UM ÚLTIMO LIVRO: «Paulista de Pindorama, moro em São Paulo desde a adolescência. Isto posto, acho que posso passar por um sujeito sem biografia, pois….

…. minha vida tem se resumido à banalidade de uns poucos desencontros. No colegial, depois de dois anos no científico, pulei pro Clássico. Comecei o curso de Letras Clássicas, nos tempos da Rua Maria Antônia, mas logo desisti. Estudei Direito no Largo de São Francisco, mas abandonei o curso no último ano. Cursei Filosofia na mesma Maria Antônia, e ia me iniciar na carreira universitária, mas piquei a mula em tempo. Tentei me aventurar no estrangeiro, mas dei com os burros nágua. Dediquei uns bons aninhos ao jornalismo, e nunca mais voltei a uma redação. Diante disso, meu caro leitor, e mesmo diante de outros desenganos não tão banais, seria ledo engano concluir que só fiz quebrar a cara na vida. Hoje, finalmente, estou perto de realizar o que mais queria ser quando criança: criador! Nada a ver, está claro, com a auto-suficiência exclusiva dos artistas (Deus os tenha!), que estou falando simplesmente em criador de bichos. É o que venho fazendo no sítio Capaúva, a 250 Km de São Paulo, onde tenho passado mais tempo que na capital. Aliás, se já suspeitei uma vez, continuo agora mais desconfiado ainda que não há criação artística que se compare a uma criação de galinhas»

RADUAN NASSAR, em 1978 anunciando o terminus da sua actividade literária!

Quem não leu, que leia, quem leu, que releia: este tipo foi para o campo, mandou-nos às favas, fez muito bem, escreve ao longo da vida apenas três pequenos livros: o conto Um Copo de Cólera, o “romance” Lavoura Arcaica e os contos Menina a Caminho. Mais nada e nada mais aparecerá – não sei se ele vive numa fazenda tratando bicho, ou na cidade de São Paulo: mas não contem, dele, com mais “literatura”. E escrevam comigo: esqueçam tudo, NASSAR é (não só para mim, pobre de mim!) o melhor escritor brasileiro do século XX.

De Lavoura Arcaica:

(…) que culpa temos nós dessa planta da infância, de sua sedução, de seu viço e constância? que culpa temos nós se fomos duramente atingidos pelo vírus fatal dos afagos desmedidos? que culpa temos nós se tantas folhas tenras escondiam a haste mórbida desta rama? que culpa temos nós se fomos acertados para cair na trama desta armadilha? temos os dedos, os nós dos joelhos, as mãos e os pés, e os nós dos cotovelos enroscados na malha deste visgo, entenda que, além de nossas unhas e de nossas penas, teríamos com a separação nossos corpos mutilados; me ajude, portanto, querida irmã, me ajude para eu possa te ajudar (…)

eu tinha gordura nos meus olhos, uma fuligem negra se misturava ao azeite grosso, era uma pasta escura me cobrindo a vista, era a imaginação mais lúbrica me subindo num só jorro, e minha mãos cheias de febre que desfaziam os botões violentos da camisa, descendo logo pela braguilha, reencontravam altivamente a sua vocação primitiva, já eram as mãos remotas do assassino (…)

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58 respostas a UM ÚLTIMO LIVRO: «Paulista de Pindorama, moro em São Paulo desde a adolescência. Isto posto, acho que posso passar por um sujeito sem biografia, pois….

  1. m diz:

    compreendo que o nassar tenha ido criar galinhas. a religião deu-lhe cabo da cabeça. tanto sofrimento incestuoso.. e gosta mesmo dessa cena sofrida doentia? ui , ui. sádico?

  2. Helena Borges diz:

    Malvado, Carlos! Corri a encomendar os três, não dá para ler isto e picar a mula.

