Crónica do Festival Alive

Eis a crónica do Festival Alive feita para a Rádio Universidade de Coimbra (não estive presente no 2º dia). Os Foals deram o concerto do festival, seguidos de Fleet Foxes, Grinderman ou Orelha Negra.

DIA 1 – A DESILUSÃO TÉCNICA


Avi Buffalo

Ao final da tarde, o concerto da banda de Long Island, California, foi morninho. Com o álbum de estreia lançado pela Sub Pop, os Avi Buffalo foram comparados aos The Shins, embora o seu som seja mais experimental e lo-fi e menos polido. Ao vivo, os pontos altos estiveram no single “What’s in it for” ou na fase final, mas sem nunca serem particularmente entusiasmantes. Para isto, também terá contribuído a falta de coesão da banda (saíram recentemente dois dos elementos fundadores), a incapacidade de, pela rapidez do discurso, se perceberem as palavras do vocalista para o público ou os problemas de som, com excesso de graves e com a voz aguda de Avi e as guitarras a ouvirem-se demasiado em fundo. No entanto, quanto à questão técnica, o pior estaria para vir…

James Blake

Depois do aclamadíssimo álbum de estreia de James Blake, era muita a expectativa para o concerto de ontem, ainda com o Sol no horizonte. Dificilmente poderia ter sido mais defraudada. Com “Unluck”, logo se percebeu que o som estaria desastroso: graves em catadupa, voz abafada e sem expressão, falta de corpo e de alcance para boa parte da plateia. Assim sendo, não admirou que os melhores momentos tenham sido os mais dub, como “CMYK”, pela existência de vocalização samplada. Quanto ao resto, toda a alma e emoção soul se perderam em palco, quer nos temas do disco, quer no novo, minimal e aparentemente bem bonito “Heartbreak”. Para piorar mais a questão, grande parte do público encontrava-se apenas para ouvir o maravilhoso “Limit to your Love” ou para fazer tempo para ver os aspirantes a U2 século XXI, aproveitando para pôr a conversa em dia e gerando um cenário constrangedor. Depois da simulação, aguarda-se agora pela estreia a sério de James Blake em Portugal.

 

Anna Calvi

Não valerá a pena insistir muito na questão técnica, um mal global do palco secundário, mas é importante referir que a própria Anna Calvi teve de pedir para baixar o som da bateria, dada a trepidação dos graves. Em qualquer dos casos, a situação não foi tão nítida como em James Blake. Começando com o instrumental “Rider to the sea”, logo se percebeu que os encorpados riffs de guitarra, com muito de blues, vão estar em destaque. A que se pode acrescentar um instrumento com um som semelhante a um órgão de igreja, particularmente evidente em “Desire”, ou a garra vocal e intensidade e teatralidade interpretativas, nítidas em “Suzanne and I” ou “I’ll be your man”. A contrastar com o timbre frágil e delicado com que Anna Calvi agradece ao público ou profere breves palavras. Houve ainda espaço para duas covers: o lado rockabilly mais sensual, em “Surrender” de Elvis Presley, ou a desconstrução total de “Jezebel” de Edith Piaf. Um bom concerto, mas que também beneficiaria se realizado num outro espaço, com outras condições. De seguida, viria no Palco Super Bock uma das surpresas da noite.

These New Puritans

Enquanto o público se concentrava em massa para ver os Coldplay, os These New Puritans tocavam para poucas dezenas de pessoas. Apesar dos continuados problemas de som, com imensos feedbacks, o projecto britânico deu um espectáculo surpreendente, em particular para quem conhecia apenas Beat Pyramid. A sonoridade rock mais crua e forte e com laivos do post-punk amadureceu e tornou-se bem mais complexa em Hidden. Há metais, coros, elementos industriais, negrume gótico e todo um conjunto de elementos que dão à música dos These New Pyramids uma dimensão tão estranha como surpreendente e que funcionou bem ao vivo. Com xilofones e sopros em franco destaque e a fazer lembrar claramente os Efterklang, “5” foi um belíssimo momento de despedida. Pena só ter visto metade do concerto e que tanta gente estivesse interessada na “delicodoçura” entediante da banda de Chris Martin.

