Ao lado de baixo do equador

Aproveito a sequência piegas de questionários para trazer o melhor vídeo do YouTube. O melhor de todos, num excesso à Carlos Vidal, com exclamação!

A propósito do sertão – que “é uma espera enorme”, segundo o Riobaldo do Guimarães Rosa –, o António Figueira disse que “Portugal conhece muito mal o Brasil”. Vê-se pelas ninharias: se Portugal conhecesse bem o Brasil, não diria que a Assunção Esteves parece o Andy Warhol, diria que parece a Simone Bittencourt de Oliveira, das canções mela cueca, mas platinada, chapadinha.

A propósito do António Figueira a propósito do sertão, o Pedro Penilo escreveu uma frase bonita demais para perder-se numa caixa de comentários: “há um Brasil que só certos portugueses conhecem – nem mesmo os brasileiros sabem desse Brasil –, o Brasil da nossa paixão pelo Brasil”. A minha, por exemplo. Nunca pus os pés no Brasil, quero morrer lá e fodam-se as cinzas. Explico como sei: para quê poemas de amor se existe “meu bem”?

Aproveito, também, para pedir-vos pedaços dos vossos Brasis, uma canção, um filme, um livro, uma palavra, um parangolé. Ou mandem-me à fava e visitem a Alexandra Lucas Coelho.

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57 respostas a Ao lado de baixo do equador

  1. Pedro Penilo diz:

    Estou esmagado, Helena.
    .
    .
    .
    (sim sim sim, o brasil foi a nossa ilha misteriosa, falsificada com verdade. comunismo do coração)

    É um fenómeno de uma geração, não se repete, nem prosseguirá (creio). Tem nele aquelas canções, aquelas vozes, aquelas histórias, tudo muito bem mixado com vinte-cinco-de-abril, lima e açucar mascavado.

    • Helena Borges diz:

      Fiquei com a tua frase a ecoar, Pedro. Cutucaste a ferida.

      • Pedro Penilo diz:

        O meu encontro com brasileiros fora do Brasil teve sempre esse elemento de perplexidade. O excesso de conhecimento e entusiasmo (nosso) a boiar num mar de ignorância. E uma incompreensão nas mesmas histórias, nas mesmas cantigas e personagens. Nós estávamos apaixonados por aquilo, mas aquilo não era o que nós pensávamos, tinha sido apropriado para outros efeitos que só nós dominávamos. Com que legitimidade falávamos daquilo com tanto ardor, se aquilo não era assim? (Alguma legitimidade, contudo. Desde o “Tanto Mar”, que o Chico passou a cantar para nós, muito mais do que para eles. E ousar dizer que a nossa Feijoada é mais Completa…? E que a Gabriela vingou aqui? Já estou a abusar, eu sei… Porquoi pas?)

        • Helena Borges diz:

          Entendo-te tão bem, Pedro.

          Devemos ter dado alento às anedotas sobre portugueses, é o que é. Lembro-me da primeira brasileira que conheci, filha de imigrantes e acabada de chegar à minha escola. Passei a aula de Português à espera do intervalo:

          — Olá, sou a Helena! Como é que te chamas? O que é uma fruta gogóia? É doce?

          Ela não sabia. Ou ficou tão atarantada com as perguntas que achou melhor dizer que não sabia. Eu fiquei desolada, Pedro, era impossível! Só anos mais tarde descobri que uma fruta gogóia brota de uma planta pequena e com espinhos, que não é comestível, julgo. Então, o folclore baiano fez sentido:

          Eu sou uma fruta gogóia
          Eu sou uma moça
          Eu sou calunga de louça
          Eu sou uma jóia

          E quando eu achava que tinha muito a ensinar sobre o Brasil aos brasileiros? “A ignorância é tão atrevida”, dizemos nós aqui deste lado do Atlântico.

          Fiquei com a tua frase a ecoar, fiquei mesmo. Abananada, oh, yes, nós temos banana. É que aquilo sempre fez sentido para mim, mas sem eu ter de pensar sobre isso, muito menos verbalizá-lo. Nem conseguiria fazê-lo, enrolar-me-ia em palavras, parênteses, pontos e travessões. E tu deixa-lo cair assim de mansinho, tão fácil.

        • Helena Borges diz:

          Sabes que eu sou de depois do 25. Sinto a Tanto Mar cá dentro – histórias, histórias… – e bato-lhe aquelas palmas descoordenadas, como todos. Mas a minha primeira foi a Romaria, era o que a minha mãe entendia por canção de ninar. Outra vez, anos para descobrir o que era Pirapora.

          (Hei-de adormecer os meus filhos assim…)

          • Pedro Penilo diz:

            O que é pirapora (não quero ir ao google)?
            ….
            Sempre desejei caixas de comentários assim: prolongamentos ricos do post.

          • Helena Borges diz:

            Pirapora é uma cidade mineira muito industrializada, pelo centro-norte de Minas Gerais.

            É bom podermos continuar a conversar aqui, entre nós e com quem nos visita. Nem sempre é possível…

  2. maradona diz:

    muito bom post.

  3. scriabin diz:

    O Brasil conhece mal o Brasil, começa por aí. Apesar do esforço da Globo, ou por isso mesmo. Como dizia um brasileiro que meia dúzia de brasileiros conhecem:
    O Brazil não conhece o Brasil
    O Brasil nunca foi o Brazil
    O Brazil não merece o Brasil
    O Brazil ta matando o Brasil

    A Assunção Esteves parece a Simone? Em que fase? Para cantar aqueles bolerões e aqueles hinos, daquela maneira, tem que se ter dois metros de altura, ser morena e ter uma juba. Talvez um bocadinho com a Elis, se não for abusar muito, com outra cara e outro corte e cor de cabelo.

    • Helena Borges diz:

      Sertões, Guimarães, Bachianas, águas. Que bom!

      Mas não será esse o fado dos países, não serem conhecidos pelos seus de sangue? Brasil, Portugal, todos. Nós tivemos aquele corso que nos correu de lés a lés e que nos conheceu melhor do que os nossos pais. Não o merecemos, mas ainda bem que o tivemos.

      (Scriabin, olha com olhos de ver, a Assunção é a Simone chapadinha, platinada! Esquece os vinte metros e a juba morena; imagina-a naquelas missas no Santuário de Fátima – que a Bethânia também adora –, cheia de alegria cristã, assim sessentona a parecer cinquentona. Procura uns vídeos recentes, compara-os com o vídeo dos aplausos à Assunção e vem aqui dar-me o braço a torcer. Eu torço com jeitinho, prometo.)

