Galdéria é a tua tia, pá

Haverá uma teoria qualquer a conjecturar que banalizar o insulto é subtrair-lhe a ofensa, ou seja, que dizermos que somos é não sermos. Não percebo as subtilezas, se as há: é-se galdéria em confissão, solidariedade e/ou ironia? Não é melhor afirmarmos que a vida pertence a quem a vive? Marcos é feminista nos partidos políticos, mas não é galdéria em Lisboa.

No manifesto dos decotes, “não é não”. É “não” se ela “põe as calças de que ele tanto gosta” e se “sai com xs maiores galdérixs”, mas não é “não” se ela é a maior galdéria. Ora, a maior galdéria também tem legitimidade para dar uma nega. Dir-me-ão que se subentende e é certo que sim, mas permitir-me-ão retorquir que é curioso que o manifesto das galdérias não explicite o “não” da galdéria, sobretudo porque a fuga à redundância (e ao superlativo) não terá sido um cuidado de quem o escreveu. Às tantas, haverá por aqui uma cebola de ironias que eu não sei descascar e, não sabendo, tomo-a por batata.

Entendam-me, tenho tudo a favor do folclore e é por isso que prezo a fúria que brota cá de dentro em detrimento da urgência na importação canadiana. Acho que a solidariedade é linda e que passa por tomarmos as lutas dos outros como nossas, mas que não temos de salivar como o cão do Pavlov. O direito à autodeterminação das mulheres não é uma luta parida pelas feministas canadianas, é global e, sobretudo, local. É a luta da miúda transmontana que não pode sonhar com ser jogadora de futebol, mas também a do miúdo alentejano que não pode querer ser esteticista, porque só quando formos pares é que poderemos sonhar e querer o mesmo.

O problema não é o decote e as palavras pesam. Não adianta divagar sobre quantas mulheres violadas por um decote respondem “sou” a “galdéria”, não fiz uma sondagem e prefiro não dançar na areia movediça. Não conseguimos aproximar-nos dos outros se é só nós que nós vemos. Podemos dar-lhes a nossa voz, mas a voz deles não é nossa e não falamos todos a mesma língua. Faz-nos bem olhar para fora da nossa caixa, por muito iluminada que esteja.

Há sombra lá fora.

Este artigo foi publicado em cinco dias. Bookmark o permalink.

86 respostas a Galdéria é a tua tia, pá

  1. Rui diz:

    Eu não tenho qualquer problema com esta dita luta das “galdérias” ou “sluts” porque cada um luta por aquilo em que acredita mas não creio que a libertação da mulher seja feita sem que haja antes uma ruptura com este sistema capitalista. Isolar esta luta é um autêntico disparate por parte da organização.
    O que no fundo estas mulheres querem é poder andar na rua sem serem vistas como objectos sexuais mesmo vestindo roupas que à partida”provocam” mas ao mesmo tempo usam uma linguagem de glorificação da “galdéria” e depois leva-me a pensar, elas acham-se galdérias mas não querem ser tratadas como tal. Querem ser respeitadas mas no fundo só contribuem para que a mulher seja vista como um objecto sexual.
    Posso estar enganado e corrijam-me se tiver mas creio que contradições não faltam a estas “feministas”

    • Helena Borges diz:

      Também não tenho problema com as galdérias, mas não sei como é que alimentar um estereótipo ajuda a combatê-lo. Nem tenho problema com a luta aos bochechos, longe de mim querer dizer-lhes que não marchem descascadas. Só que, como não sou galdéria, mesmo que ostente um decote até ao umbigo e me enrole com meia dúzia numa noite, não adenso a turba.

      • slut walker diz:

        Também já existiu o estereótipo da “mulher de calças que afinal quer ser homem” mas entretanto esse estereótipo desapareceu porque as mulheres o combateram. A “normalização” desta peça de vestuário como “feminina” ou unisexo foi a melhor foma de fazer desaparecer o tal estereótipo. Hoje todas as mulheres as usam e as gentes ocidentais, rurais ou urbanas, já esqueceram que as calças, em tempos, foram um “privilégio” restrito aos homens e à masculinidade.

        • Helena Borges diz:

          O que dizes é certeiro, mas não consigo sobrepô-lo às minhas dúvidas, também não será tua intenção que eu o faça. Aqui, o que me distancia das calças é o uso da intimidade como fogo de artifício. Se a violação é um crime bárbaro, acho que é necessária muita ponderação, ponderação que talvez não caiba na simples emulação, porque lá não é aqui.

          (Quantas mulheres violadas é que a organização do protesto terá sondado? Um protesto destes tem de passar por elas.)

          • slut walker diz:

            não faço a mínima ideia de quantas mulheres violadas estariam na marcha mas penso que este protesto as engloba como engloba todas as POTENCIAIS violadas, ou seja, qualquer fêmea que aos olhos do heteropatriarcado se comporte e se vista conforme o estereótipo “a puta” disseminado por tanta boca e tanto media.
            A violação é a face extrema do machismo e sexismo mais aberrante mas existe uma face doce que começa no pensar que uma mulher, ao vestir-se de determinada maneira, se coloca numa posição vulnerável, se auto-posiciona como objecto sexual atraindo a atenção dos homens e seduzindo-os.
            Já alguém pensou que muitas destas mulheres se vestem assim para agradar a outras mulheres? A si próprias? Umas ás outras?
            Porque é que tudo o que as mulheres fazem ou dizem tem que ser em função ou por oposição a “estes homens”?

            Por fim, se concorda com alguns dos principios desta luta porque é que se concentra nos detalhes folclóricos da marcha e não debate com os seus leitores o que este movimento transnacional tem de relevante!
            TODAS as mulheres são seres humanos e merecem ser respeitadas… não interessa se estão nuas ou vestidas.

          • Helena Borges diz:

            (Cuidado para não treslermos: no comentário anterior, não disse que concordava nem que discordava do que quer que fosse.)

            Mais do que não saber quantas mulheres estavam na marcha, não sei quantas mulheres conseguiram rever-se nela. Eu não consegui e não hei-de ter sido a única. Isto é desprezável? Há-de ser, sim, afinal, quem lá esteve falou por si. Mas quem lá esteve quis falar por si ou quis falar por outrem? É a tal história de podermos emprestar a nossa voz, mas não devermos querer fazer dela a dos outros. Fazer da dos outros nossa… Já me agrada!

            E não estou a tentar convencer ninguém a ficar em casa, por algum motivo deixei passar a marcha.

          • José diz:

            “Quantas mulheres violadas é que a organização do protesto terá sondado? Um protesto destes tem de passar por elas.”

            Mas que argumento disparatado, tenha paciência!
            Porque diabo “um protesto destes tem de passar” por mulheres violadas!?

