O meu nome é Rumpelstiltskin!

 

1. Existe um livro que lerias e relerias várias vezes?

Há um livro que pego sempre com prazer para reler: Sobre Arte, Técnica, Linguagem e Política. Além do célebre ensaio sobre a obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica, e outros muito citados, há um maravilhoso ensaio sobre o narrador, onde se lê esta pérola:

O tédio é o pássaro de sonho que choca os ovos da experiência. O menor sussurro nas folhagens o assusta. Seus ninhos – as actividades intimamente associadas ao tédio – já se extinguiram na cidade e estão em vias de extinção no campo. Com isso, desaparece o dom de ouvir, e desaparece a comunidade dos ouvintes. Contar histórias sempre foi a arte de contá-las de novo, e ela se perde quando as histórias não são mais conservadas. Ela se perde porque ninguém mais fia ou tece enquanto ouve a história. Quanto mais o ouvinte se esquece de si mesmo, mais profundamente se grava nele o que é ouvido. Quando o ritmo do trabalho se apodera dele, ele escuta as histórias de tal maneira que adquire espontaneamente o dom de narrá-las. Assim se teceu a rede em que está guardado o dom narrativo. E assim essa rede se desfaz hoje por todos os lados, depois de ter sido tecida, há milénios, em torno das mais antigas formas de trabalho manual.

 

E há um livrinho, que não só relerei, como costumo ler em voz alta a pessoas de quem gosto muito. Em particular, a passagem onde o velho rico de Macau decide que uma história vai passar a poder ser realidade, por capricho seu. Um marinheiro pobre será pago para passar uma noite com uma bela mulher. Uma história imortal.

2. Existe algum livro que começaste a ler, paraste, recomeçaste, tentaste e tentaste e nunca conseguiste ler até ao fim?

Não consegui ainda, mas vou fazê-lo. Não é um livro longo. É um livro fascinante. É denso, mas não inacessível. No primeiro capítulo, uma criança desenha uma paisagem nas dunas, sentada sobre o osso de uma baleia. No segundo capítulo, descreve-se com exactidão a mesma paisagem vista da janela de uma casa. Depois descrevem-se diferentes imagens representando aquela vista da janela. A criança conversa com um adulto sobre o desenho que fez. Há uma memória (um sonho?) de aranhiços invadindo um berço. Mede-se a casa, avalia-se a sua resistência às intempéries. Fazem-se mapas. Sempre que retomo este livro, Finisterra, volto ao princípio para não perder o fio do pensamento. Porque não é uma história. É um poema. Uma leitura alerta e pensante.

3. Se escolhesses um livro para ler para o resto da tua vida, qual seria ele?

Quereria que fosse um livro muito, muito longo.

Escolheria uma de três possibilidades, não podendo tê-las todas juntas. O livro que contivesse todas as palavras, um livro sobre o mundo, onde estivesse contida toda a informação disponível e as explicações necessárias à correcta identificação das coisas. Ou então, o Primeiro Livro: o livro que contasse as histórias primordiais dos homens, os seu poemas, as suas lendas e acontecimentos, com os seu nomes, os nomes dos seu filhos e filhas e os lugares por onde passaram e viveram. Ou então, finalmente, o livro onde se explica a sociedade contemporânea e as relações entre os homens, desde a sua formação, expondo-as de tal modo que que nos permitisse compreendê-las e transformá-las.

Ainda não li, inteiro, nenhum destes livros.

4. Que livro gostarias de ter lido mas que, por algum motivo, nunca leste?

O Capital, Em busca do tempo perdido, Moby Dick.

5. Que livro leste cuja “cena final” jamais conseguiste esquecer?

Curiosamente, descubro que, dos livros que muito me marcaram, de poucos me lembro da cena final. Li recentemente a cena inicial e a cena final de Tom Sawyer. A minha cena inicial era afinal a segunda cena – aquela em que Tom pinta um tapume. Do final já nem me lembrava. Só de Becky…

Mas sei de alguns, de cuja cena final não só me lembro, como me marcou tanto como o próprio livro. Dou-me conta de como são descurados os fins dos livros. E de como os finais que nos marcam são como inícios de outro livro, de outra história. São ricos, mudam o ritmo da história, surpreendem-nos com decepção, ou com novidade.