  4. Jorge diz:

    O título deste «post» lembra-me – alas – a outra senhora que desenhou uma «linha horinzontal» na Europa, para distinguir a matriz protestante e a matriz católica do continente e, claro, desancar nos néscios da Europa Meridional, que limpam as faltas no confessionário.
    Mas adiante. Quando em Portugal se elogiam as terras de Vera Cruz, subjaz uma crítica, mais ou menos velada, à nossa, portuguesa, identidade. Posso estar a ser injusto, concedo, mas se eles cultivam o trauma de terem como pai uma nação «insignificante», nós por vezes parecemos pedir desculpa por isso mesmo.
    As coisas são como são, e para o mal e para o bem, se o Equador deixou de se uma barreira, se o Atlântico deixou de ser o «Mar Tenebroso», aí há um pouco de nós também. E isso, convenhamos, contribui para a nossa atração pelas terras meridionais.
    Para mim o Brasil passa pelo Drummond de Andrade, pelas «Àguas de Março», pela Bebel Gilberto, pelo Seu Jorge, Caetano Veloso, e, last but not least: «africa meets southern europe meets south america».

    • Helena Borges diz:

      O título é um piropo, Jorge, uma flertada. A outra senhora… Vade retro!

      Os complexos de colonizador e de colonizado existem, julgo que mais nas dinâmicas da CPLP do que em mim ou em ti. Nós achamos que os ensinámos a comer à mesa e eles acham que nós somos insignificantes. Sem Portugal, o Brasil não seria o que é: “meu” e “bem”, as festas juninas, a corrupção, tanto. E Portugal não seria o que é sem o Brasil. Esquecemo-nos de pedir desculpa, mas agora é tarde.

      O meu elogio não é “medo de existir”, antes uma paixão que expliquei como sei explicar, ou seja, que não sei explicar. Nunca estamos absolutamente bem onde estamos e a ponte sobre o Atlântico chama por nós, sem garantir-nos que estaremos absolutamente bem no outro lado.

      E das peles que visto
      muitas há que não vi.

      (Do Drummond, no Sonetilho do Falso Fernando Pessoa. Mas não pensemos nos heterónimos.)

      • Vavá - Bahia (Brasil) diz:

        “O meu encontro com brasileiros fora do Brasil teve sempre esse elemento de perplexidade. O excesso de conhecimento e entusiasmo (nosso) a boiar num mar de ignorância.” – Pedro Penilo

        O Brasil que vcs conhecem – e tecem loas – é aquele país de uma única classe (a média), supostamente intelectualizado e capaz de auto-reflexão através da arte. O Brasil que chega a Portugal em carne e osso humanos é outro, tão ou mais rico culturalmente que o primeiro. Mas este, meus caros, obviamente não saberá encetar tertúlias sobre a genialidade de Chico Buarque em “Ópera do Malandro” ou o golpe de força cultural executado por Euclides da Cunha em “Os Sertões”. Conselho transatlântico: se um dia, algum de vcs for ameaçado pela fuga da presunção, não resista. Deixe-se levar e pergunte ao brasileiro que sabiamente ignora o vosso “Brasil lusitano” o que ele gosta de ouvir e o que ele ler (caso saiba como fazê-lo); certamente descobrirá outro continente cultural dentro deste país continental que é o Brasil. Sim, todos nós sabemos, vcs não vão gostar; mas, ao menos, perderão de uma só vez esta enorme ignorância ostentada. Se quiserem, adianto-lhes o Arrocha, o Pagode (que não é o da Clementina e nem da Jovelina Pérola Negra), Psirico, Parangolé, Sanbone Pagode Orquestra, Silvano Salles, Gerônimo, Orquestra Rumpilezz etc. Caso contrário, restará a sensação tacanha que alguns de vcs partilham e que é sinal de uma frustração mais profunda, oriunda da incapacidade atávica de reduzir uma cultura de multiplas raízes e galhos a um pequeno bouquet edulcorado. Tenho 27 anos e todas as referências culturais citadas por vocês são tão clichê, tão absurdamente conhecidas por todas gerações da classe média brasileira que me fazem concluir: vocês nunca vieram ao Brasil e não fazem a menor idéia do que é este país. Aliás, talvez seja este o objetivo: alimentar uma idealização para que quando ela, infelizmente, morrer, por a culpa naquele bando de “ignorantes brasileiros” que deram dendê a quem só comia azeite d’oliva…ah, o conforto das nossas idealizações…
        Reconheço, também, algo que talvez assuste aos que nunca estiveram nas terras de Pindorama: os brasileiros (de qualquer classe) são dotados de ignorância plena em relação à Portugal e, em específico, à sua cultura. Desconhecemos música, teatro e literatura portuguesas. No máximo, alguém já ouviu falar em Fado, mas não faz a menor idéia de quem seja Amália. E esse lance das “piadas” não chegam a constituir um esteriótipo do português típico para o brasileiro. Trata-se tão somente de um personagem popular, mas não associado à nacionalidade portuguesa.
        Um abraço e quando vierem à Salvador, na Bahia, podem me contactar pra conhecer um pouco do que os nossos/vossos antepassados fizeram por aqui.
        Axé – Epá Babá! Okê Arô!

        • António Figueira diz:

          É claro que a maioria dos idealizadores da cultura brasileira que por aqui se pronunciaram não conhece o Brasil propriamente dito, e é claro que preferem os produtos culturais ditos de “classe média” aos subprodutos da cultura popular brasileira, que também os há, e que a maioria dos brasileiros que por cá aterra (imigrantes económicos) consome no lugar do Chico Buarque ou do Guimarães Rosa que nós amamos. E depois? Se pensar bem, não é uma relação muito diferente da que temos, por exemplo, com os EUA: “ouvimos dizer”, mais do que fomos lá, e gostamos de Woody Allen ou de Philip Roth mais do que dos filmes ou livros ou discos… série Z, que são porventura a maioria do que os norte-americanos produzem e consomem (aliás, são a maioria do que também nós e todos os outros povos da terra produzimos e consumimos em maior quantidade). Portanto estamos todos quites, e conhecemos o que é possível conhecer (somos quem mais conhece, por razões evidentes, de afinidade linguística e cultural, e somos que mais idealiza também, idem idem). Que mais podemos nós fazer? Abraço

        • scriabin diz:

          Vavá,
          Cliché é Cármen Miranda com fruta na cabeça, é outra coisa. Eu, mesmo correndo o risco de cometer um crime etnológico, acho que não fico a conhecer melhor o Brasil ouvindo o Arrocha do que ouvindo o Chico. Que é que dá o selo da brasilidade e atestado de conhecimento de um país? Eu sei que é sedutor e irresistível pensarmos que nenhum estrangeiro conhece absolutamente nada do nosso país (é o cliché mais usado no contacto entre povos), mas o facto é que eu tenho conhecimento de que há um tocador de berimbau a quinhentos quilometros que você não conhece, e então, seguindo o seu critério, terei de chegar á conclusão de que você não conhece nada do seu pais.
          Jesus, Maria, José, Meu Santo Antoninho!

