Faísca Macqueen ou a «bófia» que precisamos

 

Só agora me apercebi que um jovem reconhecido pela juventude na TV morreu num trágico acidente. Todos os contornos do acidente revelam que a culpa morreu com o autor do acidente. Uma tragédia, para a família e não para as miúdas idiotas que estavam à porta do hospital. Morreu um jovem, num acidente evitável e isso só pode deixar todos tristes.

Mas esta é uma tragédia colectiva, que tem culpados individuais.

No outro dia íamos no nosso carro, a família completa. Na faixa da direita da auto-estrada, a 110, de noite, a ouvir, recomendo, Os Saltimbancos do Chico Buarque. Uma maravilha de viagem! Quando alguém, de repente, surge pela esquerda, ultrapassa-nos em diagonal, o carro cruza a menos de 1 metro do nosso, a 140 km, porque o condutor se lembrou, em cima da saída que queria sair ali. Travámos a fundo, o carro, bom, ABS e essas coisas, não mexeu, não derrapou, nada, travou e tudo terminou em bem. Podíamos ter morrido ali.

Há tragédias sobre as quais temos culpa, continuam a ser tragédias, e há outras sobre as quais não temos culpa nenhuma mas os culpados devem ser apontados, dedo a dedo, nome a nome.

Somos bimbos, em geral muito bimbos. Cá em casa temos um carro, velho e bom. Um volvo com 12 anos que contamos, com optimismo, que dure mais 20. Descobrimos que o nosso volvo tem um valor de troca de 50 mil euros e de uso de 5000 euros (ou seja ela custa 50 000 euros novo mas se o fossemos vender agora receberíamos 5 000). Mas se comprássemos um carro novo, tipo Renault Clio, a coisa ia para os 15, 20 000 euros. Tive a sorte de nascer numa família de berço de ouro, ou seja, a minha mãe tem um Mercedes com …1 milhão de km e 22 anos!. Os suecos há muito se aperceberam disto e quem puder fazer o país de lés a lés vai encontrar estas relíquias, Volvos e Saabs, com 20 anos, que contrastam com o nosso parque automóvel, que brilha, é novo e uma porcaria. Cilindrada Bimbo, custo crédito bancário, segurança zero.

É intolerável que se ultrapassem os limites de velocidade, sobretudo onde circulam peões. Somos o único país da Europa onde se anda a 60 km numa rua de uma cidade. Os carros atravessam as ruas, as aldeias, as cidades a 60, 70, 90 km. Ninguém sensato deixa uma criança aprender a ir para a escola sozinha com estes «pedófilos» à solta. Um amigo brasileiro comentava-me que tudo é mais civilizado em Portugal menos a velocidade com que os carros passam junto ao passeio. Isso não faz de nós fortes, bons, faz de nós criminosos que devem ser tratados como criminosos de delito comum. Falo claro da maioria dos portugueses incluindo da maioria dos meus amigos, que conduz assim. A «bófia» serve obviamente para isto e se for para isto terá o meu apoio.

É intolerável que não se respeitem os limites de segurança. Frequentemente ando na estrada e um idiota qualquer quer ultrapassar e fica tão junto a mim que deixo de ver os faróis dele pelo retrovisor. Isso na Alemanha dá carta fora, imediatamente. Na Alemanha pode-se andar a 160 na auto-estrada (anda-se a 30! nas ruas) mas nunca, durante o ano que ai estive, vi um carro colar-se à traseira do da frente.

A educação geral das pessoas faz-se, sabemos, desde pequenino, por isso ela é direccionada. Para quem não acompanha estas coisas, saiba que os heróis dos mais pequenos agora não são o Tom Sawyer que fugia da escola para ir dar um mergulho no Mississipi e mentia à tia para esconder um escravo, o Super-homem, está certo, uma americanice, que salvava as velhinhas, mas sim o Faísca Macqueen e os seus amigos, da Disney, reproduzido em autocolantes, desenhos animados, livros, bonecos, t-shirst, em cadernetas, bonés, e que consiste num grupo de carros cujo objectivo na vida é…fazer corridas de carros.

Já o livro da primeira classe tem metade do programa dedicado à reciclagem (ou não precisassem as empresas de reciclagem de matéria prima gratuita) e o aquecimento global mas zero sobre esta coisa mínima da sobrevivência humana e que possibilitou passarmos de macacos a homens – as minhas acções devem contribuir o menos possível para o mal dos outros e o mais possível para o bem-estar colectivo.

 

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14 respostas a Faísca Macqueen ou a «bófia» que precisamos

  1. Pedro Lérias diz:

    Claro que chorar pelo Lenine não faz de si idiota, só quem chora pelo jovem que morreu que a Raquel não tem a decência sequer de referir o nome e que varre para o lado como lixo humanos só porque… não sei, Raquel, porquê? O que a leva a tratar a vida dos outros com o mais completo desprezo só porque de alguma forma – que espero me elucide – não parece ter valor para si?

