É já só o que falta…

É extraordinária a força que a hegemonia (não no sentido coimbrão de “supremacia”, mas na acepção gramsciana de integração, pelos dominados, do discurso da ideologia dominante que justifica a sua dominação) tem vindo a demonstrar no país dos Galos de Barcelos.

Não contem a ninguém, mas começo a ter pesadelos recorrentes com rebanhos que se dirigem pelo seu pé para o matadouro, balindo rezinguices e comentando as vantagens dos choques eléctricos em comparação com a degola, ou o esventramento.
Nalgumas noites, a coisa dura mais um pouco até acordar. Então, carneiros muito subitamente emagrecidos desatam à cornada aos outros e entre si, para júbilo de outros marchantes, que se entusiasmam a tentar acertar uma cornada nos cães do pastor. O que, por sua vez, enche de júbilo uns terceiros, que nisso imaginam futuros radiosos.
E a marcha continua. Por entre o som incessante de balidos de resignação, de indignação, de justificação, de ira e de exortação.
Por vezes, ao acordar, procuro assarapantado certificar-me se não me terá, entretanto, crescido lã.

Entre tais terrores nocturnos e fotos de certeira ironia, como esta, vem-me por vezes um amargo à boca.
É que, por certeira que a ironia seja, faz-me também pesar a ameaça de outros pesadelos.

E passa-me pela cabeça: Se a tal de hegemonia continuar a funcionar tão bem, a que é que ainda assistiremos – por exemplo – num país da minha predilecção em que 50 a 60% do orçamento de estado é pago por governos da “Europa em crise”, e em que todo esse dinheiro é apenas 25 a 30% do que por lá entra em “ajuda ao desenvolvimento”?

Que os seus governantes repetissem entre si a frase da foto, em jeito de prece, pouco me surpreenderia.
Mas… e se a coisa hegemonicamente se espalha?
Será que ainda vamos ver miúdos de calção rasgado a escreverem na terra, agora em português (já que a escrita das línguas locais só em altos estudos se aprende), «Por favor salvem os bancos»?

É já só o que falta.

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7 respostas a É já só o que falta…

  1. Dédé diz:

    Não chegámos ainda aí, mas estamos perto:
    MANIFESTAÇÃO DE PERUS EXIGE ANTECIPAÇÃO DO NATAL.

  2. Podes retirar o coimbrão, trocando o espaço pelos nomes? os antropólogos nem são os piores no esquecimento de cada ser cidade se mexer no tempo, a minha já foi a de uma parte da coisa chamada questão coimbrã, como se aprendia nas escolas. Os sociólogos são bem piores.

    • paulogranjo diz:

      Tem razão, mea culpa.

      Foi simplificação de linguagem, em escrita ao correr do teclado – simplificações que são quase sempre abusivas, sobretudo se generalizantes, como esta.
      Aliás, já a referência a colegas de Coimbra era uma simplificação, visto que bastante antes tinha começado a pulular, nas ciências socias noutras línguas, a utilização da “hegemonia” como sinónimo de “supremacia”, ou “domínio avassalador”. O que faz a “linguagem oficial” do CES (onde conto com vários amigos e com muita gente que, não o sendo, me merece todo o respeito e admiração) é generalizar essa utilização em português, à conta da repetição exaustiva de “hegemónico” e “contra-hegemónico” nesse sentido semanticamente mitigado.

      Em ambos os casos, é uma coisa que mexe comigo porque, confesso, dois dos sentidos utilizados por Gramsci ao inventar essa ideia (o sentido de produção e reprodução da dominação através do convencimento dos dominados, com base em meios ideológicos, e aquele outro que referi no post) têm um potencial tão grande e incrivelmente pouco explorado que, de facto, me entristece que a palavra seja continuamente desperdiçada para dizer muito menos (e muito mais vago) do que isso, sobretudo quando, para o dizer , já existiam alternativas na nossa língua.
      Por isso, e por essa utilização “césica” ser certamente a mais familiar a quem por aqui passa e lê, a refer~encia apressada a Coimbra.
      Que aqui fica corrigida e explicada.

  3. miguel serras pereira diz:

    Caro Paulo Granjo,
    retomo literalmente o comentário que já deixei na caixa do que o Dédé deixou linkado ali atrás.
    “Muito bom. Com efeito, nada feito, se as “vítimas” não se reconhecerem como agentes cuja acção ou inacção desempenha um papel determinante nos males bem reais que sofrem só poderão contribuir para a sua expansão indefinida. É preciso que se encontrem os poucos que o vão vendo…”

    Saudações libertárias

    msp

  4. Vitor Ribeiro diz:

    Olhando bem e com atenção à minha volta só posso concluir uma coisa: o pesadelo do Paulo está bem mais perto da realidade (chego a pensar se não se confundirão já…) do que imagina.
    Mas é claro que um dia isto terá um fim. Que não será nada simpático.

  5. Jacquerie diz:

    Boa tarde.
    Concordo plenamente com aquilo que relata e devo dizer que já há vários meses que tive essa sensação. Poder-se-ia dizer que V. Exa. me plagiou telepaticamente (esteja à vontade para o fazer). E para prová-lo gostaria de compartilhar consigo um soneto sobre o assunto. Era para se chamar Matadouro mas ficou Cortejo. Cá vai:

    A manada de mortos-vivos reúne
    As peças que faltam para a partida,
    Com lamentos mascaram a despedida
    Camuflando o castigo que os une

    Não cientes, conduzidas marionetas,
    Imolam ao que escapa ao seu ideário,
    “Todas as rotas estranhas são incertas,
    Por certo todos temos o calvário.”

    Só mais tarde vem o arrependimento:
    “Como seríamos ricos se fosse d’ouro”,
    A lição não sei se se aprenderá,

    O peso da terra sobre o lamento
    A seguir à estada no matadouro
    É tudo o que no fim restará.

    • paulogranjo diz:

      Diria que ou somos ambos menos originais do que pensamos, ou a realidade deixa cada vez menos espaço à imaginação. Ou as duas…
      Obrigado pelo soneto.

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