ANJOS CALLING – Quanto maior for a bebedeira da burguesia e a inépcia da vanguarda proletária, mais violenta será a ressaca do povo.

O bárbaro espancamento de Rodney King (cujos agentes policiais foram absolvidos!?!) foi a acendalha para os motins que varreram Los Angeles, ainda na ressaca dos pouco entusiasmantes anos 80, mas não foi a única razão do fogo. Seguiram-se muitos outros fruto da violenta aliança entre a repressão e o abuso quotidiano do modo de vida. Tão mudos como cruéis, a ferocidade com que o poder foi dotando o bastão mais do que semear a obediência apenas foi capaz de colher a raiva dos marginalizados. A precariedade como doutrina, numa dança perigosa com a incapacidade da esquerda organizar o descontentamento, conduz as populações a expressar a sua fome com o resgate dos bens que lhes foi vedado pelo mercado, aos mais variados níveis. Uma fatia cada vez maior da população se solidariza com Mark Duggan, Alexis Grigoropoulos ou o Kuku porque uma fatia cada vez maior da população se identifica, partilha da mesma fragilidade, exclusão e miséria social. Entre a comoção e a revolta, entre a resistência e o saque, as formas que essa explosão assume podem ser mais ou menos entusiasmantes, diferentes graus de instrumentalização feitos a cobro deste ou aquele oportunista, mas serão sempre preferíveis do que a tolerância à inquisição de classes em que continuamos a habitar. Em Londres, Atenas ou Lisboa as respostas têm sido variadas mas a semente que as cria é a mesma em toda a parte. Os frutos, mais cedo ou mais tarde, não serão diferentes.

A conversa continua daqui a pouco, nos Anjos Calling. Participa.

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