A propósito do menu McGreveGeral encomendado

 

 

 

 

 

 

 

 

No post abaixo de Francisco Furtado, sobre os laços de parentesco entre greves gerais, apesar dos elogios às formas que assume a luta na Grécia (num tom que pretende desclassificar o nível e os modos da luta em Portugal – dentro do mote “aprender com os gregos”) o autor não pondera ou esquece-se de ponderar algo de crucial numa avaliação:

É que, apesar de todo o “ardor” da luta grega, os gregos não estão em melhor estado, as políticas de governo não se alteraram. Não tiveram nestes dois anos uma vitória que invertesse ou travasse a evolução do saque.

Quero com isto dizer que os gregos estão errados? Nem por sombras. Quero dizer com isto que a sua (nossa) luta é inútil? Não, três vezes não. Quero dizer então que a luta não deve subir de tom e assumir novas formas? Pelo contrário.

Que quero então dizer com isto? Em primeiro lugar, constatar que escapou ao autor do texto esta tão incontornável ponderação, ou seja, constato que valoriza os processos independentemente dos seus resultados, o que é convenhamos, muito pobre como “lição”. Corre-se o risco de parecer padecer de um deslumbre estético por certos cenários de luta.

Mas quero dizer mais. As ressalvas sobre o tempo, o espaço, a cultura, etc, parecem não funcionar afinal, porque a conclusão é sempre a de “aprender com os gregos”. Chega-se facilmente à conclusão de que os portugueses são incompetentes, moles, não têm coragem, nem criatividade. E de que as lutas fora de portas são imensamente mais simpáticas e empolgantes.

Outra questão não é ponderada. Diz-se: a luta grega leva dois anos de avanço. Mas não será  a crise grega a levar dois anos de avanço? Ou melhor: não será a crise portuguesa a levar dois anos de atraso? Que bestas que nós somos, tão grandes capachos que somos e, afinal, os mercados, em vez de nos engolir a nós primeiro, foram meter-se com os indomáveis gregos! Que teremos nós que atrasou a crise aqui? Não serão certas qualidades intrínsecas dos nosso próprios modos e forças que levaram os mercados a preferir os gregos por dois anos?

Isto para utilizar os critérios do autor…

Na verdade, todos podemos aprender uns com os outros. Mas medir pilas ou pipis de greves é coisa que não lembra ao diabo.

E para destoar de opiniões formuladas aqui no 5 dias: não, não acho que as centrais sindicais devam convocar manifestações em dia de greve. A arena da luta dos trabalhadores é a empresa. É ali que, na greve, se afirma o seu domínio e se exprime (e reitera) o facto de que são eles o motor da sociedade. É lá que se revela mais claramente a luta de classes. É lá que, todos os dias, mas particularmente, a cada greve, se reforça a organização e a consciência dos trabalhadores. Os trabalhadores devem enfrentar com crueza a decisão de fazer greve e assumi-la perante o patrão. E perante todos os outros.

Mas concordo e apoiarei iniciativas de outras camadas da população, ou sectores não abrangidos pelo pré-aviso de greve – trabalhadores por conta própria, desempregados, estudantes, etc. – como manifestações, engrossando o caudal de luta. Como fizeram os artistas na greve geral passada.

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35 respostas a A propósito do menu McGreveGeral encomendado

  1. De diz:

    Límpido e claro
    Pondo os pontos nalguns “is” e mobilizador

    Um excelente post que assino por baixo

  2. Paulo Granjo diz:

    Não destoas, Pedro.
    Reproduzes, de forma mais reflectida, cordata e não insultuosa, uma posição que já aqui foi expressa por outros.

    Quanto a quem confronta quem nas greves, querido e velho amigo, pareces estar a esquecer que, se numa greve local ou sectorial o confronto é com o patrão (ou grupo patronal), as reivindicações se dirigem fundamentalmente a ele e têm um carácter essencialmente profissional, numa greve geral as reivindicações são fundamentalmente políticas e gerais (mesmo quando pertencem à área da regulamentação e direitos laborais) e o confronto é com o governo. Quer seja em torno de políticas governativas, da exigência de demissão do governo, ou mesmo de mudança do regime político.
    É não apenas do conhecimento comum, como praxis sistemática (e empiricamente verificável e verificada), para além de consensual entre todas as tendências e variantes dos movimentos sindicais e revolucionários, desde os tempos do velho Marx.

    Por isso, não se trata apenas de uma imprecisão. A utilização desse argumento no debate deste tipo de questão é, claro está, tão possível como qualquer outra. Mas é também a-histórica, contra-factual e duplamente anti-marxista: quer porque nega (o que será o menos importante) esse legado teórico e analítico, quer por ser, precisamente, contra-factual e a-histórica.

    • Pedro Penilo diz:

      Parece-me da lógica dos conceitos. Uma greve geral, sendo geral, é uma greve. Não é uma manifestação. Não é um cerco. Não é uma insurreição. Para estes últimos nem sequer faz sentido falar em greve, pois uma greve não é uma simples ausência do serviço. Não se convoca uma greve para ir fazer outra coisa.

      De acordo, é uma greve cujo alvo é o governo e/ou as suas políticas. Mas isto é feito usando a arma – a greve – cuja características são a imobilização organizada, consciente, colectiva e solidária da(s) empresa(s), e por extensão da economia toda. Parece-me absurdo pretender que uma greve se faça, com os trabalhadores fora das empresas, abandonando o convencimento e motivação de trabalhadores hesitantes, a condenação de fura-greves e serviços ilegítimos, o espaço simbólico que é e de que eles se devem sentir verdadeiros donos desapossados. Isso não anula a compreensão dos propósitos da greve geral. Uma coisa é a compreensão e consciência dos objectivos, âmbitos e palcos das lutas, outra bem diferente é a especificidade funcional das suas formas.

