João Arsénio Nunes: Comunismo no cinema

É com muito gosto que publico aqui no 5 dias um artigo do João Arsénio Nunes.

O texto em anexo – uma reportagem do festival de cinema da revista Histoire realizado em Pessac em Novembro de 2009 – foi entregue e aceite em Dezembro do mesmo ano para publicação na revista Ler História. Nunca foi publicado nem submetido a referee.
Propõe-se agora por este meio a sua divulgação a todas as pessoas interessadas em comunismo, ou em cinema, ou simplesmente em conhecer a situação presente do pluralismo de opinião em meio universitário.

João Arsénio Nunes

O comunismo no cinema. Filmes e debates do XX Festival internacional do filme histórico de Pessac.

A 20ª edição do Festival internacional do filme histórico, que desde 1989 se realiza em Pessac (periferia de Bordéus) sob o impulso da revista francesa de grande divulgação “L’Histoire”, decorreu entre 9 e 16 de Novembro de 2009, sob o título duplamente malicioso “Il était une foi: le communisme”. Explorando a homofonia das palavras fois (vez) e foi (fé), tal título remete o comunismo para a categoria das coisas do passado remoto, ao mesmo tempo que o identifica como religião.
A realização deste ano assumiu-se como especial, por comemorar os 20 anos de existência do festival e da queda do muro de Berlim, correntemente considerada como o fim da “guerra fria”. O número de filmes exibidos durante a semana ultrapassou os cem (nem todos circunscritos à temática central) e, em paralelo, realizou-se um grande número de sessões de debate, recitais de poesia e “ateliers” pedagógicos – os jovens são um dos principais destinatários do festival e, entre outros, havia um júri dos estudantes liceais.

Porque caiu o muro de Berlim?
A conferência inaugural, subordinada ao tema “Porque caiu o muro de Berlim?”, esteve a cargo do historiador polaco Krzysztof Pomian. Começou por sublinhar que a queda do
muro não foi o princípio do fim do sistema do “bloco de leste” – na altura já a Polónia tinha um governo de coligação e a Hungria abrira a sua fronteira com a Áustria, já não havia portanto “cortina de ferro” -, mas também não foi o fim dos “regimes comunistas” europeus, já que a URSS duraria até 1991. A centralidade que o fim do muro de Berlim assumiu explica-se pelo seu alcance simbólico e mediático e pela importância das questões que envolvia, ligadas nomeadamente aos receios da reunificação alemã. Tratou-se de um acontecimento altamente contingente – até ao fim era imprevisível a reacção da URSS –, e que aliás correspondia perfeitamente ao tipo de evento que durante décadas os sovietólogos tinham declarado como absolutamente impossível. A opinião estabelecida partia do pressuposto de que “o comunismo” era inalterável e que, como sistema único por essência, não havia lugar para considerar diferenças nacionais. Tanto uma ideia como a outra estavam erradas, como mostra a análise de determinados momentos-chave na história da Europa de leste a partir da morte de Stalin, em 1953: além dos acontecimentos desse ano, as datas de 1956, 1968, 1980 e 1990-91. Sublinhou em especial o carácter periodisante de 1956, com a denúncia de Stalin por Kruschov no XX Congresso – uma denúncia não improvisada mas preparada no Politburo. A partir da mesma época, uma política de habitação que permitiu a consolidação das relações de família e a melhoria das condições de vida, em situação de paz, abriu espaço ao desenvolvimento da vida privada, de que vai emergir, após 1968, a dissidência, a qual não podia deixar de ter repercussões nos partidos no poder, enquanto partidos de massas que eram. A evolução foi mais rápida em algumas das democracias populares (os países da Europa de leste), nomeadamente na Hungria e na Polónia. Mesmo a imposição da lei marcial na Polónia em 1980 não interrompeu esta tendência, e os seus autores procuraram que ela não conduzisse à efusão de sangue. A derrota da União Soviética no Afeganistão, também a partir do princípio da década de 80, constituiu, segundo o conferencista, outro dos momentos cruciais nesta evolução. Assim, os acontecimentos precipitam-se, em 1989, por força da conjugação do desfasamento dos regimes em relação à transformação social com a relação de forças desfavorável ao nível internacional.
A sessão inaugural concluiu com uns divertidos “Contos da era dourada” (expressão que designava os anos 70 e 80 na Roménia de Ceausescu), um filme em quatro sketches dirigido por Cristian Mungiu, em que se evidenciam alguns dos aspectos mais caricatos da relação entre o voluntarismo megalómano do regime, aliás muito apreciado no Ocidente, e uma sociedade marcada pelo peso das tradições agrárias.

