O existencialismo de Allen, arte e humanismo no lixo e um melodrama aprumado

Estados Unidos, Brasil e Portugal… 3 boas propostas cinematográficas: Midnight in Paris (Woody Allen), Waste Land (Lucy Walker) e A Morte de Carlos Gardel (Solveig Nordlund)

Waste Land

Dificilmente se pode pensar num sítio mais inóspito do que um aterro de lixo numa favela brasileira ultra-degradada. Contudo, foi esse o ponto de partida do brasileiro Vik Muniz, artista plástico que aproveitou esse cenário para criar uma obra impressionante. Mais do que a recuperação de materiais aparentemente inutilizáveis, os modelos fotográficos base são precisamente os catadores de lixo – responsáveis pela separação dos resíduos e pela sua consequente reciclagem. Este excelente e emotivo documentário, que passou este ano discretamente por Portugal,  mostra não só este processo, mas também faz um retrato social destes catadores. Expõe as suas terríveis condições de vida, as suas famílias completamente desestruturadas e marcadas pela tragédia e demonstra como, de um ponto de vista humanista, esta participação artística lhes deu uma nova alegria e uma nova razão de viver. Destaque também para a surpreendente banda-sonora do improvável Moby, que, embora afastado dos terrenos mediáticos, tem continuado a lançar discos periodicamente. Este tema fez originalmente parte de Wait For Me de 2009.

Midnight in Paris

Os temas são os mesmos de (quase) sempre na filmografia de Woody Allen: os dilemas emocionais, a fuga à realidade, o eterno desconforto. A personagem tem traços habituais: excêntrico, despistado, com défice de socialização, só está bem onde não está, perdido nas suas dúvidas amorosas (e Woody Allen a criar em Owen Wilson mais uma imitação de si próprio). As cenas têm também frequentemente a marca cómica surrealista do costume (a cena dos brincos no hotel é marca Allen chapada). Mas há aqui uma criatividade, uma forma fluente de conduzir a história, uma deliciosa alternância entre presente e um passado imaginário, com figuras emblemáticas envolvidas (Picasso, Cole Porter, Dali, Hemingway, etc), e um bonito retrato visual de Paris. Assim, depois da belíssima trilogia de Londres (já ligeiramente recalcada em O Sonho de Cassandra) e da passagem por Barcelona (não vi Vicky Cristina Barcelona), o regresso à Europa dá mais um novo fôlego à carreira de Woody Allen.

A Morte de Carlos Gardel

Uma família despedaçada, um filho problemático, o vício da heroína, o final trágico… estes condimentos podiam indiciar um melodrama corriqueiro, quase um “caso da vida” TVI. Mas não. Dificilmente isso aconteceria e a abordagem seria simplista quando por trás está um livro de António Lobo Antunes. Assim, com a riqueza e a complexidade das personagens, à procura de um rumo e ensombradas pelos fantasmas do passado (deliciosas as fusões temporais e a colocação descontextualizada dos protagonistas), com a força das interpretações (Rui Morrison à cabeça, no papel de pai cuja depressão leva-o a não aceitar a morte de Gardel), com a centralidade do tango e a sua influência na evolução da história, temos aqui um melodrama pesado, mas extraordinariamente emotivo e intenso. Tirando um ou outro momento de apelo mais básico à emoção (perfeitamente escusada, por exemplo, a cena da mãe no hospital) e explorado um pouco melhor o passado e a obra de Nordlund, uma sueca radicada em Portugal, poderia ser uma obra-prima do cinema nacional.

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Uma resposta a O existencialismo de Allen, arte e humanismo no lixo e um melodrama aprumado

  1. Andrés diz:

    Waste Land é um belíssimo documentário, que passou ignorado por cá, como aliás a generalidade dos documentários, diga-se…

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