III – Notas sobre a actual situação linguística na Cornualha, Reino Unido

Mas na esplêndida Cornualha das minhas férias estivais também se acoitam operários transformadores da língua falada, e de um tipo ainda mais radical. A Cornualha perdeu a sua língua “própria”, ou seja, a língua céltica que ali se falava, desde há séculos em concorrência com o inglês, ainda no século XVIII. Cerca de 150 anos mais tarde, porém, iniciaram-se os esforços para a fazer renascer do reino das línguas mortas, coroados por outros, mais recentes ainda, destinados a aproximar essa fénix linguística do idioma falado no século XV, antes que o inglês viesse torná-lo impuro, em vez de usar como padrão o Cornish final, produto da mobilidade social e da consequente miscigenação cultural. Nunca ninguém ouviu falar o Cornish que os antigos habitantes da Cornualha falavam “naturalmente”: este é um pouco como aqueles peixes abissais, que também nunca ninguém viu vivos, porque, depois de serem pescados a mais de mil metros, as suas guelras rebentam quando são puxados para cima, e antes que cheguem à superfície. Não obstante, há hoje cerca de 2.000 pessoas na região (deveria dizer país?) que não hesitaram em reintroduzir o Cornish na sua vida de todos os dias, e reconstroem como podem a sua pronúncia original, a partir das magras fontes que possuem, deixando essa língua ao mesmo tempo antiga e novíssima invadir todas as esferas das suas vidas, para dar o exemplo aos demais. São gente nova e velha, homens, mulheres e crianças que se abstêm de comunicar entre si na língua que todos conhecem e em que todos foram educados (o inglês) e, em vez disso, falam numa língua morta que aprenderam maioritariamente em livros e utilizam agora em todas as circunstâncias possíveis, a despeito de mais ninguém a compreender (supõe-se obviamente que comunicarão em inglês com o resto da população, mas o essencial da sua comunicação está direccionado para o interior do grupo). Os falantes de Cornish levam-se a sério: apesar de as autoridades britânicas (que, note-se, são as mais tolerantes de toda a Europa em matéria de reconhecimento de minorias nacionais) não chegarem ao ponto de lhes atribuir um estatuto político, e muito menos de reconhecer neles os putativos representantes da nação da Cornualha, a verdade é que eles não desistem, e tornaram-se conhecidos mesmo pelo seu vigor militante: em 2010, abriram o seu primeiro jardim-de-infância, procurando assegurar que o sacrifício das últimas gerações não foi em vão e que a causa que defendem não deixará de ter, não digo braços para a defender, mas vozes para a espalhar. As crianças que nascerem Cornish na Cornualha serão, pois, duas vezes Cornish, ou duas vezes da Cornualha, se gostarem da ideia; mas, se não gostarem, pouco poderão fazer: porque usaram contra elas a violência estúpida que os adultos, à falta de conseguirem empregá-la entre si, dirigem usualmente contra as crianças, e, necessário será admiti-lo, as mais das vezes com sucesso. Nascer na Suíça ou no Bangla Desh, determina as hipóteses dos pequenos seres ainda sem nação: podes ter o conforto do teu lado, ou não ter nada, ou ter a merda, ou ter a morte. No Cornish wonderland, a grande lotaria da humanidade é largamente simplificada, resume-se quase a uma tômbola de aldeia: com um bocado de sorte, serás igual aos outros (e aí terás sorte ou azar, é conforme calha), ou então, com um bocado de azar, serás um dos eleitos de um grande renascimento do absurdo, se acaso figuraste na lista dos clientes involuntários do jardim-de-infância céltico, seja lá o que isso for, criado em honra de Sir Lancelot e mais uns quantos mitos ha-ha-ha. Se essas crianças precisarem de um braço que as defenda, de bom grado eu lhes ofereço o meu; porque se há coisa com que embirre é com essa prepotência acéfala, que procura conformar o outro, sobretudo o que não se pode defender, às nossas estultas invenções. Noutra incarnação, testemunhei uma vez, horrorizado, uma born again que obrigou por decreto os filhos pequenos a alterarem o modo como se lhe dirigiam em nome de uma absurda noção de “respeito”, que deveria esgotar-se entre ela e o seu psicanalista. Felizmente não obrigou os seus filhos do Sul a falarem sueco, suecos a falar finlandês, turcos a falar ainda mais turco ou pequenos ingleses a falar a língua do Rei Artur; mas a vontade estava lá, a terrível intenção de corrigir um linguajar desviante, um pequeno episódio de violência doméstica que teve para mim o tamanho de uma grande pirâmide. Foi de onde nasceu tudo isto, acho eu.

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SEXTA | António Figueira
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13 respostas a III – Notas sobre a actual situação linguística na Cornualha, Reino Unido

  1. Rascunho diz:

    Há muito que a contradição virou tradição (ou vice-versa?), que isto de certezas só mesmo incertezas.

    Esta sequência de textos trouxe-me “muito” à memória – e achei que talvez não fosse, de todo, disparatado partilhar-me, na forma empírica e metafórica que me reveste.

