As minhas 5 exposições de Setembro (na “Sábado”)

MARGARIDA CORREIA
Museu da Electricidade, Lisboa (até 18/9)
Tempo, distância e memória marcam esta exposição. Parte-se de sinais identitários da comunidade emigrante portuguesa de Parkville (Hartford, Connecticut). Temos fotos das gentes da comunidade (como membros do rancho folclórico de Hartford), evocam-se (refotografadas) imagens de décadas passadas, desde a vivência religiosa à mitologia fadista (lembrando a luso-americana Maria Alves), passando por inúmeras capas de discos e cenas de interiores; questiona (como um inquérito tradicional) ainda a autora emigrantes sobre imagens que relacionam com Portugal (uma vista da praia da Nazaré foi a mais referida). Trata-se de uma exposição documental? Da visualização da “saudade”? Isso e também uma prova estética, pois as fotos da Margarida nunca são frias, documentos. Desde a sua formação escolar, quando criava fotos a partir de rostos transfigurados até ao limite do bizarro. A exposição não é documental, pois há uma relação com sentimentos, factos imateriais, como a saudade. “Saudade” foi aliás o título da exposição da autora em Lisboa, 2005, em torno de objectos usados (um saudosismo feito matéria, portanto). O passado surge sempre neste trabalho como coisa que se pode tocar: objectos usados e factos protagonizados. (“Sábado”, 1/9)

JOSÉ ESCADA
Centro de Arte Manuel de Brito – Palácio dos Anjos, Algés (até 2/10)
Retoma-se aqui uma obra injustamente esquecida. Escada teve um interessante papel no grupo português e parisiense “KWY”, ao lado de René Bértholo, Costa Pinheiro, Lurdes Castro (seus colegas da ESBAL nos anos 50), João Vieira, Christo e Jan Voss. Christo, Pinheiro e Lurdes Castro interessaram-se por acumulações objectuais, ligando formas e discurso social (“Nouveau Réalisme”). Escada não aborda o objecto, mas a sua pintura é feita de tensões: bidimensionalidade e tridimensionalidade (“Relevo Espacial”, de 1974: põe em acto o que antes se apresentava em potência, digamos). Predominando esta dinâmica (bi versus tridimensão) sobre a da abstracção versus figuração. Nas suas mais conhecidas composições dos anos 50 e 60, opta Escada por uma pintura similar a uma escrita que se desenvolve numa composição em rede, multiplicando microfiguras quase sempre simétricas. O campo da tela é depois banhado por zonas de luz diferenciadas. Neste período, o que liga Escada a Castro é a acumulação: de objectos em Castro, de signos em Escada. O minucioso recorte destas formas de Escada é ambíguo: temos uma pintura que parece composta de pequenas esculturas no seu interior. Uma pintura que pede corpo escultórico. (“Sábado”, 8/9)

 

“ALL TO WALL” (Colectiva)
Galeria Cristina Guerra, Lisboa (até 17/9)
Ligado à colecção da FLAD, tem vindo João Silvério a apresentar-se como comissário de exposições (nomeadamente através do projecto Empty Cube, exposições-intervenções apenas de uma só noite), sendo esta ideia para a Gal. Cristina Guerra uma das suas propostas mais significativas. De título sugestivo “all to wall” (gostaria de traduzir “convergência para a parede”), é agora apresentada uma primeira parte. Segue-se uma ideia de Daniel Buren de que não só o espaço expositivo não é neutro, como também o objecto nunca o é. Nunca há objectos puros, há interacções. Estas ampliam o nosso imaginário e inventam arquitecturas imaginárias (“paredes”). Há aqui trabalhos que jogam bem com esta ideia, outros que com ela não se relacionam. Normal em qualquer exposição: acertos e desacertos. Destacaria o óculo aberto na parede por Christian Andersson: uma figura está entre um projector e uma parede, mas a sua silhueta projectada não é visível, pois a luz vem de dentro da parede (retroprojecção). Ainda as instalações escultóricas de Nuno Sousa Vieira (que parte de objectos pré-existentes) e de Vasco Barata. O vídeo e a foto de João Onofre fazem alusão à luz; podem estar aqui a dizer-nos que a luz é uma arquitectura imaginária. (“Sábado”, 15/9)