    • Raquel Varela diz:

      Estimado Pedro,
      O Lenine morreu em 1924
      Colocar no mesmo plano um grupo de fans e a família, que eu saiba algo feito por mim mas em mais nenhum lado, onde foi dado destaque ao sofrimentos dos fans, como aliás você faz, é sintomático.
      Saudações

      • Omega-3 diz:

        São lérias,Dª. Raquel.O dito cantante,já o ouvi cantar e,tinha uma bela voz para escrever à máquina aliás,tinha umas cordas vocais bem desenvolvidas se,estas ficarem no lugar do braços.

      • Pedro Lérias diz:

        O problema, Raquel, é que você mostra desprezo – logo algo preocupante, desprezo permite violência – não só pelas supostas fans, mas também pela família ao correr a culpabilizar a pessoa que morreu ainda antes do corpo estar frio e em se excusar a sequer identificar quem morreu pelo nome.
        A morte do Angélico foi para si um pormenor a usar para demonstrar qualquer coisa. A pessoa que morreu e que o chora (familiares e amigos)? Pormenores, claro.
        Um texto medíocre. Uma defesa medíocre.

  2. António Figueiredo diz:

    Reparo que publicou o comentário do Pedro Lérias, mas censurou o meu.

    Nada que eu não estivesse à espera, nada que fruste o meu objectivo, que era ser lido por si. Não me interessa se à frente de outros leitores deste ajuntamento estalinista, entre apaniguados e curiosos da actividade revolucionária em Portugal (grupo em que me incluo).

    Mas o tema do Pedro Lérias tem pertinência. A dor da família não implica que mais ninguém possa sentir dor. E a dor de fãs, histéricas ou não, é real. Os fãs são, como o nome indica, fanáticos e era de esperar que a Raquel percebesse os estados de alma dos fanáticos.

    • Raquel Varela diz:

      Figueiredo,
      Para mim é obsceno que um jornal fale da dor de adolescentes histéricas, com dificuldades próprias da idade em gerir emoções, quando a dor aqui cabe exclusivamente aos próximos dele. O resto é narcisismo dos que vão lá chorar. E portanto não compreendo porque isso há-de ser parte do jornal nacional.

  3. Rocha diz:

    A Raquel devia dar ouvidos aos ecologistas, os automóveis são uma coisa maléfica. Mais vale o transporte público sempre, é preferível.

    Somos um país pobre, stressado e desleixado, as nossas estradas são mortais, quanto maior a velocidade maior o perigo. A pobreza é assim mesmo faz nos dar pouco valor à vida, tanto a nossa como a dos outros. O stress, o não ter tempo para viver – o “não-viver” – faz nos perder toda a civilidade. E quanto mais crise houver pior será.

    O automóvel, por outro lado, vai acabar um dia – da mesma forma que acabará o petróleo – e não deixará saudades.

    • Raquel Varela diz:

      Estimado,
      Eu ando de comboio e autocarro, na verdade comboio seguido de 6 km a pé por dia, na maior parte das vezes.
      Concordo, a estupidez é inversamente proporcional à luta de classes.

  4. k diz:

    Isto de se querer acabar com a burguesia e ao mesmo tempo ter gostos/posses burguese(a)s tem que se lhe diga. Desde quando é que o povo tem carros com travões ABS?. É tudo uma questão de seriedade e de consistência. Se queres mudar o Mundo começa por mudar-te a ti mesma.

    • Raquel Varela diz:

      Não, o povo prefere carros sem ABS novos do que comprar usados com ABS – chama-se a isto ser vulnerável à propaganda burguesa, neste caso à explosão do crédito.
      Eu tenho passe social, uso carro ao Domingo (!) e corro 20% mais de risco de ser assassinada por um criminoso desvairado em Portugal – que vê lixo televisivo e por isso acha que a sua auto estima aumenta com a velocidade do carro – , do que na Alemanha.

      • Tiago Vasconcelos diz:

        o povo prefere carros sem ABS novos do que comprar usados com ABS

        Receio que esteja desactualizada. Desde 2007 todos os carros vendidos na Europa incorporam ABS.

  5. Diabo11982 diz:

    A propósito da condução em Portugal, volta e meia ponho-me a pensar: continuamos a ser um país com uma grande taxa de analfabetismo em relação à Europa, e isso ainda era mais evidente à 20 ou 30 anos atrás…Se assim era, como é que qualquer português tem carta de condução, mesmo aqueles que não sabem ler? Como é que faziam o exame de código? Questiono isto porque quase toda a gente em Portugal tem carta de condução…

    Agora falando de assuntos sério…eu acho que devia haver um mínimo de escolaridade obrigatória (9º ano) como um dos requisitos para se poder tirar a carta de condução…Isto porque a carta de condução é uma “arma” bastante perigosa que nas mãos de pessoas sem qualquer tipo de formação, passam a ser potenciais “assassinos”…

    • Raquel Varela diz:

      Nem imagina o potencial criminoso dos meus queridos amigos, familiares, alguns licenciados outros com doutoramento. Concordo que há muito a fazer na educação, muito, mas também na repressão.

      • Diabo11982 diz:

        Concordo consigo..mas ainda sou daqueles que acredita que uma maior formação educacional (e cívica) geram comportamentos inversamente proporcionais à falta dessa mesma formação…

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