Para a Helena Borges, a propósito da nossa conversa sobre Raduan Nassar (que chegou a passar por Bizet e la carmencita – ver post abaixo)


A fabulosa Orquestra Sinfónica Juvenil Simón Bolívar da Venezuela, dirigida por Gustavo Dudamel; aqui, de Arturo Márquez, “Danzón nº 2”. Londres enfeitiçada.


Aqui, a mesma formação, no mesmo lugar (Proms, Londres, 2007), com Dudamel.
O “Mambo” do Bernstein (coisa de antologia)

Post scriptum: que Hugo Chávez recupere, e rápido.

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20 respostas a Para a Helena Borges, a propósito da nossa conversa sobre Raduan Nassar (que chegou a passar por Bizet e la carmencita – ver post abaixo)

  1. Helena Borges diz:

    Maravilhoso, Carlos, ma-ra-vi-lho-so! Que portento, que energia, os pêlos dos braços põe-se em sentido! Vou tentar piratear os discos e os DVDs. Quanto aos segundos, diz-me o Google que há dois: um documentário e concerto da Grammophon, e um El Sistema com subtítulo inglês (Music to Change Life). Viste-os? Lembro-me de uma conversa TED com o José Antonio Abreu…

    O meu problema com algumas orquestras – não conheço muitas – é a carranca, sempre a mesma carranca. Como é que se pode namorar e matar a Carmen sem mexer o sobrolho? Fuja-lhes o pé para o chinelo!

    O que é que achas da maestrina que vota no PSD por correspondência?

    (Eu e o Chavito andamos um bocado de candeias às avessas. Gosto mais dele quando é acusado de financiar as FARC. Que recupere, rápido.)

    Obrigada!

    • Helena Borges diz:

      (“Põem-se”.)

    • Carlos Vidal diz:

      São magníficos todos. O Dudamel tem um reportório “pesadíssimo” por vezes, ou quase sempre. Há vários DVDs: de concertos e documentários, um dedicado a Beethoven, outro ligado à Orquestra de Los Angeles de que Dudamel é actualmente o titular. O El Sistema é o mais pedagógico, por assim dizer. Trata-se disso mesmo: de um “sistema”. O sistema do maestro Abreu que recruta e forma músicos nos mais pobres dos bairros da Venezuela: este “sistema” tem décadas. Depois, há por lá uma grande quantidade de Orquestras Sinfónicas (juvenis). A pérola é esta, a Simón Bolívar, que um jornal inglês (acho que foi o Guardian) classificou como a 4ª do mundo (estas classificações são quase impossíveis): é fácil de ver que as outras devem ser a de Berlim, Viena, Londres, ou uma russa. Não sei como o Guardian lá chegou, mas esta Simón Bolívar é ….. um milagre.
      A discografia, sempre na Deutsche, é enorme, e vai do disco que te recomendei a Mahler (“pesado”).
      Curioso: falas na “fuga do pé para o chinelo” de certas pessoas e Orquestras carrancudas, ou que é suposto serem. Por exemplo, o Karajan – não há carranca maior, mas olha que foi talvez um dos melhores a dirigir estas “ligeirezas” como a ópera da nossa carmencita. Um prodígio. A carranca às vezes é só uma máscara que apetece transcender e mandar às favas. Muitos não sabem, mas o Karajan fazia isso com frequência.

      Ah, a maestrina. A Gulbenkian respeita-a e defende-a. Dirigiu compositores, na presença dos próprios, que dela muito gostaram (John Adams).
      É PSD é sim senhor.

      O chavito. Consta que está a recuperar bem – com este não consigo nem posso zangar-me. Faz parte do “Axis of Hope” do Tariq Ali. Sem ele tudo seria, como dizer…. pior, grave, muito grave (uma solidão total).

      • Helena Borges diz:

        O meu conhecimento sobre música erudita é parco e preconceituoso, mas tem remédio. Só sei que o Karajan é um charme, mesmo de carranca. Chuta aí uma karajanice carrancuda, mas não chutes frouxo, chutas?

        Orquestras como a Simón Bolívar dão vontade de chamar popular à erudita. Tão bom.

        Quanto à maestrina, não estava a sibilar. Curiosidade pura, embora não parecesse, nunca lhe ouvi a batuta.

        • Carlos Vidal diz:

          Vou ver se a apanho a dirigir John Adams (deve ser difícil).

          O Karajan numa Polka. Vou ver se vejo.

