Contra o Senhor 23%

Vivam as tascas e restaurantes populares!

Há quatro anos, numa entrevista ao Sol, António Nunes, então e agora inspector-geral da ASAE, declarou guerra às tascas e restaurantes populares. Segundo ele, Portugal tinha «três vezes mais restaurantes por habitante do que a média europeia», que seria de 374 habitantes por restaurante, enquanto em Portugal eram 131. «Isto não tem viabilidade económica», decretou. Vai daí, toca a apertar com os «regulamentos comunitários», o que levou já muitos estabelecimentos familiares a fechar portas.

Agora o ministro Vítor Gaspar e o Governo Passos e Portas querem dar-lhes outra machadada aumentando o IVA sobre a restauração para 23%. Mas quem beneficia com o fim das tascas a não ser a Nestlé e outras multinacionais do género que já têm as suas saladinhas higiénicas envoltas em celofane prontas a servir, cumprindo todos os regulamentos da UE?

Algures no século passado, tive por patrão o ‘velho’ Francisco Lyon de Castro. Este tinha um critério curioso para medir o grau de civilização de cada país: o tamanho e a limpeza das casas de banho. O panorama era mau em Portugal e Espanha e só começava a melhorar quando chegávamos ali a Hendaye.

Ora os índices de civilização nunca são unívocos. Podemos estar num nível inferior nas casas de banho (apesar das melhorias entretanto registadas), mas esta persistência dos Portugueses em almoçar numa tasca ou restaurante popular, na companhia dos colegas, em vez de comer uma sandes à pressa, sozinho, em cima da secretária ou num canto da ‘parada’ da fábrica é uma grande conquista civilizacional. Algumas pessoas chamam a isto o ‘desenvolvimento desigual e combinado’.

Parece que foi um holandês que inventou a regra dos 3% de défice. Também foram eles que inventaram essa coisa execrável chamada dutch lunch. E vede-los Alamanos às voltas com os seus pobres brötchen ou os Belgas com as suas petites tartines! Perdoai-lhes, que não sabem o que fazem.

Quanto a nós, em vez de acabarmos com as tascas, devíamos era, cantando, espalhar por toda a parte o culto da sardinha assada e da boa febra, do caldo verde com chouriço, do peixinho cozido ou grelhado regado com azeite, já que para os fazer tivemos engenho e arte, e inscrever na futura Constituição europeia o direito inalienável à hora de intervalo para almoço, de preferência em boa companhia, sentados à mesa do tasco ou restaurante, em volta de um prato suculento e saudável.

Este artigo foi publicado em cinco dias. Bookmark o permalink.

2 respostas a Contra o Senhor 23%

  1. DrStrangelove diz:

    Contra a gastronomia alarve.
    Por uma gastronomia moderna.

Os comentários estão fechados.