        • Helena Borges diz:

          Gostamos do que gostamos, como o António diz bem aqui em cima.

          Quanto ao desconhecimento absoluto do Brasil sobre Portugal, permite-me devanear e discordar. Grosso modo, terás razão, mas há fagulhas: estou a lembrar-me de uma paraibana militante, a Socorro Lira, que teve a ideia maluca de gravar cantigas de amigo galaico-portuguesas. O resultado é lindo de morrer, ensina sobre Portugal e sobre aquele bocado a norte que não é bem Espanha. O baiano prefere o Psirico, mas eu prefiro a Socorro. Há-de viver no tal Brasil da paixão pelo Brasil e eu gosto de estar apaixonada, a vida sabe mais doce.

          “O brasileiro que sabiamente ignora”? Não querer saber não é sábio e não há “presunção” na partilha.

          Na paz.

          • Vavá - Bahia (Brasil) diz:

            Concordo com muita coisa do que vcs escreveram e outras nem tanto. Mas vcs conhecem tão bem o Brasil, que já devem ter ouvido falar da preguiça e da prolixidade baiana…Essa conversa cairia bem numa tasca ou num boteco, pois são tantos os meandros.

            António, concordo bastante contigo – estamos quites e não há nada a fazer além de viver e gostar do que se gosta. Ponto. Quer gostar do produto cultural da classe média? Goste. Eu amo e não seria “eu” sem Chico B. ou sem Itamar Assumpção. Mas me completo mesmo com algumas manifestações que citei acima e que não são “subprodutos”: Orquestra Rumpillez ( http://www.youtube.com/watch?v=DSQr4xWi48w&feature=related) e o grupo Psirico. Só acho que a gente deve tomar cuidado com a utilização do conceito (ou simples expressão): “subproduto da cultura popular” – uma vez que no Brasil nunca existiu um “produto cultural bem acabado e de grande valor” (nem acredito nesse tipo de coisa) que não estivesse lastreado em algo inferior a um “subproduto da cultura popular”. É desnecessário falar aqui de como se via o samba até surgir a Bossa Nova, em meados do século XX, né? “Pra não dizer que não falei das flores”, falo do G. Rosa que hoje é elogiado (e com toda razão) por ter criado uma escrita inspirada no português inculto, “grotesco”, “animalesco” dos sertanejos. E lá se vai passando pela literatura de cordel e pelo Samba de Roda, Jongo etc (hoje tão estudados quanto louvados e ontem…proibidos!). Isso tudo só pra dizer que, pra mim, é realmente impossível gostar do “produto cultural da classe média” sem gostar daquilo que é “inferior ao subproduto”. Mas, repito, gosto é gosto e eu respeito o alheio.

            Scriabin, quem é Carmen Miranda? Nunca ouvi falar…Outra coisa: em momento algum disse ou insinuei que quem conhece o Arrocha conhece mais o Brasil do quem conhece Chico. Até pq não acredito nessa besteira de brasilidade, baianidade ou tropicalismo (essas coisas que os historiadores da geração de 30 inventaram por aqui e fez até a cabeça de Salazar – leitor e entusiasta do tropicalismo de Gilberto Freyre). Somos um país como outro qualquer – irredutível. E foi essa a tônica do meu primeiro comentário. Quando enfatizei o verbo “conhecer” foi pra responder à sua provocação pescada da canção “Querelas do Brasil” – que, aliás, apesar de ser uma canção lindíssima na voz de Ellis, é tão mistificadora e idealizada quanto a fala de vocês. E não há nenhum problema nisso, já que a totalidade do real é sempre intangível. O erro está em em reconhecer para si o status de “conhecedor” e para os outros de “ignorantes”. Sabe pq? Pq o Brasil não existe. E, como sentenciou vosso compatriota João Bernado: Portugal também não existe. http://passapalavra.info/?p=33125

            Helena,
            concordo com aquilo que é central no seu comentário. Sem mais. A não ser duas coisas:

            “O brasileiro que sabiamente ignora” – foi uma ironia para dizer que a ignorância dele era insconscientemente sábia, se considerarmos que ele conhece um monte de outras coisas e desconhece a própria ignorância relativa. Mas quem disse que ele não quer saber? Eu não fui.

            Uma última informação: no fundo, imagino que você saiba, mas pode ser que algum “conhecedor” do Brasil aqui não: o interior do nordeste brasileiro não existe e a sua amiga Socorro não teve nem uma idéia “louca”, nem “autêntica”. O nordeste sempre foi a Galiza medieval com seus trovadores e vaqueiros. E desde pequeno aprendi a gostar deles, escutá-los e lê-los. Duvidam da veracidade do que falo? Um exemplo concreto em sussurro pra que ninguém me escute aqui em Salvador : a Bahia não é a África do Ilê Ayê ( http://www.youtube.com/watch?v=PJbmHF5DYYI&feature=related ) ,Psirico, Rumpillez, Oludum e Timbalada. A Bahia é galega! Escutem Elomar, de Vitória da Conquista (interior da Bahia), e a sua “Cantiga de Amigo”. http://www.youtube.com/watch?v=vFU6OiF9jBA
            Se assim desejarem, escutem Xangai, Vital Farias e outros da “Casa dos Carneiros”.

            Bem mais sussurrado agora:
            a Bahia não existe…

            Axé! Na paz de Oxalá! Epá Babá!

  5. scriabin diz:

    Vává, eu gosto do que gosto. E vou buscar à informação onde você também vai, onde toda a gente vai. aos jornais, ao youtube, às livrarias, compro cd, descarrego, posso até encomendar na internet aí do Brasil. Por exemplo, encomendei daí o Noites Tropicais, desse guru da classe média que é o Nelson Motta, a média da média da média. Se eu quiser conhecer o Arrocha, eu arranjo meio de ver o Arrocha, seja média, seja um terço de média ou três quartos de média. Eu também consumo proletariado, sem abrigo, classe alta e muito alta. Estou disposto, a perder, como vocês diz “a enorme ignorância ostentada” e correr o tremendo risco de ir ao encontro do povo sábio. Eu gosto do samba do Paulinho da Viola. Conta?
    Não ligue. Eu também gosto muito do Aquarela do Brasil cantado pela Elis, Gosto tudo da Elis, aliás.
    Paz

    • Helena Borges diz:

      Paulinho é cliché! Viste o Saravah (de um francês armado em chico esperto)? Nota 10!