            Se bem entendi o protesto, este combatia os estereótipos culturais, transversais aos géneros, de que a roupa define sexualmente a mulher, de que a roupa pode conter em si uma mensagem simbólica que supera a linguagem convencional, por atavismo feminino, e, ainda, de que a mulher é, sexualmente, legítima “presa de caça” masculina.

            De realçar que estes protestos não eram globais, antes locais, no sentido de que eram dirigidos a e possíveis no mundo ocidental.
            Uma freira de calças de trabalho ou de fato-macaco é uma “slut”, detida e condenada na Arábia Saudita e no Irão.

          • Helena Borges diz:

            José, o manifesto diz isto:

            Recusamos totalmente a culpabilização das mulheres face a situações de violência sexual. Recusamos a cumplicidade com a agressão e com quem agride, seja pelo silêncio ou pela benevolência. Recusamos a objectificação e mercantilização dos corpos das mulheres. Mude-se as leis, mude-se quem agride. Mude-se a cultura patriarcal que diz às mulheres para não serem violadas, em vez de dizer aos homens para não violarem.

            Estás no teu direito de achar que sondar as mulheres violadas não é importante, claro que estás. Eu acho que seria, no mínimo, uma cordialidade, isso e querer olhar para fora da caixa. Repito, não sei quantas mulheres violadas respondem “sou” a “galdéria”.

          • Olá Helena Borges, tentarei responder em parte à questão de quantas mulheres foram violadas e que estavam participando do movimento, penso que o movimento não fez este inquérito e acho que até bem… mas agora vou falar por mim e por mais 3 mulheres brasileiras trabalhadoras de balcão e domésticas que estavam por lá e uma caboverdeana trabalhadora doméstica que também estava junto de mim e que conheço bem e eu. Todas nós já fomos violadas e não só no sentido da violência física, mas porque ousamos andar sozinhas pelo mundo e pela nossa posição diante das chefias masculinas. Muitas vezes sofri assédio sexual e cheguei a sacrificar um emprego de excutiva por simplesmente não aceitar um ataque frontal de um diretor… e sabe por quê? Não era pela minha posição capitalista ou não… Entre outros motivos, sempre gostei de usar roupas ditas “sensuais” aos 25 anos já era uma executiva, com cargo de gerência geral, viajava sozinha pelo Brasil e não podia caminhar sozinha numa praia qualquer da região Nordeste. Agora por aqui isto também é muito forte, uma certa cultura puritana, estabelecendo regras de gente do bem e mulheres vadias, e uma delas está na maneira de se apresentar neste mundinho pequeno…se sou isso não posso andar assim… ou só podia ser, vestida assim… só mais uma, várias mulheres brasileiras não são aceitas como TRABALHADORA DOMÉSTICA porque são “SENSUAIS” ou se vestem de tal forma…e coisas inúmeras que é uma verdadeira agressão, somos livres e não temos que pedir licença, nem favor para não sermos violadas! Independente da religião, orientação sexual, nacionalidade…e “partido político” Magdala – slut

          • Helena Borges diz:

            Magdala, as injustiças que referes acontecem, mas a marcha é outra coisa. Procurará combatê-las, mas não é o único caminho. Não é o meu, pelo menos.

          • José diz:

            “Um protesto destes tem de passar por elas.”
            É esta imposição que acho absurda e despropositada.
            Para além de pouco prática: como se contactam mulheres violadas? Não constam da lista telefónica, não usam nada escarlate na testa, o seu nome encontra-se protegido pelo segredo de justiça, que saiba não existe qualquer associação de mulheres violadas.
            E não me parece que, repito, o protesto tenha sido feito em prol das mulheres violadas.

          • Helena Borges diz:

            José, nunca ouviste falar em associações de apoio às vítimas?

            A marcha terá sido “pela autodeterminação sexual em todas as circunstâncias”, portanto, quereria passar por aí e o manifesto aborda as violações, de um modo leviano, creio.

            Andamos em círculos e não chegamos a lado algum.

      • fernando andré rosa diz:

        é o direito ao esteriotipo minha cara… até os esteriotipos tem direito a viver e ser respeitados. é o primeiro passo para deixar de esteriotipar os esteritipos

        • Helena Borges diz:

          Será?

          • fernando andré rosa diz:

            basta ver os movimentos gay e lésbico, foi através da sua visiblidade e emancipação que surgiram os seus direitos. mas foi através da sua normalização, por cópia dos modelos normativos (exclusivos da heterossexualidade normativa), que se verificou que afinal dentro destas minorias existem minorias também excluidas (nem todos somos monogãmicos por exemplo, nem todos somos homossexuais embora nos possamos apaixonar por alguém do mesmo sexo). O que a marcha das galdérias tem de bom, é exactamente a pluralidade, de cor, de forma de vestir, de género e de orientação sexual. E não, não foi um conjunto de pessoas iguais, uniformes, em género, classe, etnia, estilo de vida, filiação partidária ou orientação sexual, que desfilou, pelo direito a não ser agredido pelas suas diferenças (inclusivé nas formas de vestir). Um pouco de bom senso, e de pesquisa, mostraria isso, mas pronto….

  2. Madalena Fernandes diz:

    Helena Borges como sou uma “galdéria” da classe trabalhadora não consegui perceber nada das suas metáforas. Parece que diz uma coisa e o seu contrário ao mesmo tempo. Faça lá a tradução do seu texto porque nem consegui perceber se está a criticar ou aplaudir. Há mais alguma opção, como por exemplo … não querer mesmo ser entendida?

    • Helena Borges diz:

      Que contradições? Como não sei ao que estás a referir-te, não posso ajudar-te.

      • Madalena Fernandes diz:

        Por exemplo “Faz-nos bem olhar para fora da nossa caixa, por muito iluminada que esteja”, pode traduzir o que quer dizer? Veja não estou a ser irónica. Não consigo perceber se está a dizer bem ou mal do movimento “não é não”!

        • Helena Borges diz:

          É por aqui:

          O problema não é o decote e as palavras pesam. Não adianta divagar sobre quantas mulheres violadas por um decote respondem “sou” a “galdéria”, não fiz uma sondagem e prefiro não dançar na areia movediça.

          E não estou a dizer bem nem mal, estou a pensar. A marcha das galdérias é um protesto legítimo, mas que reduz a violência sexual ao decote. Acho que não serve de muito e acho que os velhotes do Rossio devem ter delirado.

