História interna do PCP

Finalmente, alguém, que escreveu sobre o meu livro sobre a História do PCP em 1974-1975, leu-o. Foi o Rui Bebiano.

E com um crítica justa, que agradeço. Falta de facto fazer a história interna do PCP e de como parte dos seus militantes (não sabemos que parte) actuavam nas fábricas, bairros e quartéis, quantas vezes contrariando a linha oficial da direcção, como O Militante, que cito no livro, assume em pleno Maio de 1975. Tentei fazê-lo sempre que tive acesso a fontes, mas, respondo à crítica, como não sou uma militante da história oral (uma moda perigosa que passa de técnica a verdade deduzida pelo conjunto da soma dos inquiridos) e como os arquivos do PCP estão fechados, essa tarefa tem que ficar para outra altura ou outro historiador.

 

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34 respostas a História interna do PCP

  1. ana anselmo diz:

    anónimo? rui bebiano. publicado na ler e tudo. ou percebi mal o anónimo?

  2. Raquel Varela diz:

    Tem razão, Ana,
    Já alterei.
    Cump
    Raquel

  3. Raquel Varela diz:

    Caro Barba Rija,
    Seja tão determinado como o seu pseudónimo e justifique as acusações. Terei todo o gosto em publicar-lhe o comentário depois. É que chamar isso a uma pessoa e não dizer porquê é coisa de comentário televisivo em horário nobre, talvez telejornal. Aqui não.

  4. Cara Raquel Varela,
    Para falarmos a mesma linguagem quando se refere a «…como os arquivos do PCP estão fechados» quer dizer o quê?
    Isto?
    http://www.pcp.pt/sobre#apontamentos_historia
    Ou, suponho, outra coisa bem diferente? O quê, em concreto?

    • Raquel Varela diz:

      Estimado António,
      Esse tipo de documentação, se leu ou passou os olhos no meu livro, eu li e citei-a amplamente. Aliás, ela foi publicada pelas Edições Avante! entre 1975 e 1976, embora a maioria não se encontre nem em alfarrabistas. Só na BN. Esta documentação, panfletos, etc, tb estão em Coimbra, na pasta do PCP.
      Mas como sabe, melhor do que eu, essa documentação não permite fazer a história interna do PCP – era preciso ter acesso a actas do cc, do secretariado da cp, das reuniões de células, para o caso citado. E é isso a que se tem acesso em França e em Espanha.
      Saudações

      • Boa tarde,
        1. O link que lhe forneci contém bem mais do que aquilo que refere (ver lado superior direito do monitor);
        2. Como é público o PCP não tem meios, sobretudo financeiros, para disponibilizar ao público uma parte significativa dos seus arquivos.
        3. Tanto quanto sei, algumas das actas que refere pura e simplesmente não existem porque… não foram (não são) feitas. Para já não falar dos anos de clandestinidade.
        4. Lamento mas, por falta de tempo, não só não li o seu livro como não o vou fazer nos tempos mais próximos. Por isso não me pronunciei, nem pronuncio, sobre o seu conteúdo.
        5. França é um caso. Espanha é outro caso. E Portugal outro ainda. Todos diferentes.
        Esta não é para si, mas para a «geral»: história é uma coisa e estórias é outra bem diferente (para bom entendedor meia palavra basta).
        Um exemplo concreto: Mário Soares diz uma coisa sobre a forma (e o conteúdo) sobre a sua relação de comunista com Norton de Matos. Sérgio Vilarigues diz outra radicalmente diferente. Confrontado por São José Almeida Mário Soares contradiz-se. Sérgio Vilarigues morreu. Mário Soares regressa à sua estória. Não há actas. Que fazer?
        Outro exemplo: Fernando Rosas diz e escreve que saíu do PCP em ruptura por causa da Checoslováquia (1968). Eu digo e escrevo que Fernando Rosas foi expulso do PCP em 1964 por razões que não ideológicas. Não há actas. Que fazer?
        Saudações democráticas

        • Armando Cerqueira diz:

          A minha experiência é post-estalineana e anti-estalinista. O PCP era (e julgo que continuará a ser) um Partido bastante organizado e rigoroso, e o seu funcionamento era muito controlado. Não terá perdido essas e outras características imediatamente após regresso à legalidade. Julgo que os órgãos de controlo (funcionários clandestinos, organismos) reportavam os factos ou acontecimentos mais relevantes aos escalões superiores, havendo disso relatos escritos. A PIDE/DGS não raras vezes apreendeu alguns documentos aquando de prisões efectuadas. Dos acontecimentos partidários mais importantes haveria certamente relatórios, que terão sido cuidadosamente guardados, nomeadamente no que se refere a reuniões de órgãos superiores e congressos.

