Hermes há só dois

A culpa foi de um tio brasileiro. Hermes-com-agá Pereira era o único na aldeia com esse nome quando fez a quarta classe, o único nas festas de Ponte da Barca em Agosto, a fazer rir as raparigas, e continuou a ser o único no rol da inspecção para ir à tropa, já de viagem marcada para o Canadá. “Veio de lá uma médica que só falava inglês, dizia para nos despirmos e nós não percebíamos nada. Éramos mais de cem, mas no barco só fomos quarenta”.
Anos 50. Num boteco no Rossio, sem conhecer ninguém, ouve chamar o seu nome. “Dá aí um copo de vinho ao Hermes”. Estendem-se duas mãos para o agarrar. Alto lá, o Hermes sou eu. Um copo de vinho para o novo Hermes sana o diferendo. Nessa noite o Hermes do Gerês, mais tarde Hermes do Ontário, condutor de tréilers, não teve de contar os trocos para jantar. “Ó mulher! Põe mais um prato na mesa que eu há setenta e um anos que vivo e só hoje é que conheci o meu homólogo!”.

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