A Scotland Yard não será capaz de impor a ordem a cavalo, como Mubarak não foi capaz de recuperar o trono a camelo. A mubarakização de Cameron só se trava com a tahrirização da resistência.

Há imprensa que tem estado melhor do que a generalidade da blogosfera a compreender o que se passa em Inglaterra. Não no que opinam, eles mesmo, sobre o assunto (que salvo raras excepções têm sido os grandes responsáveis pelo tambor da propaganda), mas nas entrevistas publicadas. O vídeo acima, na televisão brasileira, ou esta entrevista a Suzella Palmer, são exemplos preciosos disso.

O governo inglês pondera chamar o exército, talvez esquecido dos resultados desse mesmo exército em latitudes e tempos tão distantes como o Afeganistão ou o Iraque, a Irlanda ou a Índia. Se a par disso generalizar a prisão por furto de água e a suspensão generalizada dos poucos direitos que sobram à maioria da população, como sejam a dignidade da habitação, o trabalho, a assistência social, a saúde e a escola, de pouco valerá a Cameron dar uma de Mubarak que mesmo off-line não haverá suficientes câmaras de vigilância, balas ou prisões marciais, capazes de calar o pouco crime e a muita revolta que tomou conta das ruas. É que quem lá anda está longe de ser só quem tem aparecido no cartão postal.

Mais do que apontar o dedo, a esquerda devia perguntar-se sobre as razões pelas quais, neste contexto, insiste em esperar que um qualquer Lenine abençoe a revolta e que o povo saiba tomar nas mãos o seu destino sem perder as boas maneiras. Queriam revoluções em Si Bemol mas não foram capazes de ensinar a escala, queriam paradas ao som da orquestra mas vão ter que aprender lidar com o Sustenido.

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