          Essas práticas não se terão perdido com a legalidade. Ter-se-ão até reforçado a partir do 25 de Abril. Mas, tanto quanto sei por experiência, os documentos relativos às actividades do PCP não circulavam entre a generalidade dos militantes nem eram, portanto, de fácil e democrático acesso. Mas que havia relatórios, isso havia… A extraordinária máquina política e burocrática, muito bem oleada, do PCP não poderia existir sem isso. É para mim incompreensível (e uma estória para embalar e enganar criancinhas estúpidas) pretender-se que “algumas das actas que refere pura e simplesmente não existem porque… não foram (não são) feitas. Para já não falar dos anos de clandestinidade”. O livro da Raquel Varela trata de um momento (cerca de dois anos) da história do PCP na legalidade, em que o Partido teve e tem todas as condições de segurança e de auxílio desinteressado e abnegado dos seus militantes (o que é da mais elementar honestidade reconhecer) para registar por escrito os factos e momentos mais relevantes (segundo a sua óptica e interesses) da sua vida partidária. Portanto, a afirmação de António Vilarigues – talvez por distracção, desconhecimento ou incoerência – não pode ser verdadeira.

          Pelo que é do mais elementar conhecimento popular, os militantes do PCP caracteriza(va)m-se por uma generosidade extrema, sem limites, uma imensa abnegação, e – diga-se sem qualquer intenção de desrespeito – uma dedicação quase canina ao seu partido. Os militantes do PCP, ao que julgo, continuam a contribuir com trabalho e meios materiais e financeiros para ajudar o seu partido. As festas do Avante são, designadamente, disso um exemplo, quiçá o principal.

          Manter um arquivo, espécie de memória morta, e possibilitar o seu acesso, mesmo que selectivo, está ao alcance do PCP, a menos que este tenha passado a ser dominado pela preguiça, pelo desleixo ou pelo desencanto, ou tenha interesse em impedir o seu acesso pelo espírito bacoco de esconder não se sabe bem o quê do passado (uma ‘estratégia’ neo-estalineana do tipo ‘a verdade a que temos direito’, conforme o ‘slogan’ do defunto ‘O Diário’, ao gosto do totalitário e acientífico ‘centralismo democrático’) – a não ser que haja comportamentos e factos passados indignos ou de baixa moralidade política… que a várias pessoas da elite partidária não convenha divulgar – o que não quero crer.

          Pretender, como António Vilarigues, que “como é público o PCP não tem meios, sobretudo financeiros, para disponibilizar ao público uma parte significativa dos seus arquivos” é, no mínimo, pueril e incoerente com as capacidades históricas dos militantes do PCP… Não tem o PCP interesse em divulgar os factos positivos, glorificantes do seu passado, em desmascarar tanta difamação e mentira de que foi, e é, alvo?

          Enfim, como diria o saudoso general Vasco Gonçalves, ‘as pessoas são como são’!

          Armando Cerqueira

  5. João Pais diz:

    Perguntas honestas:
    Porque é que alguém que tantas vezes insulta o PCP disto e daquilo e mais umas botas tem este fetiche com o seu estudo?
    Porque haveria o PCP de lhe dar a conhecer o que quer que fosse?
    Quem se julga para ter acesso a documentos que se referem a pessoas que tomaram esta ou aquela posição ou emitiram esta ou aquela opinião?
    Não acha que isso condicionaria o à vontade e liberdade de opinião dos actuais militantes – saber que a opinião que hoje dão privadamente apenas para aqueles que integram o partido, amanhã pode aparecer numa publicação qualquer?

