ANJOS CALLING – Quanto maior for a bebedeira da burguesia e a inépcia da vanguarda proletária, mais violenta será a ressaca do povo.

O bárbaro espancamento de Rodney King (cujos agentes policiais foram absolvidos!?!) foi a acendalha para os motins que varreram Los Angeles, ainda na ressaca dos pouco entusiasmantes anos 80, mas não foi a única razão do fogo. Seguiram-se muitos outros fruto da violenta aliança entre a repressão e o abuso quotidiano do modo de vida. Tão mudos como cruéis, a ferocidade com que o poder foi dotando o bastão mais do que semear a obediência apenas foi capaz de colher a raiva dos marginalizados. A precariedade como doutrina, numa dança perigosa com a incapacidade da esquerda organizar o descontentamento, conduz as populações a expressar a sua fome com o resgate dos bens que lhes foi vedado pelo mercado, aos mais variados níveis. Uma fatia cada vez maior da população se solidariza com Mark Duggan, Alexis Grigoropoulos ou o Kuku porque uma fatia cada vez maior da população se identifica, partilha da mesma fragilidade, exclusão e miséria social. Entre a comoção e a revolta, entre a resistência e o saque, as formas que essa explosão assume podem ser mais ou menos entusiasmantes, diferentes graus de instrumentalização feitos a cobro deste ou aquele oportunista, mas serão sempre preferíveis do que a tolerância à inquisição de classes em que continuamos a habitar. Em Londres, Atenas ou Lisboa as respostas têm sido variadas mas a semente que as cria é a mesma em toda a parte. Os frutos, mais cedo ou mais tarde, não serão diferentes.

A conversa continua daqui a pouco, nos Anjos Calling. Participa.

Este artigo foi publicado em cinco dias and tagged , . Bookmark the permalink.

16 respostas a ANJOS CALLING – Quanto maior for a bebedeira da burguesia e a inépcia da vanguarda proletária, mais violenta será a ressaca do povo.

  1. Tiago Vasconcelos diz:

    Dos pouco entusiasmantes anos 80?? Earth calling Renato… over…

    • Renato Teixeira diz:

      Anos 80 calling Tiago. Aquilo não teve nada que se aproveite, da sida à música. A queda do muro já não conta para a década e os efeitos que produziu não foram, também eles, entusiasmantes. Se os anos 90 ganharam interesse foi seguramente enraizado noutros factores.

      • Tiago Vasconcelos diz:

        A queda do muro para os povos visados representou algo assim parecido com o 25 de Abril de 1974 para os Portugueses (na verdade, representou um pouco mais já que os regimes em causa eram mais limitadores da liberdade do que o Salazarismo).
        Mas compreendo o Renato Teixeira. Em Portugal também há muitos que desvalorizam o 25 de Abril e consideram também que os efeitos que produziu foram “pouco entusiasmantes”.

        • De diz:

          Há sempre um Vasconcelos a ladainhar missas em prol dos caídos pela pátria quando as forças de esquerda se começam a mobilizar.

          Sempre
          Alguns até convictos defensores dos negócios sujos entre o poder de direita e os grandes construtores civis…
          (e claro,convictos defensores do despedimento de professores)
          http://5dias.net/2011/09/15/amanha-sexta-feira-ha-luta-contra-o-desemprego-a-precariedade-e-a-instabilidade-dos-professores/

          …a caravana passa

          • Tiago Vasconcelos diz:

            Este De tem uma queda patológica para discutir pessoas e não argumentos. Para além de tresler o que escrevo e chegar ao ponto de fazer afirmações lunáticas como o de eu ser um dos «convictos defensores dos negócios sujos entre o poder de direita e os grandes construtores civis…»

            O De escreve para, a seguir, ter o prazer de ler o que escreveu. É uma espécie de escrita para consumo próprio, já que não diz coisa alguma a mais alguém…

          • De diz:

            Ora aí está

            O problema é que os argumentos não têm geração espontânea
            …e há progenitores que utilizam sistematicamente o mesmo argumentário…geral e compulsivamente ao lado

            E têm o desplante de tentar passar por virgens impolutas

  2. Von diz:

    O Renato determinou, está determinado. Vamos abolir os 80 e ponto final.

  3. Pedro Penilo diz:

    Renato, estou de acordo com a tua proposta, excepto num ponto (que me parece está implícito). É a mistura de realidades políticas e sociais distintas.

    Em países, como os Estados Unidos e o Reino Unido, corações do sistema capitalista, absolutamente desprovidos de forças de esquerda altamente organizadas e de sindicatos de classe, é evidente que não só se compreende (a compreensão está sempre presente em todas as situações) como se pode afirmar com segurança que explosões deste tipo são inevitáveis, eventualmente desejáveis.

    Já o mesmo não se pode esperar nem aplicar a realidades como a nossa ou a grega, onde esse tipo de explosões – que podem sempre ocorrer – objectivamente favorecem (e são procuradas pela) a burguesia e a sua necessidade de subir a parada, num momento em que sabe que, apesar da raiva, o nível de consciência de classe, de predisposição para a luta continuada e determinada ainda não corresponde ao desejável para as forças da revolução.

    “…a incapacidade da esquerda organizar o descontentamento…” É aqui que bate o ponto. Com uma expressão que muito usas – a “falta de comparência da esquerda” – por vezes pareces-te com aqueles treinadores que ignoram que estiveram a medir forças com outra equipa e que esta também andou ali a dar o litro.

    É necessário agitar, trabalhar e organizar; é necessário despertar consciências, não para eventos fugazes, eventualmente entusiasmantes, mas para golpes certeiros que signifiquem reforçar a luta, avançar e vencer. Com mais política e menos sedução.

    • Renato Teixeira diz:

      Compreendo o teu ponto de vista mas não vejo onde é que a natureza dos fenómenos mude consoante a centralidade da burguesia no seu contexto global. Também fica difícil de perceber o que se entende por “golpes certeiros que signifiquem reforçar a luta, avançar e vencer”, especialmente quando a esquerda tem sido tão pouco capaz de cumprir qualquer um desses objectivos.

Os comentários estão fechados.