      Em última instância porque os trabalhadores não estão, nunca estiveram, amarrados ao seu local de trabalho. Há tempo, espaço, motivo e talento para manifestações. Há tempo, espaço, motivo e talento para greves. E haverá um momento em que os trabalhadores sairão das empresas sem meterem pré-aviso de greve. De tudo isto tivemos e teremos.

      Parece-me evidente haver uma conexão entre as reiteradas exigências de manifestações em dia de greve e o discurso anti-sindical em voga, que apela aos sindicatos que convoquem a greve; no minuto seguinte se regozija por tê-la “imposto”; e, por fim, espera poder recolher os louros de uma “greve” transmutada em manifestação, para poder continuar a desclassificar os sindicatos.

      • De diz:

        E mais uma vez a clareza e a limpidez do argumentário.
        A contextualização certa,no momento certo.
        Com elevação nos meios e nos propósitos.

    • Ilídio PG diz:

      Certo, nas greves gerais as reivindicações são fundamentalmente políticas e reportam-se aos interesses gerais da globalidade dos trabalhadores.

      Mas não é acertado intervir para substituir, na consideração do alvo da greve, o patronato pelo governo. Isto é, está muito bem acrescentar o governo, está muito mal retirar os grandes capitalistas (os banqueiros, os grandes empresários, os monopolistas, os latifundiários).

      Em primeiro lugar, porque a greve só é contra o governo, porque e na medida em que o governo defende e promove os interesses do grande capital, porque o governo funciona como o procurador político dessa classe (da grande burguesia).

      Em segundo lugar, porque esconder o patronato atrás da capa do governo, em vez de abertamente apontar e denunciar o governo como um instrumento político do grande patronato (do grande capital), é contribuir para numerosas mistificações sobre a natureza, o papel e as funções do poder político e obscurecer os objectivos de classe da política praticada pelo governo (aumento da exploração com o programa da troika e as medidas de austeridade).

      Em terceiro lugar, porque nem historicamente é verdade que as greves gerais se façam sempre “em confronto” (sublinho o em confronto) com o governo, embora, como é evidente pela sua função de instrumento privilegiado da classe capitalista, isso quase sempre suceda. Por exemplo, a célebre greve de 12 de Fevereiro de 1934 em França foi sobretudo uma greve contra o ascenso e a ameaça do fascismo. De igual modo, no mesmo país, a grande greve geral de Maio-Junho de 1936 não é uma greve em confronto com o governo em formação saído da vitória legislativa da Frente Popular (embora pretendesse pressioná-lo na adopção de medidas progressistas) e sim declarada e explicitamente uma greve contra o grande patronato.

      A intervenção de Paulo Granjo é redutora. Procura corrigir Pedro Penilo e desacerta. Podia precisar a formulação, complementando-a, e seria justo, porque de facto, a greve geral, ao defender os interesses gerais da classe trabalhadora, EM CONFRONTO COM A CLASSE CAPITALISTA, adquire uma dimensão nacional e política que a colocam (geralmente) em confronto com o governo.

      Mas ao pugnar pela retirada da referência ao capital (ao patronato, na formulação popular de Penilo) do alvo da greve geral, sai-lhe a emenda pior que o soneto. Inverte a hierarquia das responsabilidades, obscurece a natureza de classe do conflito e desaproveita a velha lição marxista (na excelente formulação leninista) de que “a política é economia concentrada” e as greves gerais grandes batalhas na luta de classes.

      • Paulo Granjo diz:

        Tem razão quando me corrige, salientando que as greves gerais nem sempre são em confronto com o governo. Em situações inversas das nossas, podem ser (e foram) em apoio a governos ou regimes políticos, ou contra forças que atacam governos ou políticas governativas apoiadas pelos trabalhadores e o movimento sindical. Mesmo nesses casos, contudo, têm sempre como fulcro e motivo políticas gerais e a acção estatal.
        Dessa forma, continua a ser incorrecto e falacioso afirmar que todas as greves são contra os patrões (individual ou sectorialmente tomados) e que só os trabalhadores assalariados têm (e devem ter) a ver com as greves gerais.

        Entretanto, a sua alternativa de que elas são sempre em confronto com a classe capitalista é desmentida pelo próprio exemplo de 1934 que avança, já que o ascenso fascista não era apoiado pela globalidade dos capitalistas, como um bloco monolítico, e estava infelizmente longe de se limitar a capitalistas.
        Da mesma forma, aqui e agora, também os interesses objectivos dos capitalistas comerciais ou dos sectores de serviços são atacados pelos cortes salariais decretados pelo governo, tal como acontece com os capitalistas industriais de áreas de produção de bens de consumo privado.

        A frase de Marx, dizendo que «o Estado é o conselho de administração delegado da burguesia» é sugestiva e afirma de forma mobilizadora (contra a visão do estado neutro e equidistante dos interesses de classe) o carácter classista do aparelho estatal e o seu papel na dominação capitalista.
        No entanto, é deliberadamente panfletária e caricatural porque (tal como várias outras que ficam no ouvido) foi escrita num texto de divulgação e mobilização, deliberadamente simplificado e panfletário, devido ao seu objectivo e (como diríamos hoje) público-alvo. Tal como os seus textos mais analíticos e aprofundados sustentam, nem a burguesia é um bloco monolítico e isento de conflitos e contradições de interesses, nem a dominação de classe através do estado se faz de forma tão directa e imediata.
        Quer isto dizer que raciocinar tomando essa frase do Marx como uma verdade absoluta (e não como uma fórmula mobilizadora que deliberadamente sacrifica a exactidão, em benefício da capacidade de comunicar uma ideia geral) é reproduzir uma caricatura expressiva da realidade como se ela fosse a realidade, não é fazer análise marxista.

