Tipos portugueses I: Os grandes afectivos

Por grandes afectivos deve entender-se aquelas pessoas, todas elas afecto e emoção, que constituem (pelo menos elas acham isso) a consciência moral da nossa geração. Têm a lágrima fácil, sempre pronta a rolar do olho abaixo; julgam tudo e todos – e fazem-no saber: mas sempre com uma larga dose de indulgência – prioritariamente destinada a si próprios. Como eles gostam deles! E acham-se bons, genuinamente bons e desamparados, não tanto perante as forças do mal, mas da incompreensão. Atingido o grau de grandes afectivos, costumam ficar-se por ali, sem cuidar de fazer mais nada: despejam as garrafas necessárias para acordar a sua bondade inata e depois dá-lhes a saudade, que os impede de qualquer esforço adicional de tentar descobrir o que quer que seja para além do bem e do mal. Bebem como putos e tornam-se uns grandes maçadores; em jantares sociais devem ser cuidadosamente evitados, pois podem causar transtorno à metade funcional da humanidade. “Drunkards are a nuisance”: belo título para um policial pós-chandleriano com epicentro em Lisboa.

Próximo n.º da série: Os semi-cultos

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SEXTA | António Figueira
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6 respostas a Tipos portugueses I: Os grandes afectivos

  1. Gostei do post e tenho andado a reparar nesses espécimens que tão bem descreves. Devemos ser prudentes.

  2. M Isabel G diz:

    Muito bom, António.

  3. RM diz:

    Aguardamos um texto sobre os grandes teóricos.

  4. olarila diz:

    Esses e os grandes revolucionários sempre a fazerem levantamentos para amanhã. Sempre com o epicentro numa qualquer praça ou avenida de Lisboa.

  5. Rascunho diz:

    não lhes chamando outra coisa
    existem os imaculados da concepção
    cujos espelhos têm fundos negros
    como não se observam, crêem-se isentos

  6. licas diz:

    . . . e os *Madre Teresa Daqui-Acolá” ?
    Tão socialmente *expertos* , oh pá?

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