O Homem que Gostava de Cães

Leonardo Padura confessa aqui que fez uma cronologia de 800 páginas antes de escrever este romance, que conta a história de Trotsky e do seu carrasco, Ramón Mercader. É um extraordinário romance escrito por um cubano, que vive e escreve, criticamente, sobre Cuba, o que não deixa de ser também parte do enredo. O Homem que Gostava de Cães é uma história de fôlego de investigação, mas também um romance que nos transporta, imaginativamente, para os pensamentos de Trotsky, um dos homens mais importantes do século XX. Nas primeiras páginas lê-se que queriam enterrar a história com a queda do muro, justamente quando se começava a pensar nela… Imperdível.

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20 Responses to O Homem que Gostava de Cães

  1. Eu não desgostei do romance. Embora me pareça que a mãe do Ramon Mercader e o próprio estão escritos como caricaturas. O desvio sexual, a droga transforma-se em estalinismo. No livro há o bom Trotsky e familiares e os maus estalinistas. Sendo que os segundos são patológicos. O Andre Marty é um ogre, etc, etc.
    É sobretudo uma condenação global ao comunismo. Sendo que Cuba aparece como uma tragicomédia branda disso. O narrador morre no quarto, por causa de uma causa que literalmente cai aos bocados.

    • Raquel Varela diz:

      Como se faz uma «condenação global do comunismo» defendendo o Trotsky?

      • Nuno Ramos de Almeida diz:

        Trotsky aparece com um homem ingénuo cumplice de alguns crimes, como kronstadt. O problema do livro é que resume o estalinismo a uma patologia. Sinceramente, prefiro análises políticas e históricas. As cenas em que os maus são gordos e suam como supostamente André Marty e que a malta é toda louca, não me contentam muito. Mas admito que para alguém que seja trotskista não perceba que o livro tende a condenar todas as revoluções, mesmo as acções do dito cujo, e transforma toda tentativa de revolução em crime. Não tenho nenhuma simpatia pelo estaline, mas não gosto de livros que transformam a política em bonitos e feios, bons e maus, sábios e loucos. É demasiado simples.

        • António Paço diz:

          Já li o livro e não concordo contigo. Além de seguir o percurso do Trotsky no exílio e de se notar que há uma óbvia admiração pela sua figura, o Padura consegue dar densidade ao personagem Ramón Mercader, que no livro aparece como muito mais que um cromo, o assassino da picareta. É sobretudo na parte final que se dá a entender a «desilusão» do autor com o comunismo, mas olhando para o que está para trás desconfia-se se não será a moeda paga para se fazer publicar em Espanha e no Mundo.
          Quanto ao André Marty, tens a certeza de que não era mesmo isso: um ogre?

          • Nuno Ramos de Almeida diz:

            Eu tb li o livro. Por amor de deus. Vamos resumir a densidade do Mercader segundo o livro: tinha uma mãe aristocrata a quem o pai obrigava a drogar-se a ter sexo anal com outros homens em prostíbulos. Por isso, a mãe tratava-o mal. Ele cresce com a mãe, com um ódio à burguesia. É um pobre coitado, nunca tem um pensamento que vá além de um título de um panfleto de propaganda mais reles. Aliás, todos os comunistas no livro são uma espécie de caricatura. Mercader é recrutado pelo NKVD , na figura do amante da mãe, manda infiltrar-se. Faz de playboy e engata uma trostskista feia que nem uma anta. Toda a cabecinha dele, está cheia de pensamentos simplistas. Aliás, no livro, todos os não troskistas são uma espécie de robôs burros que não conseguem pensar. A personagem real deve ter densidade, mas no livro do Padura, só ganha alguma depois de vir da prisão quando se encontra com o mentor do NKVD em Moscovo. O livro é de um simplismo no desenho das personalidades dos “maus” , dificilmente ultrapassável.

