A misofobia dos cagões

Há quem tenha a mania das limpezas e medo de se sujar. A isso dá-se o nome de misofobia. E, segundo o dicionário, trata-se do medo patológico da sujidade ou dos contactos contaminantes. Pois é, parece que há gente a quem o suor não perdoa quando se vê rodeado de lixo e que só se recompõe quando se sente protegido em ambientes limpos. Isto lembra-me a história que o M. me conta sempre quando a noite vai avançada e o rum começa a fazer o seu efeito. Certa vez, havendo uma greve dos trabalhadores da recolha do lixo, em Sintra, uma empresa, ou fura-greves (não me recordo de todos os pormenores), preparou-se para limpar as ruas daquele concelho. A polícia deslocou-se para estabelecer a ordem e impor a paz social e foi recebida por populares que lhes lançavam sacos cheios de lixo.

Com o patrocínio da Habana Club, isto parece-me uma boa metáfora. E parece-me uma boa metáfora porque às vezes temos mesmo de nos sujar para levar adiante aquilo em que acreditamos e defendemos. Mas há gente que não só não se suja literalmente como tampouco tem a coragem de assumir posições que vão além do politicamente aceite pela maioria. São aqueles que se sentam no muro. São aqueles que só fazem prognósticos depois do jogo. São aqueles a quem o povo comummente apelida de cagões. Fazem-me lembrar “o tipo de oportunista desprezado nas frentes de combate em todo o mundo”, descrito por Ryszard Kapuscinsky, que gritavam “Camarada! Irmão!” nos postos de controlo angolanos quando não sabiam se pertenciam ao MPLA ou à UNITA.

Por isso, há muita gente que prefere viver entre as paredes limpas da opinião pública. Porque não querem sujar a reputação e porque dependem economicamente dos que, efectivamente, são a opinião pública. Mas parecem gajos porreiros. Normalmente, dizem-se de esquerda e são os mais combativos defensores de todas as causas que não ponham em causa o capitalismo. Não lhes faz confusão assumirem-se como os primeiros defensores da emancipação das mulheres e condenarem a intervenção soviética no Afeganistão. Mas lá estão eles a participar em fóruns contra os maltratos dos talibãs sobre as afegãs. É também esta espécie que repete toda a qualidade de clichés inventados contra a Líbia e que clama pela defesa dos civis inocentes. E para a sua defesa nada melhor do que abrir caminho à NATO para matar civis inocentes. Nisto, depois, há os que se apiedam e dizem que nunca quiseram o derramamento de sangue. Só queriam o embargo aéreo e agora têm o extremismo religioso no poder.

Agora que a papinha está feita na Líbia, clamam pela defesa dos civis inocentes e não compreendem que há mortos dos dois lados. Que há civis e há inocentes dos dois lados. Repetem os mesmos clichés e acreditam em tudo o que aparece na televisão. Novamente, não lhes importa que a Síria seja um país laico e que esteja a anos-luz no campo dos direitos sociais de outros países contra os quais nunca levantaram a voz. Também não lhes importa que, uma vez mais, seja o extremismo religioso a tomar as rédeas de uma luta patrocinada pelo imperialismo. E quem ousar defender a independência da Síria e não alinhar na estratégia imperialista só pode ser partidário do totalitarismo. É por isso que não suportam ver imagens que contradigam tudo aquilo que as agências de notícias lhes andaram a dizer durante meses. Um milhão de pessoas nas ruas de Damasco não pode ser uma demonstração de apoio à soberania da Síria. Tem necessariamente de ser uma parada fascista comparada às de Hitler e Salazar. Porque os que não comungam a estratégia imperialista não podem ser democratas. São acéfalos e acríticos.

Eu como nunca me considerei um cagão digo-o sem tibiezas: apesar de não ser o modelo de sociedade que defendo e apesar de todas as críticas que possa fazer ao regime, apoio a resistência do povo sírio contra qualquer espécie de provocações e, principalmente, contra as ambições imperialistas. Como não sou um intelectual que gosta de viver na segurança dos consensos, um milhão é mesmo um milhão.

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