Call me Ishmael e outros berlindes (Alexandra Lucas Coelho)

(Ainda o jogo literário)

The_voyage_of_the_Pequod_Everett Henry (1893-1961)

 

1. Existe um livro que lerias e relerias várias vezes?

Quase nenhum dos meus livros está comigo. Estão a 8 mil quilómetros, em Alfama. Nesta encosta do Cosme Velho, tenho apenas duas prateleiras de livros quase todos ainda não lidos. A excepção são quatro de Herberto Helder que trouxe para continuar a ler (e como fui deixar para trás o Photomaton & Vox???). Mas se pensar num livro para as minhas várias vidas será Em Busca do Tempo Perdido, que li, reli, e hei-de ler pela primeira vez. Por exemplo, Robert de Saint-Loup, dreyfusiano por amor, esperou que eu voltasse de Jerusalém. Havemos de coincidir outra vez, daqui a uns anos.

2. Existe algum livro que começaste a ler, paraste, recomeçaste, tentaste e tentaste e nunca conseguiste ler até ao fim?

Para não me alongar, vai só um par, Odisseia e Ulisses.

3. Se escolhesses um livro para ler para o resto da tua vida, qual seria ele?

Girl meets boy (or girl). Orlando meets Diadorim. Corto meets Alcolmalcolm. Sandokan meets Kurtz. Ahab meets Raduan Nassar. Mário Cesariny oh meu deus de Vasconcelos meets Richard Burton. J. Alfred Prufrockmeets Henri Michaux. Agustina Bessa-Luís meets Aliocha Karamazov. Heathcliff meets Ana Karenina. Emily Brontë, claro, meets Hélia Correia. Gilgamesh c’est moi. A suivre.

4. Que livro gostarias de ter lido mas que, por algum motivo, nunca leste?

Além do supracitado par, dava para mil e uma noites.

5. Que livro leste cuja “cena final” jamais conseguiste esquecer?

Tal como o Pedro, não me lembro da maior parte dos finais, e suspeito de que aqueles de que me lembro não sejam ainda o fim ou não sejam assim. Por exemplo, o Werther: ele veste a casaca de veludo e executa a decisão, ou ainda há algo depois? Seja como for, não vou contar.

6. Tinhas o hábito de ler quando eras criança? Se lias, qual era o tipo de leitura?

Os coelhinhos de Dick Bruna em que aprendi a ler. Os três Meninos Verdes que nunca mais vi nas livrarias. Anita na Praia. Os contos de Anderson e os contos de Grimm, com gravuras. Jonas e a Baleia e a Bíblia ilustrada. Os Cinco, Os Sete, o Colégio das Quatro Torres em edições desbotadas. A Condessa de Ségur (Leão!). Odette de Saint-Maurice (a Arabela!). A Cabana do Pai Tomás. O Príncipe Escravo Esculápio. As Mulherzinhas (eu ia ser a Jo). Júlio Dinis. Carradas de Júlio Verne com as gravuras originais. Todo o Tintin e mais Jo, Zette & Jocko em francês. Os Peanuts em inglês. Os mundos alternativos do Tarzan com pterodáctilos. Sandokan. Todo o Astérix e todo o Lucky Luke. O Ninho dos Marsupilamis. Todos os Blake & Mortimer. As aventuras da Patrícia. O Gulliver. Agatha Christie. Sophia de Mello Breyner. Sherlock Holmes. A Guerra dos Mundos. A Loja de Antiguidades. Huckleberry Finn. Jane Eyre. Capitães da Areia e por aí fora de Jorge Amado. Clarissa e Olhai os Lírios do Campo do Érico Veríssimo. As Meninas da Lygia Fagundes Telles. Quo Vadis debaixo das parras do quintal da minha avó. A Metamorfose numa edição dos meus pais que tinha gravuras, e até hoje tenho pesadelos com o escaravelho Samsa. Devia ter uns 13 anos. Conta até que idade?

7. Qual o livro que achaste chato mas ainda assim leste até ao fim? Porquê?

Vários na escola, mesmo aqueles que afinal não eram.