      • scriabin diz:

        Helena, eu gu gosto do Paulinho porque ele é vascaino 😉 Estou a brincar, gosto mesmo daquele jeito dele. E é bonito, ainda por cima. E gosto de samba em geral, nos seus vários géneros e modalidades incluindo e sobretudo aquele da pesada, com bateria e toda a parefrenália. Gosto de quase tudo o que conheço da música brasileira, um exagero, e emociono-me com muita coisa. Todas as vezes que ouço choro, por exemplo. O Carinhoso do Pixinguinha, por exemplo, é uma exaltação (há coisas antigas valiosas, no youtube). E o Nordeste, o baião, o velho Luis Gonzaga. E os Novos Baianos e os Legião Urbana. Isto só de coisas antigas e pre-históricas. E o Tom Zé e muita coisa nova. Só não tenho paciência para a Ivete Sangalo e derivados. o salta-minha-gente-tiró-pé-do-chão. Pronto, e estávamos aqui horas.

        • Helena Borges diz:

          Vamos é ter de segurar-nos, é que eu também sou chorona e isto ainda descamba. O bilhete para o Pixinguinha foi aquele dramalhão do Chico, Trocando em Miúdos:

          — Ó mamã, o que é um pixinguinha?

          Também sou desmedida como tu e também digo que gosto de quase tudo, deve ser o perlimpimpim da memória selectiva. Gosto de todos os que avanças, do Gonzaga velho aos Novos Baianos e, já agora, dos baianos Bárbaros, os Doces.

          Horas e horas e horas…

  6. Helena Borges diz:

    Vavá,

    (Porque é que a ideia da Socorro Lira não é autêntica?)

    A Bahia passou a ser, também, Galiza a partir de meados – finais? – do séc. XIX, quando começou a receber migrantes galegos. Podemos dizer que já era Galiza antes, mas para chegar lá temos de passar por Portugal – os transmontanos são mais galegos do que algarvios, como saberás – e tu não hás-de querer isso. Por alguma razão falei em cantigas galaico-portuguesas. “Conheço” o Brasil com aspas, mas acho que vou conhecendo Portugal sem.

    Desconhecia o Elomar. É lindo, um pedaço do teu Brasil que vou roubar para o meu “Brasil”. Obrigada!

    E quando for a Salvador não vou contactar-te para conhecer a eme que os nossos antepassados fizeram, vou cravar-te uma tarde num boteco.

    Abraço!

    • Vavá - Bahia (Brasil) diz:

      Scriabin,
      admito que carreguei demais quando disse “enorme ignorância ostentada”. Frase bem feia (em todos os sentidos), percebo agora. Mas foi no afã da madrugada. Peço desculpas como “homem cordial” que sou. Gostemos do que gostamos. Eu tenho um quadro da Elis no meu quarto e peço a benção (esse gesto “Yorubaiano”) todas as manhãs quando acordo. Sim, o “Aquarelas” é bonito também, mas prefiro o “Querelas” mesmo. Aldir Blanc no lugar de Ary Barroso. E Paulinho é a elegância suprema do samba (vc conhece o doc.”Paulinho da Viola – Meu Tempo é Hoje”? É tão bom quanto o Saravah da Helena ), mas eu caminho cantando Batatinha – caso não conheçam, sei que vão gostar:
      http://www.youtube.com/watch?v=Mta76tQcZxk&feature=related

      Helena, não posso falar que não é “autêntica” pq não conheço o trabalho da Socorro. Mas a idéia de gravar canções de amigo já foi posta em prática por outros tantos artistas no Brasil. No final, essa questão da “autenticidade das obras” não é a minha praia – em outras palavras, também duvido da sua existência…
      E quando falei de uma Bahia galega, me referia ao Reino da Galiza, aquele que incluia o norte de Portugal e que durante algum tempo teve Braga como capital. Escuta isso: http://www.youtube.com/watch?v=vsF8GYDwsXI

      Um segredo: eu morei em Portugal durante um ano, entre 2009 e 2010. No Porto, morei na Areosa, Paranhos. Em Coimbra, morei no centro, próximo à Pça. da República. Fui “imigrante apaixonado” e “imigrante estudante” – hoje guardo saudades do Alentejo e de Sabrosa, onde encontrei o Portugal que sempre “idealizei”. Não vi, nem de longe, o Algarve – a única região de Pt que não visitei. Diziam-me que já se chama “All Garve” – e o português só se fala às escondidas.
      Lamento, Helena, que eu não tenha sido “a sua colega” – aquela que não soube falar da “fruta gogoia”. No centro cultural D. Diniz (da Univ. de Coimbra) fazíamos, às sextas, um forrobodó e cantavamos Elomar, Xangai e Vital F., só pra mostrar que existiam outras pontes culturais (mais robustas) a nos unir para além das usuais – para além de “Tanto Mar”.

      Por último, não percam tempo com meu bolodório: venham logo ao Brasil, à Bahia. Já passou São João, ontem se foi São Pedro e, oficialmente, já é verão de novo por aqui…

      O meu email para possíveis contatos: vavafilho@nullgmail.com

      Um abraço desse vosso interlocutor transatlântico.

      Axé! Epá Babá!

      • Helena Borges diz:

        A resposta possível, Vavá:

        Casas comigo? Enquanto pensas, vou adicionar-te no fuças.

        (O meu orixá de cabeça é o Omulu, disse-me um quiz.)

        Abraço!

      • scriabin diz:

        Vává, nada de desculpas! Um abraço. Eu gosto do Aquarela, cantado pela Gal, obviamente, e do Querelas, cantado pela Elis, também é claro, cada um no seu lugar. O Paulinho é o supremo cool, mais do que o João Gilberto, com a vantagem daquele sorriso maravilhoso.
        Não conhecia o Batatinha, foi uma boa surpresa para mim. Tenho ainda muito a descobrir, de facto. Quem me dera ir ao Brasil.
        Gostou de Coimbra? É a minha cidade. Pode xingar à vontade 😉

        • Vavá - Bahia (Brasil) diz:

