O Henry Miller é para meninos

A não ser que

1. Existe um livro que lerias e relerias várias vezes?
Mais do que um. El Libro de los Abrazos do Eduardo Galeano põe-se a jeito. Hoje, em profissão de fé — “Sí, sí, por lastimado y jodido que uno esté, siempre puede uno encontrar contemporáneos en cualquier lugar del tiempo y compatriotas en cualquier lugar del mundo. Y cada vez que eso ocurre, y mientras eso dura, uno tiene la suerte de sentir que es algo en la infinita soledad del universo: algo más que una ridícula mota de polvo, algo más que un fugaz momentito.”

2. Existe algum livro que começaste a ler, paraste, recomeçaste, tentaste e tentaste e nunca conseguiste ler até ao fim?
Começo, paro e recomeço, tento uma vez, não consigo, não consegui. A não ser que queira ler aos saltinhos, o que pode ser bom. O último aos saltos foi o primeiro volume dos diários da Susan Sontag, Reborn. A publicação é póstuma, a edição é do filho e a impressão é de devassa de uma intimidade que não quer ser devassada. Num prefácio esfarrapado, o filho explica: como a mãe vendou o seu espólio – a ser recolhido depois da morte, claro – à biblioteca da UCLA, os diários seriam publicados com o crivo de outrem e não há peneira melhor do que a de sangue. Não sei.

3. Se escolhesses um livro para ler para o resto da tua vida, qual seria ele?
O calhamaço da próxima resposta. Não o li e – começando, parando, recomeçando, tentando e tentando – o peixe renderia. Posso voltar aos abraços do Eduardo Galeano e contar a história da Lucía Peláez, a menina que roubou um livro da biblioteca do tio e que cresceu, viajou e viveu. O livro acompanhou-a, sempre, mas ela não voltou a lê-lo: é que ele tanto cresceu dentro dela que passou a ser outro, que passou a ser seu.

4. Que livro gostarias de ter lido mas que, por algum motivo, nunca leste?
Das Passagen-Werk, as arcadas do Walter Benjamin!

5. Que livro leste cuja “cena final” jamais conseguiste esquecer?
Histoire de l’Oeil, o primeiro livro do Georges Bataille, com o pseudónimo Lord Auch. Quase a última cena, seia: o olho de um padre sevilhano, excisado com tesoura fina, na vagina peluda da Simone. O Henry Miller é para meninos, pois é.

6. Tinhas o hábito de ler quando eras criança? Se lias, qual era o tipo de leitura?
Sim, a Colecção Vampiro da tia São às escondidas, Uma Aventura às escancaras. Gostava do Maigret e do Perry Mason, adorava o Ripley. Do Jorge Amado, Tieta do Agreste, porque a Betty Faria era o máximo, e Dona Flor e Seus Dois Maridos, já que tinha gostado tanto da outra dona.

7. Qual o livro que achaste chato mas ainda assim leste até ao fim? Porquê?
Um livro perro sobre as ilhas e os novos condomínios portuenses, cheio de tabelas, legendas e notas de rodapé. Estava a escrever uma tese.

8. Indica alguns dos teus livros preferidos.
Difícil. Os Sertões do Euclides da Cunha, o Grande Sertão do Guimarães Rosa e as Vidas Secas do Graciliano Ramos. Del Sentimiento Trágico de la Vida do Miguel de Unamuno e La Condition Humaine do André Malraux. A Noite e o Riso do Nuno Bragança e a tarde mais longa de todas as tardes que me acontecia e nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar e façamos primeiro um poema com sangue. E, e, e.

9. Que livro estás a ler neste momento?
Not One More Death, uma colecção de textos sobre a invasão do Iraque: Brian Eno, Haifa Zangana, Harold Pinter, John le Carré, Michel Faber e Richard Dawkins. Mas isto é tão fininho que parece mal dizer que estou a ler, lê-se e pronto. Logo de seguida e para aproveitar o embalo, War With No End, com textos de outros quantos. Entretanto, a viagem pela Pérsia da Annemarie Schwarzenbach, Tod in Persien, para carpir um bocadinho.

10. Indica dez amigos para o meme literário.
O Youri Paiva, claro, a Diana Dionísio e o João Valente Aguiar; o Tiago Mota Saraiva, o Bruno Carvalho e o Pedro Penilo, se estiverem para aqui virados; a Raquel Varela, se não achar que isto é um devaneio pequeno-burguês; o Cantigueiro, se encontrar uma imagem com dimensões satisfatórias para ilustrar o questionário; a Ana da Palma; o Rocha.