  3. não é não e quando é sim, oh sim, sim! diz:

    polícia de toronto (como sintoma de todo um sitema de valores): “as mulheres para não serem violadas não se devem vestir como galdérias” = são violadas porque se comportam/ vestem de determinada forma = culpadas do crime de que são vítimas.

    manifestação: visto-me como quiser – assim, assado ou que se entende por galdéria – que isso não te dá o direito de me violares.

    manifestação: pôr a nu a contradição do corpo banalizado das mulheres, o “dispam-se para nosso prazer e lucro” e o “vistam-se porque é pecado, imoral, obsceno, provoca crimes e a helena borges não compreende”

    manifestação: se ser galdéria é = a autodeterminação sexual – escolher com quem, quando e quantas vezes se fode – somos todxs galdérixs.

    de véu ou de minisaia o corpo é meu e não são as roupas que são violadas, mas as pessoas. em vez de culparem a roupa e quem a veste, responsabilizem e dirijam as vossas raivinhas e metáforas bonitinhas para quem os comete.

    se calhar é pelo manifesto ser tão claro que xs iluminadxs não o compreendem ou a helena tem fetishe com decotes (pode não parecer, pelos comentários da helena, mas os decotes aparecem uma só vez no manifesto).

    • Helena Borges diz:

      Quem é que não tem fetiche com decotes? Se até os padres têm…

      • não é não e quando é sim, oh sim, sim! diz:

        vejo que escolheu responder à parte importante. diz muito da discussão. beijinhos no umbigo, queriduxa

        • Helena Borges diz:

          Era uma discussão? As tuas últimas linhas enganaram-me bem.

          • não é não e quando é sim, oh sim, sim! diz:

            mais uma vez, vai directa ao que interessa. dá gosto a elevação da discussão e aprofundidad dos argumentos.

            vá, não se ofenda.
            vou copiar tudinho sem as últimas linhas, para não se enervar e ficar sem resposta, sim?

            polícia de toronto (como sintoma de todo um sitema de valores): “as mulheres para não serem violadas não se devem vestir como galdérias” = são violadas porque se comportam/ vestem de determinada forma = culpadas do crime de que são vítimas.

            manifestação: visto-me como quiser – assim, assado ou que se entende por galdéria – que isso não te dá o direito de me violares.

            manifestação: pôr a nu a contradição do corpo banalizado das mulheres, o “dispam-se para nosso prazer e lucro” e o “vistam-se porque é pecado, imoral, obsceno, provoca crimes e a helena borges não compreende”

            manifestação: se ser galdéria é = a autodeterminação sexual – escolher com quem, quando e quantas vezes se fode – somos todxs galdérixs.

            de véu ou de minisaia o corpo é meu e não são as roupas que são violadas, mas as pessoas. em vez de culparem a roupa e quem a veste, responsabilizem e dirijam as vossas raivinhas e metáforas bonitinhas para quem os comete.

            polícia de toronto (como sintoma de todo um sitema de valores): “as mulheres para não serem violadas não se devem vestir como galdérias” = são violadas porque se comportam/ vestem de determinada forma = culpadas do crime de que são vítimas.

            manifestação: visto-me como quiser – assim, assado ou que se entende por galdéria – que isso não te dá o direito de me violares.

            manifestação: pôr a nu a contradição do corpo banalizado das mulheres, o “dispam-se para nosso prazer e lucro” e o “vistam-se porque é pecado, imoral, obsceno, provoca crimes e a helena borges não compreende”

            manifestação: se ser galdéria é = a autodeterminação sexual – escolher com quem, quando e quantas vezes se fode – somos todxs galdérixs.

            de véu ou de minisaia o corpo é meu e não são as roupas que são violadas, mas as pessoas. em vez de culparem a roupa e quem a veste, responsabilizem e dirijam as vossas raivinhas e metáforas bonitinhas para quem os comete.

          • Helena Borges diz:

            Estou ofendida e enervada? Não creio. A resposta é a compilação das respostas que tenho dado, repetir-me é entediante.

  4. Daniel Cardoso diz:

    A Helena Borges já decidiu que ser galdérix é reduzir a autodeterminação das mulheres a trapos, mas diz que não tem nada contra xs galdérixs.

    A miúda transmontana vai ser chamada de galdéria na mesma se resolver foder com quem lhe apetece. E diz a Helena Borges que esta luta não é dela.

    A Helena Borges quer dizer, mas não diz, que esta luta não é dela. E como não quer ficar sozinha nesta negação, então chama à sua posição a ‘verdadeira luta’ (aquela que não é pavloviana, supõe-se), porque uma coisa que é global e local (nunca terá ouvido falar de glocal, talvez?) consegue não ser, por magia, de alguém.

    Continue a Helena Borges a criar, ela sim, os trapos de mais um sistema de exclusões e de alteridades (SÃO ELAS, q’horror!!), que vai longe…

    Tem sido impecável, a recepção de algumas alas “feministas” a esta marcha, que fogem do corpo que é uma beleza. O medo é uma coisa feia, é é…

    • Helena Borges diz:

      Não é assim, Daniel, não disse que a galdéria reduz a autodeterminação da mulher a trapos, disse que estes protestos reduzem, alimentam um estereótipo. Gosto mais de matar os estereótipos à fome.

      O livre arbítrio na cama cabe nos sonhos da miúda transmontana, mas os sonhos da miúda transmontana não cabem no livre arbítrio na cama.

      Quero dizer o que escrevi e, sim, nunca terei ouvido falar em glocal.

      Infelizmente, os sistemas de exclusão vão tão além disto.

      • Daniel Cardoso diz:

        Mas que estereótipo é esse? O estereótipo das mulheres que não têm medo de usar os seus corpos como armas de reivindicação política? O estereótipo das mulheres que sabem sair para o meio da rua e mandar o patriarcado foder-se? O estereótipo das mulheres que, afirmando a sua beleza, ainda assim só o fazem na condição de um discurso que promove o seu poder primário de decisão sobre o seu próprio corpo? O estereótipo das mulheres que tomam iniciativa, que recusam ser policiadas pelos bons costumes e pela moral, e que dizem que podem andar vestidas como lhes apetecer?

        E essa sua frase da miúda transmontana (pensei que gostava de matar os estereótipos à fome, mas usa um??) não faz uma pinga de sentido. No texto diz que a dita miúda não consegue sequer sonhar com algumas das reivindicações de quem marchou; agora diz-me que os sonhos dela são grandes demais para «o livre arbítrio na cama». Creio que se esquece que as várias realidades e vivências sociais não se vivem segmentadas. O livre arbítrio na cama implica uma série de outras lutas conexas, de auto-determinação económica, profissional, de reformulação das moralidades, etc etc. Reduzir a foda àquilo que se faz na cama (ou em qualquer outro sítio) é de um maniqueísmo incompreensível.

        Concordamos, porém, que os sistemas de exclusão vão para além disto. Espero que isso queira dizer que concorda que está a colaborar para um sistema de exclusão, a participar na moral vigente que critica o livre uso das várias sexualidades, que impõe uma determinada estética baseada na defesa dos padrões patriarcais e que, ao fazê-lo, faz bem pior do que qualquer pessoa que tenha estado a marchar ali.