        Para além dessa questão teórica, interpretativa e analítica, não vejo que vantagens poderia trazer, em termos de táctica e mobilização, afirmar-se que a greve geral é contra os capitalistas, nem o que é que isso poderia trazer à “conscencialização das massas”, supostamente ignaras.

      • Paulo Granjo diz:

        PS: que a política seja uma mera e exclusiva expressão e decorrência da economia foi sistematicamente negado pelo Marx, através da repetição sistemática da expressão «em última instância».
        Mesmo isso, contudo, é discutível que se aplique a todos os processos e dinâmicas sociais ou, pelo menos, em todas as circunstâncias e fases desses processos.
        Mas isso é uma conversa demasiado longa para a poder ter agora.

      • Pedro Penilo diz:

        Obrigado pela correcção, Ilídio PG. É, reconheço, um formulação imprecisa.

    • Vasco diz:

      Ai numa greve geral não se confronta o patrão? Devias ver os heróicos trabalhadores dos hipermercados e dos call-centers (etc, etc, etc) há um ano a aderir à greve e a sofrer pressões imensas para não o fazerem. Greve é um embate, um confronto! Sempre!

  3. Manuel diz:

    Resolução do Conselho Nacional da CGTP-IN

    CONTRA A EXPLORAÇÃO E O EMPOBRECIMENTO

    PORTUGAL DESENVOLVIDO E SOBERANO

    GREVE GERAL

    24 Novembro 2011

    Emprego, Salários, Direitos, Serviços Públicos

    O país está confrontado com a apresentação pelo Governo PSD-CDS, de um novo e agravado programa de austeridade, sem paralelo desde o 25 de Abril. Recorde-se que Portugal já conheceu os programas de desastre do FMI em 1978 e em 1983. O novo pacote de austeridade não significa apenas a recessão económica, o empobrecimento generalizado da população e o aumento do desemprego. Representa um ataque brutal à democracia e também um recuo civilizacional, que põe em causa princípios basilares de estruturação social e direitos e garantias fundamentais, consagrados na Constituição da República Portuguesa.

    O país não pode responder a problemas económicos e sociais reais nem tem futuro com uma política que subordina os interesses nacionais ao capital nacional e multinacional e à estratégia das grandes potências europeias.

    Estamos perante um programa de agressão aos trabalhadores, ao povo e ao país. As medidas apresentadas são desastrosas, porque não só não resolvem a crise da dívida, como a agravam. Estas medidas, a concretizarem-se, mergulhariam ainda mais o país na recessão económica, que o Governo já admite seja da ordem dos 3% em 2012, o que irá agravar, em vez de reduzir, o peso da dívida.

    As medidas do Governo de direita do PSD-CDS, da UE, FMI e BCE são inadmissíveis, porque, ao ser aprofundada a recessão, é criado um ciclo destrutivo de austeridade, de mais recessão e aumento da dívida, a exemplo do que aconteceu na Grécia, com os resultados desastrosos que hoje estão à vista de todos.

    O empobrecimento dos trabalhadores, não só da Administração Pública, mas também do sector privado, dos reformados e pensionistas e da população em geral é, não só socialmente injusto e intolerável, como contraproducente, porque a quebra do poder de compra está a ter efeitos devastadores no mercado interno, levando ao encerramento de empresas e à consequente perda de postos de trabalho.

    A generalidade da população, dos trabalhadores, dos jovens, dos desempregados e dos reformados e pensionistas está a pagar a factura de uma crise que não provocaram. Foram as políticas seguidas por sucessivos Governos que levaram às perdas de competitividade da economia portuguesa; à liquidação de parte do nosso tecido produtivo; a contratos desastrosos para o Estado no âmbito das parcerias público-privadas; ao buraco do BPN, que poderá consumir 3 mil milhões de euros; à não canalização do crédito ao sector produtivo; à falta de eficiência e a baixa produtividade de muitas empresas; à corrupção, à fraude e evasão fiscais e economia clandestina.

    Os buracos de que o Primeiro Ministro fala têm origem nestas políticas levadas a cabo por sucessivos governos e que este prossegue e agrava com os impactos negativos de cada pacote de austeridade.

    Esta é uma política de terra queimada! A não ser travada, a concretização de mais privatizações, nomeadamente da captação, tratamento e distribuição de água e resíduos, de redução de serviços nas empresas de transportes, e de cortes no Estado Social, designadamente na segurança social, na saúde e na educação, a par do agravamento da inflação, conduzirá a efeitos desastrosos no desenvolvimento do país, na qualidade dos serviços públicos, na política de prevenção e provocarão o aumento da precariedade, do desemprego, da pobreza e da exclusão social.

    Em defesa dos direitos e dos interesses de quem trabalha, mas também pelo futuro de Portugal, a CGTP-IN não aceita e tudo fará para combater o roubo do subsídio de Natal de todos os trabalhadores em 2011, e dos subsídios de Natal e de férias dos trabalhadores da Administração Pública e do Sector Empresarial do Estado, assim como dos pensionistas em geral para os próximo 2 anos, os cortes nos salários, o agravamento dos impostos, a diminuição do valor e do poder de compra das pensões, a redução do subsídio de desemprego e a eliminação do abono de família e do rendimento social de inserção a milhares de famílias.

    Rejeitamos o aumento da duração do trabalho em 2,5 horas, das 40 para as 42,5 horas semanais, porque vai reduzir, em média, os salários em 7% e aumentar o desemprego, mas também porque é ilegal e subverte a negociação da contratação colectiva.

    Tal como a redução dos feriados, que também se recusa, esta é uma medida que nada tem a ver com a redução da dívida ou do défice. Trata-se, tão só, de uma transferência directa dos rendimentos dos trabalhadores para os bolsos dos grandes accionistas e do grande patronato.