    1 – Toda esta adulteração linguística (e não só) faz jus à existência – afinal, a vida é mutação:

    Anti-dogmas como dogma

    o que há de verdade
    é a mutabilidade das coisas
    assim sendo
    a verdade não é o que não se altera
    mas sim o que deixa de ser a todo o instante

    2 – Acordo ortográfico

    muitos excitam-se
    com a adulteração da língua materna

    traçando um paralelo

    uma mulher (homem) não deixa de
    ser mulher (homem) por não ser virgem

    no entanto
    uma vigília atenta
    não deixa de ser saudável
    não vá transformar-se em puta (pulha)

    3 – Da hegemonia e potencial manipulação através de uma uniformidade linguística

    Hitler pretendeu uma só raça. Presentemente, em que se está a transformar a língua inglesa? Temos vindo todos a aprender inglês. A adulteração está-se a processar subtilmente a nível interior – quiçá de forma mais subversiva (e não pretendo defender o personagem hediondo e básico que atrás mencionei – apenas alerto para um “paralelo” a nível da predominância de uma cultura/língua sobre as demais).
    Sabemos muito bem que “good” tem um alcance muito mais amplo que “bom” – como se “good” significasse tudo e “bom” praticamente nada. Isto confere a nível económico, mas não só, uma espécie de vantagem/monopólio. Parece-me, de facto, haver uma instrumentalização nesse sentido – estamos cada vez mais “inglesados”. Chegamos ao absurdo de censurarmos, ou de nos censurarmos, por não saber falar/escrever em Inglês – o resto não interessa. E como a linguagem confere e estrutura o comportamento do (e no) indivíduo, isto tem que se lhe diga.

    Resumindo: é um facto – há algo de dramático na perca de identidade.

    Pormenor: sempre olhei para a linguagem oral, escrita, visual, sonora como básica. “Satisfizeram-nos” e, por isso mesmo, a esses códigos primitivos permanecemos cativos. Estamos presos à “liberdade” de pensar. Talvez, se não nos tivéssemos embeiçado com estas primitivas formas de comunicabilidade, já estivéssemos no campo da telepatia – a transcender os tais 10%, ou lá quanto quiseram quantificar, de utilização cerebral.

    • licas diz:

      Perca? Mais um analfabeto(inho) . . .
      Esta palavra designa EXCLUSIVAMENTE uma espécie de vertebrado.
      Correto só perda (e com “e” não sonoro, POR FAVOR . . .)

      • De diz:

        Ora bem.
        Cá temos aquele que nunca se engana e que raramente tem dúvidas,de roupão ,chinelo e catarro por junto, a invectivar outrem …um analfabeto(zinho) diz.
        O pior( ou o melhor) é que este “licas”,como qualquer humano, também cai na asneira e no vulgar erro.Abundam nos seus “comentários”
        Terá “licas” que recorrer ao ciberdúvidas de novo para deixar no ar o seu tom pretensamente superior e pedante com que esconde o seu lixo?
        Provavelmente

  2. ezequiel diz:

    belo texto, António.:)

    cumps,
    ezequiel

  3. miguel serras pereira diz:

    Chapeau.

    msp

  4. Tiago Vasconcelos diz:

    Confesso que não encaro com o mesmo romantismo do António Figueira pela conservação da língua. Para mim, no mundo todos falavam apenas Inglês (por ser a língua que demonstrou ser a mais eficiente e versátil) e Italiano (por ter a sonoridade mais bela). Línguas e dialectos regionais podem ser pitorescos e suscitar interesse cultural mas, na prática, constituem barreiras à comunicação, à convivência e à mobilidade dos povos.

  5. ezequiel diz:

    o sr estava com tanta vontade de falar que se esqueceu de ler o q escreveste. lol

    deparei-me agora com esta preciosidade. nem sequer sei se é preciosidade ou não, a mim parece tal coisa, mas dá lá uma vista de olhos. sciencia. com sc. pharmácia. beuutiful. 🙂

    http://www.gutenberg.org/files/28364/28364-h/28364-h.htm

    • António Figueira diz:

      Viva,
      Isto parece ser o relatório da reforma de 1911 – olha, que faz agora um século – ao pé da qual o Acordo de hoje parece uma brincadeira de crianças…
      Eu, mais que da sciência, gostava do escripto…
      Abraço, AF

  6. ezequiel diz:

    Hello,

    hesitaria chamar o texto de 1911 um acordo.

    quando muito, um conjunto de directrizes dotados de explicação elementar e lúcida.

    o actual acordo foi a maior barbaridade que se fez à língua portuguesa nos últimos 500 anos. jamais escreverei “perceção”, lol. o pesinho fica(va) ali tão bem.

    belos artigos, António. estou mesmo a gostar. 🙂 i shit you not. plain honest.

    presumo que conheças. se n conheces, garanto-te que vais gostar:

    http://mitpress.mit.edu/catalog/item/default.asp?ttype=2&tid=7845&mode=toc

    lol

    • António Figueira diz:

      Não, não foi um acordo, foi uma imposição: Portugal agiu como se o português fosse só dele, e a história das duas ortografias começa aí.
      Obrigado pelas kind words; são textos preparatórios/instrumentais do meu próximo livro, daqui a mais ou menos um ano conto tê-lo cá fora.
      Abraço grande, vou seguir o link.

  7. ezequiel diz:

    ah. porra.

    um grande abraço,
    ezequiel

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