joan Jara, dão conta que o cantor teve as mãos quebradas durante as sessões de tortura. “Canta agora, filho da puta”, foi provocado por um oficial, que havia pedido exclusividade no comando das agressões ao preso. Jara então, no limite de suas forças, pôs-se de pé e cantou a canção “Venceremos”, hino da Unidade Popular
      Seu corpo só foi encontrado por sua mulher dias depois, com a ajuda de um jovem comunista que trabalhava no necrotério.

      O fdp do filho de Pinochet,Augusto Pinochet Hiriart, diria em 1998 à revista Veja:”Os fuzilamentos ordenados por meu pai foram justos porque não executaram pessoas, e sim animais”.

      Nem vale a pena dizer mais …

      • Carlos Vidal says:

        Meu caro De,
        A coisa lida acima é o mesmo que dizer que um serial killer apenas cometeu um crime e fê-lo em legítima defesa.
        Não liguemos a bárbaros.
        Amanhã é um novo dia, e terá de ser de luta, como todos, até expulsarmos de todos os lados estes discípulos e “fãs” de Pinochet de todos os lugares que ocupam. Discípulos e “fãs” e discípulos de “fãs”, como urge ver bem.

        • De says:

          “discípulos de “fãs…
          é isso mesmo!

        • Antónimo says:

          Outro filho da puta, Alberto Gonçalves de seu nome, um nazi que bolsa fel e ódio nas páginas do DN e da Sábado, escreveu que terem esmagado a mão com que Jara tocava guitarra foi a melhor dádiva à música desde as inovações de Bach no contraponto.

          • Carlos Vidal says:

            Meu caro,
            Alberto Gonçalves não é bem aquilo a que chamamos uma pessoa.
            E, por isso, sabe tanto ouvir Bach quanto eu domino a língua cazaque.
            Paz à alma de Bach e de Jara.

  16. Justiniano says:

    Caro Vidal, concordo plenamente que sobre a China é melhor falar depois, a coisa é muito complexa, haveriamos de falar no neomercantilismo alemão, na restauração meiji, no tecnonacionalismo de inspiração gaulista e de muito mais elementos precedentes que parecem hoje profundamente esquecidos. Como se houvessem esquecido o caminho (o bom e o mau) que aqui nos trouxe (refiro-me às mais prósperas comunidades da história da humanidade)!!
    Não querendo repetir o que já noutras ocasiões tive oportunidade de comentar ao meu caro Vidal, referiria apenas dois pontos que, decorrendo dos mais recentes episódios europeus, me deixaram um tanto pasmado.
    - Compreende-se perfeitamente a ideia básica da ortodoxia monetária (que o dinheiro, verdadeiramente, nasce nas árvores) e a fidúcia monetária, percebendo-se a pretensão subjacente e a sua pertinencia com uma ideia de justiça (aquele que com zelo se entrega à produção, faz-se produtivo, cultua as virtudes enunciadas pelas leis e pelos costumes acumulando alguma riqueza não pode ser convertido num juguete, instrumentalizado, e expropriado do valor que acumulou pela aguda erosão da moeda a que se fidelizou, pois a ela não mais se fidelizará). Contudo, com alguma erosão sempre se conseguiu o equilíbrio entre o apelo ao investimento e a manutenção fiduciária da moeda. Um destes grandes exemplos acabou, por estes dias, de sucumbir àquela ortodoxia à qual sempre foi estranha e por onde nunca andou!! A Itália construiu-se como uma das mais industrializadas nações do mundo, prosperando, e fe-lo com o engenhoso equilíbrio entre a fidúcia e a erosão, conseguindo, sempre, suplantar, dentro de si, pela poupança, as necessidades de crédito!! Pasmo-me, então, por assim ver a Itália!!
    - Outros também assim o fizeram, quase sempre! Questiono-me se esses outros, hoje, assim se vissem meio derrotados não cuidariam, logo, de alterar as regras desse jogo!!
    Por fim, questiono-me se o Ministro Gaspar pensa, verdadeiramente, que pode vencer nesse jogo ou se saberá jogar outro, caso seja necessário!

    • Carlos Vidal says:

      Começando pela China, parece-me que estamos de acordo: é um caso sui generis e pouco ou nada linear: nos seus “dois sistemas” coexiste um capitalismo avançado e uma sociedade também avançada em serviços públicos, nomeadamente um serviço de saúde gratuito e uma notável política educacional pública. É um caso a tratar com a devida bibliografia, ou seja, um outro estudo agora não encetado.

