Graças a Deus que existe o José António Saraiva para me dar conselhos sobre as minhas finanças pessoais

Estava para fazer um post irónico sobre este texto do director do SOL, mas depois de relê-lo acho que a estupidez e a ignorância que ele revela é de tal ordem que merece uma resposta às principais barbaridades:

Barbaridade 1:Na classe média esbanjam-se dinheiro e recursos de uma forma às vezes chocante. Nos restaurantes desperdiça-se comida. Quantas vezes não vemos as travessas voltarem para dentro com quase metade da dose que veio para a mesa? Essa comida vai para o lixo. Por que não se reduzem as doses, diminuindo um pouco os preços? Aproveitar-se-ia melhor a comida e os clientes agradeceriam.

O Zé António deve almoçar sempre sozinho. Eu quando sei que existe uma dose grande, peço uma meia dose ou almoço com mais alguém para dividir a conta. Se o Zé tivesse amigos talvez não pensasse da mesma forma…

Barbaridade 2:Por que se bebe água Vittel, Vichy ou Voss, e não água do Luso, do Vimeiro, das Pedras ou do Castelo? Por que se bebe cerveja Heineken ou Carlsberg em vez de Super Bock ou Sagres? Não há nenhuma razão a não ser esta: por peneiras. Para mostrar aos outros que temos gostos mais requintados e dinheiro para os pagar. E quem fala das águas e das cervejas fala dos vinhos e dos espumantes. É possível beber um óptimo vinho português cinco vezes mais barato do que um vinho francês. E nas ocasiões festivas por que não optar por um honesto espumante Raposeira ou Cabriz em vez de champanhe Cristal ou Moët & Chandon?

Claro, ó Zé. Vinho de mesa em pacotes de 5 litros talvez até seja mais barato que as 5 vezes que tu falas. A direita reacionária que tu representas é muito engraçada quando fala de liberdade de escolha, liberdade de escolha para as classes altas, para as classes médias e baixas, socialização de produtos rascas, não?

Barbaridade 3:Neste ponto da conversa, há sempre quem recorde que ‘o barato sai caro’. Mas isso é um mito. Um dia, ainda no tempo do escudo, vi uns sapatos numa montra que me saltaram à vista, entrei na sapataria, experimentei-os, gostei e mandei embrulhar. Quando a empregada disse o preço – 80 contos – eu ia desmaiando. Mas já não tive coragem para voltar atrás. Pois bem: as principais características do calçado são o conforto, a segurança e a durabilidade. Ora esses sapatos – ingleses, marca Church’s – não eram confortáveis, não eram seguros nem se mostraram duráveis, pois resistiram bastante menos do que outros muito mais baratos. E digo que não eram seguros pois escorregavam perigosamente em superfícies muito lisas, como as calçadas de Lisboa, em que as pedras estão polidas pelo desgaste. Por pouco esses luxuosos sapatos não me causaram quedas aparatosas.

Mas que classe média é que dá 80 contos por um par de sapatos? Não tens noção do ridiculo em que te colocas? Eu que sou de classe média (a tal que pode viver com metade do que ganha) não gasto esse montante em roupa durante um ano inteiro. Causa-me enorme repulsa palhaços como tu que do alto dos seus rendimentos fazem juizos morais sobre o uso das finanças dos outros…

Barbaridade 4: A propósito de carro, por que não escolher sempre um modelo abaixo daquele que ‘normalmente’ iríamos comprar. Em vez de um Mercedes E, um Mercedes C; em vez de um Audi 6, um Audi 4; e assim sucessivamente. E só falo de carros caros pois é onde se pode poupar mais dinheiro.

Mas em que país é que vive o Zé? Um AUDI? Um Mercedes? A classe média conduz Renault, Citroen, quanto muito Opel ou Volkswagen (e isso já é um desvario financeiro). E tu, Zé, quantos carros tens? Que carro conduzes? Faz o que eu digo e não faças o que eu faço, não é?

Barbaridade 5:Se formos para o hotel, por que não experimentar um de três ou quatro estrelas em vez de escolher às cegas um de cinco? E, se teimarmos em ir de avião, não custará nada viajar em turística em vez de 1.ª ou Executiva, pelo menos nos voos de duração inferior a três horas. Chega-se ao mesmo tempo e paga-se metade.

Eu, hoteis de 5 estrelas, só vê-los ao longe e viajar em 1ª, acho que só num inter-regional. Sinceramente, gostava de conhecer a folha de rendimentos dos teus amigos de classe média…

Barbaridade 6:Outra norma simples é evitar ligar o ar condicionado. Até porque é prejudicial à saúde, sendo responsável por muitas gripes e outras doenças.

