O meu ranking das escolas

Ano após ano, a comunicação social apresenta-nos resultados completamente falaciosos do panorama das nossas escolas secundárias. Quem vir esses «rankings» chega à conclusão de que se vive o melhor dos mundos nas escolas privadas e o «inferno na terra» nas escolas públicas. São «rankings» que ignoram a componente sócio-económica dos alunos que compõem cada escola.
São «rankings» que ignoram também a localização de cada escola – estar situada no litoral ou no interior não é despiciendo. São «rankings» que ignoram ainda o número de alunos que cada escola leva a exame – nuns casos, 50; noutros casos, 500.
Bastava deslocar os alunos de uma escola privada para uma pública, e vice-versa, e os resultados seriam exactamente o oposto. Uma escola em 400.º lugar no «ranking» pode fazer um trabalho melhor do que uma escola classificada nos 10 primeiros lugares.
Como não é possível transferir os alunos, decidi elaborar o meu próprio «ranking» das escolas secundárias em 2011. Partindo das Classificações de Exame em cada escola, decidi acrescentar uma variável sócio-económica, uma outra variável geográfica e uma outra relacionada com o número de alunos que cada escola levou a exame. Estas variáveis destinam-se a corrigir as assimetrias regionais e económicas que se verificam no nosso país e a dimensão de cada estabelecimento de ensino.
Essas duas variáveis traduzem-se da seguinte forma no meu «ranking»:
– 1ª bonificação para as escolas públicas dos distritos do interior do país;
– 2ª bonificação para as escolas públicas dos distritos do litoral do país (excepto Lisboa e Porto)
– 3ª bonificação para as escolas privadas do interior do país;
– 4ª bonificação por cada 100 exames realizados para todas as escolas.

Tendo em conta estes valores, obviamente subjectivos (mas tão subjectivos como a lista que a comunicação social anualmente publica), o meu «ranking» é o seguinte:

1 – Escola Secundária Alves Martins (PUB, Viseu)
2 – Escola Secundária Jaime Moniz (PUB, Madeira)
3 – Externato Ribadouro (PRI, Porto)
4 – Escola Secundária Garcia de Orta (PUB, Porto)
5 – Escola Secundária Carlos Amarante (PUB, Braga)
6 – Escola Secundária Gabriel Pereira (PUB, Évora)
7 – Escola Secundária Francisco Rodrigues Lobo (PUB, Leiria)
8 – Escola Secundária Domingos Sequeira (PUB, Leiria)
9 – Escola Secundária de S. João do Estoril (PUB, Lisboa)
10 – Escola Secundária Eça de Queirós – Póvoa (PUB, Porto)
11 – Escola Secundária de Raúl Proença (PUB, Leiria)
12 – Escola Secundária Vergílio Ferreira (PUB, Lisboa)
13 – Escola Secundária Infanta D. Maria (PUB, Coimbra)
14 – Escola Secundária Leal da Câmara – Sintra (PUB, Lisboa)
15 – Escola Secundária Santa Maria de Sintra – Sintra (PUB, Lisboa)
16 – Escola Secundária D. Maria II (PUB, Braga)
17 – Colégio Nossa Senhora do Rosário (PRI, Porto)
18 – Escola Secundária de José Gomes Ferreira (PUB, Lisboa)
19 – Escola Secundária Dr. Ginestal Machado (PUB, Santarém)
20 – Escola Secundária Sebastião e Silva – Oeiras (PUB, Lisboa)
21 – Escola Secundária Poeta António Aleixo – Portimão (PUB, Faro) 22 – Escola Secundária Camilo Castelo Branco (PUB, Vila REal)
23 – Colégio Luso-Francês (PRI, Porto)
24 – Escola Secundária da Amadora (PUB, Lisboa)
25 – Escola Salesiana do Estoril (PRI, Lisboa)

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13 respostas a O meu ranking das escolas

  1. Pisca diz:

    Um pormenor sem importância, este ranking tem por base exames nacionais também aplicados ao Colégios Privados, ou cada Colégio fez os seus próprios exames

    Pergunto cá por coisas

    • l'outre diz:

      Os exames nacionais são iguais para todos, quer sejam do público quer sejam do privado.

      É importante referir que os exames nacionais são só uma parte da avaliação individual dos alunos. A grande fatia da nota dos alunos no secundário é a “avaliação interna”, que é dada por cada professor e não tem qualquer carácter universal à população estudantil.

      • l'outre diz:

        Esqueci-me de dizer um outro detalhe importante: Os exames nacionais são realizados todos à mesma hora, o que quer dizer que nenhum estudante poderá perguntar a nenhum colega quais as perguntas que saíram.

  2. luis diz:

    Bom post. Parabéns. Falta algum detalhe técnico, mas ilustra bem a fragilidade do sistema de ranking.

  3. l'outre diz:

    Para completar o seu post só precisa de indicar qual é o valor de cada uma das bonificações.

    Embora perceba (e de certa forma aprove) o seu raciocínio, está a ignorar uma grande vantagem do ranking “oficial”: é totalmente objectivo, i.e. não depende de qualquer subjectividade. As escolas estão a ser ordenadas pelos resultados que os seus alunos obtiveram nos exames nacionais, que são iguais para todos os alunos. Não há exames nacionais diferentes para alunos do público ou do privado. Também não há exames nacionais diferentes para alunos do interior ou do litoral.

    Por isso é que eu gosto dos exames nacionais, porque pela primeira (e provavelmente única) vez na vida os estudantes são todos avaliados em pé de igualdade. Independentemente das suas condições económicas, independentemente da cor da pele, independentemente do género ou crença, no fim do dia ou o estudante sabe a matéria e “safa-se” no exame, ou não sabe a matéria e chumba.

