Greve ao Natal

Informo os interessados que, a partir do dia da eventual aprovação do Orçamento de Estado, entrarei de Greve ao Natal, pelo que não comprarei nem aceitarei presentes.

Se os senhores lojistas quiserem ter a bondade de levantar o rabo do sofá, nas próximas manifestações, protestos e greves, serão muito bem vindos.

 

A coisa virou, entretanto, evento no Facebook. Sugiro algumas razões para aderir, aqui na caixa de comentários, em conversa com Pedro Lérias.

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13 respostas a Greve ao Natal

  1. AF diz:

    Estou ct. Qualquer dos modos aacho k vão levantar na mesma, dado que este acto voluntário, será imperativo, para quem quiser nesta tormenta que ai vem.

  2. Gualter diz:

    É um favor que fazes a todos nós. Se há medida minimamente útil nesta política de cortes, é a do subsídio de Natal. Com o devido respeito por quem usa o subsídio de Natal para sustentar a sua vida ao longo do ano e não para entrar no consumismo absurdo de Natal (que não é – ou não foi – certamente uma maioria).

    Admira-me que a esquerda (radical?) deste blogue não tenha uma crítica à lógica e estímulo desse momento de auge capitalista e (pós-)religioso. Continuam fixados na lógica de que é preciso crescimento económico para gerar emprego, aumentar salários, originar bem-estar. Mesmo que assim fosse, para as economias crescerem indefinidamente, seria necessário que o dinheiro brotasse em árvores nano-transformadas para gerar moedas de níquel a partir da fotossíntese, ou o próprio ser humano fizesse fotossíntese com recurso a nanofabs (o que lhe permitiria, até certo ponto, “produzir valor” sem ter que fazer praticamente nada para obter o seu suporte de vida).

    São vícios de teorias económicas que serviram razoavelmente bem durante o período de expansão industrial, sustentado por uma disponibilidade energética (carvão, petróleo) crescente.

    Independentemente disso, concordo que é sempre bom que os lojistas (os poucos que sobraram da industrialização e globalização capitalista) levantem o rabo do sofá e contribuam para um eventual processo revolucionário.

    • paulogranjo diz:

      O problema, Gualter, é que a grande maioria da população usa, facto, o grosso do subsídio de Natal (e, em muitos casos, de férias) para equilibrar as contas ou tapar os buracos das despesas essenciais ao longo do ano, e/ou para se abalançar a substituir algum electrodoméstico que deu ou está a dar o berro.
      O consumismo irracional de facto existe, e é estimulado, nessa altura. Mas, em paralelo e à margem dele, acredite que até nos países mais miseráveis as pessoas sentem necessidade de, alguma vez no ano, fazerem uma grande festa. E era o que faltava que não estivessem no seu direito.

      No essencial, concordo com a sua chamada de atenção na segunda parte do seu comentário.
      Aliás, é referida num post que estou a tentar terminar. Podemos debater de novo, depois disso.

  3. Pedro Lérias diz:

    Este senhor lojista tem vontade de vos mandar para um sítio que eu cá sei, com os vossos preconceitos e ideias formadas. Não há pachorra.

    A ideia base é o quê? É lojista, por isso é burguesia, por isso é para abater?

    Este senhor lojista, ao ter loja aberta, presta um serviço público não pago. Desde acesso a casa de banho, a chamar a polícia e proteger uma mulher a fugir de um companheiro violento, dar guarida a um casal de idosos que se fechou fora de casa, etc., etc., são muitos os serviços sociais que os vossos odiados lojistas prestam à população. Ao termos a porta aberta tornamos um bairro mais seguro, mais dinâmico.

    E sim, este senhor lojista vai às manifestações, não só porque provavelmente acabei de ser arruinado, mas porque por ser lojista não deixei de ter ideias próprias ou me tornei num capitalista zombie.

    Este senhor lojista investiu, não sabe o que é ordenado há mais de um ano, e vai ver tudo ir por água abaixo.

    Não há pachorra para as vossas idiotices. Desde o democrata Vidal que fecha os comentários uma vez por todas e inicia uma perseguição a dois colegas de blog, acusados de desvio, este blog é sempre um excelente exemplo do que não pode ser a luta pela justiça e igualdade.

    • Pedro Lérias diz:

      Mas prezo o ter publicado o comentário. Começa a ser raro neste blog, principalmente pela ala Carlos Vidalista.

    • paulogranjo diz:

      Publiquei e não respondi, por ter um afazer urgente. Vamos lá então a isso.

      Não, caro Pedro; a ideia não é essa.
      Aliás, sinto preocupação e solidariedade por quem vive do comércio, e que irá estar entre as pessoas mais afectadas pelo impacto destas medidas, a não ser que seja dono de grandes superfícies ou venda produtos de grande luxo.

      A ideia é que, já que a esmagadora maioria de nós vai, de qualquer forma, estar sem dinheiro para tapar os buracos que ficam das despesas anuais ou para comprar algum tareco urgente, quanto mais para prendas consumistas (e que os comerciantes vão ficar, de qualquer forma, a ganir), mais vale assumir isso como uma declaração e como uma das muitas formas possíveis de denúncia e protesto deliberado, em vez de vivermos a situação isolados e envergonhados, como se o problema fosse individual e a culpa fosse nossa, e não do governo.