Bem, se o ar condicionado é prejudicial à saúde talvez devesse ser proibido, se é responsável por “muitas gripes e outras doenças” (sifilis? pneumonias? artrites? espondiloses?) pelo menos um aviso como nos maços de tabaco devia ter, não? Tipo “LIGAR ESTE DISPOSITIVO PODE REDUZIR O FLUXO DE SANGUE E PROVOCA IMPOTÊNCIA” ou criarmos zonas livres de ares condicionados em cafés e restaurantes. Podiam existir, como existem salas de fumo, salas frescas onde estaria ligado um aparelho de ar condicionado que baixaria a temperatura para os nefastos 21º C e onde os menores de 18 anos estariam impedidos de entrar.

Barbaridade 7:E já não falo nos luxos e extravagâncias – os perfumes, cremes, desodorizantes, espumas de barbear, after shaves, sais de banho, lacas, etc., etc. – que enchem as prateleiras das nossas casas de banho e que podem ser reduzidos a metade ou um terço, ou substituídos por outros menos dispendiosos.

Está decidido, uma barra de sabão azul cá para  a malta de casa. Achas que dá para um mês?

Barbaridade 8: Finalmente, é possível seguir uma regra simples: em cada cinco visitas ao cabeleireiro, ou à esteticista, ou à depilação, ou à manicura, ou à massagista, reduzir uma. Não custa nada e representa uma poupança de 20% nessas despesas.

Ora bem, e no Inverno é cortar de forma completa com as depilações, poupa-se na esteticista e elas (e eles) andam todos mais quentinhos…e peludinhos….

Barbaridade 9:E nos vícios como o tabaco (para já não falar em deixar de fumar, que seria uma enorme vantagem sob todos os aspectos) por que insistir no Marlboro ou no Chesterfield em vez do Português Suave ou do SG?

O minimo de trabalho jornalistico, se não fosses tão preguiçoso, indicar-te-ia que o SG é mais caro que o Chesterfield.

Estas são as barbaridades mais gritantes do texto deste senhor assustador. Passem os olhos pelo texto original e se o virem na rua, por favor, dêm-lhe um chapadão na tromba a ver se deixa de escrever disparates.

publicado originalmente aqui

 

 

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36 respostas a Graças a Deus que existe o José António Saraiva para me dar conselhos sobre as minhas finanças pessoais

  1. Chalana diz:

    Pois eu cá acho que podíamos poupar 100% nesse filho da puta e enfiar-lhe um tiro nos cornos: as contas públicas agradeciam…

  2. Muito bem esgalhado, não haja dúvida.

  3. Vasco diz:

    Gastar dinheiro com o Sol – aí está um desperdício. Que idiotice. Mercedes? Audis? Hotéis? De quem está ele a falar?

  4. Morcego diz:

    O homem já começou a dar o exemplo utilizando só meio cérebro…

  5. João Pais diz:

    Haveria muito mais para dizer, mas o que aqui está já está bastante bom. Entretanto, sugiro que se convide este senhor a ir a debates em escolas, universidades e locais de trabalho. A sua argumentação ajudará imenso a provar que esse mundo em que “os portugueses vivem acima das suas possibilidades” apenas diz respeito a esta burguesia arrogante e bafienta e que esta “inevitabilidade” dos sacrificios para “todos” é afinal uma grande treta para estes senhores continuarem a comprar os seus sapatos de 80 contos e a beber a sua água Vichy (de que eu, sinceramente, nunca tinha ouvido falar!).

  6. closer diz:

    Parabéns! Um dos mais inteligentes e bem escritos posts dos últimos tempos, aqui no 5dias

  7. rg diz:

    E o conceito de pobreza da Maria Antonietta, “se o povo tem fome, coma brioches”

  8. MBd'O diz:

    Não li o texto original.
    Se é como o diz, o Arquitecto não está bem.

  9. Picamiolos diz:

    Obrigado Rafael pelo teu trabalho na denuncia desta demagogia de baixo nível !
    Só temos que não comprar estes jornais que são lixo !

  10. Daniel Nicola diz:

    com esse não vale mesmo a pena. nem percas tempo.

  11. Scriabin diz:

    E as crianças de manhã, antes de irem para a escola, em vez de barrarem o páozinho com caviar ou foie gras, porque não com banha de porco?

  12. Nightwish diz:

    Melhor melhor, só se não gastassem e o dinheiro ficasse todo nos bancos, para dar alento à economia.
    Ai não é assim que funciona e o dinheiro parado faz a economia ficar parada? Isso não interessa nada, interessa é fazer boa figura.