  6. António Paço diz:

    O link fornecido acima por António Vilarigues aponta para um manancial de informação, alguma só muito recentemente disponibilizada em fontes do PCP, que é de saudar. Ter colocado o Avante! até ao 25 de Abril online, que já foi feito há algum tempo, é muito saudável (para quando mais umas décadas de Avante?) Mas basta pegar em dois ou três casos para se ver como é insuficiente para se fazer a história do partido. Os congressos são um exemplo claro: estão publicadas, em relação a quase todos, as resoluções; mas e as discussões? Que elementos há para avaliá-las? Sobre as discussões do V Congresso, por exemplo, que eu saiba, o PCP só nos permite ter uma ideia do que se passou a partir da crítica posterior de Álvaro Cunhal ao ‘desvio de direita’. Nem sequer as resoluções oficiais estão publicadas (Se estiver incorrecto, corrija-me.) Outro exemplo claro é a história da ‘reorganização’: a conferência de Cunhal disponibilizada é manifestamente insuficiente para se conhecer o que se passou. Fica-se a saber mais por entrevistas concedidas ao Público por Vasco de Carvalho e, se não estou em erro, pelo pai do António Vilarigues, por exemplo.

  7. António Paço diz:

    Actas de reuniões de células é capaz de ser pedir muito…

  8. Orlando diz:

    Actas de reunião de célula, não se fazem. E como militante do PCP, as minhas opiniões só interessam aos meus camaradas, era só o que faltava agora virem para a praça publica divulgar as opiniões, discussões etc, tidas pelos camaradas dentro das suas respectivas células. Desculpem lá, mas tenham juízo e dedicam-se à pesca.
    Sugestão, estudem os outros partidos políticos também, esses que pelos vistos perderam toda a sua ideologia, lol lol lol lol.

    • António Paço diz:

      Há gente a estudar outros partidos. E também enfrentam limitações, claro.

    • Armando Cerqueira diz:

      Orlando,
      você é um comunista muito estranho. Tem medo da verdade… No meu tempo, no PCP defendia-se que só a verdade é revolucionária, na condição de, na clandestinidade, face ao inimigo, não divulgarmos os nossos segredos, nomes locais, etc.

      Nas condições da legalidade, passadas décadas sobre os acontecimentos, manter o passado no ‘segredo’, nos ‘curros’ do arquivo é, no mínimo, contra-revolucionário e anti-comunista: vira-se contra vocês e o vosso Partido.

      Pelo que me tenho apercebido, a esta ‘nova’ militância do pós-27 de Abril de 1974 foi feita à pressa, faz-lhe falta muita cultura marxista e outra, reflexão, humildade revolucionária e vida em comum com as pessoas comuns…

      Armando Cerqueira

  9. Andreia diz:

    Olá Raquel!

    Enquanto não publica o meu comentário (será por ofensas pessoais?!?), deixe-me perguntar-lhe onde é possível aceder às actas da Rubra ou do Ruptura? É só para perceber se o PCP é diferente dos outros ou se os outros são diferentes do PCP…

    • Raquel Varela diz:

      Andreia,
      Não lhe publiquei os seus comentários, os anteriores, porque o nível é tão baixo que seriam certamente considerados lenha na fogueira anti-comunista. Portanto ou você é do PC e ninguém lhe liga nenhuma ou está aqui para fingir que é do PC e dizer umas brutalidades para criar anticorpos contra o PCP.
      A regra de abertura dos arquivos é 30 anos, regra que subscrevo.
      Não respondo pelo Ruptura. A Rubra está a criar o seu arquivo e certamente que daqui a 30 anos, se alguém quiser, vai conhecê-lo. Até porque entre os trotskistas há tendências, são bem vindas. Não tememos a divergência interna.

  10. Se, como o António Paço afirma, há outra gente a estudar outros partidos, só tem que se sentir satisfeita pelo seu esforço, pois tais estudos podem vir a confirmar que o PPD foi criado em geito de federeção para poder ser uma força política com capacidade de desviar e até impedir a revolução, liderar a contr-revolução, e que quando Soares foi “informado” disso logo lhe tomou a dianteira. E isso pode confirmar-se começando o filme pelo fim, recuando na história.