        • Helena Borges diz:

          Não, Daniel, o estereótipo de que ser livre é ser galdéria e de que ser galdéria é usar decote. O decote cabe na liberdade, mas a liberdade não cabe no decote, ademais e como disse lá atrás, não sou galdéria mesmo que ostente um decote até ao umbigo e me enrole com meia dúzia numa noite.

          Quanto à miúda transmontana, leste o que quiseste ler, mas devolvo-te a “foda”: reduzir a luta pela autodeterminação económica e pela reformulação das mentalidades à foda é de um maniqueísmo incompreensível. Também sei ler o que quero ler.

          Estou a ajudar a criar um sistema de exclusão que impõe uma estética baseada na defesa dos padrões patriarcais porque participo na crítica ao livre uso das várias sexualidades, dizes tu. Critiquei o livre uso das várias sexualidades? Daniel, o mundo não é a preto e branco, e o preto que estás a ver fora da tua caixa é sombra.

          • Daniel Cardoso diz:

            Se achas que “ser galdéria é usar decote”, não leste dois terços do manifesto.

            Quanto a essa redução, não sou eu que a faço nem a fiz em nenhum lado. Não fui eu que vim com a conversa do que cabe ou não cabe dentro do quê…

            E sim, criticaste. Do título do post, até ao tom irónico e sobranceiro com que escreve, a postura é a de um ataque barato ao livre uso das várias sexualidades e dos vários corpos. Eu diria que o preto que estou a ver é a sombra de uma postura sem fundamento e corpo-fóbica.

          • Helena Borges diz:

            Então, a minha posta é uma crítica ao livre uso das várias sexualidades! Pronto, já percebi: eu, mulher, posso tudo, menos não ser “galdéria, desavergonhada, puta, descarada, vadia, badalhoca, fácil”, nos termos do manifesto. Era mais fácil teres chegado logo aqui, ter-nos-ias poupado imensas letras.

          • Daniel Cardoso diz:

            Helena, haja paciência para tanta leitura viciada. Será que não compreendes a diferença entre “não ser galdéria (nos termos do manifesto)” e respeitar essa forma de existir, deixando de lado os ataques baratos que reforçam as discriminações?

          • Helena Borges diz:

            É, haja paciência.

        • continuo sem perceber essa linguagem de falarem no patriarcado como se fosse uma “formação sócio-económica homogénea”. Será que vivemos na mesma parte do hemisfério do planeta?! o patriarcado, nos temos em que usam, não existe, pois a realidade é demasiado heterogénea para se reduzir à linearidade desse discurso.
          Daniel, então dizeres coisas como “mulheres irem para a rua combaterem o patriarcado” acho deveras hilariante. Faz-me lembrar ir para a rua combater a PIDE. Eu acho que devíamos fazer uma lista do pessoal do patriarcado…. eu, como homem e activista pela igualdade parental sou descriminado pela cultura machista dominante, mas isso não significa que a estruturação da sociedade nos dias de hoje seja uma enorme massa repressora do homem sobre a mulher. Significa que eu como homem também sou descriminado pela cultura de hierarquização de género, ainda que o comportamento de hierarquização esteja muito mais esbatido do que era há 50 anos atrás, manifestando-se muita das vezes, de forma contraditória, em certas esferas da vida social, invertendo por completo a lógica inicial. Existem muitos poderes disseminados nas sociedades capitalistas Ocidentais e de longe hoje pode-se dizer que se trata de um espaço social dominado por um patriarca, como se de um entidade homogénea se tratasse. Na família cada vez menos é assim, no trabalho cada vez menos é assim, no espaço público (pelo menos o urbano) cada vez menos é assim, etc etc….. se as diferenças que existem justificam acções dessas é outra coisa, mas não justifica um discurso redutor sobre a realidade da relação entre géneros.
          Quando o próprio discurso que visa combater uma desigualdade se torna ele mesmo num acto de descriminação deve ser alvo de reflexão, sobre pena de ser contraproducente.

  5. GALDÉRIAS FORA DO 'ARMÁRIO' ;) diz:

    Outro ‘brilhante’ texto de opinião absolutamente NADA informado.

    Sabe que lhe digo: NÃO HÁ PACHORRA PARA UM ‘JOGO’ DE PALAVRAS, UM PUZZLE DE CONCEITOS E IDEIAS MAL ENCADEADAS QUE SÃO LANÇADAS TIPO ‘SLOGAN’ COM ESPERANÇA DE PARECER UMA PROFUNDA E COMPLEXA REFLEXÃO INTELECTUAL…!!!

    Madalena Fernandes: Não há realmente nada para perceber… O ‘problema’ não é seu; a própria autora não o percebe…. 😉

    Não seja só pseudo…Se se quer mesmo ‘armar’ em intelectual, clarifique conceitos e ideias (na sua cabeça) antes de escrever, que de género e o que este movimento pretende NÃO PERCEBE NADA!

  6. Madalena Fernandes diz:

    Uma mulher a dias ucraniana, foi hoje assassinada por um GNR porque recusou envolver-se com o patrão .Como ficam os sonhos da sua menina transmontana quando apanhar uma bala na cabeça?

    • Helena Borges diz:

      E como ficam os sonhos da minha menina transmontana quando estiver a lavar o chão do metro de Paris e houver um atentado?

      • Madalena Fernandes diz:

        Pelas estatisticas a sua menina transmontana não vai morrer no metro de Paris num atentado terrorista mas com um tiro na cabeça de um homem cujo machismo não aguenta a humilhação de ouvir um não, com decote ou sem decote!

        • Helena Borges diz:

          Agora é que me lixaste!

          Mais a sério, sabemos qual é a resposta para a tua pergunta, mas acho que a brutalidade da violência sobre as mulheres não deve inibir-nos de questionar as maneiras de combatê-la.

          • Rocha diz:

            Esta gente é fanática e não pode ouvir qualquer crítica de quem sabe distinguir luta de classes de folclore.

            Toda esta raiva protege alguém, como uma cortina de fumo, alguém que não são as mulheres. Mas sim a classe de uma minoria de mulheres.

            Fazes bem Helena em questionar esta retórica. E está à vista a baixeza de algumas pessoas que ou estiveram na marcha ou a andam aqui a glorificar.

            No dia em que for preciso enfrentar as mulheres que também exploram, matam e oprimem a verborreia pseudo-radical vira-se não contra as de cima mas sim contra as de baixo.

  7. maradona diz:

    tu tens qualquer coisa.

  8. Leo diz:

    Diz a Helena: “Mas quem lá esteve quis falar por si ou quis falar por outrem? É a tal história de podermos emprestar a nossa voz, mas não devermos querer fazer dela a dos outros. Fazer da dos outros nossa… Já me agrada!”