    Os exames nacionais são uma medida objectiva, não do acto de ensinar, mas do conhecimento dos alunos naquele momento.

    Um outro motivo pelo qual eu gosto dos rankings “oficiais” é porque põem a nu aquele que é o principal entrave ao progresso social: a distribuição assimétrica de conhecimento. Estes rankings evidenciam que os alunos menos favorecidos economicamente têm formação de menor qualidade e menos oportunidades que os mais ricos. E o mesmo pode ser dito em relação aos alunos do interior. Ao fazer esta radiografia ao conhecimento dos alunos do secundário, este ranking diz-nos onde é que o estado deve de intervir. É, ao contrário de muitas ferramentas estatísticas, uma ferramenta útil, pois diz-nos onde é preciso mais esforço.

    • De diz:

      “…pela primeira (e provavelmente única) vez na vida os estudantes são todos avaliados em pé de igualdade. Independentemente das suas condições económicas, independentemente…”
      Lê-se e não se acredita…

      Aqui vai um artigo mais para ao menos… http://ladroesdebicicletas.blogspot.com/2011/10/fraude-pouco-inocente-dos-rankings.html
      em que sublinho o último parágrafo:
      “E, no entanto, todos os anos a fraude que são os rankings ganha visibilidade e influência. E, com isto, as escolas privadas ganham clientes (mesmo que não os mereçam) e subsídios do Estado; parte da classe média desiste da escola pública, iludida por esta publicidade enganosa (favorecendo a desqualificação do sistema público); e as escolas públicas lutam pela sobrevivência fazendo dos exames nacionais o fim último da sua existência. E, face a isto, ainda há quem continue a acreditar que os rankings das escolas prestam um bom serviço ao país.”

      • De diz:

        Correcção:
        Artigo mais ou menos esclarecedor de acordo com o perfil de ranking de leitor…

      • l'outre diz:

        Eu acho que o de não está a ler os rankings como deve ser. Aliás esse problema é comum a grande parte da sociedade. Os rankings revelam a distribuição do nível de conhecimento à saída do secundário.

        Independentemente de os alunos de um bairro social serem “mais difíceis” que os do bairro da alta burguesia. Independentemente de os estudantes do interior terem “menos oportunidades de estudo” que os estudantes do litoral. Independentemente de tudo isso, têm que responder exactamente às mesmas perguntas em exactamente o mesmo tempo. O exame nacional mede a distribuição (geográfica e não só) do conhecimento. Se o sistema de educação estiver a funcionar bem, essa distribuição será homogénea por todo o território e por todos os estratos sociais.

        O erro que muita gente comete ao analisar os rankings é achar que eles revelam o mérito ou a produtividade do processo educativo. Isso não pode ser concluído a partir destes rankings. A única coisa que é medida nos rankings é o nível de conhecimento dos estudantes. E a conclusão é: os estudantes do litoral têm mais conhecimentos do que os do interior, assim como os mais ricos têm mais conhecimento que os mais pobres. Isto nada diz sobre a progressão dos conhecimentos dos mais pobres ou dos alunos do interior.

        Os rankings identificam assim ONDE existem os problemas do sistema de ensino, mas não conseguem identificar a CAUSA dos problemas. Isso está para além da informação que os rankings disponibilizam. É este o erro que a maioria da população comete: acham que os rankings revelam a causa do problema. Os rankings não nos dizem COMO actuar, dizem-nos apenas ONDE actuar.

  4. Pedro Penilo diz:

    Independentemente dos resultados e dos critérios, gosto do exercício e partilho do nojo pelos rankings.

    • De diz:

      Subscrevo:
      O gosto pelo exercício
      A partilha do nojo pelos rankings

      e acrescento a admiração pela paciência e pelo estudo de Ricardo Santos Pinto

  5. Rafael Ortega diz:

    Os rankings têm o interesse que têm, servem para os pais com dinheiro colocarem os seus filhos no colégio (ou escola pública, porque também as há com bons resultados e maroscas para entrar) que lhes dê perspectivas de melhores resultados para os filhos.

    Porque quando se trata de colocar os filhos na melhor escola quem pode escolher não quer saber se a escola leva muitos alunos ou poucos a exame, o nível social da escola, ou se o dono é o Estado ou um privado. Quer aquela onde as notas de exame (que não dependem de truques de professores para subir notas) são melhores.

    Enquanto houver exames nacionais haverá quem faça rankings.
    Não me parece que se lhes deva dar muita importância.

  6. Irónica diz:

    Parabéns, Ricardo Santos Silva, pelo trabalho.

    Ainda bem que avaliar escolas não é tão trabalhoso nem burocrático quanto fazer ADD com as insuportáveis grelhas da ministra Maria de Lurdes e sucessora, o relatório de actividades da sua disciplina ou a abertura de um processo a aluno.

    Já agora, precisava de saber se atribuiu nota às instalações sujas e degradadas, à falta de pessoal não docente, e às escolas cujos alunos ficam longos períodos (15 ou mais dias) sem professor, às que os alunos têm de levar papel higiénico de casa, sabonete e resmas de papel (3 por aluno). Ia-me esquecendo, às que organizam passeio de final de ano letivo a 20€ por criança, sem almoço nem merenda, e que está integrada num TEIP.

  7. Irónica diz:

    Correcção onde se lê:
    “Ia-me esquecendo, às que organizam passeio de final de ano letivo a 20€ por criança, sem almoço nem merenda, e que está integrada num TEIP”

    por:
    Ia-me esquecendo, às que organizam passeio de final de ano letivo a 20€ por criança, sem almoço nem merenda, e que estão integradas num TEIP

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