    (Especialmente entusiasmada com a lavoura. Passo os fins-de-semana no campo e tenho mão para a terra, mas coração de manteiga para os bichos. Colho ervilhas de quebrar na Primavera, tomates coração de boi no Verão, dióspiros no Outono e pencas no Inverno. Nunca tive queda para as rúculas, acho-as uma mariquice, embora saborosas naquelas sandochas de salmão. Os bichos são um problema, há uns anos, comprei frangos: uns foram roubados e outros comidos pelos cães, sobra a Ritinha, velha e gorda. Como a bicharada sem espigas, desde que não a tenha visto crescer. Mas tu não hás-de perceber isto, constou-me que és um bocado torero.)

    • Carlos Vidal diz:

      Não, torero nada, nem tenho costela ribatejana (e há quem tenha, e faça disso emblema).
      Torero só através da “Carmen” do Bizet (por coincidência, de onde venho acabadinho de chegar, S. Carlos, um poço infinito de sentimento “faca e alguidar” melodicamente com pouca coisa a rivalizar. O Nietzsche, quando cortou com o Wagner, dizia que esta era a melhor ópera jamais escrita; daqui a pouco, estão outros a chamar-me pedante por esta conversa – Dados: a maestrina Julia Jones até foi o melhor da produção, fraquita mas nada má, Julia Jones é uma mulher de força e mão naquela malta da Sinfónica Portuguesa, acho que se despediu de Lisboa e vai para outras bandas, fez bem; mas volta, estará tudo bem, é normal.)

      Ou então, constou-te o meu lado torero que vem do meu lado Bataille (que tu conheces como ninguém, o Bataille, claro).

      Os livros do Nassar: o Lavoura e o Copo de Cólera estão na Relógio d’Água. O Menina a Caminho não sei (tenho ed. brasileira).

      Até muito breve. Bj

      • Helena Borges diz:

        A Carmen só em disco. Gosto, muito, mas sou mais tropical e folclórica. E gosto de pianos, do Pollini a arfar para cima das teclas e da Argerich, mais popstar.

        “Conhecer como ninguém” é gentileza tua e tu sabes! Até porque não lhe li os ensaios, ainda, só as taradices.

        Fiz assim com os livros do Nassar: encomendei a menina e o copo à Leitura; tratei da lavoura com a Relógio D’Água. Por site e por e-mail. A menina tem edição da Cotovia, é a que vem.

        Está quase! Beijo.

        • Carlos Vidal diz:

          Fizeste, e muito bem. O Nassar seria barroco, se classificá-lo fosse útil, mas duvido.

          Por falar em tropical e “folclore”.
          Apanha este disco, vais-te passar: “Fiesta”, um dos discos loucos da louca Orquestra Juvenil Simón Bolívar (na capa: Simón Bolívar Youth Orchestra of Venezuela), com o seu maestro-pai, a vedeta mundial dos maestros, o Gustavo Dudamel. Música clássica latino-americana. Vai ao you tube, sff, e ouve e vê o Dudamel a dirigir “Danzón 2” de Arturo Márquez.
          A editora é a DG, Deutsche Grammophon.
          Fascinante. Conhecias?
          (Volto amanhã bjs)

  3. Pingback: Já que queremos ir ao lado de baixo do equador | cinco dias

  4. |y| diz:

    O melhor. Não só para mim. Qualidade objectiva, discernida por muitos. Sente a necessidade de validar a sua mui pessoal preferência com um consenso alargado. (não apenas por mim, pobre de mim!!) Sentirá pena de si próprio ou será apenas a falsa modéstia ao serviço da validação democrática? O Nassar é o Melhor. Sim, sim, parece-me evidente que a criação literária tem muito que ver com a criação de galinhas. lol

    • Carlos Vidal diz:

      Essa da criação literária nada ter a ver com galinhas, é boa, muito boa.
      (Parece-me, cheira-me que conheço este anónimo, mas não posso estar certo, claro.)
      Quer uma dissertação sobre porque é que uma OPINIÃO não tem interesse nenhum? (Sou tosco para isso?)
      O que conta é uma sequência; explico melhor: uma obra só é fundamental quando acontece 2 vezes; Duchamp invetou a linguagem na arte (o nome); a arte conceptual, nos anos 60-70, continuou-o.
      Alguém diz uma coisa de Nassar, anos depois isso é repetido e as influências do homem saltam. Assim, Nassar “aconteceu duas vezes”. É a única forma de avaliar.
      |y|,
      Acho que estou a perder um tempo precioso. Vá jantar.

