Desde a revolução cubana, todos os cubanos são barbudos

Salut les Cubains é uma curta-metragem da Agnès Varda, quase duas mil fotografias de uma viagem à Cuba de 1962-63 em meia hora de filme-homenagem. Aqui, sem legendas, mas a voz bonita do Michel Piccoli até soa bem a quem não é próximo do français.

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10 respostas a Desde a revolução cubana, todos os cubanos são barbudos

  1. Carlos Vidal diz:

    Eu, por exemplo, deixei crescer a barba – mas vou fazê-la. Prometo apesar disso, e toda a gente o sabe, que estou e estarei sempre com Cuba (a Cuba revolucionária, evidentemente).
    Quanto ao Piccoli, ainda me lembro muito bem dele no “Je rentre à la maison/Vou para Casa” do Oliveira.
    Viste?
    Excepcional: os dois, o filme e o Piccoli.
    (Abc)

    • Helena Borges diz:

      Sim, belíssimos e belíssima a Agnès. Há uma fofoca que não é fofoca: o Chris Marker esteve com a Agnès Varda em Cuba, nesta viagem. Este filme em 1963 e o La Jetée em 1962 não foram coincidências, nunca seriam, mas assim ainda menos.

      Então não vi?

      (Abraço!)

      • Carlos Vidal diz:

        Sim, não haverá coincidências. Mas a diferença creio eu que reside num ponto: uma imagem, para Marker, é uma espécie de epifania, uma aparição que contém um segredo insondável, impossível de decifrar. Por isso e só por isso é que ela pode gerar uma narrativa (La Jetée é uma narrativa, uma viagem no tempo, convocada ou desencadeada por esse poder da imagem, que, em Marker, é quase transcendente; o miliagre deve ser este: a imagem permite “ver”). Neste filme, a imagem aproxima-se do documento, apesar de encerrar uma visão do mundo, um ponto de vista político. De qualquer forma, a comparação é interessante: em Marker, a imagem é “visão”; aqui, é política. Nunca uma imagem é só uma imagem. É isso que intriga os dois autores. Certo?

        (Marker é um visionário, um cineasta secreto, do futuro. Ainda não é este o seu momento, creio.)

        • Helena Borges diz:

          Sempre certo, meu caro Carlos. Não adianta perguntar-te o que é provocar uma visão senão política, porque percebo perfeitamente o que queres dizer.

          Peguei num ensaio do Robert Grélier sobre o Chris Marker, O Bestiário de Chris Marker (numa edição da Horizonte de 1986), para transcrever-te umas linhas do prefácio, mas não fará sentido truncá-lo. Leste-o ou respiro fundo e transcrevo-o?

          • Carlos Vidal diz:

            O livrinho de capa vermelha.
            Transcreve, transcreve.
            É boa ideia. Porque uma “imagem” nunca é um facto adquirido.

  2. Helena Borges diz:

    Afinal, o prefácio é a introdução:

    • Helena Borges diz:

      Com várias dezenas de pseudónimos, sessenta anos de um jogo das escondidas, alguns perguntam-se se existe um homem que responda pelo nome de Chris e pelo antropónimo de Marker. Para tranquilizá-los e desde já, responderei afirmativamente, sublinhando como nos romances: “sim, encontrei-o”. Encontrá-lo é a palavra exacta, pois quem pode pretender conhecer este homem que, se deveras nasceu em 1921, sempre baralhou todas as pistas quanto ao seu local de nascimento. Irkoust, Oulan-Bator, Paris, l’Île aux Moines… e muitas outras cidades ainda, conforme a disposição do momento ou a oportunidade, como se este grande viajante, que não pôde nascer num carro cigano ou num barco navegando em águas extraterritoriais, tivesse sido traumatizado pelo seu nascimento num país que, a ser do meu conhecimento, nunca lhe fez a afronta de recusar a atribuição de um passaporte. Quem persegue Chris Marker?

      Conhecer Chris Marker? Pretender dá-lo a conhecer seria também presunçoso da minha parte. Fazer descobrir a sua obra, os seus filmes, as suas fotografias, os seus escritos, já é um empreendimento fora do comum. Uma aventura. Na medida em que, façam o que fizerem, ele nada fará para vos ajudar. Direi mesmo que fará tudo para vos desencorajar.

