«Primeiro Fazem-se Plenários e Depois é que se Cumprem as Ordens»

Os tempos de uma revolução são polémicos e difíceis de precisar, envoltos no turbilhão dos acontecimentos. É mais ou menos maioritária entre a historiografia portuguesa, a que se arrisca a avançar conclusões teóricas nos seus estudos, que a revolução dos cravos teve o golpe de finados quando o MFA se desmembra em Agosto de 1975. Na minha investigação sugeri uma tese um pouco distinta – o MFA, que surge como uma forma de estabilizar o Estado perante o colapso pós guerra colonial foi o garante da democracia e, com contradições internas, um entrave à revolução socialista. Foi a segurança da mudança de regime político, da ditadura para a democracia, mas foi um dos sustentáculos da estabilização dos governos de frente popular, de alianças policlassistas e não um organismo ou direcção de duplo poder.

Quando se desmembra abre portas ao agravamento da crise de Estado e deixa a revolução entrar de forma mais radical nos quartéis, sob a forma de duplo poder (organizado ou inorganizado) representado nas assembleias de soldados, nos SUV, etc.  Aquilo que todos temiam, o duplo poder de base classista como as comissões de trabalhadores, ganha um fôlego entre os soldados só depois da desestruturação do MFA. Portanto, a crise político militar de Setembro a Novembro de 1975 é o momento da crise revolucionária, em que ou se dava um deslocamento do Estado sob controlo da burguesia ou os trabalhadores avançavam para a insurreição. Nesse sentido a revolução social não estava morta em Agosto, estava, com muitas aspas, a «começar». Como o tema é polémico e no debate ainda faltam muitos dados (a relação da esquerda militar com o PC), fica aqui um artigo onde contribuo para esta questão.

http://www.uss.br/revistamestradohistoria/v13n12011/sumario.html

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4 Responses to «Primeiro Fazem-se Plenários e Depois é que se Cumprem as Ordens»

  1. Augusto diz:

    Cara Raquel os SUV foram meramente um fogo fátuo.

    Foram obra de meia dúzia de militares, e a sua expressão real dentro dos quarteis , foi praticamente NULA.

    Verdade que houve manifestações , em que aparentemente, centenas de soldados apareciam debaixo dos cartazes dos SUV, mas tambem teriam aparecido debaixo de cartazes de outras organizações militares, se elas se tivessem disposto a aparecer á luz do dia.

    O 25 de Novembro mostrou, que as cautelas eram mais que necessárias……

    E não foram os SUV que organizaram os GDUP, que surgiram como cogumelos nos quarteis, durante a primeira campanha de Otelo.

    Ás vezes o que parece , NÂO É

    • Raquel Varela diz:

      Augusto,
      Demorei a responder porque fui verificar uma coisa: qual a relação entre os SUV e os GDUP? Não compreendo. Entre eles há o 25 de Novembro ou seja a passagem de uma situação revolucionária à contra revolução democrática.
      É verdade que os SUV não eram assim tantos mas como em política não há vazio é possível, e digo possível porque muito está por esclarecer, que os SUV souberam dar corpo a uma explosão objectiva do duplo poder dentro dos quartéis com o fim do MFA. Os SUV tiveram um papel muito importante no Porto e o PC começou por ignorá-los, até por tentar criar alternativas, para depois tentar influenciá-los, e o mesmo fizeram outros sectores de extrema-esquerda, provavelmente porque todos compreenderam que objectivamente havia ali uma nova força a emergir, na base dos quartéis e todos se mostraram interessados em tentar dirigi-la. No artigo dou algumas pistas:

      « Em Novembro de 1975, há SUV organizados no Porto, Lisboa, Coimbra, Évora, Portalegre e Beja. Em breve surgem ou ressurgem organizações semelhantes dirigidas por outras organizações: a ARPE dirigida pelo PCP; a RPAC pelo MRPP e as Organizações de Soldados e Marinheiros sob liderança da UDP, uma frente de organizações maoístas. Os SUV manter-se-ão como a maior e mais importante. Soares dirá mais tarde a Maria João Avilez que:
      “É exacto, nessa época o poder estava em plena desagregação e era
      influenciado pelas manifestações de rua (…). Os SUV foram mais um
      degrau na escalada revolucionária, uma óbvia tentativa de sovietização
      do Exército, que precederia naturalmente a destruição da instituição
      militar, para sobre ela edificar um outro poder”

  2. LAM diz:

    Raquel Varela, (isto é só memória naõ tenho documentos para sustentar), a UDP na altura apoiava também os SUV. Isso que falas das “Organizações de Soldados e Marinheiros” (tinha outro nome q agora não me ocorre), era uma organização militar, com origem anterior ao 25A, da OCMLP, que na altura ainda existia. A OCMLP (FEC, Grito do Povo) de facto não apoiava os SUV, a UDP (CARP, CCR, UR), sim.

  3. José Manuel Lopes Cordeiro diz:

    Desculpem intrometer-me na discussão, mas gostava de dar algumas achegas, se me permitem:

    1 – O Augusto (permita-me que o trate assim, embora não saiba quem é) tem razão quando diz que os SUV foram “obra de meia dúzia de militares, e a sua expressão real dentro dos quartéis, foi praticamente NULA”. Acrescentaria que eram essencialmente compostos por oficiais milicianos (poucos) e não por soldados (desconfio, até, englobassem algum), como o nome pode fazer supor. Também não me parece, por essa mesma razão, que tivessem constituído “uma nova força a emergir, na base dos quartéis”. Não compreendo, contudo, a ligação aos GDUP, pois quando estes foram constituídos os SUV já não existiam. Aliás, a sua existência foi muito efémera: surgiram cerca de 2 meses antes do 25 de Novembro, e logo a seguir desapareceram sem deixar rasto.

    2 – Por seu turno, LAM (que também não sei quem é, mas não importa) tem razão ao chamar a atenção para aquela que terá sido a mais influente organização militar de uma organização da extrema-esquerda durante aquele período: a Organização dos Comités e Soldados e Marinheiros Vermelhos (CMSV), criada – como ele muito bem diz – ainda antes do 25 de Abril pela OCMLP, e que, de facto, não apoiava os SUV (antes pelo contrário). Os CMSV também agrupavam muitos oficiais milicianos mas dispunham, igualmente, de soldados (alguns) e oficiais do Quadro (poucos).

    Boa discussão (e boas recordações) a todo(a)s.

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