Para cagão, cagão e meio.

Interpelado pelo Maradona e pelo Vidal (o melhor cacique duplo desde que a Sassmine e o Vidal me entraram pela caixa de correio adentro num panfleto da CDU) e depois de ver que meia blogosfera anda a responder a questionários, não me vou fazer rogado que pior que o cagão que responde é aquele que acha que o silêncio fala por si. Outra razão é porque dá um gozo de todo o tamanho responder à última pergunta.

1 – Existe um livro que lerias e relerias várias vezes?

Nenhum. Ler já é chato, reler é impossível.

2 – Existe algum livro que começaste a ler, paraste, recomeçaste, tentaste e tentaste e nunca conseguiste ler até ao fim?

Vários, principalmente a Bíblia e o Corão, com muita pena e para mal dos meus pecados.

3 – Se escolhesses um livro para ler para o resto da tua vida, qual seria ele?

Cartas a Lucílio, do Séneca, que, para além de ser grande, e eu já disse que não gosto de reler, respeita como nenhum outro o envelhecer dos olhos. Oferecido por um dos meus maiores irmãos tem igualmente uma dedicatória a propósito: “ler é viver, vive muito.” Um dia hei-de conseguir.

4 – Que livro gostarias de ter lido mas que, por algum motivo, nunca leste?

Todos os do Chico Buarque. Tenho medo.

5- Que livro leste cuja ‘cena final’ jamais conseguiste esquecer?

As vagas da Chicala a pintar de calma o mar do Ruca e o Beto, ao lado, a sonhar ser onda.

6- Tinhas o hábito de ler quando eras criança? Se lias, qual era o tipo de leitura?

Não. Primeiro não lia nada e depois passei a ler pouco. Em criança jogava à bola e quando pegava num livro era exclusivamente para ver os bonecos ou lhes acrescentar bigodes, cigarros, cicatrizes e óculos. Ler, o do costume para essas idades, mas apenas e só quando o tédio da vida dos adultos ou a hora de ir para a cama se impunha no mundo das minhas brincadeiras.

7. Qual o livro que achaste chato mas ainda assim leste até ao fim? Porquê?

O Império, do Negri, porque tenho insónias, detesto sudoku e a erva anda mais barata que os livros e o Mudar o Mundo Sem Tomar o Poder, do John Holloway, porque foi uma das obras de leitura prévia de uma escola de quadros da LIT-QI para dar cabo do reformismo pós-moderno.

8. Indica alguns dos teus livros preferidos.

Sou um dogmático e gostei principalmente dos clichés de quando os soviéticos eram sovietes: Os Dez Dias que Abalaram o Mundo e a Mãe, lidos já longe, são aqueles que não esqueço nenhuma das passagens. Isso deve querer dizer alguma coisa. A Zaratrusta, a Sociedade do Espectáculo e as Cruzadas Vistas pelos Árabes são os primeiros que me vieram à cabeça depois de ler esta pergunta, mas não são, de longe, os favoritos.

9. Que livro estás a ler neste momento?

A Parábola do Cágado Velho, do Pepetela, que ando com saudades de Angola.

10. Indica dez amigos para o Meme Literário:

Agora sim! Qualquer um do 5dias, mas com instigações especiais para o Mira, o Reis, o Paço e o Vitorino que são letrados, bonitos, revolucionários, mas estão como que ausentes. O Tiago e o Carujo do Minoria porque se fartam de falar mal do Bloco de Esquerda e a Gui porque ainda não desisti de ver o oblogouavida por estas bandas. O Daniel Oliveira, o Miguel Cardina ou o Bruno Sena Martins, para ajudar o Arrastão a sair do divã, e o Francisco Silva, o Fabian Figueiredo ou a Joana Mortágua para ajudar o Adeus Lenine a entrar. O Frederico e os restantes Standard’s & People, pá!, o Daniel, o Tiago, a Caecilia ou a Sofia dos Sentidos Distintos ou alguém do Também Jogamos Sapato, por serem as melhores novidades da esquerda blogosférica. Dos Unipoppers ando curioso com o Miguel Cardoso, que parece ter sido da sua lavra o melhor manifesto do Rossio e por fim o inefável Tunes do não sei quê de Factos, a ver se ele consegue sobreviver a este questionário e citar pelo menos um autor que não seja anti-comunista. O tipo que me ofereceu o Lucílio, claro, não se safava desta sem ter que voltar a beber o vinho aqui da tasca, embora as visitas ao Paisagens Contemporâneas, perspectivas para (re)pensar o mundo, são claramente as mais surpreendentes da rede e além mar e deixam sempre na boca a saudade imensa de um licor de tangerina.

