II – Notas sobre o comportamento linguístico da burguesia finlandesa no século XVIII

Há alguns anos, assisti na faculdade a uma conferência sobre o comportamento linguístico da burguesia finlandesa no século XVIII. Não sei se o que retive daquilo que ouvi (e que só marginalmente me interessava) é muito rigoroso, mas aqui o rigor também pouco importa, porque da saga dos burgueses finlandeses extraí uma parábola de teor mais literário que ensaístico – ficção ou não-ficção?, pouco importa, acho eu. A saga reza assim: que no século XVIII os burgueses da Finlândia falavam sueco, aliás eram suecos, e de uma hora para a outra decidiram adoptar a língua dos seus criados, uma língua por demais difícil, exótica, bizarra, e sem nenhuma espécie de títulos de nobreza, para se afirmarem finlandeses, e tão bem o fizeram que no período de duas gerações essa migração linguística estava completada. A mim, o que me intrigava nesta história, não era tanto a vontade, que obviamente me parecia algo absurda, de afirmar uma diferença, ou de afectar uma identidade que era falsa (mas depois passou a verdadeira: os mitos são mesmo assim, uma vez inventados, como que se reificam); o que me espantava era a determinação daquela gente, e a dimensão íntima daquela conversão: porque estamos a falar de um processo social, mas que assenta (tem de assentar) numa predisposição pessoal – e era esse mecanismo individual (que aproxima a história dos burgueses finlandeses de algumas outras que conheço pessoalmente) que eu queria desvendar, imaginando-os sozinhos em frente de um espelho (os espelhos seriam comuns nas casas burguesas de Helsínquia no século XVIII? Não sei.) a macaquear os trejeitos bocais necessários para bem pronunciar as vogais longas do novo idioma na sua versão mais pura, que era a usada nas longínquas florestas da Carélia, ou numa alcova quente, enquanto nevava fartamente lá fora, com as caras pálidas afogueadas pelo lume doméstico e trocando gestos e palavras ternas na língua nova mas mal falada: amar-se-iam, talvez, mas não sabiam conjugar o verbo amar. Tinham nascido de novo, e afirmaram esse facto pela palavra: no espaço público e na esfera pessoal, a palavra, que tudo invade, anunciou a nova ordem – e não se julgue que o seu caso foi único, porque eu depois fui à procura de outros, e encontrei pelo menos mais dois; já falei na política linguística do Atatürk, falta mais um.

Sobre António Figueira

SEXTA | António Figueira
Este artigo foi publicado em cinco dias. Bookmark o permalink.

7 respostas a II – Notas sobre o comportamento linguístico da burguesia finlandesa no século XVIII

  1. Esgravatando nos meus longínquos e parcos conhecimentos de finlandês, imagino que o mais terrível para esses pobres burgueses neo-linguísticos seria dizerem às suas amadas “mina rakastan sinua” sem que elas se arrepiassem com o som de tal apaixonada declaração…

  2. Helena Borges diz:

    Ehkä.

  3. Pedro Penilo diz:

    Devemos supor que não ignoravam totalmente a língua dos criados, que até a usariam no quotidiano.

    Ou seja, supor que não se tratou propriamente de um conversão individual súbita, mas do súbito processo político de reconhecer uma já avançada conversão.

    Embora a imagem seja cativante. (mas eu nada sei do assunto…)

    • Acabas de me fazer lembrar uma outra curiosidade linguística, embora sem conversão.

      Uma grande parte – não sei se a grande maioria, nas zonas rurais – dos mesmos sul-africanos neerlandófonos que instituíram o apartheid sob a protecção explícita do “Grande Arquitecto do Universo” (quem não acredite neste pormenor, veja o discurso respectivo) sabiam falar zulu ou shona, conforme a região onde estivessem instalados.
      Sobretudo, bem entendido, para poderem comunicar com os criados e empregados, reduzindo o espaço para resistências passivas possibilitadas por reais ou supostas incompreensões linguísticas; mas também pela peculiar ideia de que constituíam mundos totalmente separados.

      Segundo parece, essa capacidade linguística era raríssima entre sul-africanos anglófonos, embora tendencialmente mais liberais.

      Mais rara ainda entre os portugueses instalados em Moçambique ou Angola, que aliás se referiam ás diversas línguas locais como “falar dialecto”.

      As voltas que as línguas e o conhecimento delas dão, mesmo em contextos de relações de poder de sufocante supremacia, podem efectivamente ser muito turtuosas e ambíguas…

  4. Estou a ver que, ao correr do teclado, escrevi “shona” (dos vizinhos do lado), em vez de “shosa”.
    Fica a correcção.

Os comentários estão fechados.