          Coimbra…sil

          …meu Pelourinho (refiro-me ao bairro) em terça-feira de benção, meu lugar de renascimento, meu lugar de reencontro com um Portugal mais sorridente, mais leve, mas, ainda, meu lugar de suplício no cadafalso da xenofobia…”outras palavras”:
          Samba até de manhã no adro da Sé Velha – com direito a bófia e tudo mais que se preza num samba de rua…tunantes…finos mil na ladeira de quebra costas e no cartola…Ijexá de Gerônimo no café Santa Cruz (em evento do SOS Racismo-Coimbra)…Bossa Nova liberada em tasca de Fado na baixa – mas sem pandeiro, é claro…e depois de se perder por aqueles bêcos incríveis da baixa, comer um bacalhau com natas (e presunto, digo, fiambre!) no restaurante do Henrique lá no terreiro da erva…mostras no TAGV…vista pro céu estrelado no pátio da inquisição…mostras naquele teatro aconchegante em frente ao mesmo pátio…com amigos brasileiros, finos tb no bigorna e no cabido e mais samba…encontro na praça do comércio td primeiro sábado do mês (ou era o último?), quando rolava uma feira de antiguidades…passeio no mondego e banho no verão…forrobodó no centro cultural D. Dinis…sim, estudos e pesquisa…meses em frente a um PC na biblioteca do CES (muitas saudades da vista que se tem àquela janela quando chega a primavera…aquele silêncio)…comboio de coimbra A para Coimbra B e vice-versa…saudades da Rita – do SOS Racismo…eventos na república feminista…vc já foi àquela república em que Vinicius de Moraes passou uns dias? “Saudades do Brasil em Portugal” – ele recitava. Coimbra foi uma vida tranquila que tive, vida de observador que só anda a pé. É dificil falar das pessoas, pois só tive contato mais profundo com pessoas que não eram de lá.

          De volta ao samba: Batatinha é a porta principal para uma trupe de sambistas baianos maravilhosos que foram esquecidos, aliás, nunca nem foram lembrados. Busque no youtube Riachão, Ederaldo Gentil, Nelson Rufino, Roque Ferreira,Walter Lima, Firmino de Itapuã, Edil Pacheco, Cacau do Pandeiro, Edson 7 cordas. Em tempo: Paulinho da Viola foi o único a reconhecer alguns desses Bambas baianos – inclusive, levou boa parte deles à região Sudeste na déc. de 70 para gravar e participar de programas televisivos. Em agradecimento, Batatinha compôs esta canção e Paulinho da Viola tornou-se Ministro do Samba:

          “Ministro do Samba”
          Composição: Batatinha

          “Eu que não tenho um violão
          Faço samba na mão
          Juro por Deus que não minto
          Quero na minha mensagem prestar homenagem
          E dizer tudo que sinto
          Salve o Paulinho da Viola
          Salve a turma de sua escola
          Salve o samba em tempo de inspiração

          O samba bem merecia
          Ter ministério algum dia
          Então seria ministro Paulo César Batista Faria!”

          Recentemente, a pop-star do Samba no Brasil (e em Portugal tb), Roberta Sá, gravou um disco lindíssimo só com canções de Roque Ferreira. Escuta só: http://www.youtube.com/watch?v=ewle0VWMf30&feature=related

          Escrever esse comentário foi emocionante. Saudades de Coimbra. Só faltava alguém do Porto, para que eu largasse esse PC e nadasse até Portugal…
          Um abraço.
          Axé! Epá Babá!

          • Helena Borges diz:

            Tripeira presente, nascida e criada! Anda e traz esse samba todo contigo.

          • Helena Borges diz:

            E as saudades! No Amália/Vinicius – aí, Vinicius/Amália –, aquele Vininha que bota um “pouquinho de sotaque” para cantar e aquela Amália que canta o mesmo, Saudades do Brasil em Portugal, em terna desgarrada:

            — ‘Tão vou experimentar eu.

            (Pousa o disco, Scriabin, olha a choradeira.)

          • Scriabin diz:

            O Vinicius esteve, pelo menos, na República dos Kágados, um reduto de anarquistas e revolucionários perigosíssimos 😉 Estive lá muitas vezes, em tempos de esbórnia, que já passaram, Depois do Ateneu, ou de um barzinho ou tasca, iamos para os kágados (acho que ainda nem existia o quebra, nem me lembro). Já não conheço ninguém lá.
            Mas, Vavá, você já conhece mais de Coimbra do que eu! 😉 Já não saio muito. Samba no adro da Sé Velha até de manhã é muito bom!;) Essa tasca da baixa não é o Diligência? Sei como é. Desde que não tenha pandeiro (que tem gente em cima que quer dormir), Seu Jorge tem todo o prazer em dar seu banquinho para quem quiser tocar e cantar.
            Vou ver esses bambas baianos, é claro.

  7. Vavá diz:

    Caso – nem que seja só pra criar caso.

    Disse-te um “quiz”? Virtual?
    Assim sendo, eu só posso saudar: Ajuberô! Atotô!
    Mesmo, no fundo, querendo dizer-lhe: Oraieiêu, Oxum! Aieiêu!

    Axé! Epá Babá!

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  9. Scriabin diz:

    E quando os cantores brasileiros diziam amorrrr e dorrrr. O Grande Francisco Alves, quando as vozes da rrrádio cantavam boleros, tangos e milongas.

    http://www.youtube.com/watch?v=6cInRzqKchE

    • Helena Borges diz:

      Que terceto de violonistas, lá em cima! Andei aos cliques pelo tubo e até fui parar à Cry Me a River pelo Raphael e pela Marisa. Afinal, ela não dá só nos sambas do Paulinho.

      O Pepeu da Baby! Viste aquela entrevista da Consuelo ao Jô? Também no tubo. Simpatizo desde que a topei no Brasileirinho eléctrico do Rock in Rio.

      Amorrr e dorrr e lugarrr!

  10. Vavá diz:

    (Nas primeiras braçadas…)

    Um país tão vasto como Portugal e eu topo logo com um(a) conimbrigae e outra tripeira…”Mundo mundo vasto mundo, se eu me chamasse raimundo…”

    Pois bem, Yamandu é forte, Armandinho é o meu sábado de carnaval, atrás do trio. Sugesta: Scriabin, que tal uma última chance à tal “música pra pular”? Armandinho e Moares Moreira comandando um trio elétrico no carnaval da Bahia. Se vc conseguir passar incólume, deixo-te em paz. Dessa vez, não vale youtube. Vale o “Chão da Praça”.

    No final, só Rafael Rabello é universal e o disco que ele gravou com Ney Matogrosso é a eutanásia permitida para os casos de paixão não correspondida. Não vale youtube, só vinil. Empresto o meu.

    Helena, o “post” com os vídeos de Batatinha foi uma sacada bacana – fiquei todo prosa com a referência. Da mesma forma, o seu texto sobre a “marcha da vadias” também me causa boa impressão. Depois que li o seu texto, a formiga que eu tinha atrás da orelha com alguns cartazes e “questões de ordem” exclamadas, virou um elefante. Essa é uma outra conversa – eu sei – mas li uma frase utilizada em Portugal que não me sai da cabeça: “Não sou brasileira, mas sou puta!”. Lembrou-me o episódio que vivi quando um corretor, no Porto, rejeitou um apartamento por “sabe como é…pronto…andaram por lá umas brasileiras”. E eu, cara pálida, lembrando de minha irmã e minha mãe brasileiríssimas. Outras palavras…

    Bem rápido, lembro das noites no Diligência, concerto de Mariza no Coliseu do Porto, “Casa Viva” na Marquês de Pombal, SOS R. na rua da Almada etc…ufa…consegui:
    Saudades de Portugal.

