O género antes de tudo

Recebi por e-mail o comunicado de congratulação da UMAR pela eleição de Assunção Esteves a presidente da Assembleia da República, por esta ser a primeira mulher eleita para o ‹‹segundo lugar do Estado››. Ora bem, o comunicado, que reproduzo na íntegra (com negritos meus), tem umas coisas esquisitas:

‹‹UM SÉCULO PARA QUE UMA MULHER CHEGASSE A PRESIDENTE DA ASSEMBLEIA DA REPÚBLICA

A UMAR – União de Mulheres Alternativa e Resposta congratula-se com a eleição da jurista Assunção Esteves para Presidente da Assembleia da República.
Este acontecimento tem um particular significado político histórico, não só porque se trata da segunda figura do Estado, como também pelo facto de Assunção Esteves ter sido eleita, no ano do centenário do voto pioneiro de Carolina Beatriz Ângelo, a primeira mulher a votar em Portugal e na Europa, com excepção dos países nórdicos.

Assunção Esteves representa, assim, a longa caminhada das mulheres para a Igualdade, que tem sido feita de avanços e recuos. De destacar, no seu discurso desta tarde, na Assembleia da República, ter partilhado e dedicado a alegria que estava a sentir às outras mulheres, “às políticas e às mulheres anónimas e oprimidas”. Foram decerto estes valores e o seu pensamento livre, que a colocou do lado das mulheres que lutaram pelo direito de interromper uma gravidez não desejada
E este é um facto que, como associação de mulheres feministas, não podemos esquecer!

Saudamos, pois, este seu pensamento livre, num momento crucial para o país, onde as mulheres vão ser as principais atingidas com as medidas de austeridade que vão ser impostas.

Saudamos Assunção Esteves, mulher inteligente e determinada, como segunda figura de Estado.

Saudamos a primeira Presidenta da Assembleia da República, convictas de que, com este cargo, vai contribuir para uma democracia mais inclusiva e para uma nova política.

Lisboa, 21 de Junho de 2011››

Parece-me complicado Assunção Esteves representar, porque foi eleita para este cargo e porque defendeu o direito à interrupção voluntária da gravidez, ‹‹a longa caminhada das mulheres para a Igualdade›› (assim, com ‘i’ maiúsculo). Porque não interessa mais nada neste caso para além de ela ser mulher, não interessa o que diz ou o que pensa, interessa apenas o seu sexo e está tudo bem. Esta felicidade (cristã?) da UMAR vai ao ponto de fazerem três magníficas saudações: uma pelo seu pensamento livre que poderá ser bom para as mulheres não serem as principais atingidas pelas medidas de austeridade; outra pela sua inteligência e determinação, que veremos para que lados nos levará; e a terceira diz que a sua eleição contribui a uma democracia (seja lá o que isso for) mais inclusiva e, vejam bem!, uma nova política (seja ela qual for).

Pouco importa que tenha sido deputada pelo PSD em 1987 (Cavaco Silva), 2002 (Durão Barroso), e que tenha apoiado logo a candidatura de Pedro Passos Coelho à presidência do partido dizendo que este nosso amigo representa ‹‹o renascer de uma linha social liberal há muito esquecida››. Social liberal? Estão a ver, não estão?

Pois, enfim, esta forma de ver as coisas, estas congratulações pelo nada, sem querer ver o que se está a passar, quem são as pessoas (homens e mulheres) que tomam conta disto, não são sequer meias-vitórias. A igualdade quer-se nas vidas das pessoas, e quer-se uma vida melhor que esta.

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30 respostas a O género antes de tudo

  1. Rocha diz:

    Está aqui desmascarado o feminismo radical ao mostrar aquilo que ele realmente é: feminismo burguês.

    O que interessa é o poder, é o tacho, são os privilégios, não são as políticas. A sociedade de classes pode continuar a destruir vidas dos e das que para ela são forçados e forçadas a trabalhar porque a felicidade da UMAR se faz pelo poder de algumas mulheres burguesas.