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34 Responses to Para cagão, cagão e meio.

  1. António Figueira diz:

    Ah, então sou eu o grão-cagão?

    • Renato Teixeira diz:

      Agora vou-te puxar o lustro, que entre outras coisas deixa o Xatoo e o Leo nos arames. Tu és o Villas-Boas da Blogosfera, pá! Já o Vidal é o Mourinho, claro.

      • Renato Teixeira diz:

        grão-cagão é lindo. Vou guardar na agenda para usar muitas vezes nas polémicas com as Jugulares.

  2. Carlos Vidal diz:

    Eu e o maradona somos um “cacique duplo”??
    O que é um “cacique duplo”
    Uma coisa tipo eu e Sassmine, num panfleto da CDU??
    Não percebi ou bebi demais. Estes dois, eu e o trambolho do maradon, nesse caso, somos uns comunas do catano.
    (Esta do comuna foi para foder o maradona, que é um facho de merda! E um trambolho.)

    O teu convite ao Tunes é fabuloso.
    É que o gajo está mesmo convencido que “diz coisas”, “escreve”, é “irreverente” e tal e tal…

    • Helena Borges diz:

      Não recebi o panfleto… Mas vi o site. Uma senhora e um senhor muito distintos.

      • Renato Teixeira diz:

        Ganhou o meu voto. Definitivamente.

        • Sassmine diz:

          jaja… é por isso que anda malta da JCP na minha universidade a dizer que eu sou militante. é o que dá, democracias mais externas que internas. se se apoia é porque se tem um interesse qualquer para lá da convicção de que é o melhor apoio naquele momento. (suspiro)

          mas se serviu para transformar-te no “gajo que vota pc” (ó maldição, ó infâmia) já não está tudo perdido… :p

    • maradona diz:

      qualquer dia começo a ficar ofendido com o cuidado que o carlos vidal coloca em me ofender (sempre com sucess, diga-se); trata-me como um trambolho-objecto, a florence nightingale não ia gostar nada.

      PS: ontredia, o carlos vidal falou de um texto (ou textos) do Bataille em que, escrevo de memória (que não é de facto o meu forte, como o martha Gellhorn explicou), se referia à transformação da arquitectura numa forma “convexa”; onde é que se pode encontrar isso?

      • Carlos Vidal diz:

        ontredia, uma merda ó maradona. Além de comuna és ignorante como uma cavaca.

        Em 1929, o Bataille, mais os seus amigos, criou a revista “Documents” (depois, uma outra intitulada “Acéphale”, pelo título especialmente a ti dedicada). Ao longo dos vários números de “Documents”, o senhor ia publicando uma coisa chamada “Dictionnaire Critique”, e no número 2 lá vem a entrada “arquitectura”, coisa destinada a impor silêncio, admiração e intimidação, “exteriorização” portanto (ed. facsimilada Jean Michel Place, 1991, Vol. I, p. 117).
        Um dos maiores estudiosos do Bataille, Denis Hollier (que lhe organizou as obras para a Gallimard) faz sair em francês e depois em inglês (julgo que com algumas diferenças) um estudo sobre Bataille intitulado “Against Architecture” (MIT Press). Deste livro, vais à página x da Introdução, onde Bataille, com a sua arquitectura convexa, extrovertida e frontal é comparado com a arq. côncava, que nos vigia, de Foucault.