    • Armando Cerqueira diz:

      Na sua longa entrevista a Maria João Avillez “Soares : ditadura e revolução” publicada em 1996, o Dr Mário Soares desvendou ser social-democrata já desde o seu exílio dourado, mentindo todavia consciente e intencionalmente ao seus simpatizantes e camaradas de partido dizendo-se socialista. O objectivo da social-democracia é a instauração de um regime capitalista reformista baseado na colaboração de classes, na paz social e no repúdio da supressão das relações de produção burguesas. A social-democracia pretende e defende a manutenção do modo de produção capitalista, a exploração dos trabalhadores e a expropriação privada da mais-valia produzida no processo de produção.
      ‘Incoerentemente’ Mário Soares declararia em Ponte de Soure num discurso da campanha eleitoral, cerca de Março de 1975, que a social-democracia é capitalismo, é exploração, que devia ser recusada e que ele era socialista e não partidário do capitalismo (cito de memória, na base de um relato escrito).

      Mas já em 1974 o Dr Soares conspirava com a Igreja Católica, Kissinger e aliava-se aos spinolistas contra uma ‘deriva’ anti-capitalista e anti-burguesa do processo revolucionário (o Dr Soares encarregara os seus mais íntimos correlegionários de manter o contacto com o general Spínola, a fim de permanecer informado das intenções/manobras deste). Soares era ‘o nosso amigo’, o contacto preferencial e de confiança da ‘administração’ norte-americana e dos dirigentes dos mais poderosos países capitalistas da Europa Ocidental na sua luta contra ‘o mau exemplo’ português de uma via independente, socialista/socializante no interior da esfera de influência capitalista no mundo da guerra-fria. Mantinha estreitíssimas relações com Frank Carlucci, com quem conspirava, ao abrigo de escutas, no último andar da residência deste. Soares (e o PS) era o ponto central, o agente principal, o instigador e o inspirador da contra-revolução burguesa e capitalista em Portugal. Conspirava com D. António Ribeiro, cardeal patriarca. Além dessa entrevista acima mencionada, leia-se com muita atenção o livro do Prof Tiago Moreira de Sá sobre Carlucci e Kissinger. E as entrevistas que o inefável Soares vai, a pouco e pouco, concedendo… Leia-se sempre o que está implícito, como nos tempos do salazarismo/marcelismo…

      Na minha investigação sobre a contra-revolução durante o PREC, o inefável Dr Mário Soares (e a ala direita, soarista, do PS) surge cada vez mais, vigorosamente, como o elemento-chave, o coordenador inorgânico nacional das forças contra-revolucionárias, anti-PCP, anti-MFA e anti-popular. O PPD nem tinha credibilidade nacional e internacional, nem tinha grande dimensão. Era irrelevante para a Direita liberal ou conservadora/reaccionária ‘engagée’ nas tarefas de paragem ou retrocesso do PREC.

      Soares, o PS ala soarista, era o interlocutor privilegiado, principal, natural. Para isso se preparava desde o início do golpe de Estado de 25.04.74, para isso se ofereceu aos líderes e potências ocidentais desde Maio de 74 e aproveitando o seu cargo de Ministro dos Negócios Estrangeiros. Está escrito e publicado. Por palavras do próprio Mário Soares.

      Soares aparece-me, a partir dos resultados da minha investigação, como a grande figura da contra-revolução, o seu ícone. Foi o primeiro cronologicamente. O ‘leader’, o pricipal interveniente, aquele que cindiu o MFA e levou uma sua facção a dar o golpe pró-PS contra a ‘revolução. Estarei equivocado?

  11. nuno diz:

    Camaradas… leiam o livro. É o único livro sobre o tema que é mesmo História, não estórias…

    Parabéns pela sua tese Raquel. Muito boa. As questões que teria a colocar-lhe (também tenho algumas…) só as poderia fazer noutro suporte (seriam até demasiado técnicas para aqui as fazer).

    Abraço

    • Raquel Varela diz:

      Mas são bem vindas, essas questões.
      Obrigada, aqui no 5 Dias é um desafio questionar o PC!
      Raquel

  12. Nuno L diz:

    Raquel vou comprar o seu livro.
    Actas de células não se fazem nem se faziam antes do 25 de Abril.