Outubro de 1917: revolução ou golpe de Estado?
A quantidade de documentários hoje conhecidos e divulgados sobre a revolução russa não motivava, em princípio, para ir ver um novo filme sobre o tema. No entanto, demos por bem empregues as duas horas do filme de Paul Jenkins, 1917 A Revolução Russa (de 2007). Combinando os depoimentos de especialistas de várias orientações (desde Hélène Carrère d’Encausse, sempre tão inteligente como tendenciosa, a historiadores russos de gerações mais novas que fazem um balanço positivo da história soviética) com uma grande massa de documentação fílmica, em parte anteriormente desconhecida, o filme apresenta uma imagem equilibrada da relação, no decurso do processo revolucionário, entre os movimentos de massas e as elites revolucionárias, nomeadamente o partido bolchevique, apresentando por vezes informações e documentos tão curiosos como surpreendentes (por exemplo a carta de um intelectual bolchevique ao irmão, general do exército czarista, convidando-o, após Outubro, a colaborar com o novo poder (o que este fez, trazendo consigo outros oficiais e dando uma contribuição muito importante para a vitória na guerra civil).
O principal debate da segunda jornada ocupou-se da controvérsia clássica acerca da tomada bolchevique do poder em Outubro de 1917: revolução ou golpe de Estado? Controvérsia que, facto habitualmente esquecido, já ocupava os próprios bolcheviques nos anos 20 (os quais não recusavam considerar a tomada do poder como perevorot, que se pode traduzir como “golpe”, reivindicando-o positivamente). Participantes eram desta vez os conhecidos historiadores Marc Ferro (autor de vastíssima bibliografia e nomeadamente de uma tese clássica sobre a revolução russa1) e Nicholas Werth, autor de uma História da União Soviética2 e co-autor do famoso Livro Negro do Comunismo3. Embora de gerações diferentes, ambos os participantes são igualmente alheios a qualquer simpatia comunista e não representaram propriamente pontos de vista opostos na interpretação da revolução. Pode considerar-se que foram as intervenções de M. Ferro a dominar o debate e, sem trazerem novidades importantes em relação às suas investigações conhecidas, delas ressaltou com clareza o quadro das condições em que se dá a iniciativa de Outubro. Embora partindo da afirmação de que para os contemporâneos dos acontecimentos (com quem ainda contactou no começo da sua investigação) “a verdadeira revolução era a de Fevereiro” – quando “o poder caiu, os sovietes de soldados assumiram autoridade sobre os oficiais, os operários convocaram assembleias de fábrica, os estudantes exigiram o marxismo nos programas e por toda a parte um sentimento de fraternidade se difundiu” –, a incompatibilidade entre a revolução e a prossecução da Guerra tornou-se clara desde princípio, e a contestação da autoridade no Exército propagou-se rapidamente pondo em causa a ordem estabelecida. Os camponeses de início queriam apenas dividir as terras não cultivadas, ao mesmo tempo que nas cidades começava a ocupação de habitações devolutas. A escalada de violência dá-se porque os proprietários resistem às medidas democráticas elementares e “o governo provisório nada faz”. Quando em Agosto, com Kornilov, a contra-revolução tenta o golpe de estado, a reacção popular é imediata porque “os responsáveis dos sovietes e organizações de base sabiam que seriam fuzilados; é isto que vai permitir o sucesso de Outubro.” A separação dos bolcheviques em relação aos outros partidos permite-lhes serem os beneficiários desta disposição das massas populares, o que então se exprime nos resultados das eleições dos sovietes e de outras organizações. A tomada bolchevique do poder foi minuciosamente preparada e tais preparativos já eram aliás difusamente conhecidos nas vésperas da insurreição, mas os panfletos que denunciavam o possível golpe bolchevique eram confiscados pelos próprios comités populares. O debate que se seguiu ultrapassou o âmbito cronológico de 1917 e, tal como em outros dos debates do Festival, nele se fez sentir a permanência de simpatias pela tradição revolucionária e comunista que contrastam com o predomínio quase absoluto do centrismo “liberal” entre os conferencistas. Em resposta a uma pergunta, M. Ferro reconheceu o “plebeísmo e populismo” de Stalin, em comparação com o intelectualismo de Trotsky, como uma das chaves explicativas do êxito do primeiro.

Maurice e Jeanette
Preenchemos o terceiro dia do festival com uma série de filmes e debates centrados na história do Partido Comunista Francês. Dos anos 30 aos anos 70, a influência comunista no meio intelectual português foi em boa parte mediada pela influência da cultura francesa; por outro lado, em muitos aspectos, o PCF foi o “partido-irmão” com que o PCP teve um relacionamento mais próximo.
A manhã começou com um proveitoso “café historique”, conversa com a historiadora Anette Wiewiorka a propósito do seu livro de próxima publicação “Maurice et Jeanette”, uma dupla biografia do líder histórico do PCF (entre 1934 e a morte em 1964) e de sua mulher, Jeanette Thorez-Vermeersch, também ela dirigente muito destacada do Partido e representante, após 1968, de uma corrente “ortodoxa” oposta à evolução “eurocomunista” que o Partido sofreu nos anos 70. Apesar da existência de estudos biográficos anteriores sobre Maurice Thorez (e da famosa autobiografia “Fils du Peuple”)4, o novo livro de Anette Wieviorka justifica-se não só pela perspectiva “conjugal” adoptada, como pela descoberta de novas fontes. Nomeadamente, o arquivo pessoal de Maurice Thorez, que permaneceu na posse de Jeanette Vermeersch até à morte desta em 2001 e foi recentemente depositado pelos herdeiros do casal nos Arquivos Nacionais. Como a conferencista explicou, Maurice Thorez trabalhava habitualmente em casa, pelo que o arquivo pessoal é de facto muito mais do que isso, nele se incluindo os numerosíssimos presentes oferecidos ao secretário-geral comunista em 1950 por ocasião da passagem dos seus 50 anos, em pleno ambiente de “culto da personalidade” (a celebração reflectia o “modelo” que fora, um ano antes, a comemoração dos 70 anos de Stalin).
A palestra de A. Wieviorka, numa sessão aliás destinada a um público pouco numeroso, foi um dos momentos interessantes do festival, por combinar a síntese biográfica com a revelação de simples curiosidades que permitiam partilhar a emoção da historiadora pelas suas descobertas. Começando por se referir aos presentes recebidos pelo secretário-geral, notou como, nomeadamente os do 50º aniversário, reflectiam a intensidade da relação sentimental do “povo comunista” com o líder – entre eles encontram-se por exemplo os manuscritos autógrafos de cartas de despedida de jovens condenados à morte durante a Ocupação, assim como as cinzas mantidas como relíquia pelas famílias. Wieviorka percorreu em seguida os principais momentos da vida política de Maurice Thorez, desde a prisão em 1930, passando pelo encontro pouco tempo depois com Jeanette Vermeersch no Lux de Moscovo (o hotel do Comintern), demorando-se com algum detalhe na crise de 1931 (que o levou a escrever uma carta de demissão) e sobretudo no momento áureo que foi o da participação do PCF na Frente Popular em 1936. Em relação ao problema, durante muito tempo controvertido, da “autoria” da política de Frente Popular (decisão de Moscovo funcional à política externa da URSS ou decisão do PCF), Wieviorka esclareceu que há hoje consenso historiográfico em reconhecer “um jogo de vai-vem que deixou a Maurice Thorez uma margem de iniciativa.” Acrescentou entretanto que resulta mais claramente dos documentos agora conhecidos que o secretário-geral do PCF desejava a participação no governo de aliança com socialistas e radicais (e não apenas o apoio parlamentar, como aconteceu), e lamentava que a Internacional Comunista (IC) a tivesse impedido, pensando que “a História podia ter sido diferente.” Outras questões conexas com a relação com Moscovo que suscitaram perguntas da assistência foram as relativas à incorporação de Thorez quando é chamado às fileiras no princípio da II Guerra mundial e à sua deserção algumas semanas depois. Apesar do pacto germano-soviético, a orientação do PCF era no sentido da participação dos seus militantes na guerra e era essa também a intenção pessoal de Maurice Thorez. A deserção obedeceu a instruções da IC e foi motivada pelo risco iminente de prisão, no contexto das perseguições a que os comunistas foram sujeitos pelo governo francês. A fuga para Moscovo deu-se através da Finlândia com falsos documentos, utilizando vias habituais para os comunistas franceses, e não envolveu nenhuma espécie de colaboração alemã. Várias outras anotações de interesse para a caracterização da personalidade do líder do PCF foram feitas pela conferencista, por exemplo a de que, como político, “praticamente nunca mentia”. Única excepção a esta regra foi a atitude perante o relatório Kruschov de 1956 (o famoso relatório secreto de denúncia dos crimes de Stalin), cuja existência Thorez nunca reconheceu embora dele tivesse tido conhecimento em primeira mão.
Gostámos de ver “Les camarades l’appelaient Maurice. Maurice Thorez cet inconnu”, de Pierre Desfons. O filme, de 1998, é um documentário honesto, informado e informativo, do percurso biográfico do líder do PCF, que consegue transmitir a natureza da sua personalidade e os motivos que fizeram o seu grande prestígio. Foram utilizados depoimentos de muitos dos actores políticos que se cruzaram com Thorez, tanto dentro como fora do Partido, incluindo de políticos da direita gaullista (a propósito das relações Thorez-De Gaulle), bem como da viúva e dos filhos. Intervêm também historiadores, nomeadamente Roger Martelli (até há pouco também dirigente do PCF) e Stéphane Courtois. Noutros tempos, a “teoria marxista-leninista da História” sustentava que a verdade histórica era simultaneamente “objectiva e partidária”. Porém, entre o comunista Martelli e o anti-comunista Courtois, é o segundo quem domina esta dialéctica, ou pelo menos o seu lado partidário: o resultado é que os dois convergem na redução a “estalinismo” de todos os episódios em que esteja em causa a subordinação de uma decisão à disciplina colectiva (nomeadamente a da Internacional), como se tal postura não fosse constitutiva da identidade comunista e uma sua condição de eficácia5. O filme no entanto contém muitos outros motivos de interesse, por exemplo acerca de Thorez como homem de cultura e da sua relação pessoal próxima com intelectuais como Aragon, Éluard e Picasso.

