Identidades, peles e crianças racialmente daltónicas

À conta da resposta a um comentário neste post, acabei por me estender mais do que esperava, mas de uma forma que poderá interessar a alguns de vós.

Por isso, aqui fica:

«As classificações (das pessoas e de tudo o que nos rodeia) constroem-se e transmitem-se enfatizando algumas características daquilo que se classifica e não dando atenção a outras. Sem isso não se poderia dizer “cão” ou “pessoa”, pois são todos diferentes.

Quando a classificação faz parte da construção de identidades, individuais ou colectivas, esse processo de enfatização de umas características e de “irrelevantização” de outras segue dois vectores necessários para se poder traçar a fronteira entre “nós” e os “outros”, que serve de base a uma identidade: é necessário postular (de forma que se torne minimamente consensual) um conjunto de características “comuns” que sejam “nossas”, e um conjunto de características “diferentes” que sejam dos outros.

As características seleccionadas podem ser muito distintas, conforme a fronteira identitária que se pretende traçar; mas tem sempre que haver uma enfatização de umas e um fechar dos olhos a outras e alguma aceitação colectiva da sua relevância, para que a identidade resultante possa ser partilhada.

O tom de pele é uma caractérística entre muitas outras de qualquer ser humano, e como tal pode ser enfatizada, subestimada ou ignorada, tanto no processo de classificação como no de percepção (se é que os podemos distinguir para lá de um nível meramente abstracto). Só se torna mais relevante, em termos cognitivos e representacionais, do que o tamanho do dedo grande do pé a partir do momento em que se torne pertinente para estabelecer uma diferenciação, e que a pessoa se aperceba de que essa característica diferenciadora é pertinente para os outros.

Por outras palavras, a diferença de tom de pele, por muito que pareça “meter-se pelos olhos dentro”, tem que ser aprendida para que se lhe dê atenção.

Devido a isso e à vivência na minha própria casa, não tenho dúvidas em sustentar que as crianças são racialmente “daltónicas” até que estímulos exteriores (que podem, é verdade, ser muito precoces) as ensinem a ver a cor da pele, quando a olham.

Isto, apesar do turbilhão classificatório e identitário em que as crianças pequenas vivem. Porque quando chamam (ou para que chamem) a outra “gorda”, “feia” ou “preta”, essas classificações têm que ter sido aprendidas a montante e ser objecto de negociação social. Ser “gordo” é uma qualificação quantitativa e ser “feio” é quantitativa. Mas em ambas foi necessário aprender a relevância (quanto mais não seja, enquanto insulto) e ambas necessitam de suscitar consenso exterior, pois a sansão, ao chamar-se “gordo” ou “feio” a quem os interlocutores achem “magro” ou “bonito” é o ridículo.»

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