Salve-se quem puder!

Durante os próximos dias vamos ser bombardeados com a ideia de que a Europa começou a resolver a crise. O aumento do Fundo Europeu para um bilião de euros e o corte da dívida da Grécia para metade seriam passos para uma solução. Até à próxima queda generalizada da bolsa vão martelar-nos essa ilusão. Quando as coisas rebentarem novamente vão explicar-nos, cândidos, que o problema não foi do remédio, mas de os doentes não terem feito com convicção todas as piruetas recomendadas pela troika. Relativamente ao acordo, é preciso esclarecer que o aumento de um bilião de euros do fundo é fictício: grande parte vai ser feito por alavancagem e a crédito. Mesmo que fosse real, esse dinheiro não é suficiente para acudir a Itália e a Espanha. Outra meia verdade é o famoso corte da dívida grega. O que a Europa fez foi garantir ao sector bancário o reembolso de um crédito bastante malparado. Para a Grécia, isso apenas vai significar a instalação de um governo estrangeiro para controlar o pagamento das suas dívidas e prevê-se que em 2020 a dívida continue a valer 120% do PIB. Dando como adquirido que a Grécia consegue crescer a taxas superiores a 3% ao ano. Coisa visivelmente impossível. Para Portugal, a cimeira não foi benévola. Ainda estamos a discutir um Orçamento do Estado absolutamente assassino do emprego e da economia, e a Alemanha e acompanhantes mandam dizer que não chega: é preciso ainda mais austeridade. Só uma estratégia de crescimento comum permitirá salvar a Europa. Os líderes do continente apenas mandaram pôr as bóias e gritar “salve-se quem puder!”

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TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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