Era uma vez os comunistas franceses
Um dos mais interessantes filmes do conjunto do Festival foi, em minha opinião, o documentário de Yves Jeuland, “Camarades, il était une fois les communistes français” (2003), pelo que consegue transmitir do que foi, na França da segunda metade do século passado, a militância comunista como relação social e experiência humana, como “contra-sociedade” no sentido que Annie Kriegel deu à expressão6. Numa sequência cronológica que, ao longo de 3 horas (divididas em duas partes), acompanha seis décadas do Partido Comunista Francês, desde a Libertação (1944) até ao princípio do século XXI, o filme fornece informação, através dos testemunhos pessoais e documentos da época, sobre as diversas fases da História e simultaneamente a maneira como os participantes a viveram. A subjectividade comunista, nas suas manifestações colectivas, é bem captada pelas entrevistas a duas famílias em que, ao longo de três gerações, todos os membros pertencem ao Partido, o que permite também fazer perceber o comunismo como parte da identidade de algumas regiões de França. A história do PCF é assim comunicada, ao mesmo tempo que como facto ético (um dos participantes refere que o essencial é perceber “o que este Partido foi capaz de forjar como tipo humano”), como realidade social em relação com as diversas conjunturas da história nacional. Do ambiente eufórico da Libertação, quando Maurice Thorez é acolhido triunfalmente no seu regresso de Moscovo, o PCF alcança 28% dos votos e parecia que o comunismo e de Gaulle eram partes “assim não tão diferentes” dum mesmo conjunto, passa-se, após 1947, para o ambiente tenso da guerra fria, quando as manifestações contra o general americano Ridgway são reprimidas com violência. No entanto a influência eleitoral do Partido persiste, reforça-se até o seu enraizamento social, a que não é alheia a multiplicidade de publicações com que o Partido consegue acompanhar praticamente cada aspecto da vida dos Franceses. É também a grande época do “comunismo municipal” e o filme documenta bem o que foi, nas vésperas da entrada na “sociedade de consumo”, o contributo comunista em matéria de habitação social, de criação de creches ou de colónias de férias. A crise de 1956, desencadeada pelo relatório Kruschov e agravada pelos acontecimentos húngaros, é real. Mas, logo depois, e pela década de 60 adentro, o PCF conhece de novo um período de grande prestígio, em que se reflectem os êxitos da União Soviética de que Gagarin, o primeiro cosmonauta, foi o símbolo. São bem retratadas as tensões e vibrações dos anos 60, a maneira como o PCF as atravessou e foi atravessado por elas, desde a oposição à guerra da Argélia às contradições e impasses perante algumas das tendências históricas que se revelariam mais marcantes – assim por ex. a oposição, protagonizada por Jeanette Vermeersch, à contracepção (“porquoi la classe ouvrière voudrait-elle accéder aux vices de la bourgeoisie?”).
O Maio de 68 – “o PCF não percebeu nada de 1968”, afirma um dos participantes – marca sem dúvida o início de uma mudança na inserção do Partido na sociedade francesa, mas não é uma liquidação. Em 1969 o PCF conhece um sucesso eleitoral, com os 22% (5 milhões de votos) alcançados por Jacques Duclos nas presidenciais. A outro nível, o filme documenta a implantação do PCF, que se manteve até anos recentes e dava continuidade a antigas tradições republicanas, em certas regiões rurais, na base de uma política que nada tinha a ver com o exemplo soviético da colectivização, mas se baseava na defesa das pequenas explorações. Também a acção cultural é abordada, com testemunhos expressivos da acção das escolas de quadros – que não se limitavam à difusão do “marxismo-leninismo” mas foram para muitos uma via real de acesso à cultura nas ciências sociais, na literatura e na arte. Finalmente, o filme não ignora os impasses em que o Partido entrou a partir do final dos anos 70, as forças e fraquezas da personalidade de Georges Marchais, a incapacidade de estabilizar opções teóricas e políticas após o fracasso eleitoral da estratégia de união da esquerda. Um dos entrevistados refere um “repli ouvriériste au moment du déclin de la classe ouvrière”, no quadro do qual se situam alguns tristes episódios de hostilidade aos imigrantes e de discurso nacionalista. Com 3,37% dos votos nas presidenciais de 2002 (em 2007, já depois da saída do filme, foram 1,97%), há hoje quem preveja a sua extinção a curto prazo. E no entanto a festa do “Humanité” permanece “a maior das festas populares em França”.
No mesmo dia, tivemos ocasião de assistir à mesa-redonda “Tout le monde n’a pas eu la chance d’avoir été au PCF”, com a participação de três historiadores – além de Anette Wieviorka, Jean-Jacques Becker (especialista da história da I Guerra mundial e ex-comunista) e Stéphane Courtois – e ainda de Jean Cabanes, jornalista e responsável do PCF que foi durante muitos anos redactor principal do “Humanité”, o órgão central do Partido. Ao passo que Wieviorka completou alguns elementos do retrato pessoal e intelectual de Thorez que iniciara na sessão da manhã – debruçando-se nomeadamente sobre a biblioteca de Thorez, a sua vasta cultura, os seus interesses de latinista, mas também as suas carências (“lia Lucrécio em latim, mas nas suas estantes não se encontra nem Proust, nem Malraux, nem Simone de Beauvoir”), Courtois acentuou a competência profissional de que, como políticos, não só Thorez mas também, por exemplo, Jacques Duclos deram provas, sublinhando que não havia neles um “duplo discurso” em que as afirmações públicas estivessem separadas da convicção subjectiva: por exemplo, em relação às purgas de 1936-38 na URSS, ambos estavam absolutamente convictos da culpabilidade de figuras como Zinoviev ou Bukharin. Por seu lado, Jean Cabanes pôs sobretudo em evidência a inserção do PCF na tradição democrática e revolucionária francesa derivada de 1789 e, no aspecto intelectual, a relação positiva do partido com algumas da expressões avançadas da cultura francesa do século XX – “o Humanité foi o primeiro jornal a publicar em fascículos as “Caves do Vaticano” de André Gide ou um artigo de Paul Nizan sobre a tese de Lacan”. Concluiu, explicando porque considerava “uma sorte” ter pertencido ao PCF, que fora através do Partido que encontrara “a sua inserção na cadeia humana”.

