O Antisemitismo em todo o lado, e hoje em Portugal.

O inocente leitor que se deparar com este texto da Sassmine aqui no 5dias corre o risco de, como eu, pensar que se trata de um post em que, recorrendo à ironia, a autora denuncia o caráter de classe dos sistemas judiciais das nossas sociedades. Ou, se se preferir, das diferenças nos pesos e nas medidas com que a balança da justiça ajuíza, por um lado, os ricos e poderosos e, por outro, todos os outros. Pura ingenuidade, a nossa. Felizmente, o Miguel Serras Pereira, desvenda aqui o verdadeiro caráter desta pérfida posta, para quem se der ao trabalho de ler as resposta que o autor dá às objeções de Joana Lopes que, como nós, insiste em ler o que os textos dizem e não o que está escrito com a tinta invisível, a tal que só o MSP e uns tantos iluminados conseguem ler. E a verdade, segundo MSP, é que se trata de um texto antissemita.

Aqui chegado, o leitor perguntar-se-á onde é que está a referência ao facto de Stauss-Kahn ser judeu ou mesmo qualquer referência que seja aos judeus e ao judaísmo. E como não encontra nenhuma, fica a interrogação, mas antissemita porquê? Muitos simples. Porque, como nos explica o Miguel, isto lhe parece evidente. A evidência, segundo o Jaques Rivette, era a marca do génio em Howard Hawks. Acrescentaria eu que é a marca de um certo pensamento policial no que toca à presunção da culpa dos outros. Falamos aqui de culpa ideológica e não de culpa jurídica. Veja-se o raciocínio de MSP: DSK estava ligado à finança, logo criticar DSK é participar da figura antissemita, mesmo que esta ligação seja invocada não no post da Sassmine, mas sim no post do Miguel, na qual até refere a figura do “judeu lascivo”, que ninguém mencionou, a não ser, é claro, o Miguel, para acusar os outros.

 

Acusar de quê? Não de terem referido tais figuras, pois elas não estão no post da Sassmine, nem em qualquer lugar do 5dias (a referência óbvia da esquerda estalinista que o Miguel convoca nos comentários e que, segundo ele, seria portadora do antissemitismo numa aliança com as forças da direita reacionária). Mas então de quê? Obviamente, de as quererem referir, de as terem na sua intenção sem nunca as revelarem.

O raciocínio é simples: embora nada se possa apontar ao texto da Sassmine de antissemita, ele é-o na sua intenção. O facto do texto nada afirmar de explicitamente antissemita, não prova que ele não é, prova que ele o esconde. E se o esconde é porque é. Ou seja, utiliza-se, para denunciar o antissemitismo onde ele não existe, os argumentos utilizados pelo antissemitismo bem real: a culpa é tão mais evidente quanto menos traços ela deixa, pois a ausência de provas é apenas a prova da eficácia do culpado em apagá-las. Não deixa de ser curioso que o Miguel, que anda sempre com anti-estalinismo na ponta da pena, recorra assim às técnicas acusatórias que associamos ao estalinismo. Imagine-se que alguém, ao ler os insultos e enxovalhos que o Miguel, nos comentários em causa, dirige à Sassmine, o acusava de misoginia. E que o facto do Miguel nunca ligar os adjetivos com que qualifica os posts da Sassmine ao fato de ele ser mulher não provam nada, antes pelo contrário. Seria exatamente o mesmo tipo de raciocínio. Mas esse é um caminho que temos de recusar.

É o caminho que seguem os que estão sempre prontos a justificar tudo o que faça o Estado de Israel. Israel impõe um regime racializante de apartheid aos palestinianos, mas como Israel se identifica como Estado judaico, então criticar Israel á antissemita, mesmo que a crítica nada tenha de explicitamente antissemita. Porque o antissemitismo, lembremo-lo, é uma forma de racismo, um modo de pensar racialmente que, como todos os racismos, parte sempre de um pressuposto inigualitário e hierarquizante, e serve sempre formas de dominação e de inferiorização grupal. Acusar alguém de racismo é bastante grave e deve portanto ser acompanho de argumentos que sustentem essa acusação, e não da mera suspeita, que é o modo pelo qual se atua quando se imputa a alguém uma intenção escondida, que nada de manifesto permite suportar.

Tenho pelo MSP respeito e admiração, especialmente pelo seu racionalismo argumentativo, pelo modo como insiste na clareza argumentativa quando faz da sua razão uso público. É por isso que ataques deste calibre me parecem tanto mais graves: usar o anti-semitismo como arma de arremesso no acerto de contas blogosféricas só serve para confundir e para esconder o pensamento racial onde ele verdadeiramente se esconde.

O título do post foi roubado a  estes.

 

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