(Pois, a fotografia é publicidade enganosa. Dispersar, dispersar!)

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27 respostas a O Henry Miller é para meninos

  1. Nuno Ramos de Almeida diz:

    🙂

  2. Pingback: Então vá, umas leituras | cinco dias

  3. António Figueira diz:

    Prefiro os teus preferidos todos.

    • Helena Borges diz:

      Mas tens razão, é lixado responder a esta pergunta, parecemos malabaristas.

      • António Figueira diz:

        Talvez, mas gostei à brava da soma Euclides da Cunha + Graciliano + Guimarães Rosa. O selvagem do Nelson non ti piace também? E ao Malraux somava os Conquérants, e ao Nuno B. a Directa.

        • Helena Borges diz:

          Não li o Asfalto Selvagem. Cheguei a encomendá-lo na Leitura, disseram-me que talvez sim, em duas ou três semanas, mas não chegou. Encomendar brasileiros é uma aventura. Há um ano, quis alinhar numa brincadeira gira do Tom Zé, o blogue dele feito clube de leitura: Raízes do Brasil do Sérgio Buarque de Holanda. Encomendei a edição da Companhia das Letras – para não perder o tino às páginas –, esperei quase dois meses, não chegou, comprei a da Gradiva e atrasei-me tanto que nem brinquei.

          A soma é obessivo-compulsiva!

        • Carlos Vidal diz:

          E o Machado de Assis (que a Sontag adorava) das “Memórias Póstumas…”?, na família brasileira? Um morto e tal a contar a sua vida. Coisa do catano.

          Mas, Helena, estou desapontado, há aqui uma enorme enormíssima lacuna: o “Deus e Caravaggio” de um sulista, elitista e não-liberal.
          (Bj)

          ———————————————–
          Post sriptum: Ah, e parabéns pelo Bataille: a História do Olho é uma portentosa máquina de vísceras: máquina que combina olhos, gemas de ovo, testículos, o gajo não tinha solução. Um doente perigoso, um tarado, filho da mãe.

          • Helena Borges diz:

            Memórias portentosas!

            Deus e Caravaggio está encomendado, acho que chega no segundo dia do próximo mês.

            E o Bataille é isso tudo, imundo! Tinha o olho em português e voltei a comprá-lo em inglês, numa edição simpática com The Pornographic Imagination da Sontag e La Métaphore de l’Oeil do Barthes.

            (Beijinho!)

          • Renato Teixeira diz:

            Com essa sinopse vou já à caça do olho.

          • Helena Borges diz:

            E diz que o escreveu por sugestão do psicanalista, tem a mãe e o pai em todo o lado. O Madame Edwarda também é uma epifania, o tarado encontra Deus numa prostituta – uma puta a sério, não uma galdéria dos decotes.

            Vai, Renato!

          • Helena Borges diz:

            E o Ma Mère, já agora! O Complexo de Édipo sem treta. Este virou filme.

  4. Rocha diz:

    Helena malvada, enganas-me com essa fotografia, invocando “o querido líder” em vão e depois fazes me um convite desses.

    A minha vaidade saloia chama por mim… mas eu sou tímido.

  5. Samuel diz:

    Todo o tempo que levar até fazer um post com estes dez degraus… ficará a dever-se à demanda de “uma imagem com dimensões satisfatórias para ilustrar o questionário”… coisa que me ocupará, pelo menos, todo o fim de semana. 🙂

    Abreijos.

  6. Carlos Vidal diz:

    (Outra coisa, da mesma colecção que o teu, tenho aqui outra preciosidade do Kim Il Sung sobre o qual aqui fiz um post grandemente elogioso: “Realizemos a reunificação Independente e Pacífica da Coreia” – ele defendia a solução confederal para as Coreias; sempre achei que tinha razão. Não?)

  7. Pingback: “The signature of his rule was, if anything, demobilisation.” | cinco dias

  8. Pingback: O meu nome é Rumpelstiltskin! | cinco dias

  9. Aqui vai: http://youtu.be/FnYJCMC8AaU

    Abraços e beijos

    Ana da Palma

  10. Pedro Penilo diz:

    Mas há tantos livros assim???! Estou deprimido… A Noite e o Riso e a Colecção Vampiro (vá lá…!).

  11. Jorge Delmar diz:

    Aqui está o meu jogo, a partir do repto da Ana da Palma:
    http://jorgedelmar.wordpress.com/
    Até já!

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