      Corrigir-me-á naturalmante se o tresli ou estou a tresler.
      O monetarismo, puro e duro (e isto é uma especie de redundância, pois esta doutrina é naturalmente “pura e dura”), merece-lhe alguma justificação (“Compreende-se perfeitamente a ideia básica da ortodoxia monetária [...] e a fidúcia monetária, percebendo-se a pretensão subjacente e a sua pertinencia com uma ideia de justiça”), mas o meu caro não abdica do investimento (público mesmo, que o monetarismo faz por cancelar, desestatizando quase tudo, inclusive a Segurança Social, entre outros espaços do colectivo). Virá daqui a prosperidade da Itália, agora a braços com os mesmos problemas dos outros estados do sul, ao ponto de espalhar o terror inevitável, pois uma parte do PIB francês está investido na dívida italiana.
      Voltando ao caso do Chile, parece-me que aquilo sempre funcionou como “laboratório” apoiado numa severa repressão militar (sustentáculo desse mesmo “laboratório”). Como tal, até teve experiências mais ou menos keynesianas.
      O ministro nas Finanças mais conhecido dessa era (Hernan Buchi), encetou, depois de grave momento de crise, uma abrangente política de privatizações, mas não se pautava pela loucura dos Chicago Boys.
      Teria de estudar mais a situação para a desenvolver, mas, pelo que sei, vejo em Vitor Gaspar algo de mais rígido do que vi no pinochetismo.
      Não está preparado para combater a futura e grave recessão, ou porque não está interessado nisso ou porque não sabe fazê-lo – e eu inclino-me mais para esta última hipótese.
      Por isso V. Gaspar, deixado livre, com tendências autistas-autoritárias (já mandou calar o ministro da Economia num Conselho), será para Portugal uma catástrofe.
      Mas eu não passo de um prof de Belas-Artes e crítico de arte, e pude até ter feito raciocínios errados atrás, nos parágrafos anteriores.
      Mas quanto a V. Gaspar, estou certo da sua presente e futura acção negativa.

      • Justiniano says:

        Caro Vidal, há realmente uma correcção a fazer, pois que, certamente, não soube esclarecer convenientemente a minha ideia!! A ortodoxia monetária, dizia a propósito da Itália, como uma das mais estranhas coisas que se passam, nunca foi livro lido pelos lados da peninsula itálica. Aqueles sempre souberam equilibrar o carácter fiduciário da moeda com a (necessária) erosão inflácionária que sempre os ajudou a decidir pelo investimento! Dizia que sempre assim prosperaram!! Porque sucumbem, então, assim tão facil e abruptamente à pressão monetarista mais ortodoxa!!?? É isto que me surpreende e muito me pasma!! A Itália não carece da poupança de terceiros!! Nunca aqueles entoaram tais canticos!! Porquê, então!!??
        Disse, também, como sempre direi, e como o meu caro Vidal bem aponta eu ter dito, que há subjacente ao monetarismo uma ideia de justiça, elementar, especialmente para “aquele que com zelo se entrega à produção, faz-se produtivo, cultua as virtudes enunciadas pelas leis e pelos costumes acumulando alguma riqueza…”
        Quanto à China é, sem dúvida, complexo!!
        Quanto ao Chile, sim, eram mais avisados que os ditos Chicago Boys, não privatizaram a companhia nacional de cobre, por exemplo!!
        E sim caro Vidal é mesmo isso “vejo em Vitor Gaspar algo de mais rígido do que vi no pinochetismo.” (uma espécie de brilhante aluno, o melhor aluno da escola, não!?) por isso me questiono se o Ministro saberá jogar outro jogo, caso seja necessário (e já sabemos que é sempre, sempre necessário)!!

        • Carlos Vidal says:

          Eu próprio também não me expressei bem (pois eu deveria ter sublinhado a questão da erosão inflacionária de Itália), mas agora entendo-o e sintetizaria a sua argumentação em dois (ou três) pontos: vê subjacente ao monetarismo uma certa ideia de justiça (ou mesmo uma ideia de justiça); tem, sobre Itália, a reacção que se costuma ter perante um enigma bizarro – é verdade, e também quando pediram a fiscalização das suas contas ao FMI ninguém percebeu o que isso queria dizer (um economista do PSD, Miguel Beleza, dizia isso mesmo numa TV perto de nós, não entender nada do que isso queria dizer e como iria funcionar, e por que é que os italianos não sabiam fazer eles as suas contas e pedem a um terceiro que as vá verificar); por último, coincidimos em relação a Vitor Gaspar, que nos deixará em recessão muito para lá de 2013 (muito, mas mesmo muito), que seria o ano da “retoma” para o ridículo ministro da Economia!

