I – Notas sobre a reforma linguística na Turquia (1927-28)

Julga-se que tudo o que Atatürk fez à língua turca foi impor uma mudança de alfabeto, do árabe para o latino, mas ele fez bem mais do que isso: não se limitou a interferir na forma como o idioma era grafado, mexeu também no respectivo conteúdo. Muitas das palavras que compunham (e, apesar de tudo, ainda compõem) o léxico turco eram de origem árabe ou persa, e por isso envenenavam as mentes do homem novo supostamente em construção no final dos anos 20 na Turquia: pois logo Atatürk ordenou a sua substituição por outras de pura origem altaica, ou de fonte latina ou germânica (e portanto europeias e ocidentais), para essa influência nefasta se dissipar e um sopro de modernidade se fazer sentir. Sobre este tema, e depois de muito procurar, encontrei finalmente um livro (inglês) que explicava a coisa mais ou menos assim: pensem no termo corporation, por exemplo: provém directamente do latim corpus, a que se acrescenta o sufixo, também latinizante, tion (equivalente ao nosso “ção”); ora, se acaso houvesse um pai dos ingleses que quisesse mudar a língua e através dela o país, trocaria o velho corpus pelo bem mais germânico body e remataria a palavra com um sufixo cujas credenciais anglo-saxónicas fossem igualmente inatacáveis, do tipo dom – e em vez de corporation teríamos então o neologismo bodydom, um pouco como os alemães têm fernsehen para televisão (porque fern + sehen = tele, i.e. distância + visão, só que em alemão) e entre nós se inventou, com o sucesso que se conhece, “ludopédio” para futebol (e poderíamos saber tudo isto através da British Broadcasting Bodydom, Auntie Beebeeb, ou BBB). Com os vastos poderes de que dispunha, Atatürk purgou de orientalismos arcaicos o turco escrito: nem livros nem jornais podiam aparecer com as palavras proibidas; mas os turcos eram tão avessos como nós à engenharia linguística, e ainda mais analfabetos, e nem o povo tinha a determinação maníaca dos nation-builders, nem Atatürk dispunha de polícias em número suficiente para controlar eficazmente a língua que o povo falava: por isso a sua reforma soçobrou, e as velhas palavras, que tinham sido injustamente responsabilizadas pelo atraso do país, acabaram por ser soltas dos antigos dicionários em que as tinham encerrado e conhecer de novo a liberdade. Confesso que fiquei contente.

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SEXTA | António Figueira
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9 respostas a I – Notas sobre a reforma linguística na Turquia (1927-28)

  1. Daniela Pamplona diz:

    Que livro era?

  2. António Figueira diz:

    Para ser absolutamente sincero, não era um livro, era uma revista (em formato de livro, não um magazine) que eu me dediquei uma vez a ler enquanto estava a beber umas bitters no Beaver’s Retreat (o Ezequiel sabe o que isso é), no distante ano de 1999.

  3. Carlos Carapeto diz:

    Mas o Figueira não se tinha dedicado à jardinagem? Veio afiar a lamina do corta Relvas!

  4. ezequiel diz:

    hello António,

    gostava de lá ir mas só pq se situa num telhado (sem telhas lol) o beavers deve ser o pub mais desinteressante da GB. tão desinteressante como a insípida terceira via. lol

    bitters??? bolas, tens estômago para bitters?? not me cup of tea. era cliente habitué do lambs, da rugby tavern (lambs conduit str), do inesquecível globe (portobello). mas o pub que me conquistou a alma e o fígado foi o kings arms. o lse nunca me convenceu. nem sequer o raio do pub. era muita malta da a-street em ferraris, muitos fake preppies, investment bankers e filósofos da ocasião…lol n sinto saudades. deveria ter ido para a new school ou para a northwestern. 🙁

    fixe teres regressado às postas.

    abraço amigo
    ezequiel

  5. ezequiel diz:

    http://www.hendricksgin.com/

    do not forget the cucumber!!!!

    bom fds.

    PS: o nosso SCP está na …..
    bolas. começo a pensar que é mesmo maldição

  6. Homem de Esquerda diz:

    Atatürk, o grande reformador. Um homem de uma laicidade e de um progressismo muito maior do que aquele que, infelizmente, se encontra na Esquerda actual sempre tão compreensiva para com as retrógradas tradições islâmicas.

    • António Figueira diz:

      Achas mesmo, ó Homemem de Esquerda?
      Então espreita aqui:
      http://www.lrb.co.uk/v30/n17/perry-anderson/kemalism

      • Homem de Esquerda diz:

        Obrigado pelo interessante texto.
        Ataturk cedo percebeu que a amplitude das ambições reformistas só conseguiria ser concretizada com a desejada rapidez sob um regime autoritário. Por isso, modernizou o país fazendo uso de repressão. Por isso, laicizou fazendo uso de repressão. Por isso, alterou a língua descartando tradições. Tudo isso é verdade. Mas, a meu ver, não diminui a dimensão e o mérito das suas reformas.
        Nunca o mundo islâmico viu tal ímpeto modernizador.

  7. José diz:

    Obrigado pelo link: fabuloso!
    Sobre o texto do Anderson, não posso deixar de concordar com algumas críticas expostas no próprio site, nomeadamente com a suposta benevolência atribuída pelo autor ao Antigo Regime otomano na sua relação com os infiéis cristãos ou judeus.
    Espero, cheio de curiosidade, pelo final da trilogia.

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