    Intensificaremos a denúncia e combate aos ataques do Governo de direita e do patronato que pretendem utilizar e instrumentalizar a concertação social para pôr em causa direitos nucleares dos trabalhadores, incluindo a proibição do despedimento sem justa causa, o direito constitucional de contratação colectiva, as compensações por motivo de despedimento, a protecção social no desemprego e a desregulamentação dos horários de trabalho. Trata-se de uma subversão da Constituição da República Portuguesa.

    Portugal precisa de uma outra política que exija a renegociação da dívida – dos prazos, dos juros e dos montantes a pagar –, e promova o crescimento e o emprego com direitos, aposte na dinamização do sector produtivo, garanta o aumento dos salários e das pensões, assegure a defesa e o reforço das Funções Sociais do Estado e dos serviços públicos, valorize o trabalho e dignifique os trabalhadores.

    Neste sentido, o Conselho Nacional da CGTP-IN, reunido a 18 e 19 de Outubro de 2011, decide:

    Saudar as lutas dos trabalhadores e trabalhadoras de todos os sectores de actividade, assim como todos os que participaram nas Grandes Manifestações realizadas no dia 1 de Outubro, em Lisboa e no Porto, exortando-os a prosseguir a acção, a partir dos locais de trabalho, exigindo resposta positiva às suas propostas e reivindicações;
    Intensificar o esclarecimento e a mobilização dos trabalhadores e trabalhadoras para as lutas que estão em curso e, desde logo, para a preparação das acções de sensibilização, de mobilização e de presença na rua que terão lugar entre 20 e 27 de Outubro;
    Apelar a todas as organizações sindicais, assim como aos trabalhadores dos sectores privado e público, a indispensável convergência na acção com vista ao reforço da unidade na acção a partir dos locais de trabalho, na luta contra este programa de agressão, por melhores condições de vida e de trabalho, por um Portugal com futuro;
    Convocar uma Greve Geral para o dia 24 de Novembro de 2011, contra a exploração e o empobrecimento; por um Portugal desenvolvido e soberano; pelo emprego; salários; direitos; serviços públicos;
    Promover, através das Uniões Distritais de Sindicatos, no dia da Greve Geral, acções públicas em diversos Distritos para dar expressão pública à indignação geral contra a política de direita e as posições retrógradas do patronato, e exigir uma mudança de política que respeite e valorize os trabalhadores e assegure o desenvolvimento económico e social do país.

    Lisboa, 19.10.2011

  4. Zegna diz:

    Greve geral ? serve para quê?
    serve para perder dinheiro e os patrões ficarem a rir-se…………..enfim……..
    Tantas reivindicações e tanta contestação contra este governo? foi o escolhido por quem foi votar e pelos outros otários que não foram votar. Agora queixam-se? é tarde……..as eleições já foram……..escolhem-se outros , estavam lá boletim…….não reparam nos outros partidos? temos pena……..agora chiam………

  5. Paulo Granjo diz:

    É um argumento.
    Mas, como todos os que começão com «Por definição» ou podiam começar, devido à sua lógica, resguarda-se numa definição possível (que se apresenta como evidente e universal) para tentar não ver, ou contornar, a realidade empírica.

    Suponho que não será preciso lembrar-te que, noutro país oficialmente lusófono, «greve» quer dizer paralização da cidade, com motim popular (o que, obviamente, não me agradaria por cá).
    Ou que a greve geral dos nossos avós, que só chegou a arrancar na Marinha Grande, pretendia ser parte e trampolim de mobilização para uma inssureição (como aliás muitas outras, em muitos países, antes e depois).
    Ou, ainda, que as fotos que temos das greves gerais na I República mostram os grevistas em manifestações ou comícios sindicais em praças públicas.

    Talvez baste limitar a coisa à história recente e às instituições sindicais hoje existentes, e
    lembrarmos que a 2ª greve geral do pós-25 de Abril (aquela em que o cartaz era negro) foi convocada devido à violenta repressão policial da anterior, que matou trabalhadores que estavam na MANIFESTAÇÃO DA GREVE GERAL, no Porto. E que essa segunda greve geral também teve manifestações e comícios sindicais.

    Compreendo bem quais são as razões subjacentes a esse súbito, empenhado e concertado clamor de algumas pessoas acerca do “evidente facto” de que uma greve geral não pode ter, “por definição”, outras acções que não piquetes. Por pudor não as explicito aqui, mas certamente não duvidas que saiba quais são.
    Mas parece-me bem que, se as pessoas que partilham dessas preocupações e razões (de que discordo) querem justificar eficazmente a opção que querem ver ser tomada, é melhor arranjarem outro argumento.

    • Paulo Granjo diz:

      PS: isto era uma resposta à resposta do Pedro. Parece que saiu afixada noutro sítio.

    • Manuel diz:

      “a 2ª greve geral do pós-25 de Abril (aquela em que o cartaz era negro) foi convocada devido à violenta repressão policial da anterior, que matou trabalhadores que estavam na MANIFESTAÇÃO DA GREVE GERAL, no Porto. “ ??????

      Aldrabice completa! Essa 2ª Greve Geral ocorreu em 11 de Maio de 1982 como protesto contra os incidentes registados na madrugada de 1 de Maio no Porto que levaram ao assassinato de dois jovens activistas da CGTP e a mais de 100 feridos!

      Foi decorrente da preparação da MANIFESTAÇÃO DO 1º DE MAIO de 1982!