      É óvio que não seria por um milhão ou dois de pessoas se declararem em Greve ao Natal que o governo iria a correr revogar roubo dos subsídios. E que os problemas dos portugueses não se resolveriam por os subsídios serem repostos; embora se poupasse às pessoas essa violentação suplementar. Tal como é óbvio que as crises das dívidas públicas e os ataques aos direiros laborais, à saúde, à educação e à segurança social não se jogam apenas a nível nacional, requerendo também (ou talvez sobretudo) luta transnacional.

      Não obstante, a transformação em protesto público de uma violência que sobre nós é feita tem a vantagem de explicitar (mesmo antes de ela acontecer) a responsabilidade governativa quer por essa violência sobre as suas vítimas imediatas, quer pelo seu impacto destruidor sobre a economia. Digamos que é razoavelmente diferente (no tempo e no sentido humano e político) das clássicas entrevistas televisivas aos comerciantes na véspera de natal, constatando a sua inevitável quebra de vendas.

      Se isso puder fazer sentir as pessoas que aderirem a essa declaração de “Greve ao Natal” menos isoladas, mais solidárias entre si e mais dispostas a envolverem-se em formas de reivindicação e protesto mais gerais e consequentes, melhor.
      Se isso estimular os comerciantes a sentirem que estes problemas não são só dos seus clientes, mas também seus, e os estimular a participarem nos protestos gerais e a, por exemplo, não terem as portas dos estabelecimentos abertas nos dias de Greve Geral (ao contrário do que generalizadamente acontece), melhor ainda.

      Se o pessoal se estiver nas tintas para isto, também não se perde muito esforço.

      Mas, na eventual mas longínqua possibilidade de um protesto deste tipo resultar numa consciencialização anti-consumista, daí só viria bem ao mundo e não viria mal ao comércio.
      Porque, afinal, o problema dos comerciantes é nós não termos dinheiro nem para mandar cantar um cego; não é utilizarmos o pouco dinheiro que temos a comprar coisas de que precisemos, em vez de coisas supérfluas. E a triste verdade é que quase todas as famílias precisam, sem luxos, de comprar muito mais coisas do que aquelas para que têm dinheiro.
      Concorda?

      • Pedro Lérias diz:

        Viva,

        Visto a loja estar às moscas neste momento (é só uma, mas é grande) tive oportunidade de ler a sua resposta, a qual agradeço.
        Realço uma mudança de tom, pelo menos no meu entender.

        O seu texto, e alguns comentários que se seguiram, fala desde logo dos lojistas como um grupo identificável. E esse tipo de generalização é perigosa, como é perigoso o incentivo a desrespeito pelo logistas que advém dessa generalização. A minha resposta foi plural, ao seu post e alguns dos comentários.

        O que me irritou não foi o apelo à greve ao Natal. Foi a frase do ‘rabo do sofá’. Implica que ‘nós’, lojistas, somos obviamente algum tipo de parasitas, não fazemos nada, e não nos preocupamos com o dia-a-dia das pessoas. Apenas ‘lucramos’.

        Depois é a vertigem auto-destrutiva. Como se arrastar comerciantes para a miséria melhorasse a vida dos que já lá estão ou estão a caminho.

        Não devo explicações, mas sou uma pessoa política, envolvida com a sociedade que me rodeia. A implicação de amorfismo, derivado da minha condição de lojista, foi infeliz. Se pensarmos na forma como os lojistas sofrem sempre que há tumultos em manifestações, na forma como são vistos como a cara do pior do capitalismo por Gualters desse mundo fora, torna essa pequena frase uma irresponsabilidade. Alimenta um estereótipo, serve de base à violência.

        Ou seja, não gostei de ser estereotipado nem do desconhecimento da contribuição de muitos lojistas para o bem estar social. A luta que temos pela frente faz-se da união entre as pessoas. Este post semeou a desunião. Ninguém gosta que lhe digam o que devem ou não fazer.

        Enquanto lojista arrisquei e arrisco. Posso perder muito do investimento aqui feito. Se calhar devia ter posto o dinheiro numa off-shore em vez de abrir loja no centro de Lisboa?

        Muito obrigado pela abertura ao diálogo sobre esta questão,
        Cumprimentos,

        Pedro Lérias

        • paulogranjo diz:

          Pela minha parte, desde que o diálogo seja feito com argumentos (como no seu caso) e não com insultos, a abertura é sempre total.

          O «levantar o rabo do sofá, mas próximas manifestações, protestos e greves» é sentimento e frase de quem tem vivido em zonas de muito comércio, onde todas as lojas ficam abertas em todas as greves gerais, como se financeiramente fizesse uma extraordinária diferença e como se os problemas contra os quais as greves são feitas não os fossem também afectar a eles, por afectarem o poder de compra e estabilidade de emprego dos seuspotenciais clientes.