  13. Miguel Cardina diz:

    Raquel,
    Já existem no país finalmente muitos e bons trabalhos de história oral ou recorrendo a fontes orais. O que chamas “moda” talvez se devesse chamar “atraso”, que em certa medida se explica pela permanência de bolsas de conservadorismo metodológico na academia portuguesa. É preciso ter em conta que a HO começou nos anos quarenta, teve a sua afirmação nos anos 60-70 e hoje a utilização de fontes orais é em regra aceite. Mas para isso é necessário ter presente as suas limitações e virtualidades, o que aliás lança discussões sobre os estatutos das fontes, a relação/distinção entre história e memória, a dinâmica entre sujeitos e colectivos, o papel dos contextos, o lugar do historiador na escrita da história, etc. que extravasam claramente o mero debate sobre a HO. Que não procura, julgo, estipular “verdades deduzidas pela soma dos indivíduos inquiridos”. Fosse tudo assim tão fácil, como sabes. E se substituirmos “indivíduos” por comunicados, estatísticas, artigos de jornal ou actas de reuniões, as dificuldades não desaparecem.

    • Armando Cerqueira diz:

      Um último comentário. Nos anos sessenta e setenta, durante a Ditadura, nas reuniões (normalmente mensais) entre controleiros (na minha experiência funcionários clandestinos) e controlados, o controleiro informava-se do estado de realização das tarefas atribuídas ao controlado, da evolução de determinadas situações, do progresso de outras, etc. Criticava as insuficiências se fosse caso disso, fazia sugestões, propunha acções – algumas delas erradamente. Tinha um conhecimento ‘perfeito’ do que respeitava ao controlado. Certamente que registava, de alguma maneira e nalgum suporte, estas informações. E como uma parte fundamental do seu trabalho consistia em reportar tudo isso ao seu organismo superior – o seu controleiro – isso supunha alguma forma de reporte (chame-se-lhe acta ou outra designação). O trabalho do PCP não consistia, pelo menos então, em ‘emprenhar pelo ouvido’! Nos anos setenta havia também formas de reporte. Numa determinada célula havia um organismo encarregue de estudar a documentação reservada do PCP, cujos militantes eram escolhidos na base da muita confiança ‘partidária’. Eu pertenci a essa estrutura até me afastar do PCP.

      Portanto dizer que nas células, na clandestinidade e imediatamente após o 25 de Abril de 1974, não havia actas de reuniões, se por ‘actas’ se quiser significar ‘relatórios’ ou outros documentos que registavam os factos pertinentes, é pura e simplesmente inexacto.

      Sei, por informação eu me foi prestada há cerca de um ano por uma pessoa amiga muito próxima, e que a recolheu de um dos seus familiares mais próximos, que actualmente o ‘arquivo’ da documentação antiga se encontra no PCP em estado de grande desorganização. Concluo que o PCP, cumprindo uma das leis da dialéctica, já não é o que era e não tem, portanto, uma visão estratégica da importância do seu passado.

      Uma das consequências dessa visão estratégica é que os militantes do PCP acham, ao invés da dialéctica materialista e do ‘marxismo-leninismo’ (essa concepção teleológica do mundo material e espiritual, e ideologia anti-marxista), que o PCP não deve ser um ‘objecto de conhecimento’, e que está acima e para além do nosso mundo de impuros mortais, de não-eleitos.

      O livro da Raquel Varela (que só agora estou a ler, mil desculpas, Raquel) é, mais não seja pelo seu objecto – a história de uma fase da vida do PCP, ou de um aspecto muito importante da história do PREC – uma obra muito importante e corajosa (vai contra o politicamente correcto de enaltecer e mistificar o processo contra-revolucionário novembrista). Coragem Raquel, continue desassombradamente o seu trabalho.

      • Raquel Varela diz:

        É o segundo elogio que recebo nestas caixas, começo a me assustar!
        Saudações fraternas Armando.
        E devolvo, cada vez que escreve copio para a minha pasta PCP.

        • Armando Cerqueira diz:

          O elogio que lhe faço é sincero e merecido.

          ‘Je dis tu
          à tous ceux que j’aime
          même si je ne les vois
          plus qu’une seule fois’

          Prévert, creio, citado de memória dum
          poema de Daniel Filipe.