DIA 2 – O PALCO PRINCIPAL


Ao dia 3 do Alive, escreveu-se direito por linhas tortas e o palco Super Bock tornou-se no palco principal durante largas horas, dado o cancelamento , por questões de segurança dos concertos de Klepht, The Pretty Reckless e You Me At Six.

Eis a crónica de alguns dos concertos do dia:

Angus & Julia Stone

O projecto dos irmãos australianos deu o que se pode chamar de um agradável concerto de final de tarde. Com um som aparentemente bem mais equilibrado, pelo menos em relação ao 1º dia, Angus e Julia Stone e sua banda de apoio mostraram uma sonoridade folk rock datada (de vestido branco e descalça, Julia faz lembrar uma hippie dos anos 60), a que acrescentam uns travos pop que os remetem, por exemplo, para uns Portugal the Man. Ora frequentemente mais delicado e melancólico, ora ocasionalmente com algum nervo, a banda primou pela simplicidade e pela simpatia no contacto com o público, o que lhe valeu uma reacção calorosa. Um bom aperitivo para um dos mais aguardados concertos do Alive.

Fleet Foxes

Perante a grande desilusão que constituiu o concerto de James Blake, temia-se que toda a magia dos Fleet Foxes se pudesse esfumar no Alive. Contudo, com um som que, embora longe de perfeito (por um lado, por causa do som do palco Optimus Clubbing; por outro, de que vale, por exemplo, ter apontamentos de violino, contrabaixo com arco ou flauta se eles não se ouvem?), esteve mais aceitável, e perante um público efectivamente interessado em ver o concerto, o espectáculo da banda de Seattle foi inegavelmente interessante. O início até foi algo morno, mas as palavras do vocalista (“Estão a ouvir o que estamos a fazer?”) e o lindíssimo “Sim Sala Bim” deram o mote para um concerto em claro crescendo, com as idílicas harmonias vocais a alternarem com um tom mais enérgico, que acaba por ser surpreendente. Apesar disso, nota-se que, ao vivo, os temas do mais recente Helpness Blues ainda não estão tão apurados como os do primeiro disco. Pelo que é, sem surpresas, que um dos pontos altos esteve na sequência “Your Protector”, “White Winter Hymnal” e “Ragged Wood” (magistral a passagem ininterrupta entre os dois últimos). Por outro lado, um dos dois fabulosos temas duplos do segundo disco, “The Shrink / An Argument”, mostrou um lado mais experimental da banda, mas resultou bem ao vivo. Ao contrário de um dos temas mais sublimes dos Fleet Foxes, “Blue Ridge Mountains”, que teria ganho com um arranque mais lento e melancólico, o que não sucedeu, perdendo-se a beleza inicial. Para o fim, a celebração colectiva com o single que dá título a Helpness Blues, terminando um concerto bem bonito, mas que estou certo será deslumbrante numa sala fechada.

Grinderman

Num palco em que a coerência não é o forte, seguiram-se os Grinderman, o projecto mais cru, rude e directo de Nick Cave dos últimos tempos e que, de alguma forma, remete para o trabalho com os Birthday Party ou para o início da carreira em nome próprio. Contudo, tenho a sensação que não seriam muitos os que estavam à espera do verdadeiro furacão que passou pelo Alive, num concerto avassalador e de verdadeira catarse, marcado por guitarras em distorção máxima, teclados esquizofrénicos e bateria frenética. Nick Cave está efectivamente em grande forma, quer em termos musicais, quer do ponto de vista performativo, interpretando junto do público ou deitando-se no palco quase com espasmos. Uma verdadeira encarnação demoníaca, bem acompanhado pelos restantes músicos, com destaque para um Warren Ellis aparentando vir das profundezas do Inferno (torna-se incrível imaginar que foram estes mesmos senhores que compuseram as maravilhosas e minimais bandas-sonoras para O Assassinato de Jesse James pelo cobarde Robert Ford ou A Estrada). Quanto ao público, esse esteve eufórico e pediu abundantemente um encore, que acabaria por surgir. Posto isto, fica a pergunta: como é possível um nome como Nick Cave ser relegado para o palco “secundário”?