    Axé! Epá Babá!

    • Helena Borges diz:

      Mas essa lua, mas esse conhaque… A referência era o agradecimento devido, não conhecia os vídeos. Estes MPBs Especiais, Ensaios, Arquivos são serenatas na sala de estar.

      Mas, sempre mas, raio de gente preconceituosa e que tem a emigração na genealogia.

      Ando nas nuvens com o Elomar, ui, voo.

    • Scriabin diz:

      Armandinho e Moraes Moreira? Desconfio que até pulo dois metros! É só mesmo embirração com a Ivete Sangalo e o Netinho. Conheço pouco trio elétrico e já não ouço o Moraes Moreira há muito tempo. Havia um programa na rádio portuguesa feito pelo José Nuno Martins, que já acabou há mais de vinte anos, que só passava música brasileira (como é que se chamava, Helena? Era o Ai Música, não era?), e ouvia lá o Moraes Moreira e lembro-me que o achava divertido. E foi um dos integrantes dos geniais Novos Baianos (mais o Pepeu e tal), que vim a descobrir depois.
      Trio eléctrico conheço aquele do Caetano Veloso, maravilha. Mas receio estar a dizer algum disparate e eu nem sei o que pensam os baianos (pelo menos o Vavá)do mano caetano e resto do clã veloso e sua corte ;). (estou, como se diz por aqui, a tirar nabos da púcara ao Vává ;))

  11. Vavá diz:

    Pelo amor de meu pai Oxalá, Scriabin e Helena, venham logo à Bahia pra gente poder conversar no local apropriado e com as companhias necessárias – ou seja, num boteco, com uma cerveja estupidamente gelada, três doses de cachaça mineira (nada de 51!) e uns acarajés/abarás pra beliscar, só de chegança!

    (Mas com a minha prolixidade nagô, as coisas ficam mais fáceis…)

    É, Scriabin, Ivete é cada vez mais chatinha, apesar de todo carisma pessoal e de ser a princiapal herdeira (junto com Daniela Mercury) de um legado musical que começa lá em 1950, com Dodô e Osmar (inventores do trio elétrico, da guitarra baiana – aquela pequenininha – e do ritmo “frevo baiano”), passa por Caetano Veloso (quando este gravou, em 1977, o antológico disco “Muitos Carnavais” e, antes, em 1972, quando construiram o trio elétrico intitulado Caetanave e de lá de cima eles mandavam: http://www.youtube.com/watch?v=Qx3eirkv4OI), passa por Moraes Moreira (sobretudo quando este sai dos Novos Baianos e vai cantar no trio de Armandinho, Dodô e Osmar).

    Pausa obrigatória: Moraes gravou, com esta mesma galera, o melhor frevo baiano de todos os tempos; atenção, essa canção é o lisérgico mais forte que eu já experimentei atrás de um trio no carnaval de Salvador: http://www.youtube.com/watch?v=iHehf9X8TBA&feature=related

    Recuperando a linha…passa, na déc de 80, por Luiz Caldas ( o pai do “Axé Music”, ou da música pra pular contemporanea – http://www.youtube.com/watch?v=r8M9N1aFY4U – ele cantando esta mesma música 20 anos depois, com Ivete Sangalo – http://www.youtube.com/watch?v=HgkpTU72pQ4&feature=fvwrel; passa também por Daniela Mercury a partir do inicio da déc. de 90 ( sem vídeo “exemplar” – depois da queima das fitas do ano passado em Coimbra, conclui que vcs conhecem ela melhor do que os soteropolitanos); até chegar em Ivete Sangalo – e alguns dizem que a coroa de Rainha da Axé Music já foi conquistada por Cláudia Leite, mas esta eu me nego a reconhecer existência. (Essa genealogia, obviamente, não é exaustiva. Falta muita gente, como o genial Carlinhos Brown, os “Afoxés”, os grupo Afro – Olodum, Muzenza, Ilê etc, os grupos de índio e outras dezenas de bandas de Axé e Pagode baiano…)
    Sem querer largar Ivete, lembrei que o arranjador dela é ninguém menos do que o maestro Letiers Leite – aquele da Rumpilezz. http://www.youtube.com/watch?v=_PcTomt8GaM&feature=fvwrel
    Vivi uma história que vocês rolariam de tanto rir caso escutassem..envolve Ivete, Letieres L. e duas portuguesas desavisadas. Mas essa eu só conto pessoalmente. Afinal, quando chegar o dia do juizo final, no boteco ou na tasca, de que(m) falaremos?
    Netinho, aff maria, esse nem se fala! Quando estive por ai, descobri que ele fez o maior sucesso durante a déc. de 90 com a canção “Mila”, estou certo? Por aqui, ele sempre foi um cantor de Axé, do carnaval de salvador, dos adolescentes e da classe média branca. Andou bastante sumido e agora voltou. Imagine que a música “carro-chefe”, ou música de trabalho (o single!) que ele lançou para o carnaval que passou foi MUITO melhor (em letra) do que as anteriores, e foi exatamente isso: http://www.youtube.com/watch?v=6MFTqO3btPg

    Fofoca musical: Moraes Moreira é ex-sogro de Ivete Sangalo. Seu filho, Davi Moraes – que tb é músico de mão cheia – foi casado com Ivete.
    http://www.youtube.com/watch?v=89YTnI31uxo&feature=related

    Scriabin, Caetano, enquanto músico/artista, é gênio. E, durante muito tempo, o que ele criou foi mais importante para minha formação do que qualquer obra literária. Escutar essa canção ( http://www.youtube.com/watch?v=6yCAguhsnXs ) aos oito, nove, dez anos de idade me fazia desacreditar qualquer professorinha de língua portuguesa – e olhe que, nessa idade, todas elas são apaixonantes. Mas aquele Caetano que se arvora a postulante em debates público, em específico quando o assunto é política…hum…esse deve ser assassinado.

