Galdéria em galdéria (seja lá o que isso for), até à vitória final

Longe de mim querer bater duas vezes seguidas no feminismo, mas o post da Helena Borges deu um tamanho alvoroço e li na caixa de comentários algumas coisas que me deixaram francamente mal disposto. Por isso mesmo, comecei com esta provocação musical dos Irmãos Catita (já serve? assim-assim? nada?).

Francamente, esta coisa de pegar nas lutas que estão a acontecer noutros países e fazerem-se coisas com muito menos piada, dimensão, acção e ideias começa a chatear um bocadinho. Por mais que a experiência do Rossio, enquanto durou, tenha tido (e tem) a sua importância (ocupou-se a praça principal de uma cidade, discutiu-se muito, juntou gente diferente, etc), existiu uma limitação considerável (sobre a qual vale a pena pensar e agir) no que poderia, eventualmente, ter sido (sem saber bem o que seria, mas que não fosse só uma experiência para os que por lá passaram… enfim, pensar sobre isso é importante – que fazer?). No caso da Slutwalk, o problema está mesmo na sua origem e ideia.

As questões passam precisamente por isso de ser galdéria não se saber bem o que é. Cada um se veste como quiser, cada um faz aquilo que quiser e isso não é particularmente aceite no mundo em que vivemos. Então vamos lá tentar mudar o mundo – com as pessoas que existem no mundo -, mas fazer uma exaltação de uma forma única de pessoa – a galdéria, seja lá o que isso for – não me parece produzir grandes efeitos para além do divertimento da coisa.

Outra questão que me parece importante é o de não querer falar para fora. Fazer as coisas com os mesmos de sempre, fechados no mesmo círculo de sempre, também traz os seus problemas. Dizer algo como a palavra ‹‹heteropatriarcado›› diz algo a quem? Parece que estamos num enorme colóquio numa faculdade a discutir assuntos que serão, eventualmente, publicados numa revista da especialidade. Mas quem são esses heteropatriarcais? E ainda existe uma pessoa que fala do uso de calças pelas mulheres, como se toda a gente hoje andasse a vestir saias! Temos ainda outro comentário que diz que tem de existir o direito ao estereótipo, que também têm direito de viver (os estereótipos!), para os combater (essa ideia então parece-me tão perigosa). Outro comentário fala de grandes vitórias dos negros e dos gays, como se não existisse racismo nem homofobia e as mulheres é que são o grande grupo que não se ‹‹emancipou››.

Isto é tudo muito pequenino. Existem uns vícios que são os mesmos que existem em todo o lado. E assim não há feminismo – há outra coisa qualquer que não muda nada. É que a luta tem que ser clara e completa (mesmo que confusa), sem esquecer que existem pessoas, mundo, arte, política, vidas, relações, saúde, sede, fome, desejo. É que bocadinho em bocadinho – ainda por cima assim -, não há vitória final que lhe resista (pensando que existe uma vitória final, coisa que duvido). É que até o governo e a troika sabem que existe um mundo.

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11 respostas a Galdéria em galdéria (seja lá o que isso for), até à vitória final

  1. RC diz:

    No caso que subjaz à reacção global slut walk, a acusação machista de “ser-se galdéria” é uma violência com o propósito de justificar outra violência. “És galdéria porque assumes o teu corpo, lutas pela tua liberdade, vives como queres a tua sexualidade, e eu não quero!” “Eu quero manter as coisas certinhas e decentes.” Mas claro que as “certinhas e decentes” de hoje seriam “galdérias” há 40 anos, pelo que estamos realmente a melhorar.
    O post da Helena Borges está cheio de preconceito. E se há alguém que, em vez de acentuar, esbateu fronteiras entre as “decentes e certinhas” e as “galdérias”, destruindo estereótipos, foi a slut walk!!! Para mim não há “galdérias”. Ou, em alternativa, somos todas “galdérias”.

    Estive lá, vestida como achei que devia, para dizer que não aceito atribuição de culpas que não são minhas, que não aceito que me digam o que vestir, com quantos dormir e que existe nebulosa na recusa de uma relação sexual. A recusa é incondicional. E conta para as “galdérias” da cabeça da Helena Borges e para “as decentes e certinhas” da cabeça da Helena Borges.

    Ah, e mais uma coisa, para o Youri: em resposta a “francamente, esta coisa de pegar nas lutas que estão a acontecer noutros países e fazerem-se coisas com muito menos piada, dimensão, acção e ideias começa a chatear um bocadinho”, tenho a dizer-te que tinhas ficado melhor de collants de renda e corpete no Camões que onde quer que tenhas estado em silêncio sobre este assunto.