          • Carlos Vidal diz:

            Gostava de encontrar a Joana C. a dirigir Adams. É um bom compositor e ela fá-lo bem.
            Mas só a vejo no tube noutros compositores contemporâneos (o Luís Tinoco, português, exacto, por exemplo).

            Entretanto, sobre a carranca.
            Há muito Karajan com carranca (pesado, sério, dirigindo de cor, sempre), mas o homem também se transcendia e deliciava com “ligeirezas” como as de J. Strauss.
            Portanto, sobre a carranca. Às vezes gosto dela, da carranca, outras acho que o espírito da “gravidade” é absurdo.
            Mas, numa orquestra, é tudo muito diferente. Por exemplo, não gosto de ver uma Sinfónica trajada de branco. Nada, absolutamente, nada. O que é que isto quer dizer?

          • Helena Borges diz:

            Que queres ir ao concerto e não à primeira comunhão?

            Se a gravidade for dignidade, acho-a bonita, justa; se for solenidade, embirro. Mas como é que um ouvido duro traça a fronteira?

            Querer que lhes fuja o pé para o chinelo é querer um pretexto para deixar fugir o meu. Não quero bater-lhes palmas no ar e pedir só mais uma, quero encontrar-lhes uma mácula qualquer, alguma coisa que me agarre e que me ajude. Sabes porque é que gosto mais do Chopin pelo Pollini? Se o Pollini não tem rinite, parece ter. E o Bach trauteado do Gould?

            A carranca, em si, não é um problema. Se fosse, não gostaria do cineasta franco-suíço que tu também aprecias. Pergunto-te: como seria o JLG/JLG, o auto-retrato, sem a rinite? Eu acho que pior. Arrepiou-me como poucos e aquela respiração difícil ajudou.

            (A nódoa vê-se melhor no branco engomado, mas também gosto mais deles de preto.)

          • Helena Borges diz:

            Voltando ao Pollini e ao Chopin, concretamente aos nocturnos: não é a respiração dele, é o piano a deixá-lo a respirar. É isso, o piano a deixá-lo respirar. Até choro, Carlos. Acho que consigo fazer-me entender, mas é difícil.

          • Carlos Vidal diz:

            Consegues fazer-te entender, sim senhora.
            O Pollini é o intérprete não demagogo por excelência. Quer dizer, a obra nas suas mãos flui de tal modo que o sentido/significado nunca te é imposto. Há que lhe chame o intérprete “apolíneo” por excelência (e não é por parecença fonética “pollini/apolíneo”).
            A interpretação musical é tanto melhor quanto não te induz ou impõe um sentido/significado (o que eu chameo “demagogia”), mas mantém-no, até com maior intensidade, num subtexto “discreto”. De três leituras dos Nocturnos recentes que marcam – a do Pollini, a do Nelson Freire e a da Maria João Pires – eu prefiro a do Pollini: dotado de uma leveza densa, que supera mesmo em sentimentalismo os outros (a João Pires é a mais sentimental, o que não significa a menos interessante).

  2. joão viegas diz:

    Deixem-se de merdas. Ouçam a musica, vão a concertos (discos é so documentação, como partituras ; musica é o que acontece ao vivo) e deixem-se de dicotomias baratas, boas para as porteiras que vivem de verificar se o carteiro chega mesmo às 11h00 às 3as e 5as.

    Pode ser na filarmonica de Berlim, ou no rancho folclorico, que é igual (mas não propriamente indistinto) desde que seja musica.

    No que o Karajan toca de bom, está também o bom do rancho folclorico. E as falhas do rancho folclorico têm tudo a ver com o que o mau que se pode ouvir (infelizmente, e concedo que com pouca culpa do dito) no que toca o Karajan.

    • Carlos Vidal diz:

      Cuidado meu caro com a excessiva valorização da interpretação, e uma certa desvalorização da documentação ou partitura. O maestro Rinaldo Alessandrini (um ou “o” especialista actual em Bach) dizia que muitas das obras do mestre de Leipzig, para o próprio, era secundário que fossem ou não interpretadas. Na “Arte da Fuga”, por exemplo, o mestre não deu indicações precisas quanto à sua interpretação/instrumentação (teve de ser Leonhardt a fazer uma investigação para provar que a obra era para tecla) – Bach interessava-se por outra coisa: a concepção, a estrutura. A “devolução” ao ouvinte/assistência era, no fundo, pouco importante.

    • Helena Borges diz:

      (Deixa a porteira em paz, deve estar ocupada com a ginástica de fazer render os quatrocentos e tal euros.)