    • João Pais diz:

      Isto faz lembrar o “tinha aqui uma coisa que te partia todo, mas prefiro não usar” das brincadeiras das crianças… um bocadinho de honestidade intelectual não dá para ter aqui com o povo? Se tem um argumento desembuche homem! Niguém aqui quer ficar a achar que tem razão quando você tem essa arma secreta (qual Mantorras no Benfica de 2002) aí escondida…
      Além disso, já aqui foi dito, os assassinatos foram no 1º de Maio.
      Finalmente, subscrevo o que diz o Pedro – substituir o confronto com o patronato pelo confronto com o governo é apenas anti-marxista, ou como agora se lhe chama “neo-marxista”…

    • Pedro Penilo diz:

      O objectivo primordial da organização de uma greve geral é o sucesso inequívoco dessa greve geral.

      Uma greve geral é um forma de luta superior. Por isso é que temos, na nossa história democrática, cinco greves gerais, mas dezenas de manifestações massivas. Nos últimos meses não nos têm faltado manifestações para todos os gostos e feitios.

      Quem arrastou o meu post para o terreno das “definições” foste tu, caro Paulo. Eu não li nem propus essas definições, limito-me a seguir a minha experiência própria e o conhecimento que ela me dá e que tu conheces e partilhas.

      E, por isso mesmo, não pode ser a minha argumentação adjectivada de a-histórica, na medida em que ela é feita de pura história (a minha, dos meus).

      • Paulo Granjo diz:

        Serve este comentário, fundamentalmente, para corrigir uma afirmação factual anterior, cuja incorrecção foi aqui sublinhada.
        Fui procurar no arquivo de velhas papeladas e verifiquei que, de facto, a memória me pregou uma partida de que peço desculpa a quem leu e discutiu nesta caixa de comentários. De facto, conforme me corrigiram por aqui, a repressão policial e mortes que deram origem à convocação da segunda Greve Geral do pós-25 de Abril não ocorreram na primeira (em Fevereiro de 1982), mas no 1º de Maio desse ano.
        Entretanto, ao confirmar este aspecto, encontrei também fotos e notícias de manifestações e concentrações, quer na primeira Greve geral, quer na segunda. A discussão desse ponto, contudo, está já felizmente ultrapassada pelos acontecimentos.

        Quanto às definições, não foste de facto tu (mas outro co-bloguista) quem partiu delas. Aliás, habituado que estás a discutir em espaços de debate livre e plural, sabes bem que, quando alguém começa um argumento com «por definição», já todos os seus interlocutores estão a pensar «vai sair daqui asneira». Não obstante, o teu desenvolvimento de argumentos acabou por desembocar aí. Talvez por serem indefensáveis por qualquer outra forma que não essa. E certamente (conforme referes) de forma que contradiz a maneira como pensas e olhas o mundo, pelo menos quando não te sentes numa missão de defender uma consigna pré-determinada.

        Mas, conforme disse há pouco, este penoso pseudo-debate tornou-se ancient history.

        Aquele abraço. Sempre.

  6. orlando diz:

    Pedro, concordo contigo e assino por baixo, mas penso, e já tive a oportunidade de o dizer a dirigentes sindicais, que se deveria fazer, outra manifestação, convocada pelos sindicatos, antes da greve geral (nunca em dia de greve geral), penso que ela ( a manif) iria ganhar mais pessoas para o êxito da greve e mostrar assim a indignação pelas medidas tomadas.
    Quanto aqueles que acham que se deveria fazer manif em dia de greve, perguntava, como se deslocam as pessoas se os transportes estarão parados ???

  7. Rascunho diz:

    Ceio que a questão é outra – apesar de precisarmos das greves e de manifestações, precisamos, se quisermos mudar este sistema, de uma revolução/sublevação…

    Claro que gostaria de observar isto a ir ao sítio na forma organizada, mas o que tem ido para o sítio (bolsos da bandalheira) de forma organizada é o nosso dinheiro.

    Portanto: é por estar a antever o que aí vem, que procurarei colaborar em todas as frentes de forma organizada enquanto puder…

  8. franciscofurtado diz:

    A Internet, os Blogs e afins são fantásticos meios de comunicação e debate, mas como qualquer veículo têm as suas limitações. Uma delas é o exacerbar dos reflexos pavlovianos. Ao ler o post acima tecem-se uma série de considerações acerca do que escrevi, às vezes à procura da critica, que afinal não tem fundamento:

    “Outra questão não é ponderada. Diz-se: a luta grega leva dois anos de avanço. Mas não será a crise grega a levar dois anos de avanço?”

    Óbviamente, aliás eu n disse que a luta levava 2 anos de avanço, mas a situação no seu conjunto (é reler o texto). É o reflexo pavloviano ultra defensivo de quem está sempre à espera da crítica destrutiva.

    E geralmente tecem-se n considerações críticas para afinal concordarmos em larga medida:

    “Mas concordo e apoiarei iniciativas de outras camadas da população, ou sectores não abrangidos pelo pré-aviso de greve – trabalhadores por conta própria, desempregados, estudantes, etc. – como manifestações, engrossando o caudal de luta. Como fizeram os artistas na greve geral passada.”

    Exactamente… Onde se calhar divergimos é que eu acho que todas as forças da resistência popular devem coordenadamente começara ensaiar e a preparar Greves Gerais no “estilo” do que está hoje a ocorrer na Grécia. Como disse no post (a malta também faz o que se chama leitura selectiva…) “Por n motivos a greve geral de 24 de Novembro, não será como “a Mãe de todas as greves”, mas para aí deveremos caminhar. Ou os camaradas do KKE são uma cambada de cagões, como alguém aqui disse noutro post? E salvaguardando todas as diferenças não há objectivamente a aprender com os protestos Gregos? E aprender não é copiar minéticamente, não aprender é perceber os processo e os seus impactos e transportar/testar/ensaiar para a nossa realidade aquilo que é mais eficaz e eficiente…

    Percebo que a malta do PCP, vítima de ataques constantes de vários sectores, desenvolva uma reacção condicionada a tudo o que percepcionem como um ataque ao “Partido” ou à sua concepção de Luta. Ora uma crítica ou opinião não é um ataque de morte.
    Parece-me óbvio (e apesar de tudo pelo que tenho lido e visto, acho que é uma percepção consensual) que dada a dimensão do ataque e o que está em causa, pensar que utilizar, só por si, as mesmas ferramentas de luta que foram utilizadas nos últimos 20 anos, é claramente insuficiente para triunfar. Ou não?