    Uma amiga minha – daquelas que nunca dá o braço a torcer – não gostou mesmo nada das reportagens que viu e muito menos de quem apareceu armado em “porta-voz”. E pelo que não disse desconfio que será uma das baixas do quadrado dos chapéus de sol vermelhos no próximo 1º de Maio.

    • não é não e quando é sim, oh sim, sim! diz:

      o pessoal que organizou e participou também não gostou nada das reportagens. daí a saltar para “o quadrado dos chapéus-vermelhos no 1º de maio” parece-me um bocadinho – como dizer – idiota, vá.

  9. Frederico Brandao diz:

    Bom texto. Ha que valorizar quem se questiona sobre os lugares comuns. Sejam eles do sistema ou do contra-sistema.

    • Helena Borges diz:

      Obrigada, Frederico.

      (Vá, menos mal, houve quem gostasse.)

      • Frederico Brandao diz:

        Se fosse eu a escrever algo do género teria de usar um pseudónimo feminino senão seria logo linchado.

        • Helena Borges diz:

          Não sei, Frederico, estou a ficar um bocadinho assustada com alguns dos meus interlocutores, parece que não ser galdéria é um crime grave. Perpétua ou capital?

    • não é não e quando é sim, oh sim, sim! diz:

      por acaso concordo com o frederico. não é difícil escorregar para “prescrições comportamentais” no/ do contra-sistema e, como tal, há que questionar ocnstantemente. o problema é que este post não o faz e quando se comenta, contra-argumenta, a resposta da autora vem com demasiadas reticências, sem sinal de que se questiona honestamente.

      • Helena Borges diz:

        Ainda não percebeste que não quero conversar contigo? Não me apetece, não porque me ofendas e/ou enerves, mas porque prefiro interlocutores que não escrevam “Helena Bobó” no endereço de e-mail. És feminista, dizes tu?

        Quanto aos teus comentários dirigidos a outros, tenho aprovado os simpáticos.

      • Helena Borges diz:

        Não, “Helena Bobó” não é feminista e não vou discuti-lo. Os endereços de e-mail são privados, mas o teu endereço não é um endereço, é uma chalaça e as boas chalaças devem ser partilhadas.

        Fim.

  10. Raquel Varela diz:

    Vi que uma parte da manifestação tem muitos militantes conhecidos do Bloco de Esquerda. Poderá isto querer dizer que, perante o descalabro eleitoral, o BE teve duas ideias: pedir desculpa por não ter ido encontrar-se com o FMI e voltar às causas fracturantes?

    • fernando andré rosa diz:

      pode querer dizer que a Raquel tem alguma obecessão com o bloco de esquerda, ou que certamente o bloco de esquerda tem muito poucos militantes, para entender que os que viu são muitos. eu vi lá muita gente, mas não vi ninguém de cartão de militante na mão. isto sim é esteriotipar..

  11. Vera Santana diz:

    DEDICADO ÀS TIAS.
    À sua tia, Helena e a todas as tias

    1. Chamaram-nos NEGROS para nos escravizarem explorarem e segregarem. Consideravam-nos uns OBJECTOS. Fizemo-nos SUJEITOS, apoderámo-nos da nossa NEGRITUDE e instituímos o BLACKPOWER.

    2. Chamaram-nos GAYS para nos humilharem e segregarem. Consideravam-nos uns OBJECTOS. Fizemo-nos SUJEITOS, apoderámo-nos da nossa GAYZICE e instituímos o GAYPOWER.

    3. Chamam-nos GALDÉRIAS para nos dividirem (entre VADIAS e DAMAS) para nos dominarem A TODAS, VADIAS E DAMAS, e para nos segregarem entre nós e da sociedade dos homens-patriarcas. Consideram-nos, a umas e a outras, OBJECTOS. Tornámo-nos SUJEITOS, apoderámo-nos do NOSSO CORPO para instituir o WOMENPOWER.

    Parece que a terra está a tremer, desde então … com o fim iminente da divisão simbólica entre VADIAS (“as” prazerosas para ver, mexer e usar) e DAMAS (“as” reprodutoras). WHO´S AFRAID OF WOMEN´S BODIES AND WOMEN CONTROL OF THEIR OWN SEXUALITIES?

    Nota de pé de página: nós, SLUTS, não somos anti-homem(ns) mas sim radicalmente anti-machistas!

    • Helena Borges diz:

      (Nunca achei que fossem anti-homens, Vera. Isso é outro estereótipo lixado, o preconceito de que as feministas odeiam os homens.)

      • Vera Santana diz:

        Helena,

        Julgo saber intuitivamente que não tem o preconceito, lixado!, de considerar as feministas anti-homem. Sublinho que o post é dedicado a tias … e muitas têm-no 🙂

        Mas não vale comentar apenas o pé-de-página, Helena!

        E acrescento: sinto estar na hora de lutar contra o machismo e contra as mentes, as práticas e as normas patriarcais; o caminho escolhido pelas SLUTs é apenas um caminho; há outras vias; a das SLUTWALKS traz polémica, o que é, por um lado, um belíssimo meio para dar visibilidade aos males das sociedades machistas e, por outro, um excelente caldo de reflexão.

        • Helena Borges diz:

          Vera, tens razão, comentar apenas o rodapé não é muito simpático, mas não sei como responder aos teus três pontos sem repetir muito do que já fui dizendo por aqui, com que discordarás, arrisco! Concentrando-me no terceiro, de “galdéria” a “woman” ainda é um esticão, ou seja, quando as mulheres conseguirem fazer valer o tal poder deixarão de ser tomadas por galdérias, de ser galdérias. Às tantas, sou dada a eufemismos, mas prefiro mesmo dizer que a minha vida é minha e que não sou menos dama e mais vadia por vestir-me assim ou por enrolar-me assado. Também será isto que as galdérias da marcha – sem ironia – pretendem afirmar, mas fazem-no de uma maneira que me afasta. É grave para as galdérias e para mim? Não. Apeteceu-me pensar sobre isso? Sim, bem para alguns e mal para outros.

          Quem é que tem medo dos corpos femininos e do controlo das sexualidades pelas suas donas? Eu não!

          • Vera Santana diz:

            Quem tem medo que acabe a dicotomia Vadia / Dama? That´s the question. And we both know the answer. Quem a defende, sejam pessoas ou instituições (a Igreja, a Família, toda a cultura patriarcal…).

            Quem tem medo dos corpos femininos e do controlo da sexualidade pelas mulheres? Ui, eu diria toda a sociedade que cria erotismo de papel (imagens, publicidade …) para poder controlar o erotismo de carne e osso.

