Lições do 12 de Março, a pensar nas aulas do 15 de Outubro (IV)

Consensualizar o que é possível e votar o que é preciso.

[a 40 dias das ruas voltarem a ser nossas]

Fotografia roubada à Bárbara Sereno, cujo trabalho merece uma visita mais prolongada.

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6 respostas a Lições do 12 de Março, a pensar nas aulas do 15 de Outubro (IV)

  1. Gualter diz:

    «Consensus is the community resolution when opposing parties set aside their differences and agree on a statement that is agreeable to all, even if only barely.

    Disputes on Wikipedia are settled by editing and discussion, not voting. Discussion should aim towards building a consensus. Consensus is a group discussion where everyone’s opinions are heard and understood, and a solution is created that respects those opinions. Consensus is not what everyone agrees to, nor is it the preference of the majority. Consensus results in the best solution that the group can achieve at the time. Remember, the root of “consensus” is “consent”. This means that even if parties disagree, there is still overall consent to move forward in order to settle the issue. This requires co-operation among editors with different interests and opinions. »

    (de http://en.wikipedia.org/wiki/Wikipedia:What_is_consensus%3F)

    Se queremos unidade e coesão do movimento, a via do consenso é a única via possível. Saber trabalhar em consenso não se faz da noite para o dia, faz-se com a prática permanente e a inerente construção de empatias. O aparecimento de vetos no consenso significa o bloqueio do mesmo processo (sinal de intransigência de alguns indivíduos, ou de que o processo em si não está capaz de trabalhar e acomodar a diversidade, buscando pontos de encontro e construindo empatias)

    O trabalho em consenso que se faz, com sucesso, em processos como o da Wikipedia ou as acampadas, mostra que este é um caminho com futuro para a construção de movimentos de massas (ou multidões) reflectidos e não exclusivos.

    • Renato Teixeira diz:

      Não concordo Gualter. Acho que na verdade muito poucos temas se conseguem resolver por consenso e que a sua fetichização não só divide como nos leva ao imobilismo.
      Quando dizes “a via do consenso é a única via possível” é o mesmo que a malta marxista dizer que nada pode funcionar se não for eleito um Comité Central. Não me parece viável um movimento plural adoptar “como única via possível” o método de uma das suas partes.
      Basta recordar as várias assembleias em que a prática provou a infuncionalidade do método, uma vez fetichizado.
      Claro que nos campos onde há possibilidade devemos tentar o consenso. Posto isso, a tomada de decisão, isso sim, é o único caminho.

  2. Frederico diz:

    O pá, estava aqui à espera de um ensaio profundíssimo…

  3. Nuno diz:

    Parece-me que continuas sem perceber que uma assembleia é um instrumento de transformação colectiva, não é uma reunião pública destinada a cada um fazer valer as suas convicções e preocupações na ânsia de convencer os outros da sua justeza e urgência.

    1. A pressa é a grande inimiga das assembleias, muito mais que os infiltrados e sabotadores. As urgências são perigosas e fracturantes. Uma urgência que não é consensual a mais-das-vezes não é uma urgência. Nenhuma coisa é mais urgente que o debate, tem de haver amplo lugar para ele. Só ele solidifica internamente um movimento. Só ele permite determinar os pontos comuns. Se não houver pontos comuns, não há que temer dizê-lo, a assembleia não faz sentido.

    2. A opção pelo consenso como forma de decisão não elimina a capacidade de decisão. Assegura sim, um efectivo debate, uma efectiva abertura da proposta original à opinião de todos, uma efectiva transformação das propostas no sentido de pontos comuns a todos.

    3. A opção pelo consenso não é a ditadura da minoria. O que não consegue ser consensualizado simplesmente não é consensualizado. Só isso. E isso não tem nada de grave. Há que saber aceitar que as ideias que nos são queridas e estruturais poderão não ser queridas e estruturais aos outros. O consenso permite entender que parte das nossas ideias é comum aos outros. Mas não nos impede de as desenvolver individualmente ou em grupo, em toda a sua pureza. No final é uma decisão nossa, de cada individuo, ou corrente na assembleia. Não há que temer essa diversidade.