      Escutem-no e parecerá que, para ele, um filme só existe para ser consumido imediatamente. Não estará a pregar a autodestruição dos suportes? Após dez anos, deita-se fora. Revolução cultural de dez em dez anos. No entanto, o seu temperamento de coleccionador leva-o a conservar postais, estampas, brinquedos, recortes de imprensa, bandas desenhadas… e a utilizá-los para sobre eles discorrer. Que seriam os seus filmes sem a acumulação cultural dos séculos passados? Não são eles um desmentido ao desejo de nada mais mostrar?

      Um jogo das escondidas, dizia eu acima, mas constantemente baralhado por um falso jogo de pistas, no qual ter-se-iam modificado as balizas pelo caminho. É assim que os genéricos de cada um dos seus filmes estão repletos de “erros”. Por brincadeira, ou por malícia para com os historiadores de cinema de quem troça, modifica não só a ortografia dos nomes como inverte os papéis desempenhados por alguns colaboradores, quando não cria pseudónimos ou qualificações. Tanto pior para os susceptíveis, os orgulhosos, os vaidosos.

      Dissimulador, certamente, não mostra senão o que quer mostrar. Não diz senão o que quer dizer. Compete-nos, leitor, ouvinte, espectador, descobrir o que está por detrás do espelho. Bem podem seguir-lhe o rasto, não hão-de consegui-lo. A sua assídua frequência dos estádios por ocasião dos Jogos Olímpicos, e isto desde 1952, confere-lhe alguns avanços.

      Solitário? Sem dúvida se relacionarmos esta palavra com o seu espírito de independência, com o seu direito a viver como bem o entende. Tudo isto tem a ver com a sua própria personalidade: se Marker está atento aos homens e ao mundo, a sua participação, porém, permanece individual, até solitária. Desconfia dos sistemas, dos grandes conceitos sobre o homem e sobre a História. Isto é tão verdade que ergue barreira, barragens, “écrans” filtrantes destinados a torná-lo invulnerável. O telefone só se utiliza numa direcção, ao passo que a caixa do correio faz o resto.

      Eterno “companheiro de viagem”, ele lá estará no momento preciso e onde a sua consciência lhe ditará. Em 1945, estava ao lado de Benigno Cacérès, de Joffre Dumazedier, ou seja de “Peuple et Culture”. Animador cultural, como se diria hoje. Em plena guerra fria, defendia a Sibéria, depois a China, a Coreia e, antes de 68, tinha inventado o filme militante que iria florescer no ano seguinte. Já em Maio de 1962 lançara um olhar de uma grande lucidez sobre os seus contemporâneos. “Le Fond de l’Air Est Rouge” será a pausa e uma forma particular de fazer o ponto da situação sobre esse itinerário. As causas que abraça num dado momento não se perdem num “no man’s land”, esperando para ressurgir numa outra ocasião propícia. Não, são para ele a coisa mais importante do momento. Nada de arrependimentos, como outros têm o hábito de fazer; para além das barreiras, ele permanecerá fiel aos homens que encontrou pelo caminho, mas com uma descrença em tudo o que lhe é proposto. Uma reserva que ele tinge de humor para dissolver os dogmas, os sectarismos, as tacanhezas, as grilhetas, os jugos. Este humor que o salva e do qual colhe a sua forma de viver. Um estilo muito pessoal que lhe permite ir mais longe. É a sua maneira de não ser pragmático. Temendo a uniformização, o condicionamento, fixou-se uma única meta: lutar ao lado do homem vencedor das trevas.