    • susana diz:

      penso que no último comentário, de modo involuntário, está o cerne da questão: é que as ‘galdérias’ são violadas, tanto como as ‘damas’, e podemos acrescentar qualquer pessoa, de qualquer sexo. a objectificação é o partido assumido por quem objectifica pessoas, e transcende os estereótipos. a única coisa que quase todos têm em comum, estatisticamente, é o facto de serem maioritariamente perpetrados por homens (embora com a excepção dos casos com crianças, bastante distribuído entre os sexos, o que é facilmente explicável pela ‘superioridade’ física masculina, em geral).

      o conselho do polícia de toronto, possivelmente, foi apenas uma gafe paternalista, de quem conhece o mundo e pensa antes de mais na segurança pública. em miúda revoltei-me com a minha educação materna, que chegou a proibir-me de usar mini-saia e me repreendia por ‘andar assim’, aos 10 anos. hoje, que só tenho filhos rapazes, não sei como faria se tivesse raparigas, mas conheço pessoas sensatas que estão a fazer com as filhas o mesmo que fez a minha: apesar de condenarem o procedimento não resistem ao desejo de que passem despercebidas entre os predadores sexuais. com os meus filhos também faço recomendações pertinentes e à medida que crescem vou introduzindo em conversa o questionamento sobre o que aconteceria perante uma situação de agressão ou assédio sexual.

      um aspecto interessante que tenho considerado nesta questão é a ausência de igualdade que revela também o machismo feminino. o que seria dos homens, heterossexuais, se ousassem vestir-se e comportar-se de uma forma dita ‘provocante’? cairíam imediatamente num outro estereótipo, enquadrados numa qualquer taxonomia gay. e tornar-se-iam automaticamente tão vulneráveis como estes já são.

      conheci pelo menos quatro mulheres que foram violadas. uma era uma menina bonita de 15 anos, violada por dois homens num sítio ao ar livre, com uma pistola apontada à cabeça do seu namorado. outra era ainda criança e foi violada por uma figura próxima da família, da geração do seu avô. outra era uma jovem dita ‘arrapazada’, e que de modo nenhum seria descrita como gira, sequer atraente. foi violada por um desconhecido . a outra era uma ‘dama’, com cerca de trinta anos, e foi violada pelo marido, na presença do filho de 3 anos que talvez tenha continuado a dormir, porque ela fez o que pôde para fugir sem fazer barulho e chorou o tempo todo, mas baixinho.

      por outro lado, conheço um homem a quem foi recusado um emprego, embora fosse o candidato com mais qualificações (muito acima dos outros), porque se recusou a cortar o cabelo, que usa comprido. outro, porque se recusou a usar fato e gravata e outro ainda foi despromovido por não ter cedido aos avanços da chefe. as fardas são fodidas, como bem contam a pele do lobo e a do cordeiro.

      o perverso machismo no feminino deveria ser uma das prioridades de qualquer feminista, dado que neste mesmo quadro machista ainda são as mulheres as principais educadoras. quando estava grávida do meu primeiro filho, 8 meses e meio e uma barriga gigante, estive a fazer compras numa grande superfície. num daqueles impasses ‘passas tu ou passo eu’, com um rapzinho pequeno, o miúdo acabou por passar. a mãe, chegada de trás, deu-lhe um calduço, e pensei que iria repreendê-lo por não ter deixado passar a senhora grávida. mas não, ela disse: “és mesmo estúpido! davas-lhe com o carrinho na barriga a ver se a gaja não se afastava!”. eu acho que é mais por aqui…

      • não é não e quando é sim, oh sim, sim! diz:

        susana, havia vários homens na slutwalk e um dos que mais deu a cara identifica-se como hetero. talvez o tenham categorizado noutra caixinha, o que vai ao encontro do que dizias.

        quanto ao machismo feminino, totalmente de acordo. é para combater, como o machimo masculino, o machismo trans, o machismo inter, etc, etc. portanto, o machismo, venha de onde vier, é para combater. não esqueçamos que todxs vivemos nesta cultura e que todxs incorporamos as opressões, contribuindo para a manutenção do poder. a responsabilidade é de todxs.

      • Vera Santana diz:

        No parágrafo infra, Susana, é expresso o “fim da divisão simbólica entre vadias e damas”, classificação binária feita por homens e por mulheres, por via de normas patriarcais. Acabando essa dicotomia – onde cada uma de nós é inserida, ora na categoria DAMA – quando se casa com um homem, quando tem um filho, etc. – ora na categoria VADIA – sempre que escapa ao controlo machista – a legitimação de uma violação com base no comportamento provocante da mulher violada tenderá para zero.

        “Parece que a terra está a tremer, desde então … com o fim iminente da divisão simbólica entre VADIAS (“as” prazerosas para ver, mexer e usar) e DAMAS (“as” reprodutoras). WHO´S AFRAID OF WOMEN´S BODIES AND WOMEN CONTROL OF THEIR OWN SEXUALITIES?”.

        • susana diz:

          vera santana, não creio que as que se revêm ou são reconhecidas na imagem da slut tenham escapado ao controlo machista. é que não é o casamento nem a maternidade que veiculam o controlo machista (muitas vezes até introduzem o seu recuo), são as mentalidades.

          • Vera Santana diz:

            Susana, quando se diz que a culpa é das mentalidades reduzem-se as causas do que quer que seja. As mentalidades – ditas assim são coisa vaga – estão ligadas a práticas e a instituições. Nada se muda quando se atacam, abstractamente, apenas as mentalidades. Todas as instituições sociais reproduzem o machismo: trabalho, família, escola, cultura.

      • Helena Borges diz:

        Susana, não há muito a responder. Acho que o teu texto – não quero chamar-lhe comentário porque vale por si só – toca numa ferida aberta: “a objectificação é o partido assumido por quem objectifica pessoas, e transcende os estereótipos”. Repito-mo para dizer que não creio que alimentar o estereótipo da galdéria combata a objectificação das mulheres. Quem participou na marcha argumentará que a mesma não alimentou o estereótipo, mas, de modo comezinho, pergunto: eram mais as mulheres que marchavam na rua ou as mulheres que as reprovavam no passeio? Quem é que estas marchas sensibilizam e quem é que não sensibilizam? As respostas a estas perguntas podem encerrar razões que impeçam estas marchas de acontecer? Não, mas podem encerrar razões que levam muitas mulheres a não conseguirem rever-se nelas.

        Conheci uma menina que foi violada no início da adolescência, uma situação terrível, como todas. Deixou de admitir duas coisas, ser agarrada por rapazes e ser insultada (sem discriminar géneros). Creio que serviam quaisquer das palavras do asterisco do manifesto: “galdéria, desavergonhada, puta, descarada, vadia, badalhoca, fácil”. Quando digo que nos faz bem olhar para fora da nossa caixa, também digo que é necessário ver estas miúdas e tantas mulheres tão diferentes de nós, ter cuidados. Não falamos todos a mesma língua.