… e era uma vez o PCI
Muito mais limitado no seu objectivo, mas também tentativa interessante de inquérito à experiência humana do comunismo em Itália, onde ainda há 30 anos o Partido Comunista era a segunda maior força parlamentar, com 1/3 dos deputados, e hoje simplesmente não existe, é o filme do belga Hugues le Paige com o título italiano (embora co-produção franco-belga de 2006) “Il fare politica”. Compreende-se bem a opção do realizador por não traduzir a expressão. Fazer política, em francês como em português, remete para o jogo e a manobra política, para a política profissional dos políticos, ao passo que o que o realizador procurou captar, através de uma série de encontros, ao longo de mais de vinte anos, com quatro militantes de uma aldeia da Toscânia (onde a presença do PCI era um facto histórico enraizado com tradições que remontavam à época pré-fascista), foi a acção política como prática quotidiana e subjectividade das “bases”. É a crónica, entre a melancolia e a aceitação “realista”, de um fracasso histórico. No princípio dos anos 80, o PCI, embora já afastado da coligação parlamentar com a Democracia Cristã, é ainda o grande representante de uma alternativa social, política e cultural que muitos nas esquerdas europeias olharam como superação possível do capitalismo e simultaneamente dos impasses do “modelo soviético”. O “fazer política” que estes militantes integraram como norma de conduta, como combinação do confronto e da procura de consenso – indissociável da perspectiva do “compromisso histórico” proposto pelo secretário-geral Berlinguer – era vivido como a concretização do comunismo enquanto política de Gramsci e Togliatti, como o assumir pela própria massa dos militantes dos compromissos necessários à conquista da hegemonia socialista. Berlinguer morre subitamente em 1984, a grande manifestação que foi o seu funeral teve ainda alguma coisa da comoção ligada ao desaparecimento de um “chefe histórico”, como a que marcara a despedida de Togliatti vinte anos antes. Em 1984 já se acumulavam as interrogações sobre o socialismo como futuro, embora não fosse previsível a facilidade com que, poucos anos volvidos, os dirigentes do PCI procederiam à liquidação expeditiva do partido e sua transformação no PDS (hoje Partido Democrático). O filme acompanha as reacções dos quatro militantes ao longo destes vários momentos. A “passagem” a PDS é ainda inicialmente vivida por alguns como operação audaciosa de expansão das ideias e objectivos de sempre, mas depressa a realidade se impõe. Em 1994 é a primeira vitória eleitoral de Berlusconi e a entrada num período de contínuo (apesar dos períodos de governo do “centro-esquerda”) retrocesso das posições do movimento operário. O filme acompanha as diversas reacções dos protagonistas a esta evolução, distribuídas entre a continuação no PDS, a adesão à Refundação Comunista (hoje também em crise) ou a substituição do empenho político por actividades de assistência social ou apoio familiar. Embora o filme documente alguns episódios recentes de importantes lutas sindicais e uma greve geral, a impressão que fica é que a grande ambição democrática de “fazer política” como prática social deu lugar, vinte anos depois, à alternativa entre a inserção num sistema político degradado ou o “refluxo no privado”. O que não pode deixar de fazer reflectir sobre a relação entre este epílogo e as ambiguidades da cultura do “compromisso histórico”, já em Berlinguer dominadas por um pathos “ético” que subalternizava a luta de classe.

Tempos vermelhos
Um filme de 1937 que combina também a descrição do quotidiano com imagens de alguns grandes acontecimentos é o clássico Le Temps des Cerises, de Jean Paul Chanois, que foi assistente de realização de Jean Renoir. O filme acompanha a vida de duas famílias entre si relacionadas, uma burguesa a outra operária, através da biografia de dois filhos nascidos na mesma altura e mostrando alguns momentos-chave da história francesa (1895, 1900, 1914, 1937), concluindo com imagens do período da Frente Popular que celebram, em especial, a campanha do PCF em defesa dos direitos dos velhos.
A parte da história do movimento comunista que, em toda a Europa, mais marcou diversas gerações, é sem dúvida a que se liga à Resistência à ocupação alemã durante a II guerra mundial. Talvez menos conhecido entre nós é o papel desempenhado na Resistência francesa por refugiados estrangeiros que, fugindo às perseguições nos seus países, se tinham acolhido à França “pátria das liberdades”. Judeus, polacos, italianos, húngaros, romenos, espanhóis, entre outros, integraram as organizações da MOI (mão de obra imigrada), sob a chefia do arménio Missak Manouchian, como parte da organização armada FTP (Francs Tireurs Partisans). O grupo foi descoberto, preso e 23 dos seus membros fuzilados. Os ocupantes nazis divulgaram os seus nomes e fotografias como “exército do crime” numa famosa “affiche rouge” (cartaz vermelho), que mais tarde forneceu o título de um belíssimo poema de Aragon que os imortalizava. Sobre este episódio, Robert Guédiguian realizou em 2008 um filme justamente com o título “L’Armée du crime”. O filme foi muito criticado num artigo de Stéphane Courtois e Sylvain Boulouque por imprecisões da reconstituição factual, por sugerir comportamentos individualistas e até opiniões políticas dos protagonistas incompatíveis com a natureza e o tipo de disciplina próprio da organização secreta, sob controle comunista, que era a do grupo em causa. Em relação às inexactidões factuais, o próprio realizador reconhece, no genérico, ter-se afastado pontualmente da realidade, em benefício da economia narrativa e do impacto emocional. Courtois tem provavelmente razão em considerar inverosímeis determinados comportamentos nas condições da Ocupação (por exemplo, logo ao início, um dos protagonistas, jovem estudante de fim de liceu, afixa nas paredes, em pleno dia e à vista de outros, propaganda clandestina do PCF). Tudo somado, no entanto, creio que o filme consegue reconstituir o ambiente da adesão militante dos jovens (quase todos) que integraram o grupo de Missak Manouchian, os dilemas envolvidos no uso da violência, as tensões entre o idealismo moral e as aspirações de vida pessoal, e tem nesse sentido valor didáctico.