  5. |y| diz:

    Eu acho que sim também. Concordo. Está a perder tempo precioso. O tempo tem valor. Tudo tem valor. Tudo isto é uma metafísica de cálculos precisos. Pois eu, meu caro, não gosto do valor do tempo. Abomino-o. A minha vida poderia terminar já. Neste preciso momento. Não saberia que valor lhe dar. Não saberia avaliar quão precioso foi o tempo na minha vida. Nem antes, nem depois, de jantar. Sim, sim, é muito mais interessante contabilizar e administrar o tempo. Saber qual dos tempos é precioso. Tarefa ingrata. Discernir o valor das coisas. Arregimentar. Contabilizar. Vá jantar. O tempo para jantar chegou. O tempo só é precioso para os que morrem, Vidal. O tempo é esquecido por aqueles que vivem sem morrer.

    • Carlos Vidal diz:

      Não gosta do valor do tempo. Abomina-o. Também eu (estava a escrever uma carta de recomendação, por isso enganei-me, precipitei-me – falei no “valor” do tempo: a vida prega-nos partidas).
      Subscrevo na íntegra o seu impressivo comentário, apesar de ser um facto que V. mudou de assunto (primeiro era o juízo, o juízo de gosto, não se esqueça).
      A saber, exactamente: falávamos de juízo, não propriamente de tempo.

      Há um artista que eu muito prezo que também começou a abominar a transformação de tudo em “valor”, tem piada.
      Cito-o no meu post sobre os “meus livros”. Sabe quem é??
      Sabe a quem me refiro??
      (Poucos o lêem por esta via, mas eu acho esta mesma via essencial para avaliar o tal católico hipocondríaco que muito prezo.)

      • Carlos Vidal diz:

        (ah, enganei-me na suspeição da identificação do anónimo |y| que tinha quase como certa. V. é mais inteligente que o outro. Repito: enganei-me. Seja bem vindo. Mas não hierarquize demais. Não ponha de qualquer modo a “arte” acima das “galinhas”!)

  6. |y| diz:

    Porque raio gostaria eu de ler uma dissertação sobre porque é que uma opinião não tem interesse nenhum? Demonstraria que todas as opiniões são desinteressantes ou destituídas de substância ou de inteligência? Você nunca aprendeu coisa alguma com uma (mera) opinião?
    Não seja petulante, Carlos. A petulância é coisa de imbecis. Não se falsifique.

    • Carlos Vidal diz:

      A conversa está deveras interessante, estamos a comentar quase ao mesmo tempo, urgência impulsionada pelo assunto, quiçá.
      Tem razão quanto ao tempo e quanto à opinião. Há quem jugue que Platão abominava todas as opiniões (para salvar a verdade). Mas não era bem assim. Muitos helenistas platonistas crêem que Platão relacionava também opinião com conhecimento. Mas ao que eu me referia era a UMA (1) opinião.
      Como digo: um autor é importante se for importante “duas vezes”.
      Sequência, reavaliações sem fim, trauma, enfim: algo acontece se acontecer duas vezes.
      (1) UMA (1) vez não é nada.

  7. |y| diz:

    Limitei-me a reagir, a satirizar, se preferir.
    Acho que percebi que abordava o juízo.
    Católico hipo-con? Será Heidegger? Mas você falou em “artista.”
    Não pode ser Heidegger, portanto.
    Logo: não, não sei de quem fala.

    • Carlos Vidal diz:

      O Heidegger católico é um tema importante.
      Caputo, que não li na íntegra, explicou como o alemão é devedor de S. Tomás de Aquino (nada mal pensado).
      Mas não era a Heidegger que eu me referia.
      Era a Warhol. Acho que ele abominava o “valor”, sinceramente. Por isso, repare atentamente, derreteu-o nos seus “Diários”. Aparentemente, não há lá nada, naquelas 800 páginas, que tenha “valor”. Um génio, o homem. Crítico, dissimulado, artista.