    RC

    • Youri Paiva diz:

      ‹‹Estive lá, vestida como achei que devia, para dizer que não aceito atribuição de culpas que não são minhas, que não aceito que me digam o que vestir, com quantos dormir e que existe nebulosa na recusa de uma relação sexual. A recusa é incondicional.››
      Estou de acordo, mas a minha questão não é bem essa. É que isto diz alguma coisa a mais alguém para além dos que lá estiveram e mais uns poucos? O que é ser galdéria? E isso importa? A homenagem de uma ‹‹forma›› de estar (que não sei bem qual é) dá a leitura de esta ser moralmente superior. E isso interessa?

  2. fernando andré rosa diz:

    Youri, alguém no outro dia dizia, numa caixa de comentários, algo como, que vou citar de memória: “se um monte de homens andar na rua em tronco nú e de calções, ninguém liga, se uma mulher veste umas meias de renda, e um salto alto, é logo olhada, conotada, para não dizer insultada”. Devemos concordar, que estas conotações, associadas maioritáriamente à mulher trás consequências às relações sociais, aos ambientes de trabalho (dress code), piropos e tantas outras coisas. Quando no meu comentário referi direito ao esteriotipo, não me estou a referir a criar esteriotipos como intuito de ofender, mas o direito a não ser incomodado pelos esteriotipos que outros criam de nós. Ou seja, a liberdade de podermos escolher e viver as nossas formas de vestir, de maquilhar, de tatuar, entre outras codificações do corpo, nunca substitui as nossas vontades, aspirações, e autonomia sexual (não é não! já dizia o slogan da SlutWalk)! Portanto se o objectivo da Slutwalk era para muita gente dizer que não quer ser insultada, violada, agredida, pela forma como se veste (associada ao esteriotipo slut – na versão original), caricaturar o esteriotipo da “galdéria” associado às mensagens contra o machismo que se liam em cartazes, parece-me a forma mais lógica de passar a mensagem, para quem o entende fazer.

    Posts como o da Raquel, e outros, só vêm reforçar a ideia de que precisamos de muitas SlutWalks, porque como podemos ver, e bem, entre tantos cartazes, com palavras de ordens na manifestação, parece que o tema recorrente é a roupa que as pessoas levavam e não as várias mensagens contra o machismo que eram empunhadas em cartazes. (E neste ponto, não podemos negar que da acampada do Rossio, à marcha das Galdérias, à marcha LGBT ou a um comicio do PCP, somos fodidos na sociedade por esteriotipos – esteriotipos que tem de ser destruidos nos ollhos de quem os cria, e não nas formas de ser de cada um/uma!

    • Youri Paiva diz:

      Fernando, eu percebo o que estás a dizer. Mas não te podes queixar que o tema recorrente seja a roupa que as pessoas levavam e não as várias mensagens que traziam. A roupa era a mensagem, difusa, confusa e contraditória.

  3. fernando andré rosa diz:

    e como dizem os irmãos Catita “A puta de Moscovo, pertence ao povo”

  4. Renato Teixeira diz:

    Off topic: “Por mais que a experiência do Rossio, enquanto durou,” ?!?

    • Youri Paiva diz:

      Enquanto durou o acampamento, as assembleias diárias, o estar lá permanentemente. Agora aquilo que existe não é bem o «Rossio», é um grupo de pessoas (ou grupos, na verdade) que se vão reunindo por lá e noutros sítios e tentando organizar algumas coisas. Mas o «Rossio» como força dinamizadora e de convergência já não existe.

      • Renato Teixeira diz:

        Youri temos noções diferentes de existência e provavelmente de tempo verbal. O Rossio nunca foi só a acampada. Nunca foi só Assembleias diárias. O que se criou, e que portanto existe, é uma rede de contactos, de grupos e pessoas, que continua a trabalhar e a definir colectivamente o que fazer relativamente a um conjunto alargado de temáticas. Ontem foi uma acampada e assembleias diárias, hoje são assembleias semanais e grupos de trabalho, em Agosto será outra coisa qualquer e em Setembro esperemos que tenha força para se constituir como a rede que falta ao campo da resistência. Em suma, acho que a notícia da sua morte é manifestamente exagerada.

        • Youri Paiva diz:

          Acho que a diferença aqui é o nome que se dá às coisas. Nunca pensei que o Rossio fosse só o acampamento e as assembleias, era bem mais do que isso: era lá estar, ocupar, discutir, fazer. Agora é diferente, seguiu o seu caminho – e é compreensível porque não estavam a existir condições para manter o acampamento. Sendo diferente, não chamo Rossio ao que se passa agora, sem desprimor.