Ópio dos intelectuais?
Dos anos 30 aos anos 70 a história do comunismo em França é indissociável da presença do PCF entre os intelectuais, um dos factores que contribuíram decisivamente para a expansão da influência comunista no pós-guerra e seu impacto internacional. O esplêndido filme de Michel van Zele de 1986, Les Colporteurs du Front Populaire, retrata a experiência do grupo de teatro popular “Outubro”, entre 1932 e a Frente Popular de 1936. Grande animador e inspirador foi o poeta e dramaturgo Jacques Prévert (1900-1977), vindo do surrealismo. O grupo intervinha regularmente com pequenas manifestações teatrais durante as greves operárias, em comícios políticos e em teatro de rua. Longe da circunspecção “ortodoxa” que predominará no marxismo do pós-guerra, marcado pelo jdanovismo, Outubro concebia-se como bando de agit-prop, profundamente empenhado na luta de classes e na luta contra a guerra, sem nunca abandonar o espírito de subversão cultural e de ruptura com as convenções herdado do surrealismo.
Também de certo modo relacionado com a presença cultural comunista, mas reportando-se a outro período e a um episódio infausto dessa história, é o interessante e recentíssimo documentário de Bernard George sobre o “affaire Kravtchenko”. Victor Kravtchenko era um diplomata soviético que em 1943 pediu asilo nos EUA e em seguida publicou um livro de memórias – I chose Freedom – em que denunciava a existência dos campos de prisioneiros na URSS (o que depois ficou conhecido como Gulag), que foi traduzido para francês7. Estava-se no apogeu da influência mundial da União Soviética, a seguir à guerra, e no princípio da guerra fria, e os comunistas franceses reagiram, através do semanário cultural de grande projecção Les Lettres Françaises, que acusou Kravtchenko de mentir e de ser agente dos serviços americanos. Kravtchenko pôs um processo em tribunal contra o jornal, que acabou por ganhar. O filme é um documentário sóbrio, que aproveita as gravações das audiências e fornece imagens impressionantes dos depoimentos em juízo não só de figuras destacadas da intelectualidade mas também, nomeadamente, da ex-mulher de Kravtchenko (pela defesa das Lettres Françaises) e da ex-comunista alemã, “prisioneira de Stalin e de Hitler”, Margarete Buber-Neumann8 (pela acusação). Kravtchenko contou no processo com a colaboração da CIA e do Departamento de Estado.
Infelizmente o debate que teria por objecto a relação dos intelectuais com o comunismo nada trouxe em termos de investigação. Michel Winock propunha-se explicar a amplitude da adesão de intelectuais ao comunismo sob a figura do “ópio” (homenagem a um famoso livro de Raymond Aron, de 1955). Para além da constatação de que, com a guerra fria, se vivia num “mundo binário”, Winock, autor, entre outros, de uma vasta história dos intelectuais franceses9, considerou (lamentou) que a França “vive desde 1789 numa cultura revolucionária” e nunca superou a condição de “sociedade de dissenções”. Da assistência houve quem perguntasse se, ao denunciar o comunismo como fé, não se estava a contrapor-lhe, em lugar da análise racional, uma outra fé, a crença neo-liberal.

“L’Internationale sera le genre humain”, ou a globalização comunista
Nos últimos dias assistimos a filmes e debates mais centrados em acontecimentos da fase histórica recente, marcada pela crise e colapso dos regimes socialistas da Europa de leste, ou mesmo relativos à situação actual e perspectivas de futuro dos partidos e das ideias comunistas. Antes porém, no “café historique” da manhã de sexta-feira, Serge Wolikow – autor de uma tese dedicada às relações entre o PCF e a Internacional Comunista10 – abordou “o comunismo como projecto de mundialização” (“mondialisation” é a palavra utilizada em francês para designar a globalização).Traçou a génese da IC, baseada na concepção de Lenin acerca do imperialismo, notando que a política de Stalin se vai desenvolver a partir do final dos anos 20 “sobre as ruínas da revolução mundial”. Longe de a IC ter sido um simples instrumento da política externa soviética, sobretudo nos anos 20 há muitas vezes uma atitude de desconfiança da diplomacia soviética relativamente ao Comintern. Pelo contrário, no final dos anos 30 há quase uma “fusão” dos serviços de informações do Estado soviético com a IC. Em resposta a uma pergunta da assistência acerca do valor actual da experiência da IC, notou que a génese daquela está ligada ao contexto da I Guerra mundial e do entendimento da guerra como matriz da Revolução. A dispersão de conflitos sangrentos que caracteriza o mundo de hoje é sintoma da ausência de projecto unificador mas, por outro lado, “um processo mundial que não tenha em conta a dimensão nacional” (como ocorre com as versões hoje dominantes do liberalismo económico) “abre o caminho aos nacionalismos.” Sublinhou por fim que a elaboração da experiência histórica não pode reduzir-se à contabilização das vítimas.