  8. |y| diz:

    Da preciosidade do tempo á identidade do |y|
    Worry not, Vidal. A identidade é ainda menos importante do que o valor do tempo.
    lol

    vou pôr-me a andar daqui antes que você comece a chamar-me de fanático. 🙂
    boa noite.

    • Carlos Vidal diz:

      Fanático?
      Nunca.
      Já o classifiquei como “bem vindo”.
      Quanto a pôr-me a andar daqui é o que eu vou fazer, pelas horas, e pelo turbulento serviço que amanhã terei pela frente. Só por isso. Volto.

  9. |y| diz:

    O John Caputo? Esse conheço, mas prefiro Alphonse Lingis. E prefiro Dastur ou Kofman (sarah) a Caputo, any day. Heidegger não é o meu preferido: a apreensão da morte como sine qua non da autenticidade existencial é coisa excessivamente mórbida para o meu gosto. A morte como condição da vida é uma noção macabra. Trés nazi pour moi.

    Sensibility

    aqui

    http://books.google.com/books?id=Rbu8w7Pz8ggC&printsec=frontcover&dq=totality+and+infinity&hl=en&src=bmrr&ei=cU0ITuHEOYnChAeQipHeDQ&sa=X&oi=book_result&ct=result&resnum=1&ved=0CCkQ6AEwAA#v=onepage&q&f=false

    • Carlos Vidal diz:

      “a apreensão da morte como sine qua non da autenticidade existencial é coisa excessivamente mórbida para o meu gosto.”
      É de uma morbidez que só um deus pode salvar quem assim pensa. (Estou a brincar.)

      De qualquer forma, nazi é que isto não é.

  10. |y| diz:

    Vulgarizei o pensamento de Heidegger.
    As minhas desculpas.
    O que eu pretendia dizer:

    A morte como condição (da apreensão plena da, autenticidade) vida é uma noção macabra. Trés nazi pour moi.

  11. |y| diz:

    Mas gostei da fotografia. Herd mentality. lol

    • Carlos Vidal diz:

      É, supostamente, a fazenda do Nassar (não é nada.)

      • Carlos Vidal diz:

        (Ah, e uma última observação: quando atrás disse que |y|, anónimo, era alguém que eu estava a identificar, no primeiro pensamento enganei-me de facto. Depois, pensei outra vez, e quanto ao segundo pensamento/identificação estou certo. Como estou certo de que é mais inteligente, muito mais, do que o “anónimo” que, pela primeira vez, me veio à cabeça.)

  12. |y| diz:

    O tempo precioso.
    O x é mais ou menos inteligente do que o y.

    “nazi é que isto não é,” diz o Vidal. Não explica porquê. Informa-nos de que não é. Deve bastar, certamente. Algures, deve ser mais do que suficiente.

    eu sou menos inteligente do que o y anterior
    decididamente.
    fique lá com os seus anónimos.

    • Carlos Vidal diz:

      Não, não é nazi. O ser que pensa o ser do ser (dasein) que é queda e angústia, não é nazi. Nem inspira nada que com o nazismo ou o fascismo se relacione. O meu apreciado Marinetti, por exemplo, já pode ser. Mas é contraditório: celebra a força e a guerra, odeia a história.
      O que é que eu disse dos “anónimos”? Que ao princípio me parecia x e no fim me surgiu |y| que, obviamente, também é z. (Z de zq., de zionism, etc.)
      E disse que |y| ou z (o mesmo) é mais inteligente que x, pois este nunca seria capaz de escrever isto:
      “O tempo só é precioso para os que morrem, Vidal. O tempo é esquecido por aqueles que vivem sem morrer.”
      Vamos z. está a ir bem.

  13. |y| diz:

    “Nem inspira nada que com o nazismo ou o fascismo se relacione.”

    A não ser o próprio Heidegger. Assim se separa a filosofia de um homem da sua biografia política.