    • Renato Teixeira diz:

      Nada de mais… depois do trambolho me instigar pensei em mandar o census literário à merda, mas tu e a Sassmine convenceram-me. E o Tunes, será capaz de virar o bico ao prego?

      • Carlos Vidal diz:

        Tunes é o nome de um lugar lá prós Algarves (província de minha mãe).
        Acho que mais nada tem o nome de Tunes à superfície da terra.

  3. O post é bom e muito divertido.
    Mas és um exagerado no que respeita à minha pessoa…
    Quanto à bebida, esquece o licor de tangerina, porque fanei da garrafeira do meu avô um brandy arcaico que só espera por ti para ser aberto.

    (ps: não tenho vindo à tasca, com o meu pseudónimo habitual, porque agora sou um trabalhador empenhado e isso fode tudo)

  4. maradona diz:

    obrigado.

    PS: “ontredia” é uma expressão/vocábulo que conhecia do algarve (não sei se exclusivamente de lá), muito utilizada pelos meus avós e alguns colegas de rua, e que ontem, sem aviso prévio, me saiu da boca.

    • Renato Teixeira diz:

      O Vidal é seu amigo, pá! Devia dar-lhe ouvidos e ter mais cuidado com o que lhe sai.

    • Carlos Vidal diz:

      Respeitinho, mais respeitinho.
      Minha mãe nasceu em Silves, e há lá um carcereiro no castelo, ó maradona, que ainda te vai tratar da saúde. Comuna!

  5. Ahah já vais dar trabalhinho ao Frederico…
    Vemo-nos amanhã na assembleia! Ao contrário do meu querido companheiro de blog, eu continuo a achar que o Rossio traz muito de novo :p

    • Renato Teixeira diz:

      Dei trabalho a vocês todos, mas já estava farto de fazer copy-paste. O Frederico é como o caranguejo, tem o andar alavancado. Do mal o menos, já deixou a Nobreza ainda que nunca venha a ser seduzido pelo poder popular. Até amanhã, pois e bom questionário.

      • Opá ganhem juízo. A minha posição é clara e além disso não me parece nada de transcendente. É dos livros que um movimento demasiado radicalizado na génese não consegue vingar pois não consegue atraír gente. Exclui em vez de incluir. Isto não é nada de novo. Basta ver a história dos movimentos nos últimos anos. Ver os que vingaram e os que não deram nada. O camarada Renato sabe isto tão bem ou melhor do que eu. O Rossio não vai dar nada ao contrário do movimento espanhol que produziu algumas propostas interessantes e que tem força relativa para as forçar. Fica o aspecto antropológico da coisa. Quanto ao ex-camarada Nobre deixem-no lá. Morre uma andorinha mas a primavera continuará o seu caminho.

        • Renato Teixeira diz:

          Onde é que ele foi “um movimento radicalizado”?

        • Renato Teixeira diz:

          Que caminho continua a andorinha em que o Nobre se transformou?

        • Sabes bem o que quero dizer. Além disso acrescento ao comentário anterior a tentação espingardista do Rossio. Há quase tantos temas como pessoas e é da matemática que quanto mais variaáveis mais difícil fica o mínimo denominador comum. Isto não quer dizer que não concorde por exemplo com a questão da Palestina (que até é bem mais a minha área do que andar a discutir @@ e xx) mas acho que não é apropriado àquele movimento. Em última análise chegavam lá os gajos contra as touradas, os que defendem as drogas leves, os que querem salvar as tartarugas em Cabo Verde e os que defendem que há vida para lá do planeta e cada um ficava bem feliz por ter a sua bandeira espetada no Rossio mas afastaria imensa gente que não se vai rever num ponto ou noutro. Para mim o essencial neste momento está na precariedade e em menor escala na democracia e estas são as bandeiras que me parecem que tenham pernas para andar. O pessoal quer sempre dar passos maiores que a perna e depois tudo cai no vazio.