      À semelhança de um caleidoscópio, Chris Marker é inatingível. Pensa-se ter fixado de uma vez por todas na memória esta combinação de pequenos estilhaços de vidro colorido quando, de súbito, sem saber muito bem como, por um desses gestos inconscientes como o pestanejar, estilhaços verdes substituem os vermelhos, castanhos os amarelos, azuis os negros… É assim que, julgando-o em Paris, fica a saber-se que vai rumo a Okinawa. Convencido de ter entendido um dos seus inumeráveis “private jokes” com que semeia cada um dos seus filmes, o vosso vizinho do lado esquerdo refuta com segurança a vossa “descoberta”. Só vos resta deixar-vos convencer. Logo que julguem ter entendido o seu itinerário, subitamente um filme, um texto, uma frase, uma imagem, os devolvem à casa de partida. No entanto, nada de esquivo neste homem que, na maior parte dos casos, chama a um gato um gato (e em matéria de gatos pode dizer-se que ele é conhecedor) num constante empenhamento em distinguir o direito do avesso. É um desconfiado congénito duvidando de todos e muito mais dele próprio.

      Este ensaio não é, de modo algum, uma defesa nem uma ilustração de Chris Marker. A sua obra basta-se, não precisa de nós. É simplesmente uma introdução plural ao que é ainda dificilmente acessível. Agradecemos a todos aqueles que ajudaram neste empreendimento e, mais particularmente, a Jacques Chevallier, autor de um primeiro ensaio, que autorizou a publicação de alguns extractos e aceitou reler este manuscrito.

      • Helena Borges diz:

        (Transcrita e revista, julgo que não passaram erros.)

      • Carlos Vidal diz:

        Parece-me que La Jetée encerra uma das chaves, porque começa assim: “This is a story of a man marked by an image from his childhood”.
        E a imagem desse momento, dessa verdade, só pode ser (só pode vir até nós a partir de) uma viagem no tempo, sem coordenadas.
        O “Sans Soleil” é outra chave: uma mulher que lê cartas enviadas por um operador de câmara. Se este filme conta a história de uma frustração (como já alguém disse), uma frustração presente na inútil ainda que infinita recolecção de imagens, se isso não basta porque a memória não cabe no “registo técnico”, então, pergunta Marker: como recuperar a memória, como a representar, arquivar?

        Uma das suas perguntas: o que era a memória antes do vídeo, do filme e da fotografia?
        Isto é de resposta mais difícil do que a pergunta que reside na obra do pintor Gerhard Richter, que é esta: como pintar depois do aparecimento da fotografia? A sua resposta: pintar a partir da fotografia, sempre a partir de fotografias.
        Portanto, em Richter trata-se de dois corpos similares: a imagem pictórica e a imagem fotográfica.
        E a memória?
        Como tratar dela, se ela não tem corpo?
        E se tiver, como é esse corpo?
        É talvez o maior problema da pintura, da fotografia e do cinema. É que quando Derrida juntou no título de um livro seu a palavra “memória” à palavra “cegueira” estava a equacionar este problema. Como que a dizer que o cego lembra-se. E nós? Nós, através das imagens, só fazemos é confusão, só temos é confusão. (Há um texto conhecido de Diderot que toca também neste assunto: ele visita cegos e descreve o que o espanta; até que visita um cego e Diderot repara que ele é mais direccionado que nós, ou seja, menos abstracto, menos perdido, menos especulativo. A “Carta aos Cegos” foi proibida na época de Diderot. Vou continuar a pensar nisto.)

        • Helena Borges diz:

          Lembras-me as tais curtas-metragens, sobretudo a mais longa das quatro, The Old Place, encomendada pelo Museu de Arte Moderna de Nova Iorque. Não sei escrever-lhe uma sinopse em cima do joelho, não dá. Começa:

          (JLG) Page 5, le protocole déclare:

          (AMM) Les producteurs devront examiner n’importe quel objet ou sujet, ordinaire ou extraordinaire, dans n’importe quel domaine que ce soit, et au hasard de leur actions ou réflexions, d’y relever avec le plus grand soin la trace encore existante ou pas de ce à quoi nous sommes convenus de donner le nom d’art.

          (JLG) Pour savoir enfin si l’art est une légende ou une réalité.

          (AMM) “Un jour”, disait Van Gogh, “nous prendrons la mort pour nous en aller dans une autre étoile”.

          (JLG) On a bien fait, je crois, de prendre le bateau pour revenir de New York. En avion, on ne voit jamais le ciel en entier.

          Sabemos de quem são as siglas.

          (Também vou continuar a pensar nisto, o sono não ajuda. Até já!)

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