    Você não é capaz de identificar os aspectos “nazis” (sinistros, etc) ou fascistas (decisionismo) no pensamento de Heidegger??? Não há nada no seu pensamento que lhe sugere que ele era um fasciszoite nazi?? Brilhante. Você é muito perspicaz, Vidal.

    PS: Engana-se quanto à identidade de x e y. Anda lá perto, but not quite. Somos 10 a viver aqui. Não se precipite.

    • Carlos Vidal diz:

      COMUNIDADE, portanto.
      Diria Heidegger, um deus virá para vos salvar: Holderlin, o poeta, o louco sem destino e sem memória, Parsifal é outra hipótese.

      Nazismo no homem? Isso é uma conversa com décadas. Sim e não. Digamos, para não retomarmos uma conversa com centenas de títulos e milhares (milhões?) de páginas que há mais nazismo na “fraseologia” do homem do que no seu pensamento, o que não quer dizer que não haja no seu pensamento.
      Que mais adiantar a esta hora da noite?
      Bons olhos o revejam, caro |y| ou |z|. Vem inspiradíssimo (|x| não é V.)

      Ah, e deixe-se de “comunitarismos” (dez a viver em casa!…). Virou platonista, foi, seu anglófilo empedernido?
      (Sinceramente: “conflito entre mundo e terra”, “pastor do ser”, “casa do ser”, “só um deus nos pode salvar”, isto é nazi? Estas fórmulas não são, a fraseologia que se lhes segue, não sei. Não sei mesmo. V. sabe?)

  14. |y| diz:

    Nazismo do homem, não.
    Nazismo, fascismo, no pensamento filosófico de Heidegger. Sejamos precisos.
    Como sabe, são muitos os aspectos de dasein-Dasein (2 formulações distintas em heidegger). Eu não falei do ser que se interroga acerca da natureza do ser (o Ser do Dasein é interrogação, como sabe). Falei da relação da morte, da finitude, com a autenticidade. Este foi o aspecto que mencionei. Raffoul, Beistegui, Hans Sluga, Critchley, Schurmann (mas Faria, não) etc já consideraram esta questão, tão profícua quão problemática.

    Uma pequena pista existencial-discursiva sob a forma de uma interrogação: em que movimentos políticos é que o léxico do “pastor do ser”, “casa do ser” , é invocado ad eternum ad nauseum? Não nota quaisquer semelhanças com ideologias “sinistras”??

    Por acaso, mesmo por acaso, encontrei este artigo no Guardian, do Critchley (intérprete que muito prezo, apesar dos seus muitos devaneios pela trivialidade.)

    Era deste assunto que eu estava a falar, Carlos. Não se disperse.

    http://www.guardian.co.uk/commentisfree/belief/2009/jul/13/heidegger-being-time/print

    • Carlos Vidal diz:

      Ó meu caro, mas aqui não vejo grandes hipóteses de concordância. E até acho o homem mais fascista que o seu pensamento. Repare. Que faz Heidegger? Coloca (Sein un Zeit, não depois) a ontologia no centro da filosofia (já reparou como Badiou faz o inverso? Diz que a ontologia não pertence à filosofia, mas antes à matemática – ah, lá voltamos ao “múltiplo puro”). A ontologia é inevitavelmente finitista. O §50 de Sein und Zeit desenha o ser numa tripla frente: existência, facticidade, queda, removendo, pretendendo daqui remover a ontoteologia. Neste parágrafo, o ser não se “vai perdendo”, ele está de antemão perdido. Onde é que está o fascismo neste primeiro Heidegger?
      Fala-me em “autenticidade”, mas Heidegger fala antes em facticidade e angústia. Logo… resta-lhe o Heidegger que repõe a ontoteologia, o do “só um deus nos pode salvar”, o, no “Para quê poetas?”, que nos diz “apagou-se na história do mundo o fulgor da divindade”. Ora, de facto (conteste, sff), este Heidegger é, claro, um desenvolvimento do primeiro: então, ou são os “dois” fascistas ou não é nenhum dos “dois”. E nisto eu me consumo. E muitos mais se consomem. V. já tem uma solução?