          • Renato Teixeira diz:

            Não sei o que são tentações espingardistas mas não dás nenhum exemplo de radicalismo. O muro que cerca Israel é de facto radical mas o seu combate e denúncia foi gerador de grande consenso. Concordo que o tema da precariedade foi secundado e não devia ter sido mas não vejo onde é que possas concluir, daí, que o ângulo se fechou por causa do grupo de trabalho que produziu a proposta relativa à Palestina.

          • Não coloco naturalmente em causa a justiça da maioria dos temas abordados muito menos a da questão palestiniana embora me cause comichão a forma por vezes sectária ou Bushista (either you’re with us or you’re with the terrorists) como as questões são discutidas. Estrategicamente a coisa não correu bem e convém o pessoal fazer uma reflexão a sério sobre esse movimento e os que virão. Uma reflexão não ao estilo do BE claro, em que tudo fica igual. Porque é que não houve maior adesão? Porque havia eleições? Porque o pessoal não teve endurance militante? Porque começou enquinado? Os moderados não gostam de anarcas? Os anarcas não gostam de moderados? Porque foi um pouco encazinado pela malta dos partidos?

            O momento político agora é adverso e o governo vai viver uns meses de estado de graça até começar a perder a tesão de mijo. Era interessante começar a fazer trabalho de corredor sobre plataformas mínimas de entendimento entre todos para ver se se conseguem algumas vitórias.

            Quanto ao radicalismo falo naturalmente sobre a questão da dívida, que como se viu nas eleições não colheu grande apoio popular. A esquerda não soube encontrar alternativas porque não há grandes alternativas sem se alterar a estrutura do sistema economico/financeiro internacional. Pode-se discutir o valor da taxa de juro, o prazo de pagamento ou se a TSU desce 2, 4 ou 6%, mas de substancial não apareceram propostas credíveis de onde ir buscar o dinheiro no curto-prazo.

          • Renato Teixeira diz:

            Fred, sobre a dívida apenas se debateu e nenhuma formula fechada foi decidida.

            Acho, sinceramente, que falas um bocado de cor. As condições foram mais objectivas que subjectivas. Conta mais o efeito das eleições, o cansaço, a natureza ainda embrionária do movimento social português, do que todos os outros factores que apontaste.

            A malta dos partidos, que como sabem não tenho pudor em criticar, esteve globalmente bem na sua intervenção, talvez tenham apenas pecado por falta de entusiasmo.

            Não houve uma postura nada bushista. Bem ao contrário. Praticamente ninguém forçou que o movimento adoptasse a sua linha política e a sua identidade.

          • Falo de fora, claro. Do que vejo pelos blogs e do que falo aqui e ali. Mas bem se servir para o pessoal reflectir sobre como se organizar daqui para a frente já não é mau.
            Para a semana escrevo sobre o Rui Tavares. Alguém tem de o defender 🙂

  6. Miguel Cardina diz:

    1 – Existe um livro que lerias e relerias várias vezes?
    Talvez.

    2 – Existe algum livro que começaste a ler, paraste, recomeçaste, tentaste e tentaste e nunca conseguiste ler até ao fim?
    Muitos, muitos. O último sacrifício: A Condição Humana, do Malraux.

    3 – Se escolhesses um livro para ler para o resto da tua vida, qual seria ele?
    É isso o inferno?

    4 – Que livro gostarias de ter lido mas que, por algum motivo, nunca leste?
    Todos do Dale Carnegie. E a Psicanálise dos Contos de Fadas, do Bettheleim. Especialmente agora, que estou no divã.

    5- Que livro leste cuja ‘cena final’ jamais conseguiste esquecer?
    O Livro do Apocalipse.

    6- Tinhas o hábito de ler quando eras criança? Se lias, qual era o tipo de leitura?
    Anita. Softcore, portanto.

    7. Qual o livro que achaste chato mas ainda assim leste até ao fim? Porquê?
    Não sou masoquista. Se aconteceu, esqueci.

    9. Que livro estás a ler neste momento?
    Vários da Luisa Passerini. Ao mesmo tempo. E o Filosofia per Dame, do Maurizio Ferraris.

    10. Indica dez amigos para o Meme Literário:
    Ui!

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