          • Carlos Vidal diz:

            Este último livro de Leonardo Padura, sobre Trostsky, é apresentado na capa da Porto Ed. como “Um romance que nos dá um retrato impiedoso da utopia mais importante do século XX”. Ou seja, a editora fala de um romance anticomunista, o que não é grave, mas grave é isto; A. Paço, no comentário acima, justifica o anticomunismo do autor deste modo (repito):
            «É sobretudo na parte final que se dá a entender a “desilusão” do autor com o comunismo, mas olhando para o que está para trás desconfia-se se não será a moeda paga para se fazer publicar em Espanha e no Mundo.»
            É aqui que a questão se deve colocar: um tipo, se quiser circular internacionalmente, deve dar ao potencial cliente e entidade legitimante o que ele mais deseja – para em troco ser traduzido e publicado por todo o lado e triunfar. O escritor pode e tem de ser um mercenário se quiser ser publicado (ou para ser publicado) “em Espanha e no Mundo”.
            Já estou a imaginar alguém a dizer a Proust – acabe lá com isso no volume 5, La Prisonnière, senão ninguém o publica em Espanha e no Mundo, não acha já ter escrito demais? (ou será publicado tardiamente e terá poucos leitores!)
            Dizer a Camilo Castelo Branco – porque complica tanto a linguagem; já sabemos que é, da sua língua, um genial artífice, mas assim nunca será publicado em Espanha e no mundo. Há paciência para tudo e tudo tem um preço.
            Dizer a Eça – deite fora a coisa sobre o padre Amaro, não se meta com os poderes reais de certa instituição, assim não será publicado na católica Espanha e no mundo.
            Dizer a Shoenberg – homem, escreva música tonal!
            Sei lá, aos Duran Duran – escrevam um fado, para serem publicados com sucesso em Portugal (para variar), etc., etc.
            A frase de A. Paço revela da criação algo que desconheço, supõe que os artistas são uns calhordas-mercenários: “sê anticomunista para seres publicado em Espanha e no mundo”. Não entendo, nem tenho que entender.

  2. Nuno Mendes diz:

    Por muito estranho que pareça, o nome do livro poder-se-ia aplicar a um romance sobre Adolf Hitler.

  3. Raquel Varela diz:

    Nuno,
    Não conheço a história do Mercader nem da mãe, não sei qual a fidelidade do livro a este respeito. Eu até acho que o Padura é simpático com um homem como o Mercader, pouco mais que um polícia na realidade, e aqui no livro ganha algum dimensão psicológica. No que diz respeito ao trotskysmo e à URSS dos anos 30 é um livro extraordinário e muito bem escrito.

  4. Homem de Esquerda diz:

    Para quem ainda tem dúvidas: http://dai.ly/otPugm

  5. Niet diz:

    O ” cerco ” intercontinetal do N.K.V.D./ G.P.U a Trotski, sua família e colaboradores- militantes demorou mais de 10 anos a ser construído. E Ramon Mercader- aliàs Franck Jacobson ou Jacques Mosnard- acabou por morrer sem falar em Moscovo, em 1978, à sombra da protecção relativa da ” Ordem de Lénine ” depois dos 20 anos da sua prisão no México. O gigantesco ” esquema ” montado pelos esbirros de Estaline para a morte de Trotski e dos seus companheiros contou com agentes duplos, triplos em variados países, mesmo nos USA. E na lista internacionalista dos companheiros de Leon Bronstein executados existe a ” nata ” mais pura e abnegada dos trotsquistas espanhóis da Guerra Civil Espanhola e os altos quadros da ” Oposição de Esquerda ” disseminados pela Suiça, Polónia, Alemanha e França que se revoltaram contra os crimes de Estaline, desde 1930. Niet

  6. António Paço diz:

    Aventar a possibilidade de o Padura ter terminado o livro num tom «desiludido» com o comunismo como «moeda» para se fazer publicar e divulgar com um alcance alargado (por uma entrevista dele ao El Pais fiquei até a saber que o acordo que fez com a Tusquets incluiria uma disposição para permitir que o livro pudesse ser publicado em Cuba ao preço ‘simbólico’ – para outros, que não os Cubanos – de 1 euro) não significa subscrever esse tipo de (chamemos-lhe assim, eufemisticamente) ‘concessões’, como afirma mais acima Carlos Vidal. Pensava que isto era óbvio, mas pelos vistos não o é para todos.