Fim do comunismo?
Um dos debates de fundo do penúltimo dia abordava o fim do comunismo (“o comunismo morreu?”) e envolvia, em aparente equilíbrio, a participação de três estrelas da cena político-cultural francesa, o historiador Marc Lazar (autor de um famoso ensaio sobre o comunismo como “paixão francesa”11), o político Alain Krivine, figura histórica da “extrema-esquerda” de derivação trotskista e o historiador Michel Winock na qualidade de moderador.
M. Winock começou por colocar a questão da perspectiva histórica do “tempo longo”, não circunscrito às balizas do nascimento e desaparecimento da URSS, lembrando que o “espectro que assombra a Europa”, expressão com que o comunismo era referido no Manifesto de 1848, cem anos depois, no segundo pós-guerra, era efectivamente uma realidade que assombrava a Europa, na forma do Exército Vermelho e da força dos partidos comunistas. Pode assim pôr-se hoje a hipótese de uma renovação de tendências comunistas no quadro das reacções à crise capitalista, e expressa, em França, na influência actual de agrupamentos de derivação revolucionária, ou mesmo, em países como Portugal e a Grécia, na persistência de fortes partidos comunistas, ou ainda em novas formações como o Bloco de Esquerda português. Marc Lazar considerou que a “assombração” comunista nunca abrangeu a Grã-Bretanha ou os Países escandinavos e que, quanto ao que designou de “galáxia neo-comunista”, esta nada tem a ver com a tradição dos PCs, dado o desaparecimento da alternativa de sociedade e a dominação dum modelo cultural individualista. Reconheceu no entanto a permanência em França – que considerou como problema – de uma tradição de “anti-americanismo, anti-reformismo e anti-capitalismo”. Alain Krivine, por seu lado, recusou as questões de natureza teórica colocadas pelo moderador (acerca do papel da coacção na mudança social e da noção de “extinção do Estado”), para resumir o seu programa “revolucionário” (expressão que quase sempre preferiu à de “comunista”) numa reivindicação de “partilha das riquezas e controle pela população”. A uma observação do moderador que considerava a sua posição como de “social-democrata de esquerda”, respondeu, não sem pertinência, que “a verdadeira social-democracia morreu porque a crise e a globalização lhe puseram fim.” Para Marc Lazar, pelo contrário, a social-democracia é “parte da identidade europeia”, sob condição de se conformar às regras do liberalismo económico e da globalização.
Decorreu no quadro do Festival uma entrevista (30 min.) de Stéphane Courtois à rádio France Inter sobre a história do PCF, no âmbito do programa “2000 Ans d’Histoire”. Courtois, co-autor com o citado M. Lazar de uma história do PCF, e coordenador do Livro negro do Comunismo, abordou as várias etapas da “vida e morte do comunismo francês.” Apesar da certidão de óbito passada ao PCF, Courtois concluiu que “a ideia do comunismo é muito anterior a 1917, o que morreu foi a forma bolchevique nascida na sequência da revolução russa, o comunismo continua.” Afirmação no fundo semelhante à que Álvaro Cunhal costumava repetir, quando posto perante a questão do possível desaparecimento dos partidos comunistas: que em tal eventualidade seria a necessidade inerente à existência do antagonismo de classes a impor o seu reaparecimento.

“Socialismo real”: repressão e não só
Temática predominante no Festival era a relativa à experiência do “socialismo real” e nomeadamente aos seus aspectos repressivos.
Vi com interesse O Destino de Laszlo Rajk, uma co-produção franco-húngara de 1996 dirigida por Patrick Rotman e Jérôme Kanapa. Laszlo Rajk, que antes da sua prisão e execução em 1949 fora sucessivamente ministro do Interior e dos Negócios Estrangeiros da Hungria, foi uma das principais vítimas dos processos estalinistas do princípio da guerra fria relacionados com a condenação do “titismo”. Embora não trazendo elementos interpretativos novos, o filme tem o interesse de reunir às imagens da época o testemunho de vários dos participantes dos acontecimentos, incluindo o de um dos agentes policiais envolvidos, entretanto reciclado em historiador.
O documentário O último complot de Stalin, de Philippe Saada (2009) apresentou o último dos processos de repressão desencadeados em vida de Stalin, o famoso “caso das batas brancas”, que atingiu uma série de médicos judeus acusados de provocarem a morte de Jdanov e outros dirigentes soviéticos, desencadeando uma vaga de anti-semitismo. O filme apresenta uma série de interessantes testemunhos de sobreviventes e de filhos das vítimas, e também de um oficial do KGB que justifica o processo com as condições internacionais de isolamento da URSS no princípio da guerra fria.
Com a participação do historiador Emmanuel Droit, da politóloga búlgara Nadezda Ragaru e de uma participante da ex-RDA que não consegui identificar, desenvolveu-se um debate dedicado à “vida quotidiana nos países do comunismo real”. O tema é de interesse actual, tendo em conta particularmente que, à excepção da Checoslováquia, a maior parte dos aparelhos partidários que se encontraram no poder durante o “regime comunista” continuam hoje, depois de convertidos nominal e programaticamente em social-democracias, a ser parte importante dos sistema políticos existentes. Em alguns países (ou, no caso da Alemanha, na sua parte oriental), regista-se também um fenómeno mais ou menos extenso que é comummente designado de “nostalgia” em relação a aspectos perdidos da vida sob o regime socialista (do que é significativo documento o conhecido Good Bye, Lenin ! realizado por Wolfgang Becker em 2002 e também projectado no festival).
Os intervenientes concordaram na necessidade de distinguir, na análise do “bloco de leste”, diferentes situações nacionais, diferentes períodos e diferentes processos sociais (os níveis económico, político e cultural não são homogéneos). No caso da RDA, apesar da hemorragia da força de trabalho para o ocidente (3 milhões, predominantemente dos mais qualificados), existia à época da construção do muro em 1961 um ambiente de optimismo e convicção no futuro económico do socialismo. A RDA logrou nos anos 60 a construção de uma modesta sociedade de consumo socialista que em alguns aspectos – por exemplo o da sexualidade – era mais avançada do que as sociedades ocidentais.
Partindo da análise das diversas explicações propostas para o facto de na Bulgária não se terem verificado revoltas contra o regime, N. Ragaru referiu a proximidade com a URSS, o peso da ruralidade e simultaneamente as grandes oportunidades de ascensão social proporcionadas pela rápida industrialização. Em 1989, 90% dos búlgaros eram proprietários dos seus apartamentos e muitos tinham uma segunda habitação: “não se pode pensar apenas na perspectiva da penúria”.

Traições de Mussolini
Já não pudemos ficar para o último dia do Festival, em que se procedia à atribuição dos prémios (ficção e documentário, do júri oficial, e prémios dos júris de estudantes universitários e de estudantes liceais).
O filme que ganhou o 1º prémio do júri de ficção: Vincere (Vencer), de Marco Bellochio, apresentado este ano em Cannes, nada tem a ver com o tema comunismo. Mussolini foi simplesmente, na juventude, um dos líderes da tendência revolucionária do Partido Socialista Italiano, que traiu, em 1914, ao lançar o quotidiano Popolo d’Italia e o movimento pela intervenção na Guerra mundial de que veio a nascer o fascismo.
O filme é a história de Ida Dalser, que conheceu Mussolini em 1914 e com ele terá casado, dessa união nascendo um filho no ano seguinte. Mussolini partiu para a guerra e em 1915 casou com Rachele Guidi, esposa oficial até à morte. Ida Dalser porém reivindicou sempre a existência do casamento (durante a guerra as autoridades atribuíram-lhe um subsídio na qualidade de cônjuge de combatente) e a paternidade de Mussolini em relação ao filho. Com a chegada do líder fascista ao poder em 1922, esta questão tornou-se para ele particularmente incómoda, sobretudo em vista da importância que a reconciliação com a Igreja tinha na sua estratégia de poder. Em 1926 (não por acaso coincidindo com o fim da gravíssima crise política que pôs a sua posição em risco após o assassínio de Matteoti), Ida Dalser é internada num manicómio, de onde nunca mais conseguiu sair até à sua morte prematura em 1937, apesar de uma tentativa de fuga dois anos antes. O filho, fisicamente muito parecido com o pai – no filme são representados pelo mesmo actor -, foi entregue aos cuidados de um chefe fascista que o perfilhou, vindo posteriormente a ser também internado e acabando por morrer, aos 26 anos, em 1942. Esta história, divulgada em 2005 por um documentário da RAI, tem sem dúvida interesse, do ponto de vista da biografia do ditador (que em anos recentes adquiriu em Itália uma imagem de bom pai de família) e do problema dos usos políticos da psiquiatria. O realizador porém afirma que não esteve interessado em denunciar as infâmias do regime fascista, mas sim na reivindicação de identidade de Ida Dalser. É duvidoso que o objectivo tenha sido alcançado, porque os comportamentos em que o realizador se demora mais sugerem uma justificação do internamento psiquiátrico. Esteticamente salvam-se, na primeira parte do filme, as cenas eróticas, graças à actriz principal, Giovanna Mezzogiorno.