Na Praça do Diamante, ficamos sem chão quando – lembrando o amargo final do Esplendor (quem souber, sabe de qual falo, o único Esplendor…!) – quando a mulher sofrida e cansada no meio da guerra, se abraça na noite ao anónimo merceeiro adormecido, que substituiu na cama o seu marido. O enigmático e soberbo diálogo da catedral, n’O Processo, que, não sendo cena final – pois não sabemos o que seria a cena final -, mata tudo o que pudesse crescer depois. E, por fim, a cena final antes de todas: aquela em que o jovem dos esteiros se atira (nada? corre? viaja?) ao rio, rumo a Lisboa, a cidade como promessa para os homens que nunca foram meninos.

(Seria desonesto se ocultasse um final ainda mais enraizado no fundo do meu tempo: a absurda raiva da criatura Rumpelstiltskin que, ao ser descoberta, bate violentamente com os pés no chão até se afundar e desaparecer para sempre.)

Hoje eu asso, amanhã eu cozo!
O filho da rainha vem depois por fim!
Ninguém sabe, é o que me dá gozo,
Que o meu nome é Rumpelstiltskin!

 

6. Tinhas o hábito de ler quando eras criança? Se lias, qual era o tipo de leitura?

Mafaldas lidas em voz alta com a minha tia. Toda a prateleira de livros da minha mãe e do Manuel. Livros antigos da biblioteca das raparigas. Banda desenhada em francês. A fabulosa Antologia do Humor Português. Trágicas vidas de pobrezinhos, numa escola italiana, intercaladas com lendas nacionalistas. Intermináveis páginas iniciais da famosa colecção de policiais. E, inteiros, alguns desses policiais que, tendo agradado o início, tivessem como características: um espaço e um tempo delimitados e fechados, um grupo de protagonistas definido desde o princípio, uma atmosfera que lembrasse aquele Crime no Expresso do Oriente e a inexistência de detective profissional (a resolução do crime deveria recair no médico, no convidado, na governanta, etc). Livros de aventuras ilustrados, com viagens acidentadas através da Rússia de um mensageiro do Czar que chega cego ao seu destino, ou desesperadas fugas submarinas, interrompidas pelo ataque da lula gigante e os acessos de loucura do capitão.

E dois livros apenas, os meus dois únicos livros neo-realistas: um passado no Vale do Tejo, outro em Salvador da Bahia. Meninos, em ambos os casos.

7. Qual o livro que achaste chato mas ainda assim leste até ao fim? Porquê?

Vários, escritos por amigos. Tinha de os ler.

Outros, foram por amigos recomendados: um conto sobre um gato zangado dentro de uma sarjeta a falar com os transeuntes – planeavam fazer comigo um filme de animação a partir dele; uma história sobre um artista revoltado que tem o jejum como programa – era a prenda da minha namorada de então.

Quase toda a leitura obrigatória (Concordo com a leitura obrigatória. Mas há muito a fazer quanto às estratégias de leitura, e quanto aos títulos escolhidos). Os Maias têm um início brutalmente chato e extenso. Li-o integralmente. Chegado à parte em que poderia ter começado a gostar, desisti. Muitos anos mais tarde, numa noite de passagem de ano em Praga, num apartamento emprestado, só com a minha namorada finladesa, li de uma assentada A Capital e fiquei rendido ao Eça. Dessa noite, lembro-me ainda dos bolos que a minha namorada fez e de uns desenhos mauzitos que fiz dela e dos bolos.

8. Indica alguns dos teus livros preferidos.

Para além dos já enunciados: Carpinteiros, levantai bem alto o pau de fileira! (e Seymour – uma introdução) – onde se suspende a narrativa para se falar de um irmão, com amor; A noite e o riso – a mais fascinante traição à burguesia nacional; Comunidade – contra a vontade do autor: Ámen; A Divina Comédia – uma sociologia subvertida e subversiva da moral da Idade Média; Ficções, de Borges – esqueletos de história que fazem explodir a imaginação; Poemas, de Brecht – as jóias que esconjuram a simplificação programática que se faz do autor. Dois sóis, a rosa – A arquitectura do mundo, – uma aula sobre poesia e partilha, enquanto modo geral de fazer o mundo. Ensaios críticos, de Roland Barthes – lição número um: inexprimir o exprimível. Uma das possíveis posições no modo de estar com a arte, do meu professor em Praga (incluindo o ensaio O interstício entre media enquanto novo medium) – o livro que me ajudou a perceber que havia um lugar na arte para mim.