    • CausasPerdidas diz:

      Essa do “feminismo radical” para caracterizar a UMAR é mesmo muito exagerada. A UMAR é tão “radical” como, sei lá… o MDM?

  2. Vasco diz:

    Muito bem, Bruno. É isso mesmo. Não são Thatcher, Albright e Rice mulheres?

  3. Irene Sá diz:

    Excelente post!
    Este tipo de postura de, como dizes, colocar o género acima de tudo, acima da luta de classes, lembra-me o sketch dos Yes Men na OMC: depois de uma dissertação sobre como a escravatura voluntária podia ser a saída para os problemas da crise capitalista levanta-se uma mulher indignada por… não estar numa mulher na mesa.

    • Youri Paiva diz:

      O problema das ‹‹pequenas lutas›› (que acho que são importantes) é quando se transformam na única luta. Mas sim, escravatura voluntária resolveria muita coisa.

  4. Miguel Lopes diz:

    Dói muito..

  5. Helena Borges diz:

    Tenho alguma consideração pela Assunção Esteves, precisamente por ter defendido o sim à IVG apesar de quase todo um PSD. A alegria da UMAR é um bocado cristã, mas as duas primeiras saudações podem fazer sentido, já a terceira é de uma convicção espalhafatosa.

    Numa coisa concordo em absoluto: que importa o mérito da mulher se esse mérito sabe a canalhice (neoliberal)? Não estou a pensar na Assunção Esteves.

    • Youri Paiva diz:

      A questão não é se Assunção Esteves merece alguma consideração ou não (defendeu o sim à IVG, mas dispõe-se a defender Passos naquela ‘confusão’). A questão é se vale a pena saudar e comemorar isto – esta pessoa, este partido, este programa.

      • Helena Borges diz:

        Sabes que estou certa de que não vale a pena! A UMAR desmaiou pela Michelle Bachelet à cabeça da agência das Nações Unidas para as mulheres e, enquanto assinava comunicados pelos direitos das mulheres sarauís, andou num namoro pegado com a Secretária de Estado da Igualdade que recusou uma audiência à Aminetu.

      • Lucas diz:

        Youri Paiva, responda voçê.
        Ontem dos primeiros deputados a saudar alegremente Assunção Esteves e a lá se manter em troca de sorrisos e cumprimentos foi António Filipe. Valeria a pena “saudar e comemorar” aquilo?

        • Youri Paiva diz:

          O que faz o António Filipe é lá com ele. É um pouco diferente uma pessoa ir cumprimentar alguém do que um comunicado.

  6. chamem-me assim mesmo diz:

    sou da umar e também me fez comichão saudar uma mulher do psd, mas aquilo que se saúda é que uma mulher seja segunda figura de estado, depois de passados uns míseros 100 anos; que tenha ultrapassado tantas das barreiras que se impõem à participação política das mulheres. acho que isso é de saudar, sim. saudei que o obama, um black, tenha chegado a presidente dos eua – também saudaria a clinton – sem que isso me vincule às políticas deles e sem que isso me impeça de ser crítica face aos seus posicionamentos políticos.
    de resto, não se saúda a sua postura ou ideologia políticas no todo (lembra-se o seu envolvimento pela despenalização do aborto), muito menos “aquilo que fará” – a nossa bola de crital não está ainda finalizada 🙂

  7. Lídia Fernandes diz:

    Nessa transcrição do comunicado falta um pequeno detalhe: o título.
    100 anos! Não sei bem, talvez seja apenas um pequeno detalhe.
    Quanto ao resto, o trabalho que a umar tem feito tem esse mérito: a capacidade de conviver e valorizar a diversidade do pensamento feminista – marxistas, radicais, liberais… feminismos há para todos os gostos, haja a capacidade de convergir e divergir, quando for necessário. https://www.facebook.com/home.php#!/notes/umar-feminismos/comunicado-umar-um-s%C3%A9culo-para-que-uma-mulher-chegasse-a-presidente-da-assemblei/10150226663042318

    • Youri Paiva diz:

      Quanto ao título, já actualizei o post agora. Mas não me parece ser essa a questão. A questão é saber-se o que é isso de medidas de austeridade, como está no comunicado, e saudar-se uma pessoa que as representa. E também pela história da UMAR é estranha esta saudação.