  15. |y| diz:

    Quase que me esquecia de Michel Haar.
    Le chant de la terre.

  16. |y| diz:

    a questão da autenticidade surge, como sabe, em 53.
    no 50 que menciona, trata-se de interpretar a morte, being towards death, nos termos das 3 estructuras ontológicas que apontou aqui, com razão.

    o que há de problemático não surge em 50 mas em 53, apesar de heidegger afirmar que a morte deverá ser entendida nos termos das 3 onto-estructuras que mencionou. ora, a sua formulação da morte, da finitude, transcende as limitações dos termos-conceitos expostos em 50, preliminarmente. em 53 surge algo de radicalmente novo que não pode ser adequadamente compreendido (apenas) no contexto do enunciado em 50. o primeiro heidegger é decididamente fascista (não disponho de tempo para elaborar, não é desculpa…) o segundo, o que contempla a pluralidade e a potencialidade como deve ser, não o é. porquê? pense, Vidal. a resposta é deliciosamente simples: a ideia da potencialidade

    preste atenção a 53 sem descuidar das teses de 50. mas há aqui uma ruptura: o care, sorge, é profundamente transformado com as qualificações de 53. o being towards death implica uma valorização sinistra da morte.

    solução? haja que há “soluções”? e, pior, acha que eu estou à procura de uma solução?

    agora posso dizer: pobre de mim. (e n se trata de falsa modéstia)

    boa noite

    • Carlos Vidal diz:

      Mas o parágrafo 53 é uma consequência do edifício ontológico do autor.
      Sim, é verdade, “existo porque vou morrer”, é essa a “sinistra valorização da morte no autor” não é verdade? “O Moribundus dá, primeiramente, ao Sum o seu sentido”, exacto, na “História do Conceito de Tempo”. Então, se o Ser é a Queda, como pode a condição do Ser ser outra que não o famigerado Cuidado?
      Não creio que o problema da génese ou do fascismo, ou da génese do fascismo no autor se manifeste aqui (em 1926!!) tanto quanto no célebre Discurso do Reitorado: “Só um mundo espiritual é, para um povo, garante da sua grandeza”. Etc.

  17. |Y| diz:

    Excelente exemplo, de que não me recordava: “existo porque vou morrer”, o êxtase do ser-para-a-morte. O cuidado, com o ser para a morte, sofre uma profunda transformação: o cuidar da morte. percebe? o êxtase do cuidar da morte?

    • Carlos Vidal diz:

      Quando li “excelente exemplo” julguei, repentinamente, que se estava a referir à minha referência ao Discurso do Reitorado. Mas não. Era ainda ao Sein und Zeit, parágrafos 50, 53, ou à “História do Conceito de Tempo”.
      Há uma coisa, pequena grande coisa, que me intriga no seu raciocínio.
      Aonde quer chegar com essa crítica radical ao Sorge?
      Chamou-lhe “êxtase do cuidar da morte”, mas também lhe poderia chamar “êxtase do cuidar do ser”. Ou não?
      Entretanto, fiquemo-nos pelo “êxtase do cuidar da morte”. Está a querer passar daqui para uma espécie de “êxtase pelo extermínio”?

  18. |y| diz:

    E há mais, Vidal. Muito mais. Seria simplesmente absurdo se o nazismo de Heidegger fosse meramente acidental ou uma inócua coincidência, não acha?

    Sim, o êxtase do cuidar da morte é sinistro. Profundamente sinistro.

    E há uma outra questão: a absolutização do indeterminado.

    Continuaremos a nossa discussão noutra altura mais oportuna, quando publicar um post sobre o assunto, por ex.

