Diário de uma activista na Palestina V – A lenta, cruel e injusta asfixia de Qalqilya | Ezbet Altabib

O calor é tanto que, a partir das cinco da manhã, é impossível ficar na cama. O campo acorda ao ritmo dos animais que convivem com os habitantes em espaços reduzidos. As ovelhas dos vizinhos começam a se manifestar. O galo e as galinhas, que povoam o primeiro andar de uma casa que parece estar em construção, juntam-se numa das paredes de cimento, observando os movimentos lentos de um gato. Todas as manhãs, o lixo é recolhido e as ruas desajustadas varridas. Todas as manhãs, passa a carriola do vendedor de pão que anuncia a sua passagem ao som de uma voz melodiosa. Os comerciantes tomam um café turco com cardamomo à porta das pequenas lojas.

Esta manhã, repartimo-nos em dois grupos e apanhámos táxis colectivos, em Beit Sahour, para irmos para Qalqilya – Ezbet Altabib. Quando chegámos a Ezbet Altabib, já havia um grupo de activistas internacionais e palestinos à nossa espera. Entrámos num pátio acolhedor e umas crianças ofereceram-nos café. O perfume do cardamomo acompanhou o pequeno discurso elucidativo sobre a situação em Ezbet Altabib. É sempre a mesma coisa. Espoliação de terras, construção ilegal do muro, destruição ilegal de casas, abuso de poder pelo exército, detenções arbitrárias e violência.

Hoje, vamos cortar a rede de arame farpado que define a futura passagem do muro. O avanço do muro tem vindo a ultrapassar os limites da linha verde e a incursão em território palestino é cada vez mais profunda, envolvendo vastos espaços vazios, zonas tampão, zonas de interdição, zonas militares fechadas, rompendo a paisagem, dividindo famílias, impedindo os camponeses de trabalharem as suas terras. No caso de Ezbet Altabib, o traçado do muro está planeado para ir até à entrada da aldeia.

O arame está profundamente enterrado e as ferramentas que tínhamos quebraram-se várias vezes. Chegaram vários jipes com soldados, alguns pela estrada de cima, outros pela estrada de baixo. Enquanto alguns activistas retiravam o arame, outros vigiavam os movimentos dos soldados. Como tem acontecido, frequentemente, a estratégia é de tentar cercar os manifestantes. No caso de ficarmos cercados, foi nos dito que devíamos correr pelo campo de oliveiras junto à estrada até à floresta de pinheiros mansos e, daí, regressar à aldeia.

Após muitas dificuldades, retirámos o arame farpado e fizemos recuar os soldados até à entrada da aldeia. Uma pequena vitória com sabor amargo, pois amanhã a luta continua!

Via GAP

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