8. Indica alguns dos teus livros preferidos.

Passei a adolescência a ler romances. Li poesia tarde, e não em português primeiro. E mais tarde ainda, diários, viagens, ensaios. Não gosto da distinção ficção/não ficção. Não sei bem o que seja ficção. Moby Dick. A Balada do Mar Salgado e todo o Corto Maltese. Robinson Crusoé. O Monte dos Vendavais. Os Irmãos Karamazov. Crime e Castigo. Noites Brancas. O Vermelho e o Negro. Madame Bovary. A poesia de Kavafis, Dylan Thomas, cummings, Eliot, Herberto, Cesariny, Carlos de Oliveira, Manuel Gusmão, Ruy Belo, Rimbaud, Baudelaire, Whitman, Rilke. Os Cadernos de Malte Laurids Brigge. Goethe. Novalis/Rui Chafes. Orlando. As Ondas. Mrs. Dalloway. O Caçador de Tesouros. Deserto. Ecuador. Um Bárbaro na Ásia. The Road to Oxiana. Todo o Salinger. As Memórias de Adriano. O Coração das Trevas. Dom Quixote. A Montanha Mágica. Turguéniev revolucionário. Forster em viagem. Henry James em geral. O português de Maria Gabriela Llansol, de Maria Velho da Costa, de António Lobo Antunes, de Eduardo Lourenço. Os sonetos de Camões. Fernanda, de Ernesto Sampaio. Lavoura Arcaica. Copo de Cólera. Grande Sertão: Veredas. Perto do Coração Selvagem. A Paixão de GH. O Manifesto Antropofágico de Oswald de Andrade. João Cabral e Drummond. Cem Anos de Solidão. Alejandra Pizarnik. Se Isto É Um Homem. Os poemas de Mahmoud Darwish e de Taha Mohammed Ali. O Mediterrâneo de Braudel, de Orlando Ribeiro, de Cláudio Torres. Cosmogonias ameríndias. A volúpia de Barthes. A cabeça de Foucault. Duras. O Livro Por Vir. Semear na Neve de Maria Filomena Molder. A descoberta dos ensaios de Joaquim Manuel Magalhães. Jerusalém e Aprender a Rezar na Era da Técnica. O grande romance-em-viagem da minha geração, Baía dos Tigres. O grande cronista da minha geração, Rui Cardoso Martins. Os poemas da minha geração e depois: Rui Pires Cabral, José Miguel Silva, Manuel de Freitas, Ana Paula Inácio. A poesia incompleta do Changuito.

9. Que livro estás a ler neste momento?

Coisas amazónicas como A Inconstância do Pensamento Selvagem, de Eduardo Viveiros de Castro. Venho de ler dois grandes livros de poemas em português, Nervo, de Diogo Vaz Pinto, e 2010-2011, de Ana Paula Inácio, para escangalhar as ideias feitas. E hei-de ler Griffin e Sabine: an extraordinary correspondance, graças ao Theo.

10. Indica dez amigos para o meme literário.

Em Portugal: Changuito, Luis Manuel Gaspar, Diogo Vaz Pinto, Vítor Silva Tavares, Renata Correia Botelho. No Brasil: Tatiana Salem Levy, Christiane Tassis, Frederico Coelho, Luiz Ruffato, Daniela Moreau.

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10 respostas a Call me Ishmael e outros berlindes (Alexandra Lucas Coelho)

  1. Se leu, e estou certo que sim, As Vinhas da Ira e esqueceu o seu final, por favor passe os olhos por ele de novo e nunca mais se esqueça!

  2. Helena Borges diz:

    E eu que estava à espera de uma brasileirice pegada? Mas está muito bom, está.

    Também aviei as Quatro Torres – havia sempre uma miúda rica com apendicite aguda às tantas da noite – e outras leituras de infância, que contarão até quando quisermos, dez, onze, doze, treze, até onde a corda esticar.

    O Grande Sertão tinha de estar aí, promessa de cabeçalho de blogue.

    Fiquei curiosa com o Changuito que está nos preferidos. Quem é o Changuito?

  3. Pedro Penilo diz:

    Alexandra, diz lá à moça quem é o Changuito!

  4. Pedro Penilo diz:

    gh, o seu comentário ofensivo e gratuito foi censurado. É uma pena que até num post destes o tenha de o fazer.

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