As minhas 4 exposições de Julho + 1 exposição de Junho (na “Sábado”)


HELENA ALMEIDA. Sem título, vídeo (stills).

“VOO DO BUMERANGUE”. Colectiva nos 10 anos da Galeria Filomena Soares.
Galeria Filomena Soares, Lisboa (até 10/9)

Há várias razões para assinalar e celebrar esta exposição, a começar pelo subtítulo, “10 anos da Galeria Filomena Soares”. Trata-se de uma galeria de projecto e escolha criteriosa de artistas de variadas gerações (Inês Botelho ou Helena Almeida), independentemente do seu grau de maior ou menor consenso (e nenhum artista é consensual). A comemoração reúne obras de Olaio, as já citadas Inês e Helena, Croft, Rodrigo Oliveira e Rui Ferreira, os meus destaques dos 12 escolhidos por um comissário espanhol (David Barro). Olaio parodia a ideia da cátedra universitária, num vídeo e pintura em que a capa é um emblema teatral, cinéfilo, adereço performativo; Inês Botelho confirma a sua capacidade de, na escultura, através de formas evocativas de muletas, questionar o peso e a leveza, forma e sombra, cimo e baixo; Croft prossegue a sua visão de uma interacção pintura-escultura no espaço; Rui Ferreira, aplica numa rampa de skate as camadas matéricas da sua pintura, criando um estranho objecto; por fim, a grande obra é o vídeo de Helena Almeida: a artista prende com grosso arame a sua perna à do seu companheiro de vida e arte, caminham como Sísifo numa sala fechada. Vida interminável. Arte sábia. (“Sábado”, 30/6)


MÁRIO ELOY

ARTE PORTUGUESA 1910-1960
Museu do Chiado (até 5/10)
Depois da exposição dedicada ao século XIX, prossegue agora o Museu do Chiado as comemorações dos seus 100 anos, dedicando-se ao período nacional 1910-1960. Vimos que o paisagismo português (de Anunciação a Pousão) não entendera a importância da invenção cromática impressionista, vindo daí um desfasamento que não impediria a originalidade da nossa arte de oitocentos, de Metrass a Columbano. No século XX, desaparece esse desfasamento, e, logo no início, desde Amadeo, a arte portuguesa entra nas trocas das vanguardas internacionais. Os Delaunay tiveram estadias em Portugal, marcaram Almada e, sobretudo, Eduardo Viana. Destaque-se ainda o expressionismo de Eloy, misturando um colorismo à Gauguin com o expressionismo alemão (ele foi um emigrado, entre muitos). Estes 50 anos são ainda marcados pela peculiaridade do surrealismo português, de matriz gestual, “abjeccionista” (Cesariny), aleatória e experimental (fotografia de Lemos), e pela introdução do abstraccionismo (Lanhas). O convívio destas experiências com o nosso tardio naturalismo fornece uma das originalidades destas 5 primeiras décadas (do século e do museu). (“Sábado”, 7/7)

CATARINA BOTELHO, “Propriedade Horizontal”
Galeria Arte Contempo, Lisboa (até 23/7)
Catarina Botelho expõe há pouco mais de seis anos, e está actualmente numa interessante colectiva de premiação, EDP Novos Artistas. Contudo, não comentarei esta exposição, mas antes a sua individual na Arte Contempo. O que é mais interessante nesta obra é a maturidade formal. Expressa desde logo na forma como a autora titula aquilo que fotografa e no-lo mostra. Podemos olhar para estas fotos, e para o vídeo de uma desolada cidade nos seus recantos (Budapeste), e pensar em decadência ou degradação (física, psíquica). Mas o rigor formal das imagens retira-lhes essa narrativa e faz-nos concentrar na composição. A autora recorre ao “sem título” descrevendo entre parêntesis (na ficha técnica) aquilo que estamos a ver. O resultado é tautológico. Ou seja, indica-se “desnecessariamente” o que vemos: camisa, sacos, toalha. Sob um enquadramento e luz rigorosa temos o objecto e, do outro lado da composição, um certo vazio. Desaparece de cena a figura humana. Mas já na mostra anterior (“Dias Úteis”, 2009) a figura aparecia estática e hierática. Embora aqui, na Arte Contempo, também desaparecida, fica da figura uma sua réstia, memória, um objecto vivido. (“Sábado”, 14/7)

TÂNIA CAEIRO
Módulo-Centro Difusor de Arte, Lisboa (até 30/7).
Tânia Caeiro é uma pintora ainda de curta trajectória. Mostrou trabalhos, stand da Módulo, na última Arte Lisboa, e agora aparece individualmente nas salas da mesma galeria. É uma autora que cruza linguagens e disciplinas, forma e informe, no limiar do desenho e da pintura, parecendo a pintura funcionar como laboratório de desenho, e o desenho ganhar a espessura da mancha pictórica. Funciona este laboratório plástico em dois suportes: o papel e a tela, com resultados sempre surpreendentes. Quatro termos importantes caracterizam esta pintura: inscrição, transparência, véus e manchas. No papel, temos grandes e pequenos formatos; na tela, apenas o grande formato. Esta constatação é importante. A escala opera como factor de composição. Através de uma matéria sempre muito líquida e transparente (à beira do informe), dispõe a autora fragmentos de objectos na superfície, entre o desenho e a inscrição, o fragmento e a mancha. As suas opções revelam a natureza do objecto: uma gaiola é quase sempre desenhada; uma cadeira é uma mancha. A cor é rarefeita. Esta rarefacção transfere o interesse para o objecto, mais denso na tela, mais “líquido” no papel. (“Sábado”, 21/7)

PEDRO DINIZ REIS
Culturgest, Lisboa (até 18/9)
“Kerze”/”Vela” é uma pintura de Gerhard Richter: uma solitária vela acesa diante de uma parede lisa, expressão de solidão e morte. Em 1997, numa das suas primeiras exposições, Pedro Reis faz este filme (6h de duração): coloca uma vela numa posição muito semelhante à de Richter e deixa-a derreter. Agora, na Culturgest, propõe-se filmar a “construção” de um dicionário inteiro (o Oxford), palavra a palavra, carácter a carácter. Entramos na primeira sala, temos nos monitores esta imagem: uma série de “aa”, outra de outras letras, são disparadas no filme e ditas em voz off. No fim, temos uma página completa; terminada a página quase nem podemos ler as palavras, porque a página (o plano) muda – esta transcrição de imagem-som-letra do dicionário dura 50h. Apesar das 6h anteriores e das 50h presentes, o tema de Reis não é o tempo: é a construção da palavra, a complexidade dessa construção portadora de sentido (e linguagem). Noutra sala, temos um conjunto de 26 livros, o “A”, “B” até “Z”. Cada livro é também um dicionário de onde são retiradas todas as letras menos aquela que lhe dá o título. Na última sala, em obra sonora, Eunice Muñoz “lê” o “Livro dos AA”. (“Sábado”, 28/7)

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