    • Manuel diz:

      “Parece-me óbvio (…) que dada a dimensão do ataque e o que está em causa, pensar que utilizar, só por si, as mesmas ferramentas de luta que foram utilizadas nos últimos 20 anos, é claramente insuficiente para triunfar.” ???

      Nos últimos 20 anos?

      Nem sequer ainda reparou que a 1ª Greve Geral pós-25 de Abril ocorreu nada mais nada menos do que há quase 30 anos?

      Sim ocorreu em 12 de Fevereiro de 1982, em protesto contra a política do Governo da AD de que era Primeiro-Ministro Pinto Balsemão, constituindo, até essa altura, a maior jornada de luta na história do movimento operário e sindical português.

    • Rosa diz:

      Quero recordar aqui, muito brevemente, a luta dos professores portugueses desde 2008. Foram muitas as formas de luta, “novas” e “velhas”, experimentou-se quase tudo: plenários de escola, plenários distritais, manifestações regionais em crescendo, manifestações nacionais descentralizadas, manifestações nacionais com 50, 80, 120 mil pessoas, as greves rotativas, as greves nacionais de dezembro 2008 e janeiro 2009 (80% e 92% de adesão), com e sem manifestação; a luta organizada com a fenprof, com os movimentos, com a Plataforma…
      E à pergunta que está agora na cabeça de muitos: “E o que ganharam os professores portugueses?”, quero dizer que, no imediato, pouco, mas face à força do ataque do ME e do Governo (sim, porque eles sentam-se todos à mesma mesa às quintas-feiras) ganhou a Escola Pública que resistiu e vai precisar de continuar a resistir com “novas” ou “velhas” formas de luta. O que importa, na verdade, é que sejamos todos e muitas vezes todos, sem desistir.

    • Pedro Penilo diz:

      Francisco Furtado,

      pelos vistos quem se abespinhou com a crítica foi você. Eu não me queixei, nem me referi às suas hipotéticas qualidades… caninas. Fui directo ao assunto, não improvisei sobre a psicologia das “reacções”, “reflexos”, e as suas companhias (a sua “malta”).

      A leitura selectiva só pode ser a sua. A sua queixa aqui subverte aquilo que concretamente eu escrevo no texto.

      É que eu não nego a necessidade de se fazerem novas e renovadas lutas.

      Nem percebo onde leu que não devíamos aprender com os gregos.

      A minha crítica do seu texto não é sobre nada disso. A minha pergunta é: mas aprender o quê? Onde é que no seu texto se justifica a tal aprendizagem, quando dele apenas se retira um enlevo por formas. Não há uma palavra a explicar em que é que elas são melhores, que resultado produziram. O seu texto revela um entusiasmo pela pura espectacularidade da luta.

      Eu não reduzi a luta a coisa nenhuma. A redução é toda sua.

  9. António Paço diz:

    Tanta ‘teoria’ gasta para uma coisa tão simples! Trazer os trabalhadores em greve para o centro das cidades (manifestações) é parte do esforço e do confronto que sempre representa a greve. A greve põe sempre em causa quem manda: o patrão ou os trabalhadores? Ora as fábricas e empresas ficam quase sempre ‘escondidas’ em zonas suburbanas. Trazer a greve para o centro da cidade é dar-lhe força, e é transmitir essa força a outros sectores sociais urbanos.
    Outra questão aqui levantada: a que a recusa de fazer acompanhar as greves ou a greve geral de manifestações nos centros urbanos seria a ‘tradição’ ou o ‘estilo’ de trabalho do pessoal do PCP. Falso. Eu sempre fiz o contrário, e acompanhado dos meus camaradas do PCP. O que é que se fica a fazer escondido em Queluz-de-Baixo ou em Sacavém? A guardar a fábrica? E não se lembram dos desfiles de tractores e camionetes com trabalhadores rurais alentejanos nas manifestações em Lisboa? Vinham cá fazer o quê? Folclore? Ou estender a luta e transmiti-la à gente da cidade? Afirmar que o País é deles, é nosso!

    • Pedro Penilo diz:

      Dizer que a greve fica em zonas “escondidas” já diz bem do ponto de vista em que se coloca – o das zonas “visíveis”, obviamente. Acontece que a empresa é para os trabalhadores das coisa mais visíveis e contundentes que há. Por isso é que é lá que ela é protagonizada – e, de modo inverso, por isso é que aqueles que não as vêem as querem tanto ao pé de si.

      “Guardar a fábrica”, disse. É exactamente isso que devem fazer os grevistas à fábrica, como a coisa sua. Acontece que são precisamente as greves sectoriais ou localizadas as que podem ter necessidade de estabelecer contacto com outros trabalhadores e a população em geral. E, desse ponto de vista, aí se compreende uma manifestação ou desfile de tractores. Mas uma greve geral toca toda a sociedade. Não precisa desse tipo de publicidade. E é, pelas suas características de aguda politização, uma greve mais difícil. Daí a necessidade de concentrar todos os esforços na mobilização e motivação de todos os trabalhadores, no seu sucesso, portanto.

      Quero lembrar que uma greve dá trabalho a quem a faz, na sua preparação e no seu decorrer. Não é um fenómeno natural. É por isso ligeiramente (só ligeiramente) imoral, que quem ouve das greves pelos jornais se arrogue o direito de recomendar ou ousar impôr os seus modos. Claro que – como se percebe do que escreve – o António Paço é um frequentador dos plenários e comítés de greve, ou dos piquetes que desde as 18 horas da véspera, até à à madrugada do dia seguinte, as asseguram. Por isso, este reparo não lhe poderá ser dirigido mas certamente a muitos outros que acham que as greves andam “escondidas”.