  19. m diz:

    eu gosto de cuidar da morte. nada tem de sinistro. porque a morte , a nossa , não é sinistra. liberta. sinistra é a morte de quem nos faz falta.
    um tem paranoias com o sexo , um bicho de sete cabeças meter a mão na braguilha , em pleno sec xxi , onde até as mulheres se masturbam !!, o ouitro , giraço virtual ( eu fiquei a achar que o Y é bonito , vá-se lá saber porque) e bem falante a maior parte do tempo ( não que ele ligue ao tempo ), gagueja e diz palermices quando toca a morte . rapazes…vejam lá se atinam: a gente nasce , fornica ( e é bom!!) e morre. assim de simples. e cultivem a simplicidade porque de isto não passa , queira o heidegger ou não.. leiam o habermas , que esse , sim , é simples. ensina coisas que nos servem.
    e CV , eu sou saudável , e por o ser , não compreendo louvores à dor. o Nassar que se trate. eu gosto bem mais de Irvine Welsh , doente assumido e mais do meu século. qual sofrimento , qual carapuça. desprezo é o que está a dar.

    .

  20. |y| diz:

    m

    a gente nasce, fornica, morre e no entretanto que antecede o inevitável Fim, lê o chato do Herr Habermas lol desperdício de tempo.

    Habermas, simples e imensamente chato. kantiano, como n poderia deixar de ser. todos os kantianos e kuntianas são chatos/as

    porque a morte , a nossa , não é sinistra. liberta. sinistra é a morte de quem nos faz falta.

    a morte dos outros é sinistra
    a minha, ou melhor, a sua, é libertadora

    por essa ordem de ideias: a sua morte será sinistra para os outros mas não para si???
    seguindo a sua lógica: se a morte dos outros é sinistra para si, seria lógico presumir que a dor dos outros também seria dolorosa para si, correcto?? ora, se a sua morte seria sinistra para os outros, seria também para si, pela via da dor dos outros,com quem empatiza. (viu: full circle, boomerang) logo, a sua morte seria sinistra ou dolorasa para si pela via da dor que causa nos outros?? percebeu. é por isso que não faz sentido afirmar o que afirmou.

    a morte como libertação é uma ideia que aflige os suicidas. não pense assim. deveras sinistro. a morte é um enigma. você não sabe se é libertação ou x oy y. não pode saber. quem lhe disser o contrário está a mentir, evidentemente. a morte é indeterminada.

    mas, a bem da verdade, não era isto que eu e o CV estávamos a discutir, m
    você interpretou-nos mal, julgo eu.

    • Carlos Vidal diz:

      Subscrevo de há muito o que aqui vem sendo dito, por |y|, sobre Habermas.
      Filósofo “correcto”, humanista e chato.
      Aprecio-lhe a “transformação estrutral do espaço público” (uma importante arquelogia do tema, ainda muito nosso e actual), não aprecido a “acção comunicativa” como “porta para consensos” (dizia Skiterdijk, inimigo de Habermas, que este acreditava que tudo se podia resolver numa conversa de café – e não pode, pois não?).
      Se eu colocar o Jurgen junto a Heidegger (polémico e perigoso, este), Jurgen não pode ser considerado pensador e Heidegger sim.
      m é mais simples, fala da dor da morete de quem nos falta, logo da morte de quem morreu – mas em Heidegger essa coisa (morte, morta) está inscrita em nós desde sempre, e nem precisa de “realizar-se”.
      Continuarei com |y| esta discussão noutro lugar (e com m também).

  21. |y| diz:

    PS: m, eu gostaria muito de gaguejar consigo. lol

  22. |y| diz:

    funny funny. agora estou aqui a imaginar a m. nooo. nooo. virtual, delusional, tripic, paralyptic, femmatrip. noop. nem pensar nisso. the real thing only. 🙂

    m whatever, tou numa de partisan Srpska hoje…

    http://soundcloud.com/mkdsl/mkdsl-sitnije

    o sr prof Vidal talvez goste disto. ná é beet oven, mas funciona.

    “simpática, interessada e atenta.”
    curiosity killed the cat lol
    uhmmm

  23. |y| diz:

    clikar em r ao lado de 128k stream

    http://www.nuskoolbreaks.co.uk/forum/index.php

    prof vidal, não perca isto. vintage.

    a sério.