Jean Lacouture
Para concluir numa nota positiva, referirei a forte impressão causada por uma sessão igualmente marginal ao tema do comunismo, a ante-estreia do documentário de Nicole et Gilbert Balavoine, Jean Lacouture, l’engagement d’un journaliste, e sobretudo a entrevista que se lhe seguiu com o próprio Lacouture, conduzida pelo historiador e presidente honorário do festival, Jean-Noel Jeanneney. Hoje com 87 anos, Lacouture exibiu a agilidade mental (e física, logo ao subir ao estrado) de um jovem. Nunca tendo sido comunista, mas sim de formação cristã, este grande jornalista acompanhou no terreno vários dos acontecimentos e processos da história do século XX em que o comunismo esteve directa e indirectamente implicado, da II Guerra mundial à guerra do Vietnam, passando pela crise do Suez e a guerra da Argélia, com uma aguda compreensão da necessidade histórica das descolonizações. Além disso, desenvolveu uma vasta actividade de historiador, como biógrafo de Nasser, Bourguiba, Ho Chi Minh, De Gaulle, Mauriac. Um dos aspectos interessantes da entrevista foi a oportunidade de ouvir a apreciação do autor sobre várias das suas obras – um modelo de ausência tanto de narcisismo como de falsa modéstia, na maneira como apreciava as virtudes e defeitos de cada uma. E ficou-se a saber que um autor de vastíssima e importante bibliografia histórica, em alguns casos pioneira, como é Lacouture, pode no entanto não se considerar … historiador.

ANEXO – Lista de filmes projectados no Festival (por temas/regiões do mundo)
Ásia
Balzac et la petite tailleuse chinoise
Dai Sijie, France, 2001, 111mn
Minsk World
Xiao Xing Cheng, France, 2006, 49mn
Ronde de flics à Pékin
Ning Ying, Chine, 1995, 102mn
S-21, la machine de mort khmère rouge
Rithy Pahn, France/Cambodge, 2003, 101mn
Un taxi à Pékin
Ning Ying, Chine, 2000, 97mn
Zhao Le. Jouer pour le plaisir
Ying Ning, Chine, 1992, 97mn

América
Good Night and Good Luck
George Clooney, États-Unis, 2005, 93mn
Cuba, l’art de l’attente
Eduardo Lamora, France, 2008, 80mn
Guantanamera
Tomas Guttiérez Alea et Carlos Tabio, Cuba, 1995, 101mn
Liste d’attente
Juan Carlos Tabío Rey, Cuba/France/Espagne/Mexique, 1999 105mn
Soy Cuba
Mikhail Kalatozov, Cuba/Russie, 1964, 145mn
La fête cubaine – (série « Génération »)
Françoise Prébois, France, 1988
Fraise et Chocolat
Tomas Guttiérez Aléa et Carlos Tabio, 1993, 111 mn

Europa central e Balcãs
1946. Automne allemand
Michael Gaumnitz, France, 2009, 76mn
Alouettes, le fil à la patte
Jiri Menzel, Tchécoslovaquie, 1969, 90mn
L’Aveu
Costa-Gavras, France, 1969, 139mn
Berlin-Est, les derniers jours du Politburo (Documentaire)
Thomas Grimm et Jens Becker, Allemagne, 2009, 89mn
Berliner Ballade
Chris Marker, France, 1990, 25mn
Camarades Gangsters, levez-vous!
Alexandru Solomon, France, 2004, 73mn
Le Chêne
Lucian Pintilie, France/Roumanie, 1991, 105mn
La Cicatrice
Krzystof Kieslowski, Pologne, 1976, 112 mn
Contes de l’âge d’or
Cristian Mungiu, Roumanie, 2009, 80mn
Le Destin de Laszlo Rajk (Documentaire)
Patrick Rotman et Jérôme Kanapa, France, 1996, 52mn
Einsatzgruppen, les commandos de la mort
Michael Prazan, France, 2009, 2x90mn
Les Filles des Ruines
Xavier Villetard, France, 2009, 62mn
Good Bye Lenin !
Wolfgang Becker, Allemagne, 2002, 118mn
Le Hasard
Krzystof Kieslowski, Pologne, 1984, 122mn
L’Homme de fer
Andrzej Wajda, Pologne, 1981, 140mn
L’Homme de marbre
Andrzej Wajda, Pologne, 1976, 160mn
Katyn
Andrzej Wajda, Pologne, 2007, 87mn
Kolonel Bunker
Kutjim Çashku, Albanie/France/Pologne, 1995, 100mn
L’Oreille
Karel Kachyna, Tchécoslovaquie, 1969, 94mn
Papa est en voyage d’affaires
Emir Kusturica, Yougoslavie, 1985, 135mn
La Plaisanterie
Jaromil Jires, Tchécoslovaquie, 1968, 80mn
Le Temps des miracles
Goran Paskaljevic, Yougoslavie, 1989, 98mn
Tito et moi
Goran Markovic, Yougoslavie, 1992, 100mn
La Vie des autres
Florian Henckel von Donnersmarck, Allemagne, 2006, 137mn

Europa ocidental
Les Enfants de Russie
Jaime Camino, Espagne, 2001, 93mn
La Ferme des animaux
John Halas et Joy Batchelor, Grande-Bretagne, 1954, 72mn
Il fare politica. Chronique de la Toscane rouge (1982-2004)
Hugues Le Paige, Belgique, 2005, 86mn
Land and Freedom
Ken Loach, Grande-Bretagne/Espagne/Allemagne, 1995, 109mn
Palombella Rossa
Nanni Moretti, Italie, 1989, 86mn
Vincere
Marco Bellocchio, Italie, 2009, 118mn