      • António Paço diz:

        Pedro Penilo, a sua resposta é cautelosa porque suspeita, e bem, de que sei do que falo. Mas contradiz-se quando quer zurzir nos que só «ouvem das greves pelos jornais»: se os jornais falam tão pouco das greves, não lhe parece que era bom dar-lhes mais visibilidade?
        Quanto à sua defesa do ficar a «guardar a fábrica», vai desculpar que não lhe responda. Acredito que qualquer sindicalista que leia isto saberá porquê.
        E não respondeu a outra questão: não existe nenhuma tradição de não associar greves, gerais ou não, a manifestações. Muito menos do PCP. Qualquer organização pode mudar de orientação sobre o que lhe der na gana quando muito bem entender. O que não pode (ou não deve) é inventar tradições onde elas não existem.
        Por último, deixe-me esticar o seu e o meu raciocínio sobre a visibilidade das formas de luta a outra área: que recomendaria à malta dos guetos que façam quando, por exemplo, matam um miúdo negro no bairro? Que façam uma manifestação no Casal de São Braz? Ou que a tragam para o centro da capital? É uma discussão em curso e que está longe de estar ganha.

        • Pedro Penilo diz:

          Não lhe respondo à questão da “tradição (do PCP)” porque é simplesmente um exemplo de raciocínio de alguém que não lê bem os textos de outros. Verá numa segunda (primeira?) leitura que não invoco nenhuma “tradição”. Invoco sim a função central e prioritária de uma greve: paralisar a empresa.

          E agora sim fico definitivamente convencido que não, não sabe do que está a falar. Não só já porque insiste no dilema da “invisibilidade” – posição que só pode vir de que se coloca de fora (e, portanto, logicamente se queixa de que pouco “vê” nos jornais); mas também porque só quem nunca preparou, se empenhou e assegurou materialmente uma greve, em corpo, alma e tempo (ou disso há muito já se esqueceu) pode continuar a negligenciar a importância crucial da presença, o mais massiva possível dos trabalhadores na empresa.

          Insiste ainda, como outros, numa falsidade em relação ao meu texto: a de que recusaria a realização convergente e paralela de manifestações. Obviamente não leu o texto, ou quis ler outra coisa.

  10. Vasco diz:

    Grande texto, Pedro.

  11. A.Silva diz:

    Faço minhas as palavras do Pedro:

    “A arena da luta dos trabalhadores é a empresa. É ali que, na greve, se afirma o seu domínio e se exprime (e reitera) o facto de que são eles o motor da sociedade. É lá que se revela mais claramente a luta de classes. É lá que, todos os dias, mas particularmente, a cada greve, se reforça a organização e a consciência dos trabalhadores. Os trabalhadores devem enfrentar com crueza a decisão de fazer greve e assumi-la perante o patrão. E perante todos os outros.

    Mas concordo e apoiarei iniciativas de outras camadas da população, ou sectores não abrangidos pelo pré-aviso de greve – trabalhadores por conta própria, desempregados, estudantes, etc. – como manifestações, engrossando o caudal de luta. Como fizeram os artistas na greve geral passada.”

  12. RML diz:

    Post sublime, em toda a linha em ambas as discussões.

    Primeiro, em relação à Grécia, por fazer a avaliação de onde deve ser feita. O entusiasmo em relação ao que se passa lá é legítimo e explicar exactamente o que está a acontecer é uma tarefa de todos aqueles que pretendem contribuir para a construção da alternativa. O que também deve fazer parte da reflexão é a dificuldade que, apesar de ser a enésima greve, persiste em se passar à ofensiva. Uma das coisas chatas da luta de classes é que a luta é tão desenvolvida pelos proletários como pelos capitalistas. A velhinha tese leninista, que o Partido Comunista Português repetiu incansavelmente durante o fascismo, de que para haver uma situação revolucionária é preciso os de baixo não quererem continuar como dantes e os de cima não conseguirem continuar como dantes mantém a sua inteira actualidade. Resistir é a tarefa do momento, através de todas as ferramentas que sejam úteis.

    Em relação à questão das manifestações, além da correcção já feita ao que disse Paulo Granjo sobre a Greve Geral de 1982, importa perceber duas coisas em relação ao 18 de Janeiro e em relação às greves gerais da Primeira República. Primeiro, em relação a estas últimas, importa perceber que a CGT tem uma vida marcada por inúmeras insuficiências ideológicas e de condução política das lutas, o que também contribuiu para o seu ocaso; perceber também que apesar da combatividade e coragem que a caracterizava, as greves gerais não eram o cúmulo da organização, havendo várias marcadas de véspera e com escassa mobilização. Em relação ao 18 de Janeiro, dizer que 1. não arrancou só na Marinha Grande, embora só lá tenha assumido carácter insurrecional; 2. não terá sido por acaso que Bento Gonçalves caracterizou o movimento na Marinha Grande como «anarqueirada». Mas ainda assim, tanto nas outras como nesta, a oposição, tal como agora, era com os patrões, sim.

  13. João diz:

    Mas será que ninguém leu o comunicado da CGTP a afirmar que vão existir manifestações no dia da greve?
    “Promover, através das Uniões Distritais de Sindicatos, no dia da Greve Geral, acções públicas em diversos Distritos para dar expressão pública à indignação geral contra a política de direita e as posições retrógradas do patronato”

    • Pedro Penilo diz:

      Houve, em algumas greves gerais, concentrações de activistas sindicais, ao fim do dia. Na primeira, houve mesmo um carga policial no Rossio, para proteger um carro de som da UGT que anunciava a sua rejeição da greve geral. Eu estava lá.