    • Nuno Ramos de Almeida diz:

      Não creio que o Padura tenha feito concessões comerciais. Ele pensa mesmo que o comunismo foi uma tragédia. Dura e mortal na versão estalinista, tedienta e ridícula na versão cubana. O livro é profundamente anti-comunista. Forte e bem escrito, mas com posicionamento político. Só assim se justifica a disparidade de tratamento de personagens.

  7. Raquel Varela diz:

    Nuno,
    A disparidade de tratamento justifica-se porque os estalinistas (que tu chamas comunistas) são retratados no livro pelo que são – contra-revolucionário brutais (ou os processos de Moscovo não são a contra-revolução dentro da URSS para abrir caminho à coexistência pacífica?). O livro é anti-estalinista, mas não é anti-comunista.
    Mas para além de tudo é um belíssimo romance, extraordinariamente bem escrito.

    • Nuno Ramos de Almeida diz:

      Todos os tipos a que tu chamas estalinistas no livro, vulgo não trotskistas, são atrasados mentais. Veja-se o retrato rápido e condenatório de Dolores Ibárruri. Mas o mais divertido e simplista é a descrição da vida e pensamentos do bom do Mercader. Repara, parece o fado da desgraçadinha: os pais são aristocratas, a mãe revolta-se pq o marido obriga a consumir drogar a ser sodomizada nos prostíbulos. Vai daí é louca furiosa, ele e os irmãos crescendo sem amor, não conseguem articular um pensamento. Apaixona-se por um militante boa, mas fria e carreirista. Resultado: acaba assassino do NKVD. Não esperem que ele pense, o andar e marcar pastilha elástica ao mesmo tempo é uma sorte. No meio dos combatentes das Brigadas Internacionais ou nos militantes comunistas (a que tu chamas estalinistas), nem todos eram polícias do NKVD. Nem todos se resumiam a uma caricatura. Finalmente, o próprio Trotsky aparece como um homem que se enganou de revolução, se não fosse o doido do Estaline aquilo teria descambado na mesma, segundo Padura. Veja-se o exemplo cubano. Não perceber que o livro é um frio ajuste de contas com bem mais do que o estalinismo é tresler a coisa.

  8. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Não. se leste o que eu escrevi eu não disse isso. Considero um livro poderoso, com uma tese subjacente. A tese que toda a revolução está condenada a devorar os seus filhos. Seja em tragédia, a soviética. Seja em tragicomédia, a cubana. Aponto-lhe apenas um defeito formal, o esquematismo do desenho de alguns personagens.

  9. António Paço diz:

    Nuno, talvez tenhas razão nessa de que no livro está implícita a tese de que todas as revoluções devoram os seus filhos. E a verdade é que, se olharmos para a história, para o que foi e não para os vários «deveria ser», elas têm mesmo devorado alguns dos seus filhos. Mas muito mais que as revoluções, têm-no feito as contra-revoluções. Aqui a questão é: a contra-revolução na URSS não começou com o Gorbachov; começou muito antes, com o isolamento da URSS nos anos 20 e o esgotamento das forças que a impulsionavam internamente, pela guerra civil, pela fome… Quem devora os filhos da revolução na URSS não é um ‘revolucionário’ mal encarado e um bocado bruto, com defeitos chatos como o ‘culto da personalidade’. O Estaline não é uma aberração, um ogre. É a cara da contra-revolução interna. Que começa quase sempre por uma aparência de «bom senso»: deixemo-nos de romantismos (com a revolução europeia) e vamos mas é pôr a casa em ordem — ‘teoria’ do ‘socialismo num só país’, afastamento, depois liquidação das oposições, processos de Moscovo, Gulags, fim da Internacional Comunista e um longuíssimo etc.

    • Nuno Ramos de Almeida diz:

      De acordo contigo sobre o estalinismo, com duas ressalvas importantes: a maioria dos comunistas não está implicada nos crimes do estalinismo e o desvio tem uma leitura política e não meramente patológica. Finalmente, o livro do Padura é uma interessante obra de ficção, mas não é por tratar como um coitado o Trotsky que deixa de ter , como anuíste, a mensagem que toda a revolução devora os seus filhos.

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