          Talvez as centrais sindicais tivessem alguma coisa a ganhar, se fizessem alguns materiais e acções de apelo à greve geral, com base em questões como estas, junto dos comerciantes de pequena e média dimensão.
          O que acha?

          • Pedro Lérias diz:

            Paulo,
            Acho que a participação numa greve geral é algo facultativo, quer para trabalhadores quer para empregadores.
            Mas levanta uma pergunta pertinente. Um dia de greve geral é um bom dia de comércio, porque quem faz greve aproveita para ir às compras, muitas vezes. Quem tem um negócio não faz normalmente juízos. Principalmente se não sabe se se aguenta aberto.
            Para convocar uma greve geral também não se faz uma consulta, mesmo que para inglês ver, ao pequeno comércio. Nem sei como se poderia fazer, para ser honesto.
            E até agora as greves não têm dito respeito a questões fundamentais.
            Confesso que esta é a primeira vez que penso seriamente aderir a uma greve geral, por este ataque selectivo à função pública, esta punição colectiva, ser, a meu ver, um ataque fundamental à estrutura da nossa sociedade.
            Ao fazer greve estarei a alienar clientes. Deve um negócio ter identidade política? Ou ser neutro? E neutro até quando? São questões com que me debato muitas vezes. E as minhas obrigações são só com os clientes em greve ou com todos os que possam querer recorrer à loja nesse dia?
            No meu caso, um projecto muito personalizado, muitos argumentariam que existe já uma excessiva identificação entre a loja e a minha pessoa, o que é perigoso para um negócio (não que isso me vá impedindo de me meter nestas discussões).
            A adesão à greve é algo que terei que ponderar.
            Mas não é a querer ‘forçar’ comerciantes a aderir que se consegue maior sucesso.
            Quanto ao Natal, representa quase 20% da facturação de muitos comerciantes, a diferença entre aguentarem abertos todo o ano ou fecharem. Não esperem muita simpatia por uma iniciativa que nos pode arruinar, independentemente da sua validade conceptual. A greve ao Natal, o evento a sério, levaria a uma maior recessão, desemprego e miséria. Não sei se é bom ou mau. Mas acaba por ser uma forma de redistribuição de riqueza, pois só compra quem pode, e ao comprar estimula a economia, contribui para os cofres do estado, etc. É melhor esse dinheiro ser simplesmente posto no banco? Não sei.
            Pede-me para pôr os interesses de todos acima dos meus interesses. Pede muito. Não quer dizer que não o faça. Mas pede muito.

          • paulogranjo diz:

            Quando falo de debaterem com os comerciantes, falo de argumentar acerca dos seus próprios interesses, não falo de forçar. Embora, claro, qualquer conversa que qualquer um de nós tem com alguém, tentando convencê-la de alguma coisa é sempre uma pressão; mas isso é o que todos fazemos quotidianamente, em relação aos mais variados assuntos. E, a fazer-se isso, teria certamente que ser com todo o respeito pelas eventuais opiniões diferentes do interlocutor,

            Quanto ao seu próprio dilema e decisão, temo não poder ser de grande ajuda, com algum conselho infalível. Claro que gostaria que todas as lojas fechassem, por decisão própria, não apenas para um maior impacto da greve, mas também pelas razões de interresse próprio (dos comerciantes) que antes referi. Mas é uma decisão que, claro está, ninguém está em melhor posição para equacionar e tomar do que a própria pessoa. Imagino apenas que, a aderir, será vantajoso dar uma justificação aos clientes, acerca das razões que levam a decidir fechar.

            Entretanto, mais do que os próprios cortes (que, a nível pessoal e familiar, muita mossa me estão a fazer e mais farão), confesso que me preocupa a “lei da selva” como são decididos e aplicados, e o que isso representa de subversão do “contrato social”, de direitos elementares, de um mínimo de segurança na vida das pessoas e, afinal, do modelo societal que se tornou o nosso. Não sei se leu, mais abaixo, um meu desabafo acerca do assunto, o post «A caminho do século XIX». Se não, convido-o a ler e a opinar, pois temo que seja aí que está o problema fundamental dos tempos que atravessamos.

  4. Maria diz:

    Entraremos em greve de fome imposta, de miséria , de tudo…
    O subsídio Natal , sim, ajudava muita gente a solucionar alguns défices que os magros salários não conseguiam equilibrar o orçamento.

  5. Luis F. diz:

    Como não? Então perante sugestões do calibre de “nacionalizar a banca” e “suspender o pagamento da dívida”, quem não há-de se sentir entusiasmado e sair para a rua?

    Depois só precisamos que o Hugo e o Fidel nos emprestem uns trocos para pagar os ordenados dos funcionários públicos e está tudo resolvido.

  6. Zuruspa diz:

    O 13.o mês e o subsídio de Natal foram uma maneira de aproximar os salários portugueses com aqueles sul-europeus… mas mesmo a receber 14 meses de salários a tugalhada leva uns 70% do salário médio europeu, mas lá ir a manifs tá quieto, ainda aplaude o PPC e suas medidas austeritárias após lhe dar 45% dos votos.

    Realmente o Vasco era maluco…

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