      O que algumas vozes têm encomendado é outra coisa. Trata-se de uma mobilização massiva que simplesmente esvaziaria as empresas.

  14. Ilídio PG diz:

    A sociedade capitalista moderna é dominada pelos grandes monopólios (ou, com um pouco mais de generalidade, pelo grande capital). A própria classe da burguesia é dominada pela sua fracção monopolista (pelo grande capital), passou a depender dela, nomeadamente para a manutenção e a defesa do sistema de exploração. Isso permite à burguesia monopolista, à grande burguesia, socialmente, politicamente, representar a classe, falar em nome da classe, confundir e subordinar aos seus interesses sociais específicos os interesses de toda a classe. É, por isso, fundamentalmente a essa fracção hegemónica da classe capitalista que nos referimos quando falamos na oposição, antagónica, entre os interesses da generalidade dos trabalhadores (não apenas assalariados) e os interesses da classe capitalista, sem negar, evidentemente, que existem contradições agudas, mas secundárias face à apontada, entre trabalhadores e pequenos e médios capitalistas e entre estes e o grande capital monopolista.

    A ameaça fascista, o fascismo, independentemente da base social que arrastava, e das ilusões criadas entre camadas que objectivamente prejudicava, servia essencialmente os interesses dos grandes monopólios, do grande capital, do grande patronato. Afirmar que “o ascenso fascista não era apoiado pela globalidade dos capitalistas” pouco mais seria que uma trivialidade se não trouxesse consigo o erro de descurar o papel dominante e hegemónico que a fracção monopolista da burguesia exerce sobre o resto da classe capitalista e, o que será ainda mais grave, da natureza económica do conflito que, dominando essa classe, a opõe violentamente aos trabalhadores (nomeadamente através da aspiração da riqueza extorquida aos trabalhadores e outras camadas populares pelo resto da burguesia).

    A greve geral de 1934 em França foi uma grande batalha de classe entre trabalhadores e capitalistas (grandes capitalistas), um grande confronto entre uma perspectiva de defesa dos interesses fundamentais dos trabalhadores e uma perspectiva de salvaguarda dos interesses fundamentais dos grupos económicos e financeiros, e se o Paulo Granjo for ao ponto de recordar que nem mesmo todos os grandes empresários estavam do lado do fascismo só me resta dizer-lhe que deveria perceber, primeiro, a diferença e os desajustes entre os interesses fundamentais de uma classe (manter e aumentar a exploração, no caso da burguesia) e a consciência desses interesses fundamentais (a sua consciência de classe), e, segundo, quanto mais não seja, a inevitável dispersão estatística de opiniões, sensibilidades, sentimentos, convicções, perspectivas e orientações, mesmo por parte de indivíduos com a mesma situação social.

    Deixando de lado as “conversas demasiado longas”, a questão fundamental é que a formulação do Paulo Granjo mascara a natureza económica e social da greve geral e, embora refira noutro lado o carácter classista do Estado, retira da cena do conflito real os actores (o grande patronato, o grande capital) que justificam exactamente essa caracterização.

    Repare-se, esquematicamente. Se na greve local, o confronto é com o patrão, então a arena de combate é a empresa, o local de trabalho. Se na greve geral o confronto passou a ser com o governo (que serve quem?), é com perfeita naturalidade que se conclui que a arena de combate deixou de ser a fábrica e passou para o espaço público. Num passe de magia, a greve transformou-se em… manifestação.

    Caricaturei, mas limitei-me a entrar pela porta aberta pelo Paulo.

    Seja como for, é difícil compreender como se pode afirmar que, para além da discussão da natureza dos objectivos, na greve local, o confronto se deu com o patrão (que pode retaliar, discriminar, prejudicar, talvez despedir) e, na greve geral, o mesmo acto, do mesmo grevista, deixou de confrontar o patrão (que perderia razão para retaliar, discriminar, prejudicar, talvez despedir?).

    Não. A primeira intervenção do Paulo foi útil para chamar a atenção que a dimensão, nacional e política, de uma greve geral a coloca em confronto com o governo. Mas borrou a pintura quando escondeu aqueles que se combatem e a quem serve a política que se combate.

    Resumirei esquematicamente, para apanhar o fundamental. A greve geral defende os interesses fundamentais dos trabalhadores. Os interesses fundamentais dos trabalhadores, que são explorados na sociedade capitalista, consistem em diminuir, se possível eliminar, a exploração. Isso colide frontalmente com os interesses dos capitalistas (dos grandes capitalistas), que são os exploradores nessa sociedade e cujos interesses fundamentais consistem, inversamente, em manter, se possível aumentar, a exploração. Colide, em particular, com a política do governo posta ao seu serviço. A contradição é antagónica, o conflito incontornável (luta de classes). A greve geral é uma arma dos trabalhadores de especial importância nesta luta.

    A greve geral deve, antes de mais, ser sentida pelo patronato, logo nos sítios onde o conflito fundamental, a exploração, se dá. Deve, também, ser sentida pelo governo, indirectamente porque se feriu a classe que serve (o grande capital), directamente porque se perturbou o domínio do espaço público e da vida social que lhe cabe assegurar a essa classe.

    O fundamental na greve geral é paralisar, parar ao máximo a produção, a distribuição, a circulação, de bens e pessoas (com respeito pelos serviços mínimos para salvaguardar situações de necessidade social e socorro). Tudo se deve subordinar a este objectivo, nada deve prejudicá-lo, no seu alcance, na sua visibilidade, na sua eficácia. Desde que isso esteja garantido, admitem-se acções que potenciem ou complementem a greve. É nesta base, e só nesta base, que se podem discutir acções como manifestações (necessariamente condicionadas pela paralisação dos transportes e da intervenção prioritária dos activistas nos piquetes).

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