      Música também é subir o volume para conseguir ouvi-la enquanto estou lá fora com as pencas, não dá para ouvir a respiração do Pollini, mas dá para dançar com a sachola. É a vida.

      Com “falhas”, deves estar a referir-te ao mau, oposto ao bom, e eu não sei o que isso é, mas admiro quem sabe. Eu gosto ou não, sou broeira e não aprecio autómatos.

      • joão viegas diz:

        Admiras mal, camarada, admiras mal…

        O que é bom é, apenas, o que faz com que gostes. Não digo que seja sempre facil de distinguir, ou de recriar. Mas também não é mistério nenhum, nem é assim tão esquisito reconhecê-lo, seja no Polini ou no espectaculo do rancho.

        Discordo do que diz o Vidal sobre a importância da concepção, ou da estrutura, ou la o que é. Admito que se lhe dê importância (e até posso acreditar que assim fosse para o Bach), mas sera sempre uma questão secundaria. A musica, como o pensamento, é o que se manifesta.

        Alias é bem pouco de esquerda o que diz o Vidal neste particular…

        Boas

        PS : E também não estou a dizer que não se deve ouvir musica gravada. Apenas que é um documento, que fica sempre longe da realidade. Ninguém aprecia com justeza um documento se não tiver, mais cedo ou mais tarde, um contacto com a realidade. Em musica também é assim.

        • Carlos Vidal diz:

          Caro,
          eu tinha dado o exemplo de “A Arte da Fuga”, obra que, apesar do estudo teórico e da interpretação de Gustav Leonhardt, ainda hoje não se sabe muito bem qual foi/é o seu “destino” de palco ou de interpretação, sendo que há leituras interessantíssimas em quarteto de cordas, grupo instrumental (Savall), cravo, etc. Este é um bom exemplo de uma obra “conceptual”. De resto, isto nada tem a ver com esquerda ou direita política, parece-me.
          À esquerda, Sartre, no L’Imaginaire, tem páginas muito importantes sobre a esperiência de “escutar no imaginário”. De resto, tudo isto pode ter um fortíssimo sentido metafórico, e até podemos separar “ouvir” de “tocar”, como se “interpretar” (ou seja, estar com as mãos no instrumento) não existisse. Volodos, um grande pianista, tem esta frase intrigante: “Interpretar é mais ouvir do que tocar”. Pelo menos, dá que pensar.
          Bach, por seu lado, era, de facto, avant la lettre, um criador “conceptual”.

        • Helena Borges diz:

          Quanto ao “bom”, estamos de acordo!

          Quanto à música gravada, acho mal que não digas que não se deve ouvi-la, é que eu já estava a preparar-me para cravar-te uns bilhetes.

          😉

          • joão viegas diz:

            eheheh,

            Por acaso o concerto a que assisti ontem à noite não foi nada de especial, portanto não ganhavas muita coisa se eu te tivesse dado o meu bilhete…

            Mas eu sou um optimista, pelo menos nestas coisas. Considero sempre que a frustração se ha de transformar mais tarde em prazer multiplicado, quando ouvir as mesmas obras (ou outras até) tocadas com melhor inspiração…

            Abraços

            PS 1 : E o Vidal tem razão. Gosto da frase de Volodos. Reformulemos então a minha objecção : ouvir é sempre, por hipotese, ouvir o que esta la fora, ou que esteve, ou que ha de estar. Mesmo que seja ouvido atravês da reverberação que deixou ca dentro, que muitas vezes é o que sucede, porque o Universo esta contido, e reflectido, naquilo que faz que cada monada exista…

            PS2 : Alias o Vidal tem sempre razão. Aí jaz todo o sal do que ele escreve quando se debate, aqui no blogue, com a inconfortavel sina de ter sempre razão.

          • Carlos Vidal diz:

            Caros, por falar em piano e pianismo.

            O recital maior da próxima temporada vai ser, sem dúvida, o de Sokolov em torno apenas de Bach (Gulbenkian, 13/11).
            Faço notar que os bilhetes vão acabar entre segunda e quarta da próxima semana (fase da “venda por carta”; depois, quando a Gulbenkian disponibilizar a venda online, nenhum bilhete deste recital vai estar disponível. Vamos ter pressa, os fãs.)

  3. É pá! Carlos, comprei uma cabine de banho nova, mas com caldeira e alta pressão nas águas quentes e frias, pró tratamento integral da cútis.

  4. E nem necessito traçar o objectivo, por vias das tosses, sabes bem que o ensino artístico é sem objectivos. E lá se vai a Ciência.

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