  8. Rocha diz:

    Primeiro aceita-se a democracia burguesa como um progresso depois aceita-se os partidos burgueses e as mulheres burguesas como um progresso. A exploração capitalista muda de género e as mulheres da pequeno-burguesia “feminista” ficam felizes.

    E as mulheres do povo, pá?

    Isto faz me lembrar a denúncia do Saramago: que mundo é este que que celebra a ida do homem à lua enquanto se está a marimbar para a fome?

    E a faxineira que limpa as lojas onde a Assunção compra a sua roupa finess, será que a aquela água é agora menos turva? Será que as retretes que limpa são menos merdosas? E a fome da reformada que vai ao banco alimentar é agora menos fome? E o desemprego da jovem que não tem emprego em Portugal é menos desemprego? Talvez tenha retretes para limpar na Holanda, não é?

    As vitórias da burguesia feminina ou de outra burguesia qualquer dizem alguma coisa a quem não tem casa, não tem direitos, não tem horários para trabalhar (ou terão o sol a sol ou lua a lua), não tem emprego, não tem família, não tem que comer, não tem como pagar dívidas, não tem estudos, não tem filhos, não tem amigas (para lhe felicitaram pelo seu belo emprego ou alto cargo), não tem futuro… ?

  9. chamem-me assim mesmo diz:

    curioso citar-se saramago. teve direito a um comunicado de lamento da sua morte, por parte da umar. e é um homem! vá-se lá imaginar porquê mas, afinal, não é o género antes de tudo.
    não deve ser antes de tudo, mas também chega de pedir que venha SEMPRE depois de tudo.

  10. chamem-me assim mesmo diz:

    quando vier junto com tudo, vem sem parlamento.

  11. Há um evidente paralelo, mutatis mutandis , com a eleição de Obama, como já alguém referiu acima, saudada por muitos apoiantes da emancipação dos negros americanos, ou dos negros em geral. Como membro dessa comunidade genericamente designada como negros, foi-me bastante difícil fazer entender o ponto de vista de que a eleição do primeiro presidente afro-americano poderia vir mesmo a representar um retrocesso na luta pelos direitos civis, por significar um amordaçar das lutas em respeito por esse “igual” que acedeu ao círculo do poder. Infelizmente esta história já se repete há séculos (milénios), com os capatazes recrutados entre os escravos, e a quem são permitidas algumas excentricidades, demonstradoras de que quem se porta bem pode subir um degrau. Não nos enganemos, meus caros e minhas caras, um passo em frente seria eleger um presidente da assembleia da república, homem ou mulher, que começasse no seu discurso de tomada de posse por denunciar a hipocrisia da generalidade dos partidos na formação das listas obedecendo à lei da paridade, que por norma resulta numa ordenação Homem / Homem / Mulher, que tem como consequência óbvia o parlamento estar longe dessa paridade mitigada do 1/3. Esta posição da UMAR teria equivalente numa saudação do SOS-Racismo ao deputado negro do CDS, de longe o mais brilhante não-branco que já se sentou naquela casa. É uma provocação, pois sim.

  12. João Pais diz:

    Adoro ver a desintegração política do BE…
    1. Louçã afinal queria falar com a troika
    2. Rui Tavares passa-se para a direita
    3. Miguel Portas diz que no fundo está tudo mal com o partido e com os dirigentes
    4. UMAR saúda uma mulher só porque é do PSD

    Alguém me vai fazer pipocas, é que estou ansioso por ver os Precários Inflexíveis saudar os deputados e ministros do PSD e do PP (afinal, havera coisa mais precaria que isso? aquilo parece uma praça de jorna)… ou quem sabe, até o próprio final do filme!!! À velocidade com que isto anda, se uma pessoa sai um bocadinho do sofá arrisca-se a voltar e já nem haver BE ou a ter de ir à procura dele nalgum cantinho escuro do largo do rato…

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