Andam a roubar-nos acima das nossas possibilidades – 2

Por muito chato que seja, às vezes vale a pena fazer contas. Até porque aqueles que nos vão ao bolso sabem apresentar as coisas de forma a que não nos apercebamos da dimensão do roubo.

Lembro-me sempre que, quando o governo anterior decretou os cortes de 5 a 10% nos salários dos trabalhadores de instituições públicas, um colega, naquela lógica bem nacional do «morreu, coitado, mas se ficasse entrevadinho era bem pior», me revelou o seu alívio por não nos terem cortado o subsídio de natal. Quando lhe pedi para multiplicar o corte mensal por 14, ficou muito espantado por verificar que já lhe tinham tirado isso e mais 15% de um outro salário…

Fazendo as contas com todos os factores, no entanto, a coisa fica ainda mais obscena.

Em 2011, considerando a inflação, os cortes salarias mensais e o corte no subsídio de natal (metade da parte que exceda o salário mínimo nacional), foram-me retirados 14,3% do salário. Ou seja, roubaram-me 2 meses de salário. Ou seja, ainda, na prática já não tive subsídio de natal nem de férias.

Em 2012, continuando a não ser compensada a inflação, continuando os cortes salariais mensais e não sendo pagos os dois subsídios, o meu salário vai ter um corte de 28,4%, em comparação com 2010. Ou seja, vão-me roubar quase 4 meses de salário. Ou seja, ainda, para além dos dois subsídios, vou andar mais 2 meses a trabalhar à borla.
O que, apesar de tudo, é um bocadinho diferente desse já escandaloso corte do subsídio de natal e do de férias. É o dobro!…

E não estamos ainda a tomar em conta os aumentos de impostos (via aumento do IVA, aplicação da sua taxa máxima a muitos bens de consumo correntes, e diminuição das deduções no IRS); só mesmo o que é directamente tirado do salário.

Por isso, meus amigos, façam as vossas próprias contas.
Convém sempre sabermos quanto é que, realmente, nos estão a roubar.

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6 respostas a Andam a roubar-nos acima das nossas possibilidades – 2

  1. Marito diz:

    É isso mesmo, ANDARAM a roubar-nos acima das nossas possibilidades, agora toca a pagar a factura. Falta de memória, é?

  2. AMCD diz:

    E o povo a ruminar numa pacata mansidão. É espantoso!

    Parece que nunca abandonámos da nossa memória colectiva a vivência dos tempos de uma “casa portuguesa, com certeza: pão e vinho sobre a mesa.” Foram muitos anos de Estado Novo.

    Os tempos de falsa prosperidade foram breves e, pelos vistos, não foram suficientes para iludir os portugueses da sua condição de pobre povo do cu da Europa. Os cafres da Europa, já dizia o Padre António Vieira. Só assim se consegue explicar a apatia e a plasticidade de um povo, que tão bem se adapta a estes tempos de infortúnio e abuso. É um povo-boi que tudo suporta.

    Pobre povo.

  3. Carlos Carapeto diz:

    ««««««Por isso, meus amigos, façam as vossas próprias contas»»»».

    Não temos que fazer contas temos sim que pedir contas. Mas para isso haja vontade e coragem.

    Afinal o calote foi feito para construir habitação social para quem mais precisa. Escolas? Hospitais? Apoios à infância? Lares para idosos? Centros de cultura? Aumentar a produção do país?
    Foi só para beneficio dos grandes. Quantas marinas para iates de luxo construiram no Algarve? Quantos resorts? Quantos milhares de mansões foram construidas de extremo a extremo do país no litoral para servirem um mês por ano?

    Onde a rapaziada arrancaram o milho trangenico construiram um resort de luxo, destruindo as melhores terras do Algarve, para estar praticamente às moscas. Quanto foi que o Estado Português enterrou lá em apoios?

    Isto só lá vai à porrada. Uns bandidos destes destruiram a economia do país e agora é a mim que me pedem contas?
    Eu já não tenho nada perder senão a vida. A minha vida para eles não vale nada.

    P… que os pariu todos.

  4. António Figueiredo diz:

    Não sabia que pagar impostos é ser roubado. Você é de direita hardcore, ó paulogranjo. Veja lá se os estalinistas aqui do blog não lhe fazem a folha. Há aí malta que anda doidinha para andar à bulha com alguém.

    • paulogranjo diz:

      Não sabia que a entidade patronal decidir, unilateralmente, deixar de pagar parte do salário era, para o trabalhador, pagar impostos.
      Ou que decidir não pagar os subsídios de natal e de férias que fazem parte do quadro remuneratório contratado seja pagar impostos – mesmo que, pela evidente ilegalidade da medida, ela possa vir a ter que ser apresentado dessa forma, levantando uma nova ilegalidade constitucional.
      Quanto ao corte de parte do subsídio de natal, em 2010, mesmo sendo ele apresentado como um imposto extraordinário, é na prática uma expropriação.

      Acredito firmemente que se pode fazer humor com tudo.
      Mas, quanto mais graves são as coisas, mais elaborado e certeiro ele deverá ser, para não se cair na mera boçalidade.
      No seu caso, temo que não tenha cumprido esse requisito.

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