Thievery Corporation

Com a fusão entre tons jazzísticos, funky ou hip-hop, muita Jamaica (do dancehall ao ska) e ritmos electrónicos, a música de Rob Garza e Eric Hilton pode ser bem discutível, mas torna-se, ao vivo, particularmente eficaz e aliciante. Há sopros em evidência, imagens a dar mais impacto ao espectáculo, um desfile vasto de vocalistas, com interpretações em registos muito diferentes (um dos últimos temas foi em francês), e uma interacção constante (e por vezes gratuita) com o público. Para o fim, o fortíssimo “Assault in Babylon”, ficando na cabeça a cadência e repetição das palavras “We shoot, we kill the Babylon first”. Um bom mote para os Chemical Brothers.

Chemical Brothers

Depois de resolvidos os problemas de segurança e da actuação dos 30 Seconds to Mars, subiram a palco os Chemical Brothers. O início deu-se em fundo com uma cover lenta de “Tomorrow Never Knows” dos Beatles e depois, em crescendo, com uma versão instrumental de “Another World”. A partir daí, houve uma alternância entre grandes clássicos, como “Hey Boy, Hey Girl”, “Star Guitar” ou, a fechar, o velhinho “Block Rockin’ Beats”, e passagem por alguns faixas do mais recente Further. A integração perfeita destes últimos temas no alinhamento, com o transe avassalador de “Horse Power”, o frenético “Escape Velocity” ou o viciante single “Swoon”, mostram que o último trabalho da dupla britânica foi demasiado desvalorizado e esquecido, marcando o regresso aos grandes discos. Em qualquer dos casos, é curto reduzir qualquer concerto dos Chemical Brothers à sua componente sonora. Embora infelizmente mais contida, a parte visual volta a ser fundamental (os efeitos de luzes ou as arrasadoras projecções de imagens) e, mais do que isso, é sempre uma verdadeira experiência sensorial, que nos invade o corpo por inteiro e nos incute movimento, quase transcendendo a nossa vontade. Um clímax imparável de um óptimo dia de festival.

DIA 4 – UM CONCERTO QUASE MEMORÁVEL

No último dia, surgiu mais um contratempo: o cancelamento de Dizzee Rascal, tendo sido substituído pelos Diabo na Cruz.

Crónica de alguns concertos acompanhados no derradeiro dia da edição de 2011 do Alive

Foals

Depois de um disco viciante e mais dançável chamado Antidotes, os Foals regressaram no ano passado com Total Life Forever. Mais calmo e maduro, com mais melancolia nos teclados e guitarras, foi um verdadeiro passo em frente e uma das obras maiores de 2010, pelo que  era com imensa expectativa que se aguardava pela estreia da banda britânica em Portugal. Desde “Blue Blood”, que abriu o espectáculo com uma maravilhosa vocalização inicial e com  um crescendo rítmico imparável, se percebeu que todo o carisma e intensidade dos Foals em palco iriam ser acompanhados por uma rendição total do público (mesmo sem a banda proferir grandes palavras). Só interrompida pela pujança dançável de “Cassius”, continuou de seguida uma sequência arrasadora de Total Life Forever, com versões mais preenchidas e prolongadas, finalizadas com uma componente instrumental apoteótica. Terminaria com o sublime “Spanish Sahara”, com a devida dose de delicadeza e fragilidade iniciais e, com a revolta final deste magnífico tema de homenagem ao povo do Sahara ocidental, a ser entoada em coro pelo público. O mesmo se passaria com “Red Socks Pugie” no regresso a Antidotes, a que se seguiria “Electric Bloom”, a mostrar o lado mais matemático e rítmico dos Foals no seu registo de estreia. Este último teve direito a uma percussão reforçada e incomparavelmente superior à da versão em estúdio, com um tambor que o vocalista Yannis Philippakis levou até junto do público na parte final do tema. O concerto estava a ser incrível, daqueles momentos emblemáticos que se sentem quando se vê a banda certa, no momento certo da sua carreira. Mas eis que, 45 minutos depois do início e quando os Foals se preparavam para interpretar o tema seguinte, a organização determinou o fim do concerto e colocou de imediato som nos ecrãs antes que o público pedisse entusiasticamente um encore.  Percebe-se a necessidade de cumprir horários, mas quando houve o cancelamento de um dos nomes posteriores do palco, fazia todo o sentido haver maior flexibilidade. Podia ter sido um concerto memorável, não o quiseram.

