Europa com medo do povo

Todo o processo de construção europeia sofre de um pecado original: as elites pretendem decidir o que garantem fazer bem às populações do continente sem as consultar. A democracia é um risco que não querem correr. Viu-se isso durante o processo de aprovação do Tratado de Lisboa, em que vários países, inclusive Portugal, foram obrigados a não fazer um referendo.
Mais que a crise e a implosão da moeda única, Merkel e Sarkozy temem o mau exemplo grego ao ameaçar referendar uma política económica. As lideranças europeias querem garantir que a política de austeridade que escolheram para o continente seja considerada a única solução. Impedir a discussão democrática da economia é a forma de conseguir este propósito. A manobra é difícil, porque há cada vez mais gente a perceber que este rumo só serve interesses muito particulares dos muito ricos e lança os povos da Europa na pobreza. É por isso que os governos da Alemanha e da França, caso não consigam derrotar a ideia do referendo em Atenas, vão querer fazer da Grécia um exemplo. Pretendem castigar os gregos de modo que nenhum povo se lembre de querer decidir a sua vida.
É uma política cega e suicida. As elites que mandam na Europa não percebem que o falhanço da União Europeia não se deve à falta de liberalização dos capitais e à ausência de abertura dos mercados. Há liberalização e mercados a mais. O que falta à Europa é uma dimensão democrática. A UE só sobreviverá se os seus povos a construírem em comum. Os mercados apenas vão gerar injustiça, o ódio e talvez a guerra.

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TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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13 Responses to Europa com medo do povo

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  3. joão viegas says:

    Bolas, la vamosoutra vez, a correr e a saltar, nos para o reinado da caricatura e o folclore.

    Dizer que ha um perigoso e lamentavel déficit democratico nas instituições europeias que existem hoje e que as forças conservadoras sabem muito bem aproveitar a situação é uma coisa, dizer que todo o processo de integraçãoeuropeia esta inquinado ab initio por carecer de legimidade democratica é outra, muito diferente.

    Os governos que tomaram as decisões que conduziram à Europa de hoje careciam todos de legitimidade democratica, é isso que v. esta a dizer ?

    E isso resolve-se substituindo sistematicamente as funções legislativa e executiva por uma junta de salvação trans-nacional movida exclusivamente por referendos populares, é isso que v. defende ?

    Indignar-se é uma coisa, disparatar outra bem diferente.

    Mas ja sei que o distinguo lhe vai parecer casuistico…

    • Nuno Ramos de Almeida says:

      João Viegas, Como você sabe existe um espaço cada vez maior que não é controlado pelos governos. No processo da integração europeia foram tomadas medidas que não foram discutidas pelos povos. E que não foram objecto de debate eleitoral. Dai a necessidade de se referendar medidas como o ultra-liberal tratado de Lisboa ou mesmo a moeda única. No caso da Grécia o que pretende o eixo alemão é eles não serem governados pelos gregos, mas por uma comissão dirigida por um alemão. Isso é uma mudança estrutural que tem de ser objecto de uma legitimação política eleitoral. Em relação a Portugal, a actual maioria foi eleita (ver vídeo de passos coelho) a prometer o contrário do que está a fazer. Esta verdadeira revolução conservadora, que acaba com o modelo social europeu e privatiza tudo não foi objecto de discussão democrática.

      • joão viegas says:

        Caro Nuno Ramos de Almeida,

        Que o referendo (no caso da Grécia ou noutros) possa ser legitimo e desejavel, como forma de restabelecer o controlo democratico que o imperfeito sistema institucional não permite, é um debate legitimo, interessante, fértil. Não tenho opinião formada (embora desconfie por principios dos referendos) e estou atento ao que se diz.

        Mas o que v. escreve no post é outra coisa : “Todo o processo de construção europeia sofre de um pecado original: as elites pretendem decidir o que garantem fazer bem às populações do continente sem as consultar”. Isto, pura e simplemente, não corresponde à realidade e não faz avançar o debate.

        So isso.

        Boa continuação.