  13. António Vitor diz:

    Eu já poupo o preço do pasquim que ele dirige. Mesmo que todos deixemos de o comprar tenho a certeza que vende tudo o passos e o portas compram-nos com os nossos impostos para este cretino manter o jornal. é das criaturas mais inúteis e nefastas do país. Depois do que li há tantos bons cães que morrem atropelados…

  14. am diz:

    podia começar por poupar no oxigénio

  15. A.Silva diz:

    Elucidativo acerca destes palermas que se fartam de falar no “temos TODOS que fazer sacrificios”.

  16. Rafael Ortega diz:

    Só um texto desses para me fazer concordar com um post deste blog…

  17. Elsa diz:

    Eu sabia que os desodorizantes são um produto de luxo. Eu sabia!
    Com o dinheiro que vou poupar nisso, vou finalmente poder comprar uns sapatos de 400€. Mas dos seguros, que eu não quero cair. Não tenho seguro de saúde 🙁

  18. Helena Borges diz:

    Conselhos muito úteis, nunca tinha pensado em trocar a Voss pela Vimeiro.

    (Isto não daria direito a despedimento com justa causa? Assim só pela estupidez manifesta.)

  19. Casimiro diz:

    Hahahahahahaha… mas que imbecil é este patusco!

  20. Mike diz:

    um tiro nos cornos era pouco…

  21. Abilio Rosa diz:

    E ainda diziam mal da Albânia do tempo Enver Hoxsha!
    O Saraiva descreveu como é que Portugal deve ser.
    Uma Albânia!
    Até o Nuno Crato, que era militante do PCP(R) e da UDP, vai ficar maravilhado com propostas tão frugais!

  22. Bruno Peixe diz:

    Não digam mal do J. M. Saraiva. Ele e o José Manuel Fernandes são muito úteis sempre que é preciso avançar com uma prova empírica contra o mito da meritocracia.

  23. miguel dias diz:

    palhaço…

  24. Parabéns pelo magnífico post.
    Quanto ao grande arquitecto, estranho que não tenha proposto o papel higiénico de dupla face. Limpa o cu duas vezes invertendo a folha. À falta deste, pode-se sempre dar esta nefasta utilização ao “Sol” em geral, e aos artigos do seu director em particular.
    É porco, mas alivia …

  25. Pingback: Intervalo para insultar um cretino « APEDE

  26. pedro pousada diz:

    Caro Rafael os meus parabéns!É uma magnífica réplica às recomendações misericordiosas do”alquitete” descerebrado.

  27. Ora aqui está um texto com tomates e pepinos (sem coli).

    É belo. Emoldure-se.

  28. Dúvida: já legalizaram a marijuana?

  29. B. diz:

    É por estas e por outras que apetece montar uma guilhotina no Terreiro do Paço. O tipo é uma espécie de Maria Antonieta dos tempos modernos.

  30. mafalda diz:

    Creio que o Sr Director, após diversos exemplos de poupança descritos no seu artigo de opinião (não sei como lhe devemos agradecer tantas pérolas de sabedoria, sem si estaríamos perdidos), deveria, como dono do Sol e gerador de riqueza nacional, enviar uma circular a informar que nas instalações do Sol a partir de segunda feira não há ar condicionado, por motivos de saúde, e como director está a zelar pela bem estar dos seus empregados. Todos os dias que utiliza os seu audi e mercedes, típicos da classe média, devia desligar o ar condicionado, mas não baixe os vidros porque assim é que fica fresquinho. Ao fim de semana se for à praia com a mulher diga-lhe que ela, este verão, não deve fazer a depilação, ir ao cabeleireiro, manicure, informe-a que è uma nova moda que ela vai inaugurar: a poupança-fútil-das-mulheres-classe-media. Devia também enviar um email, para poupar nos selos das cartas, aos seus amigos classe média para reduzirem nas suas despesas, um exemplo quando se sentam à mesa leiam a carta e …. cuidado com o espanto… existe água do luso, super bock, vinhos portugueses, etc. E não sei se fez alguma pesquisa jornalística mas a Super bock e a Sagres são lideres de mercado, no seu segmento. Por fim, se o senhor é classe média, que classe somos nós ? uma nova classe indenominada? Para terminar mesmo o senhor é um energumeno.

  31. O que o autor do post não percebeu foi que as sugestões do JA Saraiva não eram para a classe dele (e de muitos de nós). Pelo simples facto de que, com trabalhos mal pagos e/ou precários, nós não somos realmente classe média. Acho importante ganharmos a noção disto.

  32. José diz:

    Este Director deve ter andado a ler alguns números dos Lavores Femininos ou da Flama… que texto ridículo!

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