  24. O ser em si e para si dos tedescos
    COLÓNIAS NA ÁFRICA
    África Oriental Alemã, tomada de posse em 1884/85
    Território de Tanganhica
    1920 à Grã-Bretanha –
    1961 Estado Independente de Tanganhica/1962 República de Tanganhica – Abril de 1964 parte da República Unida de Tanganhica e Zanzibar/desde Novembro de 1964 da República Unida da Tanzânia
    Ruanda-Urundi
    1920 à Bélgica –
    1962 República Ruandesa (parte norte)
    1962 Reino do Burúndi/desde 1966 República do Burúndi (parte sul)
    Triângulo de Quionga
    1920 restituído a Portugal (África Oriental Portuguesa) –
    1975 parte da República Popular de Moçambique/desde 1990 da República de Moçambique

    África do Sudoeste Alemã, tomada de posse em 1884

    1920 à União da África do Sul/1961 República da África do Sul –
    desde 1990 República da Namíbia

    Camarões, tomada de posse em 1884

    Camarões Ocidentais
    1920 à Grã-Bretanha –
    1960 parte do Estado Independente da Nigéria/desde 1963 da República Federal da Nigéria (parte norte) e 1960 parte do Estado Independente da Nigéria –
    1961 parte da República Federal dos Camarões/1972 da República Unida dos Camarões/desde 1984 da República dos Camarões (parte sul), respectivamente.
    Camarões Orientais
    1920 à França –
    1960 República dos Camarões –
    1961 parte da República Federal dos Camarões/1972 da República Unida dos Camarões /desde 1984 da República dos Camarões
    Neukamerun (Novos Camarões) – agregado aos Camarões em 1911 – foi readjudicado em 1920 às colónias adjacentes da África Equatorial Francesa (AEF):
    Chade (1960 República do Chade), Ubangui-Chari (1960 República Centro-Africana, 1976 Império Centro-Africano/1979 República Centro-Africana), Médio Congo (1960 República do Congo/1970 República Popular do Congo/1992 República do Congo), Gabão (1960 República Gabonesa), respectivamente.
    Togo, tomada de posse em 1884
    Parte Ocidental do Togo
    1920 à Grã-Bretanha –
    1957 parte do Estado Independente do Gana/desde 1960 da República do Gana
    Parte oriental do Togo
    1920 à França –
    desde 1960 República Togolesa

    Aqui e Agora, Hoje
    na EUROPA,
    Portugal e Espanha,
    E para os outros em si – ditos Grandes Beefs,
    Grécia e Itália.
    Turquia e Kosovo mantêm-se para os EUA.

  25. Ah pois! Lá vou levar com o “moderneirismo” mais uma vez, os bons dos nossos anões às costas de gigantes. Entretanto estou no De surcroît do Marion, o destino marca a hora.
    Continuas a tratar mal os teus clientes? Sabes bem que para O Stº Agostinho o mal não existe.
    Abraço.

    • Carlos Vidal diz:

      E esse café onde estás é em que nação?
      No Porto?
      Tratar mal, não. Pensando apenas em imitar o grande Nassar.
      (Já de férias? Maldita faculdade!)

  26. Esse é o Magestic, comprometido com a velha aliança de 1200 anos.
    O habitual, o bem humilde e discreto restaurante tertúlia R in Chiado sobrevive na capital do Império, sem adjectivos nem superlativos, apesar das compulsivas criações literário-plástico-musicais. Por outro lado a Universidade de S. Paulo mantém a legenda Scientia Vinces.

  27. O primeiro tratado entre as coroas de Portugal e de Inglaterra foi assinado na Catedral de
    S. Paulo a 16 de Junho de 1373.

  28. Queres mais conversa sobre o Holocausto, vai ler o Génesis 22,13 e de caminho toma uma banhoca de imersão quente para baixar a tensão, os sais podem ser de mandragora em si.

  29. Evidentemente, mas estou mais próximo do Fanon e do Ki-Zerbo.
    Oh! excusez moi, Monsieur, je ne l’ai pas fait exprès. Eh bien, vous m’avez convaincu, jamais personne n’avait évoqué auparavant avec tant de savoir et d’eloquence l’avenir de la Palestine.

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