Entre a arquitectura e a ruína

Esta semana não foi notícia a cerimónia de homenagem da Ordem dos Arquitectos a importantes figuras da arquitectura nacional, como Bartolomeu Costa Cabral, Duarte Cabral de Mello, Sérgio Fernandez e Cristina Salvador, entre outros. O acontecimento não contou com a presença de qualquer ministro ou secretário de Estado. Este afastamento tem causas e responsabilidades, mas este não é o espaço para os identificar.
Ao longo dos últimos anos, Portugal tem vindo a ser reconhecido pela capacidade de produzir talentos no futebol. O exemplo máximo são os dois títulos de melhor jogador do mundo atribuídos a Figo e Ronaldo, num resultado global apenas superado pelo Brasil e Zidane.
Em sectores mundialmente competitivos, este registo só é equiparável ao da arquitectura. E Siza e Souto Moura – igualmente distinguidos com o galardão máximo do reconhecimento profissional, o Prémio Pritzker – não são casos isolados! Numa classe profissional invulgarmente jovem, 2/3 têm menos de 40 anos, despontam novos talentos pelo mundo fora. A agressiva política de Estado contra as novas gerações, por intermédio de repetitivas “representações nacionais” ou com os ajustes directos a filhos e afilhados, levou a que seja praticamente impossível exercer a profissão em Portugal. O que, na verdade, é insustentável para o país.
O investimento na formação superior está a produzir capital humano qualificado directamente para outros países. Num momento em que vivemos uma situação social gravíssima, que trará consequências da casa ao território, é fundamental inverter este processo.

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6 respostas a Entre a arquitectura e a ruína

  1. Vitor Ribeiro diz:

    Infelizmente, como o Tiago bem deve saber, o problema reside tanto mais numa classe política e dirigente culturalmente indigente, como, e sobretudo, entre os próprios arquitectos, muitos deles demasiado presos aos seus umbigos, às suas capelinhas, aos seus (mais ou menos) pequenos poderes. E enquanto os arquitectos não forem capazes de gizar uma estratégia coerente e o mais alargada possível (alargada, não no sentido de meter tudo no mesmo saco, mas antes capaz de reunir em torno de um conjunto básico de princípios a saudável diversidade de pontos de vista – o que obrigaria a Ordem a ser mais activa e menos burocrática), a sociedade vai contar a olhá-los apenas como um mero catálogo de vaidades.

    • Tiago Mota Saraiva diz:

      Vítor, esse é o tema que eu não abordo… as causas e motivos do afastamento.Parece-me que, neste momento, isso não interessa assim tanto.
      O que me parece importante perceber é que para os próximos tempos se avizinham momentos violentíssimos para as nossas cidades, para os nossos espaços de socialização, para os nossos espaços de vida.

      • anarca diz:

        Tiago,
        As causas e os motivos do afastamento dos seus pares deveria ser uma prioridade no seu pensamento … pois os efeitos estão à vista !
        Só não vê quem não quer. a arquitectura portuguesa é Um BiG O
        quem disser o contrário está cego pela LUZ do Lorosae LOL

  2. am diz:

    são muito temas, e temas muito diferentes, Tiago
    a invisibilidade da arquitectura enquanto disciplina produtora de cultura dava, por si só, para várias teses (repara que mesmo entre os – outros… – “intelectuais” a curiosidade pela nossa estranha forma de vida raramente passa da soleira da porta…)
    não concordo contigo quando falas numa política hostil às “novas gerações” de arquitectos
    revê alguns dos “nossos” últimos representantes em Veneza e em São Paulo…
    a invulgar “juventude” da classe tem a ver com a ultra irresponsável multiplicação de licenciaturas em tudo o que é freguesia com rotunda
    (os arquitectos “turbo-professores” agradeceram e os gabinetes exploradores de mão de obra barata, quase escrava, esfregaram a mãos de contentes…)
    também não acredito que as presentes políticas da “crise” ditas de “austeridade” (para os de sempre) possam vir a afectar muito significativamente os “nossos” (ou “deles”…) “espaços de vida”
    o pouco comentado encerramento de mais umas “linhas” (de caminho de ferro) é mais grave que o fim das parolices dos Polis ou das intervenções tipo “novo-rico” (viu-se…) da Parque Escolar
    quase que apetece escrever – no que à arquitectura diz respeito… – Viva a Crise!
    estou mais preocupado com a violência sobre as pessoas que a violência (que aí vem…) sobre os “espaços”…

    anarca,

    “Um Big O” não está registado 🙂 (ODP não é o Kualhas) :)))
    pode ripar-me à sua vontade :)))

    • Tiago Mota Saraiva diz:

      Três coisas rápidas camarada d’armas,
      Não meças a política hostil para com os mais novos, pelas exposições de “jovens portugueses” na RIBA. Falo da maioria, dos 99% dos 2/3 com menos de 40.
      Quando falo nas questões do território também integro tudo o que diga respeito a linhas férreas, barragens e demais operações de ruína. 1400 caracteres não dá para tudo.
      Por fim, não menosprezes as violências não físicas. Vão doer.

  3. De diz:

    “.. os próximos tempos se avizinham momentos violentíssimos para as nossas cidades, para os nossos espaços de socialização, para os nossos espaços de vida.”
    Para a cultura em geral.Para toda a cultura e os seus agentes
    O que importa neste momento ao poder que nos (des)governa é o amealhar máximo de tostões, à custa do trabalho e das reformas, para sustentar os lucros do poder económico-financeiro.Sob o olhar mais ou menos lânguido de Merkel e a gula sempre sinistra da banca.

    Gostei do post!
    E do esclarecimento adicional

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