Cavaco versão 1991

Cavaco Silva, pode dizer tudo sem que ninguém o confronte com o seu passado. O verso e o reverso, a antítese e a tese. Fez mal ao país. Talvez seja o governante com maiores responsabilidades pela crise que atravessamos, mas coloca-se sempre fora, distante… economista. Basta reler a entrevista que deu a Vasco Pulido Valente em 1991, para ver quão erradas foram as suas políticas e as ideias que manifestava para o futuro.
É urgente confrontá-lo com as suas responsabilidades. Não pode sair impune.

[discurso sobre a impunidade]
A impunidade caracterizou este país durante anos e anos. O que ajuda a explicar a tendência para a «acomodação». Uma das minhas grandes preocupações consiste precisamente em reduzir o grau de impunidade. Mas não se reduz a impunidade por decreto. Tem de se combater na política, na economia, no trabalho, em todos os domínios. Durante imenso tempo, por exemplo, Uma pessoa competente e uma pessoa incompetente recebiam o mesmo ordenado e, às vezes, a incompetente era mesmo promovida com mais facilidade. Espero que, a pouco e pouco, isso acabe e que a sanção seja efectiva: a sanção política, moral, profissional, económica…

[sobre as funções de um presidente da república]
Sempre que o Presidente da República, seja ele quem for, membro do partido do poder ou chefe do partido da oposição, interferir nas competências do governo cria inevitavelmente instabilidade no País. O Presidente deve ficar confinado às suas funções. Cabe ao governo conduzir a política geral do País. O Presidente não dispõe dos instrumentos necessários para o fazer e, se o fizer, fá-Io-à por força pela negativa…

[sobre os círculos uninominais]
Os círculos uninominais asseguram facilmente a governabilidade, mas prejudica excessivamente a representatividade. Em Inglaterra, por exemplo, partidos com mais de 20 por cento dos votos, só elegeram 7 ou 8 deputados.

[onde deviam investir as empresas portuguesas]
Muitos empresários pensam só no mercado português e deviam pensar no mercado europeu. E, para actuar no mercado europeu, não basta mandar daqui um telex a anunciar que se vendem sapatos ou outra coisa qualquer. Nada dispensa a presença efectiva no exterior e uma estratégia de internacionalização, visando principalmente a criação de circuitos de distribuição.

[criticando o facto dos portugueses não arriscarem o seu dinheiro na bolsa]
A apetência pelo risco não é muito forte. Nunca foi. A Bolsa só teve uns picos em 1973 e em 1987. Apesar de sermos um dos países do mundo com maior taxa de poupança. Porquê? Porque basicamente os portugueses aplicam a poupança em depósitos a prazo. Entre 1974 e 1984, os únicos instrumentos financeiros que existiam eram, aliás, os depósitos a prazo e os títulos do Tesouro.
(…)
Neste momento há muitos instrumentos financeiros à discrição e há sinais positivos. Por exemplo: 250.000 pessoas compraram acções das empresas reprivatizadas. Mas não se recupera de anos de atraso e desconfiança do dia para a noite.

[sobre as autoestradas e o emprego]
Com um forte investimento em infra-estruturas (que favorece investimentos de outra natureza), com um forte investimento estrangeiro (3 biliões de dólares por ano, dez vezes mais do que em 1985) com o investimento privado, que gostaria que fosse inovador e agressivo e com programas para promover a adaptabilidade dos trabalhadores, acho que se fará a modernização sem custos excessivos.

[Sobre os 18 por cento da população activa a trabalhar na agricultura]
Uma percentagem muito alta, sem dúvida. E uma população sobretudo de idosos e de analfabetos que não encontrarão emprego na indústria e nos serviços. Existe para alguns deles a possibilidade de um programa de reformas antecipadas. E durante muitos anos ainda a agricultura terá um desemprego oculto e, por consequência, baixa produtividade. Mas não prevejo saídas em massa e desemprego em massa no sector.

[A capacidade de ver o futuro]
Já preveni a oposição: «se os senhores esperam para os próximos anos a grande recessão, o grande desemprego, a grande crise, acabam com um grande desgosto. Não contem com sapatos de defunto».

[sobre os organismos inúteis que criou]
E as pedras da calçada a levantarem-se? Cada vez que se quer fechar qualquer coisa – um serviço, um quartel – que devia ter fechado há anos, levantam-se as pedras da calçada.

[sobre “Portugal estar na moda”]
Em comparação com um período recente da nossa história, em que éramos vistos como um pouco extravagantes, um pouco loucos irresponsáveis; em que andávamos pela mão do FMI, nacionalizávamos, subsidiávamos empresas falidas, fixávamos administrativamente as taxas de juro.

[sobre a Europa Comunitária]
A Europa Comunitária limita a tentação de adiar as medidas incómodas, atenua a tendência para a facilidade e a demagogia. Não acho mau. Nós hoje, na CEE, co-gerimos parcelas de soberania; conduzimos políticas interdependentes. Nenhum país conduz as políticas que lhe dá na real gana conduzir.

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2 respostas a Cavaco versão 1991

  1. Bolota diz:

    Tiago,

    Já repararam que o Cavaco está em todas???

  2. Gentleman diz:

    «A apetência pelo risco não é muito forte.»

    Nisso Cavaco tem toda a razão. E 20 anos depois a aversão ao risco continua sendo generalizada.

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