          • Renato Teixeira diz:

            Se é uma questão de nome e não de tempo verbal ou verbo estamos de acordo mas fico curioso para saber o que lhe chamas. 😉

  5. chamem-me assim mesmo diz:

    Vi e organizei esta marcha com pessoas que não conhecia (mais de 150, num precário grupo do facebook); pessoas que nunca tinham organizado manifs; pessoas que, conhecendo-se, nunca tinham estado juntas a organizar uma coisa; pessoas que nunca estiveram fisicamente juntas , pessoas que não se reconhecem em formas de organização tradicionais e que encontraram espaço para se juntarem numa iniciativa que lhes fazia sentido.

    Foi mesmo uma coisa diferente, com pessoas diferentes. chamar-lhe dxs mesmxs de sempre é ver apenas vídeos da faixa da frente (e nem aí eram xs mesmxs).

    O manifesto não tem “palavrões” como heteropatriarcado, que consideras destinadas apenas a auditório de faculdade. O manifesto está mesmo muito clarinho. Será que alguém o lê/leu? Aí a questão é outra, mas espero que pelo menos tu e a helena Borges o tenham lido, no momento em que decidem dedicar um post ao assunto.

    Não tenho dúvida alguma que a cobertura mediática foi vergonhosa e criou quase uma manifestação paralela à que foi feita. como nas manifs LGBT em que só se filmam as travecas, aqui apareciam bundas e mamas. mas viva as travecas, as bundas e as mamas! antes passarem por ser as únicas coisas que existem nas manifs a não existirem nas manifs – em nome de quê se faria isso?

    O mais provável é que a ironia não tenha mesmo passado e a coisa da galdéria seja vista exclusivamente como afirmação (que também é, num movimento de apropriação do dito insulto como afirmação do desencaixe da moral que se quer combater). mas há muito de ironia e não se trata de “um movimento de galdérixs”. pelo menos, não é assim que o entendo. Não espero que se crie um grupo ou que estas pessoas passem a estar juntas em diversas lutas. Vejo como uma actividade agregadora. Pessoas conhecem-se, criam mais afinidades com umxs e vão-se multiplicando grupos que, para novas acções, se juntam possivelmente todxs novamente e o círculo vai seguindo. Mas esta é a minha visão. Há pessoas que continuam a fazer coisas juntas no tal grupo online, por exemplo.

    O objectivo nunca foi fazer uma coisa gira e tal como se fez lá fora. Temos casos bem concretos que agregaram várias vontades em fazer algo, de onde se destaque o caso do villasboas. E temos, sobretudo, mulheres que diariamente levam com esta esquizofrenia de “corpo por todo o lado” (mostra, mostra!) e “tapa-te, tapa-te”. Temos pessoas a serem diariamente assediadas. Acredito que muito homenzinho não faça ideia do que isso é e ache folclore a raiva, o querer ir para a rua, juntar pessoas com quem se partilha a experiência da opressão e a vontade de mudá-la. Acredito que muitxs não o vejam assim e achem descabido, mas isso não surpreende. O que surpreende é que nem se apercebem que fazem o mesmo que fazem sobre grupos da chamada “luta maior” (se “estas” são lutas “menores”, como dizias num post anterior…): falam de longe, de cor, sem envolvimento, baseado em estereótipos e nos média – os mesmos média que tanto criticam por se saber do seu papel manipulador. Não será por acaso que juntas o rossio aqui, como um senhor jornalista do expresso também juntou, num artigo a slutwalk e o rossio, para chamar de desocupados, a viver na casinha dos papás e a fumar charros. Curioso que reproduzimos horizontalmente as opressões todas. Teremos mais de semelhante do que parece…
    E para terminar que o comentário vai longo (e, mesmo assim, incompleto).
    A ligação internacional não enfraquece mas fortalece o movimento que se criou. o bófia disse para as gajas não se vestirem como galdérias para não serem violadas. foram para a rua para lhe dizer, a ele e toda uma cultura que valida a culpa das mulheres pela sua própria violação ou assédio, que estejam como estiverem, nada dá o direito de tomar o corpo como disponível. As “traduções” que fizemos foram muitas, mas quisemos também explorar a ideia do que é ser puta/galdéria/fácil/ordinária, tentando mostrar que qualquer mulher é puta, desde que não caiba em caixinhas heterosexuais, reprodutivas e monogâmica. Se passou isso? Não sei se passou como eu gostaria, como o fulano acharia melhor ou como aqueloutra compreenderia, mas estamos a discuti-lo (como tenho visto discutir tópicos normalmente ausentes). Também não tenho a certeza de que havia uma mensagem só. Talvez isso complique, o que seria mau, talvez complexifique – e isso seja bom – ou se calhar ambas.

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