Fazer obra pública apoiada em conluios, corrupção e falta de qualidade é a mesma face da moeda de quem agora quer menos Estado

O Daniel Oliveira escreve aqui sobre o processo de requalificação das escolas. Sobre a necessidade da requalificação das escolas estamos, no essencial, de acordo. Sobre o processo e a empresa pública que Maria de Lurdes Rodrigues criou, parece-me que as alegres campanhas entre o Jugular e o Arrastão andam a fazer com que o Daniel escreva mal informado. Algumas notas sobre o texto:

1. O Tribunal de Contas já realizou uma auditoria às contas da Parque Escolar EPE, cujos resultados continuam sem vir a público;

2. Os valores dos ajustes directos da Parque Escolar EPE estão muito acima dos valores de mercado praticados;

3. Sobre as empreitadas, o Daniel escreve em jeito de comentário “ainda assim, talvez mais bem distribuido do que a maioria das grandes obras púbicas neste País”. Será que o Daniel consegue dar um exemplo desta boa distribuição?

4. Ao contrário do que o Daniel declara como contraditório numa frase que entendo visar-me, “Quem ajudou, mesmo que involuntariamente, a defender o fim de um programa de investimento público nas escolas, como defenderá qualquer outro?” , não me sinto nada atrapalhado em defender as obras da escola – como o faço aqui. Obra pública, feita de uma forma transparente e com qualidade é o primeiro passo para derrotar a ideia de menos Estado. Promover obra pública apoiada em conluios, corrupção e falta de qualidade é a mesma face da moeda de quem agora quer cancelar e de quem defende menos Estado.

5. Por último, constato que o Daniel apoia a única iniciativa que este governo no que toca à Parque Escolar EPE: uma auditoria. Eu não concordo. Basta-me os dados disponíveis para avaliar a referida empresa, basta-me constatar que esta empresa pública duplicou organismos de Estado, basta-me saber que adjudicou a amigos e enteados, basta-me não estar de acordo que o património dos edifícios escolares transite para esta empresa mal gerida, basta-me olhar para algumas obras que realizou… para não lhe reconhecer o direito de me endividar. Basta-me analisar o seu trabalho, para defender a sua extinção.

P.S. – Entretanto, fui ver o que o Daniel escreveu ao longo dos últimos anos sobre a Parque Escolar (aqui, aqui e aqui). Será que alguém lhe roubou as passwords?

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6 respostas a Fazer obra pública apoiada em conluios, corrupção e falta de qualidade é a mesma face da moeda de quem agora quer menos Estado

  1. Tiago,

    1 – bem sei que há uma auditoria do TC. Seria normal sabermos dos sues resultados em vez de suspender todas as obras futuras.

    2 – Investigue-se e puna-se, devia ser essa a exigencia neste momento.

    3 – Expo e Euro, só para pegar nos examplos Maia conhecidos.

    4 – Nāo eras tu nem ninguem em especial o “alvo” desta critica. Como sabes vai haver um debate parlamentar sobre o assunto esta semana e ja se conhecem as varias posições. A única referência em que te deves sentir envolvido é a da utilizaçāo do argumento do endividamento, bastante infeliz, por sinal.

    5 – A mim não me bast a isso tudo para fazer o favor a Crato e Passos de deixar apodrecer as escolas. Acredito que podemos ser politicamente rigorosos, defender alterações no processo e exigir respondabilidades sem deixar parar este investimento. Por isso mesmo, os meus posts anteriores não sāo contraditórios com este. Reconheco que há uma diferença: dirigia-me a um governo que queria fazed estas obras – necessárias – com um mau processo e agora dirijo-me a um governo que usa o mau processo porque nāo quer fazer as obras. Faz albums diferença, apesar de nāo ter dito nada de diferente. Mudei o foco porque mudou o tema.

    Abraços, Daniel

    • Desculpa, escrito num suporte pouco adequado, veio cheio de gralhas. Mas acho que se percebe. E diria, no fim: mudou o foco porque mudou o contexto e as motivações do poder.

      Já agora, continua a ser um gosto debater contigo. Porque te ficas sempre pelo tema sem te concentrares no destinatário. E não julgues que não compreendo toda a tua indignação. Sinto-a. Mas sei, e tu também sabes, como vai isto acabar. E isso tem de contar, bolas.

    • Tiago Mota Saraiva diz:

      Daniel,
      1 e 2 de acordo.

      3. Na Expo houve concursos, com problemas, mas houve concursos. Sobre o Euro estamos de acordo – talvez o grande mal seja ter o mesmo denominador comum. De qualquer maneira a pergunta mantém-se, por que achas que foi melhor distribuído o processo da Parque Escolar?

      4. Daniel, conhecendo bem as diferentes fases do processo, posso garantir que uma parte do que se gastou foi para aumentar/aguentar os lucros das grandes empresas de construção. É verdade que as pequenas empresas também trabalharam nas escolas, mas faziam-no com valores baixíssimos que muitas vezes não cobriram o prejuízo. Os valores (acima do mercado) que a Parque Escolar pagou às grandes construtoras foi para o bolso dos seus accionistas. Assim sendo, tal como nos “apoios” à banca, entendo que esta dívida não é nossa. Há que responsabilizar quem a contraiu.

      5. Não é isso que escreves no texto. Declaras-te a favor da auditoria, eu acho que a auditoria é um embuste. Penso que a auditoria serve para o governo fazer transparecer seriedade e rigor a partir do cancelamento das obras. Escrevi-o deste modo:

      “A novidade dos tempos que correm não está neste processo. A novidade é utilizar-se o cancelamento como demonstração de transparência e seriedade, sem que se perceba que é um comportamento igualmente criminoso. Se temos um buraco na parede pelo qual entra frio, calor e chuva, sabemos que quanto mais tarde o taparmos maiores serão os custos da sua reparação.
      Cancelar a requalificação das escolas e não concluir e rectificar algumas intervenções que foram feitas é projectar um futuro explosivo. Não aproveitar o trabalho que se encontra por fazer para promover um processo-piloto, transparente, rigoroso, e no qual a qualidade seja o eixo central, é reconhecer que esses princípios não estão na agenda do governo. Cancelar é abdicar do país.”

      Abraço

      • Manuel Antunes diz:

        por favor vejam o desabafo em
        http://aeiou.expresso.pt/educacao-ministro-garante-que-ha-mais-escolas-para-fechar=f674224?uop=userlogin

        de qualquer forma é público que a Parque Escolar está a ser alvo de 5 Auditorias (3 externas e 2 internas) e não 2 como noticiado! e que todas já estavam em curso antes do pedido efectuado pelo actual Ministro da Educação.

        • Tiago Mota Saraiva diz:

          Manuel Antunes, como é bom fazer uma diarreia de acusações, sob anonimato, sem ter de as provar!
          Agora sobre o que aqui escreve. 5 auditorias? É público? Onde?
          Se a Parque Escolar tem 2 auditorias internas em curso, como diz, deve ser uma prova de eficiência e boa gestão…
          E já agora, diga-me lá debaixo de que pedra é que posso encontrar os milhões a que tenho direito.

  2. Pingback: A má obra da Parque Escolar | Aventar

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