Nacionalismo, o Pesadelo

Por um momento pensei estar a entrar numa galeria de horrores. Nesse mundo a Moodys’ era uma das grandes responsáveis pela crise. A propriedade privada dos meios de produção tinha sido suplantada por uma agência de rating, o problema não estava em Portugal, estava em Nova Iorque, não estava no chão de fábrica/empresa, estava no casino. Por momentos pensei que alguém tinha conseguido com sucesso que a causa da crise fosse transferida para fora das fronteiras deixando este povo plantado à beira-mar num bramido uníssono contra 3 empresas de rating – 3 empresas que conseguiram fazer sair das entranhas dos portugueses a sua raiva mais profunda. Nesse pesadelo nunca ninguém se tinha lembrado de pôr sacos de lixo à porta do Belmiro, do Grupo Mello, da Mota Engil, da PT, da EDP, com o simpático título «Estes são os verdadeiros PIIGS». Nunca ninguém se tinha lembrado de atacar os sites ou o facebook do Grupo Amorim. Nesse pesadelo as pessoas pagavam duas vezes as auto-estradas – quando lá passavam e numa mágica PPP. Nesse pesadelo, as pessoas pagavam duas vezes os hospitais, quando lá iam e numa mágica PPP. Nesse pesadelo movimentos sociais diziam não ser de «esquerda nem de direita mas democráticos», de organizadores de manifestações recuavam para centros de debate e petições. Nesse pesadelo, os sindicatos reclamavam que tudo o que podiam fazer faziam… Nesse pesadelo as férias de Natal ficavam pela metade porque as férias de Verão não eram boa altura para lutar pelas de Natal.

E nesse pesadelo tudo parecia ganhar sentido, uma soma de efeito rápido, que fazia soar aos nossos ouvidos «Não somos nós que nos aliámos à direita foi a direita que finalmente nos compreendeu!».

Acordo do pesadelo. A luta de classes voltou, a banca foi nacionalizada, as grandes empresas lucrativas re nacionalizadas e as privatizações lucrativas impedidas. Nada de especial mas o mínimo para começar a sonhar. Não foi o ainda o socialismo, temos muito que aprender para chegar lá.

Desde a fundação dos Estados capitalistas modernos, um dos maiores triunfos da burguesia tem sido convencer a classe trabalhadora da existência de um ente chamado “interesse nacional”. Existiria algo que estaria acima dos interesses de classe e que se manifestaria, no plano ideológico, pelo patriotismo e, no plano institucional, pela defesa do Estado como uma instituição que arbitraria os interesses das classes de acordo com o que seria melhor “para todos”. Convencer os trabalhadores desta mentira é condição necessária não só para manter quotidianamente o projecto burguês de exploração, mas também para garantir as melhores respostas desta classe quando se dão crises cíclicas.

 

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10 respostas a Nacionalismo, o Pesadelo

  1. Dédé diz:

    Ao menos o “sobressalto patriótico” de 1890 foi anti monárquico e republicano.

  2. Renato Teixeira diz:

    Como weboceptica 🙂 naturalmente não te deixas imbuir do espírito anti-agências de rating e nota que à excepção dos suspeitos do costume o movimento contra a coisa é naturalmente progressivo e não se fica pela crítica ao lacaio. Tens razão quando apontas para o alvo e alertas para o facto de se estar a acertar bem ao lado do centro, mas o gáudio contra as agências, ou o nacionalismo como lhe chamas ou o sobressalto patriótico como fala o Dédé, ajuda a que a consciência se eleve face aos problemas e aos responsáveis principais. A capacidade dos anónimos em condicionar a acção do FMI, em grande escala, ou a possibilidade de pequenos cibernautas condicionarem a acção de verdadeiros gigantes do sistema financeiro é uma ferramenta merecedora de um mínimo de entusiasmo, ou não?

    • Carlos Vidal diz:

      Claro que sim, Renato.
      Mesmo que fosse só um gesto lúdico (e não é só) já valeria a pena.
      Às vezes, o sentido de humor pode ter consequências devastadoras. Bem como a sua ausência.

  3. Pedro Lourenço diz:

    Finalmente leio um post de alguém esclarecido.