9. Que livro estás a ler neste momento?

Na pilha perto da minha cama, destacam-se: Tahrir – os dias da revolução, da mulher que daqui correu para viver aqueles dias; Tatuagem & Palimpsesto, e Uma razão dialógica, do poeta que sempre para mim escreve.

10. Indica dez amigos para o meme literário.

Os meus três irmãos que escrevem por aí. O meu cunhado de coração mole. O casal de mouros que me dá guarida. O Poeta que para mim sempre escreve, se estiver na praia aborrecido. Aquela que com ele vive. A jornalista que me pôs na Praça Tahrir. Tu, que lês isto. E tu. E tu.

Um beijinho à Helena Borges, que me emprestou este jogo.

Grimm, Jacob and Wilhelm. Grimm’s Fairy Tales.
John B. Gruelle, illustrator. Margaret Hunt, translator.
New York: Cupples & Leon, 1914.
Este artigo foi publicado em cinco dias and tagged , , . Bookmark the permalink.

8 respostas a O meu nome é Rumpelstiltskin!

  1. Morgada de V. diz:

    E afinal não estava cego! Esse desenlace folhetinesco também foi uma das minhas primeiras emoções literárias. E fiquei com vontade de ler o livro da Karen Blixen.

    • Pedro Penilo diz:

      M-Morgada!!! Voltaste! …quer dizer: Voltastes!!! (Temos a casa toda desarrumada, Morgada. Chegar assim sem avisar…)

      O Miguel não estava cego?! Ainda bem que não o pus na lista dos finais… Já não me lembrava. O livrinho da Karen Blixen é uma pequena âncora de fé e virtude para um ateu condenado, como eu.

  2. Sabes que fui viver para Paris atrás da tua primeira resposta?! A reprodutibilidade técnica dá montes de ramificações em música!
    O autor safa-me de um outro embroglio: é quando me perguntam quem mais faz anos no mesmo dia que eu: “Walter Benjamin e Rembrandt”, o que me permite ignorar o nome que toda a gente conhece e que me dá cabo do dia de anos, pelo menos enquanto não morrer… (e nós à espera… zzzzzzzzzzzzz)

  3. Helena Borges diz:

    Beijinho.

    Valeu a espera, que bom de ler! Além do A Noite e o Riso e dos vampiros, o Barthes noutros ensaios. Não é que não goste deste, é que não li. Dele, só uns três ou quatro e apreciei muito todos. Venham mais! Também o In Cold Blood. Quem diria, depois do comentário? Mas é verdade, não sendo um dos preferidos, será um dos preferidos no género – “género” porque não sei o que chamar-lhe. Marchou numa noite!

    A capa da antologia é uma maravilha tétrica, faz-me lembrar uma recolha de contos tradicionais portugueses que eu adorava, do Consiglieri Pedroso — “O príncipe mandou matar a preta e da sua pele fazer um tambor, e dos ossos uma escada para a menina subir para a cama.”

    Ainda:
    (…)
    A princesa ia para casa; mas cada ribeira que passava lhe aparecia de uma maneira.
    A primeira era de leite. A outra mais adiante era de água e nevoeiro. Mais adiante ainda encontrou um rio com sangue.
    A princesa, já muito assustada, perguntou ao príncipe:
    — Que será isto?
    O criado respondeu:
    — É o sangue do vosso menino!
    O príncipe então disse-lhe:
    — E agora há-de ser o teu!
    E deu-lhe um tiro. Depois voltou-se para a princesa:

    Fui à caça, fiz uma caçada,
    E em lugar de apanhar pássaros,
    Matei um milhafre!

    • Helena Borges diz:

      E mais: não li os dias da revolução egípcia da Alexandra Lucas Coelho porque hesito com a Tinta da China, cara pra xuxu. Acabo por ceder. Viva México e vivam as capas bonitas!

    • Pedro Penilo diz:

      Brutal! Vou já uivar para a varanda! Gosto disto! (Vou procurar o Sertões. Se está barato, melhor!)

  4. Pingback: Call me Ishmael e outros berlindes (Alexandra Lucas Coelho) | cinco dias

Os comentários estão fechados.