    • Raquel Varela diz:

      Miguel,
      É uma moda e hoje há cadeiras sobre isso em pelo menos 2 cursos de história, há seminários, revistas e um verdadeiro boom. Há casos em que é essencial – como seriam os trabalhos da Paula Godinho, o teu, sem história oral? Estou agora a estudar os operários navais e, para a história de vida, não dispenso as entrevistas. Para a luta politica tenho os jornais. Para o caso da clandestinidade vou ter que fazer mais entrevistas.
      No caso da minha tese seria perder tempo. Estudei a política que venceu dentro do PCP e foi aplicada nas fábricas. Porque iria eu substituir um panfleto distribuído à porta de uma fábrica por 20 entrevistas sobre o que pensam os militantes que o distribuíram?
      A discussão é longa e lida com questões fulcrais entre elas uma que parece não existir cá – a diferença entre experiência e consciência de classe, entre o que faz uma pessoa e aquilo que pensa que fez. Demasiadas leituras amplas de Thompson e pouco Lukacs e pouco Marx, diria eu, my modest opinion.
      Saudações

  14. Miguel Cardina diz:

    Raquel,
    Longe de mim sugerir que deverias ter usado fontes orais no teu trabalho. Quer queiramos quer não, fazemos sempre uma selecção de fontes consoante as nossas convicções epistemológicas. No teu caso, privilegiaste fontes escritas para fazer uma história política do político. E fizeste bem. Mas isso não legitima que desconsideres a história oral. Tenho cá para mim que se se entrevistassem os tais vinte tipos que andavam a distribuir ou receber o panfleto à porta da fábrica se ficaria com uma imagem bem mais densa e complexa, desde logo sobre a tal “consciência de classe”. 🙂 Mas enfim, my modest opinion também.
    Abraço

    • Raquel Varela diz:

      Miguel,
      Por esse teu raciocínio Paul Preston, Eric Hosbawm, Lukacs, Engels, Marx, e a uns milhares de cientistas sociais faltaria «densidade e complexidade». Nunca usaram história oral. Porque uma boa história pode não ter as melhores fontes e as melhores fontes podem dar uma péssima história. Falamos de técnica ou de imposição da história oral?

  15. Miguel Cardina diz:

    Claro que não falamos de imposição de história oral, Raquel. Acabei de dizer que fizeste um bom trabalho sem a usares. O que te digo é que um trabalho que usa a história oral – e nisso não há regra, concordo contigo, “uma boa história pode não ter as melhores fontes e as melhores fontes podem dar uma péssima história” – potencialmente elucida outros aspectos – uma história mais atenta ao quotidiano, às sociabilidades, à formação da consciência, ao papel das subjectividades, etc. capaz de colmatar (ou até mesmo corrigir) o que os documentos da época deixam em branco. Até porque qualquer documento, oral ou escrito, não nos dá a “verdade”, apenas uma narrativa situava num tempo, num espaço e num dado contexto de produção. Repito: é absolutamente normal fazer história sem recorrer à HO; até porque ela tem especificidades com as quais o trabalho que se desenvolve nem sempre está interessado em lidar, o que é legítimo e pode ser salutar; o que me pareceu de evitar foi uma desconsideração “tout court”, tal como se infere da tua expressão no post.

    • Miguel Cardina diz:

      Já agora, e sobre a questão da “moda”, é interessante ouvir esta comunicação da Luísa Tiago Oliveira (precisamente sobre o “atraso” na recepção em Portugal da HO): http://www.memoriamedia.net/historiasdevida/index.php?option=com_content&view=article&id=49&Itemid=91

    • Raquel Varela diz:

      É justo,
      Resisti a escrever em blogs durante muito tempo por duas razões: um certo narcisismo que aqui pulula e porque as palavras não têm sorrisos, tom, etc. Tudo parece mais brutal. Temos muito respeito pelo trabalho um do outro e ambos usamos fontes consoante precisamos delas.
      Mas no meio disto tudo fico a querer fazer um debate – consciência versus experiência, se quiseres Thompson versus Marx. E é aí que entram os testemunhos.
      Não estou nada convencida da «narrativa» – ser contra uma greve ou a favor é um facto – porquê é uma narrativa.
      Abraços
      Raquel

      • Miguel Cardina diz:

        🙂 😉 É isso. Temos um dia que beber um copo à volta destas conversas. Decerto que nos vamos divertir, divergir e perceber melhor o ponto de vista do outro.
        Abraços!

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