        • susana diz:

          helena, se calhar é um bocado despudorado contar o que se segue, mas acho sempre que se deve contar o que acontece, porque é assim que isso passa a existir. eu fui molestada numa loja de brinquedos aos dez anos. um velho de barba branca, parecido com um pai natal, aproximou-se de mim, disse-me para olhar para baixo e, no momento seguinte, a minha mão tinha sido colocada em volta da pila dele. não consegui gritar, tive muito medo e lá consegui recuar em estupefacção num estado que chamou a atenção da minha mãe, que estava por perto, enquanto o exibicionista fugia. é verdade que nunca tinha visto um pénis adulto, nem sequer da minha idade (nus masculinos, só me tinham sido permitidos em bebés). (e atenção que tinha vestidas umas calças largas e um camisolão de gola alta preto. lembro-me bem de tudo e ainda consigo recordar na pele a sensação que durante meses tentei lavar com sabão e escovas. aos treze fui alvo de uma tentativa de violação por um homem de cinquenta e. entretanto já estava tão avisada que quando o vi todo vermelho e suado a respirar ruidosamente enquanto me tirava as medidas das mamas, do rabo, da cintura e da púbis com as mãos, empurrando-me aos poucos contra a parede (era vendedor de roupa), fiz de conta que não percebi, “fui ali buscar a fita métrica” e consegui enganá-lo e fugir. mas o medo fica, o medo é insidioso. incrível é a percepção que sempre me acompanhou de que tive muita sorte, conhecendo casos de muito maior dimensão como aquele que contas. ainda bem que essa miúda conseguiu retirar alguma exigência do desastre que lhe sucedeu.

          • Helena Borges diz:

            Susana, não creio que seja despudorado, a vergonha tem de ficar com quem assedia e/ou viola, embora saibamos que está destinada a quem é assediado e/ou violado. Não é necessário dizer-te que acho mal, é claro que acho, mas isto não passa por achar-se mal, como saberás muito melhor do que eu. É tão difícil, tão delicado… E o medo mata.

            Um abraço.

  12. susana diz:

    adenda 1: seja como for, a slut walk é uma luta muito importante, e não me parece que com o argumento de ser necessária uma intervenção mais profunda possamos demitir que é com muitas lutas pequenas que se fazem as grandes. esta procura acabar com frases como “ela estava a pedi-las”. choca, suscita debate, chama a atenção para a desigualdade e para o estereótipo.

    adenda 2: ontem ouvi um especialista na antena 3 a explicar como se reconhecia precocemente a trans-sexualidade. que não seria pelos comportamentos, mas pela noção do próprio relativamente ao seu corpo. o menino criança tinha que rejeitar “o seu pénis” e a menina tinha que desejar “ter um pénis”. esta coisa de andar tudo à volta do pénis não é certamente inocente.

    • Rocha diz:

      Esta coisa de fugir à luta de classes como o diabo foge da cruz para distrair toda a gente com a “sociedade patriarcal” e o pseudo-radicalismo pequeno-burguês certamente não é inocente.

      Enquanto isso a burguesia elege presidentes da Assembleia da República femininas (mais umas ministras, mais umas chefes disto e daquilo e arrefinfa-lhe com uma “dama” no FMI) e logo merece aplauso das “porta-vozes encartadas” do feminismo.

      Enquanto isso há mulheres levadas para Espanha para trabalharem como escravas na Agricultura. Não, não é só na prostituição e a maioria das vez em que é na prostituição, não, não é porque o corpo é delas e elas decidiram ser putas porque isso é muito fashion, moderno, sexualmente libertário, feminista bla bla bla…

      Vi uma dessas mulheres na televisão outro dia num programa a horas que ninguém vê, uma ex-escrava camponesa, sobreviveu ao inferno, condições de trabalho e cárcere brutais, perdeu anos de vida, quase perdia o filho (o seu maior terror) e sim foi violada. Foi violada só porque estava à mão de um poder absoluto, um capitalismo que reduz a vida humana a zero. Não tem decotes, não tem belos vestidos, não tem vícios de cidades afluentes, não tem retórica pseudo-radical, não tem pós-modernismos, não tem modas, não excentricidade. Porque não tem dinheiro. E porque não tem dinheiro não tem nada. E porque não tem dinheiro para a excentricidade não dá nas vistas. São essas as maiores vítimas. Porque são vítimas reais de uma sociedade real, a “sociedade de classes” que a pequeno-burguesia ainda não percebeu nem quer perceber que existe.

      As “causas fracturantes” querem apenas fracturar os trabalhadores e as trabalhadoras com as ideologias e as distopias pequeno-burguesas.

      • Helena Borges diz:

        (Rocha, seu baldas, mais uma vez, vamos concordando.)

        Haverá muito boa gente a alinhar nisso porque acha que isso, só isso, é o que urge fazer, portanto, haverá inocência nalguns indivíduos, fruto de uma concepção do mundo centrada no “eu” e nos “meus”… E excluir o resto pode não ser uma escolha, pode ser desinformação. Mas sei que não é a esta inocência que te referes.

        Não tenho quaisquer dúvidas de que consideras que a luta pela autodeterminação das mulheres é urgente. No entanto, sabes que é muito difícil combater à bruta este sistema – que quer as mulheres submissas, da agricultora à galdéria – olhando-se só para o gomo da laranja em vez de vendo a laranja inteira.

        Posto isto, haverá malta que olha para a laranja inteira e que, ainda assim, participa nestas marchas. Pouca, julgo.

        • susana diz:

          helena, não sei se te entendo bem a crítica mas, a este respeito, diria que, como qualquer problema complexo só tem resolução se decomposto em muitos problemas para que esta seja possível, se calhar a laranja completa, mesmo quando é vista num todo, tem que ser descascada e dissecada gomo a gomo.
          tive conhecimento do nascimento do movimento canadiano e pouco sei do seu homólogo português. referindo-me apenas ao inicial, pareceu-me ter algum poder e bastante razão. a história da conquista dos direitos das mulheres tem passado sempre pela iniciativa de chocar, como sucedeu com outras lutas contra o preconceito. quando não tens armas podes ainda recorrer a imagens e símbolos, incorporando-os para pôr em causa o estado das coisas. claro que o feminismo burn the bra parece afastar-se do feminismo de burqa, que também existe, mas será que de facto é assim? ambos pretendem que a tua imagem seja definitivamente separada do teu valor e relevância, pela abolição dos simbolismos que representa. a china maoista conseguiu esse nivelamento (superficial, mas importante – o que está à superfície é de visualização imediata) mas prefiro aquela utopia da diversidade imensa. mesmo que se trate apenas de um gomo, mais vale um gomo de cada vez do que uma laranja inteira que nunca chega a caber na boca.