    Caetano, grosso modo, me ensinou a pensar – no sentido do pensamento sempre crítico e autocritico, no sentido do afastamento da coerência, da caretice, das verdades da esquerda nacionalista ou da direita tupiniquim. Daí a caricatura que fizeram dele com o repetido “ou não!” que saia de sua boca. E penso que ele sempre foi assim, desde o início da Tropicália, durante o celeuma das guitarras elétricas, ser de esquerda nacionalista marxista “ou não”, criticar a ditadura ou, simplesmente, enquanto esta torturava e matava, cantar: http://www.youtube.com/watch?v=JHYmnG4YiNM.
    O bacana de caetano é que ele sempre mostra que “sim, é possível sustentar uma posição completamente distinta sobre determinado assunto e estar certo -‘ou não!'”. Foi e continua sendo o único grande artista brasileiro a defender e gravar Axé Music (http://www.youtube.com/watch?v=CuTSjwA1WYI) e o pagode baiano.

    O problema é que ele deixa de ser assim radicalmente crítico e iconoclasta quando o assunto é política e passa a defender o que há de mais conservador na direita ideológica no Brasil: os neoliberais da trupe de Fernando Henrique Cardoso e “o maior intelectual dos trópicos” [sic], Mangabeira Unger. Além disso, caetano cria imbróglios desnecessários quando existem outros tantos assuntos muito mais importantes a serem discutidos na vida brasileira. Exemplos: quando xingou Lula de “analfabeto” e “cafona” ou quando escreveu um texto INDIGNADO porque a prefeitura de Salvador (cidade em que ele NÃO vive há quase 40 anos) decidiu retirar as pedras portuguesas da calçada da praia do porto da Barra – uns 60 metros de calçada. Nada contra as pedras, mas, pqp!, naquela semana, nesta mesma cidade, tinham “desaparecido” dezenas de pessoas em desabamentos e o “poder público” piorava a situação expulsando centenas de famílias de suas casas “ameaçadas” pela chuva. Ele usa o espaço público que possui para criar polêmicas irrelevantes – dizem que é culpa do signo de Leão…Eu não sei. Tirem suas conclusões:
    http://www.youtube.com/watch?v=WTm725AO-FI (Obs. No Brasil, o termo “puto” significa “zangado”, “retado” e nunca “criança”. E, sim, pode ser utilizado no feminino – “puta” – com a mesma conotação. Outra: se ele não tá nem ai para o “The New York Times”, por que tanta raiva, “canalha!?” rsrsrsrsr)
    http://www.youtube.com/watch?v=Ac02ZXH6UHw
    http://www.youtube.com/watch?v=1LlYcslxTNc&feature=related
    http://www.youtube.com/watch?v=1LlYcslxTNc&feature=related
    http://www.youtube.com/watch?v=Bdf2ZL08fSc&feature=related

    No final, o “Cafona” de verdade é caetano – ou melhor, o “cafone” , que em italiano significa tolo, grosseiro e interiorano. Caetano deve guardar algum rancor recalcado por ser nascido e criado em Santo Amaro (cidade baiana decadente próxima a Salvador) e como ele mesmo diz em “Livros” :
    ” Tropeçavas nos astros desastrada
    Quase não tínhamos livros em casa
    E a cidade não tinha livraria. (…)” – http://www.youtube.com/watch?v=7vV22LRNrpk

    Só sei que é por isso também que muitas vezes prefiro o “subproduto cultural” [sic] do grupo Psirico – cujo vocalista e fundador, Márcio Vitor, foi durante alguns anos o principal percussionista do próprio Caetano. http://www.youtube.com/watch?v=61zPgI5uPds

    Vcs já leram o “Verdade Tropical”, né?
    Recomendo “O Mundo Não é Chato” , também escrito por Caetano. Esse livro é uma coletânea de artigos publicadas por ele na “grande mídia” brasileira.

    Do resto da família veloso, eu gosto bastante tb enquanto artistas. Para além disso, hum, são tão insignificantes quanto a minha. Maria Bethânia é a maior intérprete viva que eu conheço – digo isso em geral, no mundo. Jota Veloso – primo de Caetano e Bethânia – é um importante compositor e produtor musical na cena soteropolitana. Eu o conheci e me pareceu simpático. O mesmo em relação a D. Canô – matriarca da família. Quando ela completou um século de vida, há três anos atrás, fui a uma celebração em sua homenagem, em Santo Amaro – mais uma vez, ela me pareceu uma simples senhora católica do antes rico e escravocrata, hoje decadente, Recôncavo baiano.

    “Eu tô te explicando pra te confundir (…)
    E me despedindo pra poder voltar.”
    http://www.youtube.com/watch?v=_CtauEYrdWk

    Axé! Epá Babá!

    • Helena Borges diz:

      Esse “até já” à Tom Zé é perfeito. Li o Verdade Tropical e o Tropicalista Lenta Luta, centenas de páginas mais fino do que o primeiro, mas bom! O Tom Zé é só o meu baiano preferido, ex aequo com o Vavá. É genial e simpático, dá todos os concertos como se fossem o último e mandou o Caetano ir tomar no cu.

      Ora, não é que eu não aprecie o Caetano, aprecio, mas estica-se muito à direita e já tem milhões pelo beicinho, não precisa de mim. Aqueles três discos homónimos são maravilhosos, outros também. Viram o Coração Vagabundo, um documentário de 2008 com uma nesga de Caetano pelado como bónus?

      Gosto da Bethânia e da Gal, imenso! A Bethânia arrasa com o selo Quitanda, a Gal tem mais ar na cabeça. A Betha acerta sempre, do Gonzaguinha ao Gil, já que falas no Gilberto, Scriabin. A Gal, a Gau… É um docinho. Vi-a há pouco na Casa da Música e não esteve mal, passou pela Índia e não deslizou.

      As novelas devem custar-me despedimento com justa causa, Scriabin! Remoí o Luiz Caldas, Vavá, mas lembrei-me do genérico da Tieta.

      Abraços, abraços, abraços!