França
L’Affaire Kravchenko. La guerre froide à Paris (documentaire)
Bernard George, France, 2008, 52mn
Les Années Mao (documentaire)
Bernard Debord, France, 2005, 55mn
L’Armée du crime
Robert Guédiguian, France, 2009, 139mn
Les Camarades l’appelaient Maurice… Maurice Thorez, cet inconnu
Pierre Desfons, France, 1998, 62mn
Camarades. Il était une fois les communistes français (documentaire)
Yves Jeuland, France, 2003,  2x 82 mn
Les Colporteurs du Front populaire : le groupe Octobre (documentaire)
Michel Van Zele, France, 1986, 89mn
La Foi du siècle
Patrick Rotman et Patrick Barbéris, France, 1998, 208mn
Le Fond de l’air est rouge
Chris Marker, France, 1977, 180mn
L’Homme que nous aimons le plus
France, 1949, 20mn
Jean Lacouture, L’Engagement d’un journaliste
France, 2009, 52mn
Mémoires d’ex
Mosco Boucault, France, 2004, 185mn
Le Monde des Trotskystes, les Trotskystes du monde
Guy Girard, France, 2005, 160mn
C’EST PARTI !
Camille de Casablanca, France, 2009
L’Ombre rouge
Jean-Louis Comolli, France/Allemagne, 1981mn
Parts de Marchais
Yves Jeuland France 2007/72mn
Rouge Baiser
Véra Belmont France/Allemagne, 1985, 112mn
Le Temps des cerises
Jean-Paul Le Chanois, France, 1937, 75mn
Tout le monde n’a pas eu la chance d’avoir des parents communistes
Jean-Jacques Zilbermann, France, 1993, 90mn
La Vie est à nous
Jean Renoir, France, 1936, 62mn
La Faute à Fidel
Julie Gavras, France, 2005, 99mn

Ex URSS:
1917 – La Révolution russe
Paul Jenkins, France, 2007, 104mn
Les Aventures extraordinaires de Mister West au pays des Bolcheviks
Lev Koulechov, URSS, 1924, 95mn
La Belle de Moscou
Rouben Mamoulian, États-Unis, 1957, 117mn
Bouge pas, meurs, ressuscite
Vitali Kanevski, URSS, 1990, 105mn
La Commissaire
Alexandre Askoldov, URSS, 1967, 110mn
Le Communiste
Yuli Raizman, URSS, 1957, 111mn
Le Cuirassé Potemkine
Serguei M. Eisenstein, URSS, 1925, 75mn
Le Dernier Complot de Staline
Philippe Saada, France, 2009, 76mn
L’Esclave de l’amour
Nikita Mikhalkov, URSS, 1976, 100mn
Goulag
Iossif Pasternak, France, 2000, 2x150mn
La Grève
Serguei M. Eisenstein, URSS, 1925, 78mn
J’ai 20 ans
Marlen Khoutsiev, URSS, 1964, 189mn
Je demande la parole
Gleb Panfilov, URSS, 1976, 145mn
La Liberté, c’est le paradis
Sergueï Bodrov, Russie, 1989, 75mn
La Ligne générale / L’Ancien et le Nouveau
Serguei M. Eisenstein, URSS, 1926, 110mn
La Maison haute
Pavel Lounguine, France, 2003, 87mn
Ninotchka
Ernst Lubitsch, États-Unis, 1939, 110mn
Octobre
Serguei M. Eisenstein, URSS, 1927, 112mn
Quand passent les cigognes
Mikhail Kalatozov, URSS, 1957, 97mn
Le Quartier de Vyborg
Grigori Kozintsev et Leonid Trauberg, URSS, 1938, 121mn
Soleil trompeur
Nikita Mikhalkov, Russie/France, 1994, 152mn
Tchapaiev
Gueorgui et Serguei Vassiliev, URSS, 1934, 85mn
Le Tchékiste
Alexandre Rogojkine, France/Russie, 1992, 54mn
La Vérification
Aleksei Guerman, URSS, 1971, 95mn
Volga, Volga
Grigori Alexandrov, URSS, 1938, 98mn

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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9 respostas a João Arsénio Nunes: Comunismo no cinema

  1. António Silva diz:

    Excelente artigo.
    Com imagens e links para trailers dos filmes seria magnífico.
    O que é intrigante é não ter sido publicado pela revista “História”.
    Estranhos critérios editoriais.

  2. António Paço diz:

    A revista História não está, infelizmente, no activo. E curiosamente o último número publicado foi um especial sobre os 70 anos da revolução soviética, que saiu em Outubro/Novembro de 2007.

  3. António Silva diz:

    Correcção: revista “Ler História”

  4. Tiago Vasconcelos diz:

    Análise cuidadosa, relato equilibrado e não-sectário. Uma raridade neste blogue!
    Parabéns ao João Arsénio Nunes.

  5. Camarro diz:

    Tive o privilégio de ser aluno do Prof. João Arsénio Nunes. Exigente (na sua cadeira semestral de História do Movimento Operário e do Socialismo realizei, salvo erro, seis trabalhos!), rigoroso (lembro-me do seu trabalho incansável em me ajudar a colocar correctamente as vírgulas…) e divertido (recordo-me das aulas em que, no meio da sua exposição, parecia reflectir sobre aquilo que ia dizendo acariciando a barba).

    Enfim, um bom professor com quem aprendi bastante.

    • João A. Nunes diz:

      Obrigado. Confesso que não me estou a lembrar quem é. Mas fiquei sensibilizado. Dê notícias.

      • Camarro diz:

        Olá professor! Como sou um trabalhador precário, que convive diariamente com o inimigo mais atroz, não posso revelar a minha verdadeira identidade…

        Já passaram alguns anos… Creio que foi meu professsor no ano lectivo de 1997/1998. Na altura eu frequentava o terceiro ano do curso de Sociologia do ISCTE. Acabei a cadeira com 17 valores.

        Um dia destes irei abordá-lo. Vi-o recentemente no 12 de Março em Lisboa.

        Cumprimentos

  6. egas branco diz:

    Muito interessante. Li-o o devido aos 5 DIAS, que oscilam às vezes entre o mau e o muito bom. Este é muito bom! Mereceria comentar algumas passagens (quase sempre para concordar…) mas não o vou fazer agora. Apenas dizer que é um lúcido e interessante relato. Só uma pequena nota, para concordar também com a apreciação ao “Vincere” (entre nós tão apreciado pelos expoentes da crítica neo-liberal da imprensa dominante. Posso rir?).

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