Retrospetiva de Vik Muniz

VIK MUNIZ
Museu Colecção Berardo, Lisboa (até 21/10)
Muniz (S. Paulo, 1961) é um artista apostado no alargamento dos limites das artes plásticas: recentemente colaborou com uma Associação de Catadores [indivíduos que vivem de lixeiras] brasileira num filme candidato ao Óscar de melhor documentário deste ano (ganhou o Prémio do Público de Sundance). Esta colaboração não se afasta do centro do seu trabalho como artista plástico, onde emprega os mais diversos materiais: creme e cobertura de chocolate (para desenhar e depois fotografar os desenhos), papéis, pó de grafite, areias, sucatas e algodão e ainda, como sabemos, o desenho, a pintura, a fotografia e o filme. Apresenta agora o Museu Berardo, de Muniz (que já expôs no MoMA), uma ampla retrospectiva com uma centena de trabalhos de várias fases do autor. Muniz é conhecido desde que nos anos 80 começou a usar calda de chocolate para retratar imagens banais umas, “cultas” outras (por exemplo, copiou fotos de Namuth de Pollock a trabalhar). Calvin Reid, crítico, falava de David Hammons, que também recorre a lixos, como artista político. E crítico da história da arte. No entanto, Muniz passa também por estes problemas, mas assume o passado do seu ofício nas imagens que cria. (“Sábado”, 22/9)

(foto, daqui)

RODRIGO OLIVEIRA
Museu do Chiado, Lisboa (até 20/11)
Para entendermos esta intervenção, pensemos em dois momentos: um, expõe presentemente o artista no Porto um projecto intitulado “Se respeitássemos a arquitectura ainda vivíamos nas cavernas”; um segundo, ou primeiro momento, diz respeito aos seus inícios na FBAUL. É sempre um “escultor” intentando encontrar o denominador comum à escultura e arquitectura. Para esta intervenção partiu de uma obra do museu: escolheu os seixos pintados de Fernando Lanhas. De novo, a pedra como ponto de ligação arquitectura-escultura. Numa fase recente da sua expansão, a escultura invade a arquitectura mas mantém-se “não-arquitectura” (Rosalind Krauss). Em Rodrigo, apesar de, em 2005, ter incendiado maquetas de edifícios (peças emblemáticas), creio que o autor pretende realizar obras que sejam arquitecturas, esculturas ou “construções”. Nesta intervenção, usa cartão para construir grelhas geométricas que reproduzem uma mesma unidade pela parede acima da sala do museu. De novo a ligação entre a escultura e a arquitectura, com uma alusão à pintura, pois a grelha é cromaticamente vibrante. (“Sábado”, 29/9)

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4 respostas a As minhas 5 exposições de Setembro (na “Sábado”)

  1. André diz:

    Sempre pensei na arquitectura em termos esculturais apesar de pouco perceber de estética e doutros affaires estéticos. Confesso que o seu texto sobre as expos está bastante mais interessante do que as expos propriamente ditas. Gostei mais da primeira (melting pot esquizóide de referências separadas pelo tempo e contexto histórico: a fantástica síntese Americana que, neste caso, poderia ser caracterizada pelo vocab Deleuziano?!!? ) e a da Vik Muniz (inspirada por Klimt???). A última (grelha cromática) parece-me uma grande treta. A futilidade da classe artística às vezes deixa-me boquiaberto.

    • Carlos Vidal diz:

      A grelha do Rodrigo estabelece uma relação quase monumental com o espaço onde está inserida. Curiosamente, usando material não monumental.
      Quanto à “futilidade da classe”, estou de acordo. Há casos que me deixam envergonhado (inclusive sobre eles muito escrevi).
      Riscos que se correm, paisagens, vidas, como diz um amigo.

  2. Y diz:

    “To put the matter quickly, John Wild was for me a living example of thinker who
    sees genuine philosophical issues as emerging from one’s lifeworld experience, not
    from the theoretical and epistemic claims that others have made concerning these
    issues. As I would phrase it now, there two kinds of philosophers. There are those
    who think from the personal, social, and natural encounters they are living through,
    and there are those who think about these encounters. To be sure, when they first
    begin to articulate what they think of these encounters, both kinds of philosophers
    must draw upon the methods, categories, theories, distinctions, and definitions that
    others have bequeathed to them. However, those who think from their lifeworld
    experience are forever transforming this intellectual inheritance as their own
    encounters seem to require it. Those who think about their experience tend to
    remain convinced that, for the most part, the ‘‘real meaning’’ of what we live
    through is best illuminated in terms of variations on well-established philosophical
    methods, themes, and expressions.”

    Continental Philosophy Review
    Ultima edição
    Sobre John Wild

    • Carlos Vidal diz:

      Sim, é por causa de comentários como este que o Comments Off é a única forma de trabalhar nestas bandas blogosféricas.

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