Gold Panda

Depois do concertão dos Foals, ainda houve tempo para espreitar parte de Gold Panda, mas já não para ouvir “You”, um dos grandes singles dançáveis do ano que passou. Parece que o senhor começou por dizer que não era um DJ e até se percebe a referência, se tivermos em atenção o contraste com grande parte do que , a partir do 2º dia, se passou no palco Optimus Clubbing. Algures entre o techno e uma certa abordagem próxima do chill-wave mais ambiental, o britânico mostrou as suas composições electrónicas para um público manifestamente reduzido. Com um registo nada monocórdico, alternando entre uma toada mais melódica e outra mais agressiva, repleta de graves, o músico pareceu confirmar as boas impressões deixadas no ano passado no festival Milhões de Festa.

Tv on the Radio

Era um dos nomes mais aguardados do festival e, caso se tivesse de resumir o concerto em poucas palavras, poderia dizer-se que foram 40 minutos morninhos e 20 finais avassaladores. O início começou relativamente frouxo, talvez um pouco pela falta de rodagem dos temas novos (embora o alinhamento até tenha sido algo repartido entre os vários discos), mas principalmente pelo som. Demasiado estridente, com os instrumentos pouco definidos, o trompete a ter uma percepção escassa e a faltar muita da vibração e do groove que marcam o som da banda nova-iorquina. Entre temas mais lentos e outros mais ritmados, com destaque natural para o imponente timbre agudo e a alma negra na voz de Tunde Adepimpe (acompanhado nos momentos mais spoken por Kyp Malone), o espectáculo ia aproximando-se perigosamente do fim sem grande chama. Até que “Red Dress” de Dear Science marcou a viragem. Foi o início de uma sequência arrasadora, que colocou em êxtase um público até aí relativamente calmo, e que incluiu “Repetition” do novo Nine Types of Light, “Staring at the Sun” e o grande single “Wolf Like Me”. Um final perfeito a deixar uma sensação de estranheza, própria de quem assisitiu a um concerto profundamente irregular.

Orelha Negra

Depois de um disco surpreendente em 2010, os Orelha Negra regressam este ano aos grandes festivais, tendo passado ontem pelo Alive e fechando Paredes de Coura daqui a mês e pouco. Com bateria (com uma cadência impressionante), baixo, teclados e programações electrónicas, o projecto português começou com a intro “A Memória” (com manipulação de diversas citações) e o calor soul de “Since You’ve Been Gone”, a que pouco depois se seguiria o fabuloso “M.I.R.I.A.M.”, com sractch, samplagem vocal e pormenores jazzísticos. Mas , pese embora ainda haja outros temas incríveis, como “A Cura”, os concertos de Orelha Negra são muito mais do que a recriação ao vivo dos seus originais. Tem enorme destaque a profunda improvisação instrumental sobre fundos que recorrem a samples tão diversos como de Beyoncé, Chemical Brothers, Beastie Boys, James Brown, Fatboy Slim,  Da Weasel, MC Hammer e muito mais. E foi com essa amálgama de sons, fundida de forma irresistível, que, apesar do cansaço de 4 dias de festival, a banda portuguesa levou o público ao rubro. Depois da óptima impressão com que, mesmo à distância e sem dar a atenção devida, fiquei do concerto do Sudoeste no ano passado, os Orelha Negra voltaram a confirmar ontem que são já uma das grandes bandas ao vivo em Portugal.

Para o ano, o Alive regressa e já há datas confirmadas: 12, 13 e 14 de Julho, novamente no Passeio Marítimo de Algés.

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2 respostas a Crónica do Festival Alive

  1. agent diz:

    Boa reportagem! Fiquei ainda com mais inveja por não ter ido…
    De facto esse palco secundário (SB) era um verdadeiro luxo. Para além de alguns dos nomes referidos, tinha alguma curiosidade em ver/ouvir também: os WU LYF e os ‘tugas Linda Martini. E os Primal Scream no dia de Iggy Pop.

  2. João Torgal diz:

    Sim, Primal Scream a tocar o mítico “Screamadelica” era a grande cena do dia em que não fui. Tive pena de não ver.

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