        • Nuno Ramos de Almeida says:

          Meu caro, o facto de não estar de acordo não torna a coisa necessariamente mentira. Basta olhar para o passado recente: depois dos referendos falhados da Constituição Europeia, o que fizeram os líderes da UE? Aprovaram um tratado com conteúdo similar (o de Lisboa), tornaram-no num documento completamente opaco e pressionaram os países da UE para que não o referendassem. O que foi feito.
          Um dos principais problemas da UE é que é uma construção virada para os interesses de certos sectores da economia sem controlo político. As partes que escaparam à maioria dos Estados nação, são decididas em fóruns em que apenas a burocracia e os alemães decidem. Não foi criada uma comunidade democrática que controle esse poder. Não existe uma opinião pública europeia, nem uma democracia europeia. É totalmente visível nesta crise que as grandes nações e as grandes empresas continuam a contar neste processo de globalização, mas esta constatação não torna a coisa democrática.

          • joão viegas says:

            Desculpe mas esta a desconversar. Os lideres europeus a que v. se refere carecem de legitimidade democratica ? Não foram eleitos democraticamente ? As decisões que tomaram não constavam, nas suas grandes linhas, dos seus programas eleitorais ? Quem é que tem legitimidade para decidir então ?

            Depois, por acaso, não faltam informações sobre os trabalhos da comissão e sobre o processo de decisão europeu. Ou melhor, se faltam, mais escandalosa do que essa carência é o desinteresse total pelas informações de que se dispõe e pelos debates que têm lugar acerca delas (por exemplo no Parlamento Europeu).

            Não existe opinião publica europeia. Ai ja concordo consigo. Mas culpar a “falta de democracia” pela situação é profundamente demagogico.

            Cumplices duma situação em que parece confortavel culpar a “Europa” e a “burocracia europeia” por todos os males, somos todos nos. E somo-lo muito antes dos politicos, que fomos nos que escolhemos, nomeadamente para decidir nas instâncias da União …em que escolhemos livremente inserir-nos

            Boas

          • Nuno Ramos de Almeida says:

            Os líderes da Grécia foram eleitos, mas nenhum grego elegeu a troika que os governa, nem sequer votou no programa dela. É isso que se chama falta de democracia. Mais claro que isso não há.

  4. Gentleman says:

    Todo o processo de construção europeia sofre de um pecado original: as elites pretendem decidir o que garantem fazer bem às populações do continente sem as consultar. A democracia é um risco que não querem correr.

    Sim, faz-me lembrar os defuntos regimes socialistas.

    • De says:

      Lol.
      Já nem consegue defender as “elites” que dominam a europa.Nem o neo-liberalismo a solta feito cão de caça dos explorados
      Por isso o que faz Gentleman?

      Salta para o comboio dos países socialistas.

      Cada vez mais claro.

  5. M says:

    Por este andar, o povo Alemão e o Holandês (os dois maiores contribuidores net para o Orç da EU) poderão até decidir sair da UE. Mas, come on, sabes q isto n vai acontecer. Guerra?? Que ideia mais estapafúrdia!! O interesse geral por vezes exige que as massas não sejam consultadas. O interesse geral pode ser contemplado sem que seja determinado pelo povo. lol As massas são temperamentais e raramente sensatas. O melhor mesmo é construir a UE pela via do diktak. (estou a brincar, obvt)

    • A ideia disparatada chama-se história. A actual União Europeia foi construída a partir da Comunidade Europeia do Carvão e do Aço, os dois materiais mais necessários para as guerras daquele tempo. Até essa altura, a Europa sempre tinha resolvido as suas crises económicas por via da guerra. Essa comunidade instituída em 1951, pretendia dissolver os impulsos da guerra pela criação de um interesse económico comum. Os seus dois cimentos eram o interesse e a guerra fria com os países na órbita soviética. Com a queda dos regimes do socialismo real já tivemos guerra na Europa, basta ver a ex-Jugoslávia. Com a verificação que não há interesses comuns entre os países de centro e de periferia da UE, quem pode garantir o futuro? Sobre os pagamentos de alemães e holandeses, era conveniente esclarecer que esses países pagam mais para o Orçamento Europeu pq são os países que mais ganharam com a integração europeia. Esse pagamento é uma percentagem pequena daquilo que ganharam, e quase metade desse dinheiro vai para a Política Agrícola Comum (PAC). A PAC é feita para calar a França que caso não se recorde é como o Reino Unido uma potência atómica. Reino Unido esse que tem um estatuto de favor e não paga grande parte da PAC. Porque será?

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