    4. A não existencia de um consenso numa assembleia não significa inacção. As assembleias não são tudo. São apenas lugar de encontro, debate e tomada de decisão comum. Se algo é verdadeiramente importante, então mesmo que não seja consensualizada uma proposta na assembleia, esse algo acabará inevitavelmente alvo de múltiplas acções individuais convergentes. E essa convergência revelará convergência na acção. Mesmo sem uma decisão global da assembleia ter sido atingida.

    Exemplo de tudo isto, verificou-se em Madrid, nas primeiras semanas de Agosto. Perante retirada do ponto de informação do M15 nas Puertas del Sol, várias assembleias se realizaram com o intuito de “retomar” a praça. As assembleias ocorreram de forma caótica, desorganizada, a horas e locais não programados, quando as pessoas que neles se encontravam o decidiam. Nota: situação que exija uma tomada de posição mais forte e urgente é difícil de conceber. Infiltrados, deve ter havido mais de muitos. Por isso acho a situação um bom teste ao mecanismo de decisão assembliário por consenso. Saliento alguns factos:

    1. não foi por ter havido várias assembleias em vez de uma única assembleia (maior, mais forte e mais representativa) que a resposta do M15 foi menos determinada.

    2. não foi por ter havido diversidade de protestos e de manifestações, umas maiores outras menores, convocadas para vários locais e várias horas por diferentes assembleias e movimentos, que a resposta do M15 foi menos forte.

    3. não foi por não ter havido consenso em várias assembleias em relação a acções concretas e urgentes que a resposta do M15 foi menos eficaz- o que não foi consensualizado não foi, mas as acções individuais continuaram a ser realizadas. E acabaram revelando a convergência espantosa que existia em torno do que era comum (retomada não-violenta da praça)

    4. E a praça foi retomada. Sem nunca uma assembleia se tentar sobrepor às outras, sem nunca uma acção se tentar sobrepor às outras, sem o consenso ter sido atingido em todas as assembleias.

    Penso que será digno da tua reflexão.

    • Renato Teixeira diz:

      Nuno, depois de ler o teu comentário pergunto-me se terás lido a frase que lhe dá suporte: “Consensualizar o que é possível e votar o que é preciso.”

      E desengana-te se achas que vais ouvir da minha boca pancadinhas de Molliere. Em Agosto, o teu empenho foi proporcional à tua falta de perceber que “uma assembleia é um instrumento de transformação colectiva, não é uma reunião pública destinada a cada um fazer valer as suas convicções e preocupações na ânsia de convencer os outros da sua justeza e urgência”.

      Quantos te disseram que era um disparate fazer assembleias para dez marmanjos? Que sentido dez marmanjos falarem por várias centenas que entenderam, e bem, que era tempo de retomar o fôlego para as lutas que aí vêem? A abnegação não é sinónimo de razão e não confere autoridade. Sei que sabes disso e também por isso não se compreende o teu comentário.

      Dizes: “A pressa é a grande inimiga das assembleias, muito mais que os infiltrados e sabotadores”. E eu pergunto onde é que houve pressa? Qual a legitimidade de dezenas de AP a aceitar discutir o mesmo assunto vezes sem conta?
      Se “as urgências são perigosas e fracturantes” o que te parece ser a paciência com água no bico? Como, sabemos bem e vimos, que quase nada é consensual, como aceitar que “uma urgência que não é consensual a mais-das-vezes não é uma urgência”? Assim de repente lembro-me de uma mão cheia de assuntos que não são consensuais que são urgentes, e estou em crer que és capaz de fazer o mesmo exercício.

      “Nenhuma coisa é mais urgente que o debate, tem de haver amplo lugar para ele.”
      Onde lês o contrário? Nota que eu, bem diferente da minha posição inicial, até acho que devemos procurar, num primeiro momento, o consenso, apenas coloco a votação como alternativa nos casos (e tantos que eles são) em que um movimento, e bem, não pensa o mesmo da vida. Dou por isso bastante mais valor ao colectivo do que a cada individualidade e não entendo onde é que está a real democracia de dar a cada um direito de veto.

      “A opção pelo consenso não é a ditadura da minoria.” É falso. Quando foi tentado, foi. E por variadíssimas ocasiões.

      A única ideia (método, que ideia é coisa de outra envergadura) defendida “em toda a sua pureza”, desculpar-me-ás foi o consenso, defendido historicamente apenas por um dos sectores que o compõem. Gostaria de ver o que diriam dos marxistas se aparecessem todos a defender a eleição de um Comité Central para o Movimento…

      Abraço.

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