  12. Scriabin diz:

    Vavá, um dia que eu vá ao Brasil (o filho criado, coisa que demora séculos) o primeiro local é mesmo Salvador da Bahia e só depois o resto todo. Mas só vou a São Paulo por causa do Sampa e porque o meu avô assentou lá muito tijolo no tempo do Jânio Quadros, que ele idolatrava (mais uma japonesa filha do senhorio criador de legumes, mas isso é outra história). Vamo-nos encontrar os três velhinhos a tomar cerveja gelada e a comer essas coisas todas e depois fazer uma ronda pelas igrejas da parte velha e cambalear atrás de um trio eléctrico. E também quero que me leves a Ilhéus e Itabuna, cá por coisas minhas. Digo mais quando a Helena um dia destes fizer um post sobre telenovelas brasileiras.
    Só uma coisa, a Bethânia é a maior intérprete viva do mundo, sim, e sempre foi a maior do Brasil. A Gal só não é ainda a maior Voz, porque já não está lá muito viva, digamos. Vi-a em Coimbra há dois ou três anos e ia morrendo de embaraço (mais embaraçado só quando vi a Blondie, ontem, em cima de um palco na televisão). O Caetano. Em minha opinião, o maior problema que teve o Caetano na última década foi o Morelembaum. O homem deve ser um génio, mas às vezes aqueles arranjos e aquele violoncelo, que parece um rolo compressor, irritam-me mais do que a Ivette e o Netinho juntos (tá bom, fizeram juntos o Fina Estampa e o Noites do Norte). Já vi quatro vezes o home em Coimbra, o Caetano, e a última veio com o homem do violoncello. O Chico acho que veio uma, quando musicou o Morte e Vida Severina e não veio mais e agora é tarde.
    O Caetano é um génio. O que ele fez com a lingua portuguesa e a música brasileira (e vice versa) é genial, claro. E concordo com tudo o que dizes sobre o seu inconformismo anterior (não devia ser fácil afrontar a turma do Geraldo Vandré…) e sobre a forma como actualmente se envolve em polémicas estéreis. A forma como se referiu ao Lula, que eu admiro muito, foi despropositada mesmo. E porque é que ainda não falámos no Gilberto Gil, outro salvadorenho ilustre? Se só tivesse feito o Aquele Abraço, esse raio de sol insano dos anos de chumbo, já poderia ser tombado vivo e feito imortal da academia.

  13. Helena Borges diz:

    E o Jards Macalé, gente?

  14. Scriabin diz:

    Helena, no concerto que vi dela, a voz da Gal estava um farrapo e ela estava meio apática. Fiquei com medo que fosse irreversível. Fico contente por saber que recentemente deslizou bem no India. A erosão da voz é mais trágica para ela do que para a Bethânia, por exemplo.
    Devo confessar uma coisa sobre a Ivete: reconheço que tem um carisma fantástico e é uma força da natureza e que eu, no meu estado normal, seguiria a sua carroça pulando pelas ruas de Salvador (o Netinho, nem arrastado). Mas, para quem, como eu, mora a trezentos metros do queimódromo, axê às duas da madrugada de um dia de semana é pesadelo, literalmente ;). Então, é isso. Fica mal se eu disser que gosto muito dessa? http://www.youtube.com/watch?v=yohwsN12WQU Aí, eu ia para a janela.

    Vává, os meus olhos brilharam quando li o seu “fiquei todo prosa…”. Sei que os brasileiros (alguns, pelo menos) utilizam essa expressão, mas a última vez que a ouvi aqui foi da boca da minha avó, quando eu era criança. Guardem e utilizem vocês aí essa expressão com carinho. Minha vó ia ficar prosa. Partilhamos uma lingua rica, não é? Nada como os ingleses, que têm de carpinteirar muito (e têm excelentes artesãos) para conseguir extrair alguma coisa àquele vocabulário tão limitado.

    Falar em lingua é falar em caetano e então, vamos lá ao O Quereres, um dos seus pontos mais altos:
    http://www.youtube.com/watch?v=97JGiKnzsKc
    Juntei-lhe o Chico, poeta de outra maneira.

    O Caetano estava mesmo puto, nessa entrevista com o Jô. Nunca o tinha visto assim. Puto, criança, continua sempre, mesmo com todas as rugas e cabelos brancos.
    O Macalé foi uma boa surpresa. Livre e criativo. Só conhecia de nome, Helena.
    Já não tenho tempo para ver novelas brasileiras. Não vou arranjar a desculpa (excelente e óbvia) de que tinham uma excelente trilha sonora (excluindo a abertura da Tieta, que felizmente era depois compensada pela aparição da Bety Faria ;)). Eram mesmo histórias fantásticas e excelentes personagens, frequentemente de um humor fantástico. Mas pensando bem, não vou a Ilhéus da Gabriela. Deve estar uma espécie de Fortaleza, sei lá. Vou ver por aí na net.

    • Helena Borges diz:

      Não uma Índia como nos setentas, ela saberá que agora não dá, mas… Competente. O formato foi de voz e violão, o mesmo de há quatro anos no Coliseu (do Porto). Querida, só mais uma, duas, três, quatro. Alguém grita “meu nome é Gal” e ela descarta-se com pinta:

      — É mesmo? Meu também…

      Percebe-se, mas consegue dar-lhe a volta com manha quando quer, nada como antes, percebe-se.

      Ui, O Quereres, gosto de fingir que é a canção que me descreve, mas sou muito mais previsível. E a Bom Conselho, com ligação para o Cacá Diegues?

      Tens de ouvir o Paulinho pelo Macalé! Quase mando a Marisa plantar batatas.

  15. scriabin diz:

    Boa resposta, essa da Gal. Mas esteve mais que q.b. nessa versão recente. Teria receio de lhe exigirem essa:
    http://www.youtube.com/watch?v=Yn5kal5uBUQ
    Já não volta e nem interessa.

    E agora o grande Renato Russo e os seus Legião Urbana, tão longe do que andamos aqui a falar, que teria sido a banda sonora da minha adolescência se tivesse aparecido a tempo. Tenho para aí este cd e mais outro.

    http://www.youtube.com/watch?v=a-LsfXxWAmo

    http://www.youtube.com/watch?v=7YDcS_F8nL8&feature=related

    O Bom Conselho foi uma boa escolha. Apesar de tudo, cliché ou não, o Chico ainda é o máior nesse campeonato.

    • Helena Borges diz:

      Essa, essa… Eu gosto assim, a rebentar tudo e tudo de mansinho. Enche-me as medidas até finais da década de setenta, pela mão do Caetano: os dois homónimos de 69, o Legal de 70, o Fatal de 71, o Índia de 73, o Cantar de 74 e, vá, o Caras & Bocas de 77. A partir daqui, pico umas ali e outras acolá. “Ali” pra fazer cafuné à Elis e “acolá” pra fazer ao Cazuza… E à mamoca!

  16. Vavá diz:

    Carambolas.
    Vou aprumar esse meu sumiço numa resposta logo logo.
    Não fujam à praia ainda, não!

    Andei embolado.

    Axé!

  17. Fernando Sinésio diz:

    Vejo que por aqui desavisados do que é realmente o Brasil ou Brazil, como queiram…
    Muitos nunca visitaram o Braszil e nem sentiram o principal cheiro brasileiro, ao menos!
    Engraçado que o que chega até vocês é só resultado da grande mídia, ou mídia de massa!!!

    O Brazil é muitos mais que a Bahia, o Brasil é muito que Ivete, Mercury ou Netinho(Que por mim não fazem falta!) .
    O Brasil é muito mais que vocês imaginam, ou se quer imaginam…
    Não percam seu tempo! Venham pra cá conhecer a nossa história…

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