  17. ani says:

    Um texto interessante. Mas permita me uma questão, Não são aplicáveis esses fundamentos para amigos/simpatizantes/fãs de outros regimes económicos?
    A minha pergunta é no sentido de tentar perceber que tipo de modelo económico e governativo sem macula histórica pode/deve ser patrocinado pelo povo português na sua opinião?

    • Carlos Vidal says:

      Um exemplo: no caso do BPN, quando foi nacionalizado, cometeu-se um erro. Pois se devia ter nacionalizado toda a Sociedade Lusa de Negócios (o que já foi dito e provado).

      Como sou comunista, defendo a nacionalização da banca (o que agora me parece lógico), e não sei que sectores produtivos ainda podem ser reabilitados, daqueles que foram destruídos pelo cavaquismo (o responsável maior pelo estado a que chegámos e que agora parece tentar caminhar por entre os pingos da chuva!). Alguns terão de ser forçosamente: agricultura e pescas.
      Mas a sua questão é de impossível resposta. Lembro-me sempre de Gramsci e da sua frase infinitamente repetida: quando um modelo desaba (o Euro vai implodir) e nenhum outro parece estar a surgir, é um tempo da proliferação de todos os sintomas mórbidos.
      Não posso ir mais longe na minha resposta. Poderia citar-lhe exemplos económicos bem sucedidos, em contextos diversos: a social-democracia nórdica proporcionou alguma acalmia social, mas também é facto (que a muitos horroriza) que os primeiros planos quinquenais de Estaline tiveram resultados muito positivos.
      O futuro é imprevisível: O capitalismo acabou, e ninguém sabe se isso se vai notar/sentir/verificar depois de uma sequência de futuros acontecimentos se num breve instante. O futuro será rápido e lento. Ainda estamos no “tempo mórbido” de Gramsci.

  18. John Holmes says:

    Os planos quinquenais do Estaline foram um sucesso? O capitalismo acabou?
    Quem é que vai fazer os planos? O Vidal? Vai fazê-los com bonecos?

  19. De says:

    A propósito de fascismo:

    “Se os povos da Europa não se levantarem, os bancos trarão o fascismo de volta”

    O compositor Mikis Theodorakis, resistente desde a primeira hora contra a ocupação nazi e fascista, combatente republicano desde a guerra civil e torturado durante o regime dos coronéis, enviou uma carta aberta aos povos da Europa , publicada em numerosos jornais… gregos. Excertos:
    “O nosso combate não é apenas o da Grécia, mas aspira a uma Europa livre, independente e democrática. Não acreditem nos vossos governos quando eles alegam que o vosso dinheiro serve para ajudar a Grécia. (…) Os programas de “salvamento da Grécia” apenas ajudam os bancos estrangeiros, precisamente aqueles que, por intermédio dos políticos e dos governos a seu soldo, impuseram o modelo político que conduziu à actual crise.

    Não há outra solução senão substituir o actual modelo económico europeu, concebido para gerar dívidas, e voltar a uma política de estímulo da procura e do desenvolvimento, a um proteccionismo dotado de um controlo drástico das Finanças. Se os Estados não se impuserem aos mercados, estes acabarão por engoli-los, juntamente com a democracia e todas as conquistas da civilização europeia. A democracia nasceu em Atenas, quando Sólon anulou as dívidas dos pobres para com os ricos. Não podemos autorizar hoje os bancos a destruir a democracia europeia, a extorquir as somas gigantescas que eles próprios geraram sob a forma de dívidas.

    Não vos pedimos para apoiar a nossa luta por solidariedade, nem porque o nosso território foi o berço de Platão e de Aristóteles, de Péricles e de Protágoras, dos conceitos de democracia, de liberdade e da Europa. (…)

    Pedimos-vos que o façam no vosso próprio interesse. Se autorizarem hoje o sacrifício das sociedades grega, irlandesa, portuguesa e espanhola no altar da dívida e dos bancos, em breve chegará a vossa vez. Não podeis prosperar no meio das ruínas das sociedades europeias. Quanto a nós, acordámos tarde mas acordámos. Construamos juntos uma Europa nova, uma Europa democrática, próspera, pacífica, digna da sua história, das suas lutas e do seu espírito. Resistamos ao totalitarismo dos mercados que ameaça desmantelar a Europa transformando-a em Terceiro Mundo, que vira os povos europeus uns contra os outros, que destrói o nosso continente, provocando o regresso do fascismo”.

  20. De says:

    O texto acima com excertos de uma carta aberta de Mikis Theodorakis foi tirado daqui:
    http://resistir.info/grecia/mikis_theodorakis_07nov11_p.html

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