Nos tempos de barbárie só há uma solução: a luta pela organização colectiva da sociedade pelo conjunto dos trabalhadores. Lembrar a Comuna de Paris, 140 anos depois

«A Comuna foi formada por conselheiros municipais, eleitos por sufrágio universal nos vários bairros da cidade, responsáveis e revogáveis em qualquer momento. A maioria dos seus membros eram naturalmente operários ou representantes reconhecidos da classe operária. A Comuna havia de ser não um corpo parlamentar mas operante, executivo e legislativo ao mesmo tempo. Em vez de continuar a ser o instrumento do governo central, a polícia foi logo despojada dos seus atributos políticos e transformada no instrumento da Comuna, responsável e revogável em qualquer momento. O mesmo aconteceu com os funcionários de todos os outros ramos da administração. Desde os membros da Comuna para baixo, o serviço público tinha de ser feito em troca de salários de operários. Os direitos adquiridos e os subsídios de representação dos altos dignitários do Estado desapareceram com os próprios dignitários do Estado. As funções públicas deixaram de ser a propriedade privada dos testas-de-ferro do governo central. Não só a administração municipal mas toda a iniciativa até então exercida pelo Estado foram entregues nas mãos da Comuna.

Uma vez desembaraçada do exército permanente e da polícia, elementos da força física do antigo governo, a Comuna estava desejosa de quebrar a força espiritual de repressão, o «poder dos curas», pelo desmantelamento e expropriação de todas as igrejas enquanto corpos possidentes. Os padres foram devolvidos aos retiros da vida privada, para terem ai o sustento das esmolas dos fiéis, à imitação dos seus predecessores, os apóstolos. Todas as instituições de educação foram abertas ao povo gratuitamente e ao mesmo tempo desembaraçadas de toda a interferência de Igreja e Estado. Assim, não apenas a educação foi tornada acessível a todos mas a própria ciência liberta das grilhetas que os preconceitos de classe e a força governamental lhe tinham imposto.

Os funcionários judiciais haviam de ser despojados daquela falsa independência que só tinha servido para mascarar a sua abjecta subserviência a todos os governos sucessivos, aos quais, um após outro, eles tinham prestado e quebrado juramento de fidelidade. Tal como os restantes servidores públicos, magistrados e juizes haviam de ser electivos, responsáveis e revogáveis.»

Karl Marx – A Guerra Civil em França. 1871

Para quem quiser saber (e ler) mais sobre esta obra é só seguir o link.

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6 respostas a Nos tempos de barbárie só há uma solução: a luta pela organização colectiva da sociedade pelo conjunto dos trabalhadores. Lembrar a Comuna de Paris, 140 anos depois

  1. Niet diz:

    J.V.Aguiar: ” Golpe ” genial foi o realizado por Marx para tentar concluir a base da sua Filosofia da História; Marx e Engels servem-se do exemplo magistral da Comuna de Paris para nos fazer sonhar com o projecto Revolução: abolição das classes, transformação das instituições
    mas , para nosso desgosto, não conseguem evitar a projecção de uma inerência mitológica com a classificação da fase superior do Comunismo, questionada mais tarde por Lukàcs e Castoriadis, se bem nos recordamos. De uma forma ” light “, apontemos o valor iniciático- simplesmente fabuloso e inconoclasta- da critica marxista invocando a Comuna ao sistema hierárquico, baseado na concorrência dos individuos e na luta de todos contra todos. ” A existência da hierarquia baseia-se na luta sem piedade de cada um contra todos os outros- e ela exarceba essa luta. É por isso que a selva se torna cada vez mais implacável à medida que se sobem os escalões da hierarquia- e não deparamos com a cooperação senão na base, lá onde as possibilidades de ” promoção ” são reduzidas ou inexistentes “, resume C.Castoriadis. Salut! Niet

  2. Gajo sem argumentos diz:

    Niet, quando admitires que o Castoriadis foi um gajo que claudicou, marxisticamente falando, face à sua sovietologia cagativa, começamos a falar, ok?

  3. Niet diz:

    Sr. G.S.A.: Apesar de saber que não tem argumentos- navega noutras águas-sempre lhe digo que Althusser, o supersumo dos marxistas do séc.XX, dizia que Castoriadis era o único pensamento fundamentado para o porvir da Revolução. Que, no meu modesto entender, não se pensa( muito) e acontece pela vontade de luta e liberdade de largas faixas dos explorados e, como sublinhava Castoriadis, a história dessa libertação arrisca-se cada vez mais a ser incompreensivel para os buocratas e “especialistas ” de um pequenissimo múmero de ideias de manipulação e ilusão. Niet

  4. Gajo sem argumentos diz:

    Niet, a partir de determinada altura a malta de Socialisme ou Barbarie derrapou, segundo a I.S e com a qual não posso discordar, para uma papa psicológica e antropológica perdendo de vista a totalidade para não mais se endireitar: o que equivale, digo eu, a meter a teoría critica no saco e a Revolução na gaveta mais próxima do gabinete de uma qualquer universidade. Que o Althusser tecia loas ao pensamento de Castoriadis não é de admirar, pois não faziam ambos parte “da franja mais esquerdista e mais fantasiosa desses executivos e quadros médios da esquerda que querem ter a teoria revolucionária da sua carreira efectiva na sociedade”? O Debord topou-os bem.

  5. André diz:

    No Marxismo, a obsessão com a totalidade pode ser entendida génese do totalitarismo

  6. Niet diz:

    GSA, afinal vai arranjando argumentos…para se enterrar. No Socialisme ou Barbarie havia três tendências distintas, que o impacto da Guerra da Argélia extremou: a de Castoriadis, a de Lefort/Lyotard e a de Daniel Mothé. E Castoriadis num texto programático de Outubro de 1962 aponta: Existem um certo número de pontos programáticos fundamentais sobre os quais temos que ser extremamente fortes e estritos: Gestão Operária, Poder dos Conselhos, nonsens do Reformismo, destruição da Hierarquia, igualdade dos Salários, Democracia Directa, Direito à Informação Total. E há mais, claro. Debord passou por S.B. mudo e quedo, talvez por causa dos perfumes hegelianos substanciais com que se encharcava naquela imatura idade, e tudo o que escreveu sobre S.B. é irrelevante e politicamente nulo. Justamente, como sublinhou Hegel, não exstem lições da História- porque ela é sempre nova…Niet

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