    Enquanto nos “revoltamos” – no facebook, claro, também não vale a pena chatearmo-nos muito, já que estou aqui pelo engate sempre posso mandar umas postas de pescada a esses exploradores – contra as agências de rating deixamos passar incólumes os verdadeiros responsáveis, aqueles que tudo nos querem tirar sob o pretexto que vivemos acima das nossas possibilidades e que pretendem ser mais troikistas que a própria troika…

    Até chegam ao ponto de organizar manifestações no Terreiro do Paço, vejam bem. Contra o governo e contra a austeridade? Contra a europa e a favor de uma resposta europeia à crise? Não, contra a Moody’s…

    • Carlos Vidal diz:

      É muito inteligente a observação.
      Mas há uma coisa que ninguém saberá explicar: é por que é que este ataque à Moody’s não é um bom ensaio para outras andanças e movimentações ciber-aterrorizantes? Porque é que não se pode “ensaiar”? Uma bela sinfonia, antes de ser apresentada em público com grandes intérpretes foi intensamente trabalhada pelos mesmos à porta fechada, como se estes “grandes” (a floresta, que não é o mesmo que a árvore) não fossem “grandes”.
      Ou seja, a conclusão de que o ataque resulta, é um ganho. (E estou-me nas tintas para o “nacionalismo”, que abomino, claro.)
      Espero demonstração do contrário.

  4. Pingback: A nossa dívida deve ir para o lixo, naturalmente, assim como a Moody’s, o BM, o BCE, o FMI e os restantes tentáculos da sua ordem mundial. | cinco dias

  5. Pedro Lourenço diz:

    Espero que assim seja.

    Temo é que toda esta reação tenha sido desencadeada pelo epíteto “lixo” com que uma agência de rating resolveu classificar a nossa dívida pública – o que é incontestável face ao momento de prébancarrota causado pelas políticas de austeridade – e as pessoas não tenham percebido que não se estavam a referir ao país como lixo, mas aos títulos da dívida.
    Essa suposta desconsideração pelo país – todos nós podemos dizer mal do país, mas quando ouvimos um estrangeiro fazê-lo estala-nos o verniz – bem como as lágrimas de crocodilo vertidas pelos fundamentalistas da austeridade levaram a que se gerasse esta onda de indignação.
    Há exceções, naturalmente, a este “nacional carneirismo”. O caso do Renato é uma delas.
    No fundo, o importante que deve ser dito está no texto deste post. Há que informar as pessoas que cegamente se manifestam contra a Moody’s que as agências de rating são, de facto, instrumentos especulativos, mas que podem ser facilmente contornados se da parte, primeiro, dos nossos governantes – aqueles que elegemos para defender os nossos direitos e não os das grandes corporações -, existir coragem para exigir da UE a resolução dos problemas e, segundo, da parte dos líderes europeusr a visão e a unicidade para evitar que a especulação possa encontrar na europa terreno fértil.

    Se entendermos a luta contra a Moody’s como luta anticapitalista – e poderia ser – haveria algum proveito a tirar. O problema é que esta contestação à Moody’s não é de todo anticapitalista ou se quiserem antiespeculativa ou antiausteritária, é mais motivada por factores patrioteiros que pouco acrescentam à luta que queremos ver desenvolvida.

  6. Nuno diz:

    Por muito que me agrade as experiências cibernéticas (que segundo parece resultaram: http://www.dn.pt/inicio/economia/interior.aspx?content_id=1904431), algo me revolta em participar numa que se faz sob o lema de “contra os canhões marchar marchar”…

  7. Raquel Varela diz:

    Escorregamos na primeira casca de banana. O que faremos quando os barões também forem contra o pagamento da dívida? Roosevelt deixou unilateralmente de pagar a dívida em 32-34 e os EUA fizeram-no novamente com a desvalorização do dólar em 70-73. O que faremos quando a destruição de capital exigir uma guerra inter imperialista, que lixo estamos dispostos a defender?

  8. -pirata-vermelho- diz:

    Não se desvie, por favor – a pertinência do alinhamento que escolheu não invalida que não devam ser escritórios privados a cumprir, por ínvios caminhos, ‘funções públicas’ de ‘direito internacional’ como é o condicionamento do negócio dos Estados.

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