          • Helena Borges diz:

            Ali, a laranja era uma piscadela d’olho àquele filme cutchi-cutchi que diz que a culpa (não) é do Fidel, já que o Rocha mencionou a fuga à luta de classes.

            E o que queria dizer com a laranja – de opressão, opressões, no caso – é que é importante concentrarmo-nos no gomo, mas que é fundamental tentarmos percebê-la por inteiro. Às tantas, não conseguiremos, mas devemos tentar, pelo menos. A opressão de género é irmã de tantas outras opressões… Todas num novelo muito emaranhado, como dizia à Sónia.

            Não tenho como discordar do que dizes, mas continuo a achar que blá, blá e blá.

            😉

          • Helena Borges diz:

            (Irmã e filha!)

      • Vera Santana diz:

        Não se trata de “fugir à luta de classes” mas sim de juntar, numa luta comum, dois grandes eixos de dominação: o Capitalismo e o Patriarcado, que estão, de facto, articulados entre si. Recordo que antes de haver Capitalismo já havia Patriarcado … e que este abrigou aquele. Desde então, reforçam-se mutuamente. Basta responder a questões tais como:

        1. quais são as pessoas / os grupos com mais poder no mundo?; que jogos jogam? por que regras se regem? com que fins?
        2. inversamente: quais são as pessoas mais pobres do mundo (e das sociedades capitalistas)? … etc.

        Lamento que muitos lutadores de classe queiram fechar os olhos ao patriarquismo. Mas não estranho porque sempre assim foi e ao que parece continua as ser.

        Quanto aos temas ditos “fracturantes” pergunto de que fracturas têm medo os lutadores de classe?

        • o “patriarcado” vem dos hebreus e está intimamente ligado às religiões monoteístas, em contraposição à politeístas, onde o feminino era adorada em muitas delas.
          Remeto uma resposta que já dei acima: querer entender que hoje o patriarcado é uma realidade social homogénea é um erro, é não perceber que as características do Capitalismo mudaram e como tal também mudou a relação entre géneros. O erro básico de muitos de esquerda é manterem-se num determinado discurso e não olharem para a realidade objectiva e verem as contradições. O Capitalismo hoje consegue manter a coexistência de diferentes relações sociais de género, pelo que o discurso não poderá mais ser o da linearidade, mas mais segmentado. A questão dos filhos hoje é paradigmático dessa contradição: é irónico ver grande parte do movimento feminista lutar contra a guarda partilhada, que é defendida em grande medida por activistas homens, quando a guarda única é uma visão machista e repressora sobre a mulher. A luta pela igualdade de género não é NENHUM exclusivo das mulheres e a prova das contradições em que hoje vivemos é mais do que suficiente para a mudança de discurso, que se calhar passa pela mudança de protagonistas nestas áreas.

    • susana diz:

      (este sistema dos streams é fixe, mas resulta um bocado confuso – sobretudo se se fala em comentários ‘últimos’, ou ‘acima’ e eles já lá vão. como os streams têm fim, vai aqui, o mais perto.)

      agradeço o abraço. outro. 🙂

  13. Sonia Soares diz:

    Sim, eu também tenho dificuldades em me identificar com o movimento. Quer dizer, eu também gosto de vestir o quero, decotes e mini-saias, e andar com quantos me apetecer, sem ser violentada fisicamente. Mas também não quero que me chamem de galdéria ou outra coisa qualquer. Mudar a conotação da palavra não a faz desaparecer, nem a palavra nem o problema. Matar o estereótipo com o estereótipo, ou outro estereótipo qualquer? Não sei muito bem como é que isso funciona. Parece-me antes uma tentativa de justificar algo que não precisa ser justificado (neste caso, a autodeterminação sexual).

    Eu até concordo com quase tudo o que é dito no manifesto (tirando a parte em que me chamam de galdéria, ou SLUT, porque isso, já disse, não sou) e não tenho nada contra a marcha, e percebo perfeitamente porque é que surge. Temo apenas que a coisa seja vista de modo simplista e isolado. Basta ver o tratamento dado pela comunicação social, como se aquilo fosse uma coisa engraçada quando o assunto não tem graça nenhuma. (Eu sei, a comunicação social não é o reflexo da sociedade, mas ainda assim, influencia muita gente.) E depois, no geral, a violência sexual tem muito pouco a ver com indumentárias ou actos individuais isolados, mas mais com o modo como toda a sociedade está organizada.

    Acho que o Subcomandante Marcos explica as minhas dúvidas melhor do que eu: “MAYORITARIA QUE SE DISFRAZA DE MINORÍA INTOLERADA.” (Obrigado pelo link, Helena.)

    • Helena Borges diz:

      (Sónia, sabes que a confiança dá o abuso de deixar os mais próximos para o fim.)

      O Marcos não é de desprezar, nunca, e tudo o que tenho andado para aqui a escrever é capaz de resumir-se nessa frase. Não pego nela como acusação, pego como alerta. Se a única opressão fosse a de género, o problema seria mais fácil de resolver, mas não é. O novelinho está bem emaranhado.

      O que a comunicação social, que referes bem, nos mostra seria outro tanto…

      (Abraço!)

      • Sonia Soares diz:

        Também entendi a frase como alerta. Lembrou-me aquela expressão “divide et impera” (dividir para governar, ou controlar, acho). E pegando na laranja (que li atrás, não sei onde), olhar para o gomo sem olhar para a laranja inteira ou sequer para os gomos ao lado, corre-se o risco de deixar o resto da laranja apodrecer (e já andam por aqui uns mosquitos às voltas).

        (Abraços! Não me importo de ficar para o fim 🙂 )

  14. Pingback: Galdéria em galdéria (seja lá o que isso for), até à vitória final | cinco dias

  15. Vera Santana diz:

    Comentário a um post sem comentários

    Outro comentário fala de grandes vitórias dos negros e dos gays, como se não existisse racismo nem homofobia e as mulheres é que são o grande grupo que não se ‹‹emancipou››, escreve o Youri Paiva.

    Esse comentário não fala das grandes vitórias mas sim dos caminhos que negros e gays tomaram para lutar por algo que, em sociedades solidárias, lhes teria sido reconhecido: igualdade de direitos. Tão simples …

    E esse comentário ilustra que um dos caminhos das mulheres, na luta por direitos que lhes não são reconhecidos, nas sociedades patriarcais e, por isso, não solidárias porque discriminantes, se insere historicamente nas lutas dos negros da américa.

    Percebo que o Youri não perceba. Para isso teria de abrir o texto a todos, em vez de ficar a falar sózinho, de dentro das suas crenças e certezas, para quem com o Youri partilha os mesmos credos.

    E já perdi tempo demais a comentar neste blog que, como tantos outros blogs, é lido apenas por bloggers e especialmente pela vintena de pessoas que o escreve.

Os comentários estão fechados.