Primeiro levaram os bascos…


Festas de San Fermin 2010. A polícia municipal de Iruñea (Pamplona) carrega violentamente sobre populares que tentam abrir a bandeira nacional do País Basco. A democracia espanhola no seu melhor.

Durante décadas, foram muito poucos os que fora do País Basco entenderam que o Estado espanhol não era democrático. A realidade demonstrava-o: os partidos ilegalizados, jornais e rádios encerrados, organizações juvenis e movimentos sociais proibidos, dezenas e dezenas de milhares de detenções, que levaram a milhares de prisões, quase todas elas com o recurso à tortura. Esta realidade e a maturidade social e política do povo basco levaram-no pelo caminho da luta e da resistência. Um caminho que, hoje, dá os seus frutos.

Mas, fora do País Basco, a versão da realidade era e é construída pelos donos da comunicação social. Daí que os mesmos que, no presente, ocupam praças por todo o Estado espanhol e cercam os órgãos de soberania indignados contra o actual estado de coisas são, agora, também vítimas da mesma estratégia mediática. No princípio, como cá, ainda receberam a simpatia dos jornais, rádios e televisões – coisa que os bascos nunca tiveram. Agora, são apelidados de terroristas e acusados de fazer kale borroka, expressão basca para designar a guerrilha urbana cujas armas principais são os cocktail molotov e as bombas artesanais.

E agora, os que nunca se solidarizaram com as vítimas bascas da repressão, recebem o reverso da medalha. Primeiro levaram os independentistas bascos, mas como nós não éramos independentistas bascos…

Discurso do deputado Jon Idigoras, Herri Batasuna, nos anos 80.

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21 respostas a Primeiro levaram os bascos…

  1. José diz:

    O comportamento de alguns dos manifestantes junto do parlamento regional catalão dificilmente poderá ter outro apelido que não terrorismo.

    • Bruno Carvalho diz:

      Claro, José. Mas alguma vez o vimos ou veremos defender manifestantes e repudiar as acções da polícia?

      • José diz:

        O Bruno tem que reaprender a ler, caso contrário não colocaria essa questão.
        Os meus comentários estão por aí.

  2. Daniel Marques diz:

    Caro Bruno,

    Tem toda a razão quando diz que em Espanha não há verdadeira democracia porque não se pode chamar democracia a um país onde uma banda de assassinos cria um clima de terror com ataques terroristas e execucões em nome da sua causa.

    Como explica noticias como esta: ETA mató con tiros en la nuca al concejal del PP de Sevilla y a su mujer (http://www.elpais.com/articulo/espana/JIMENEZ_BECERRIL/_ALBERTO/ESPANA/PARTIDO_POPULAR_/PP/MINISTERIO_DE_INTERIOR/ETA/PRESIDENCIA_DEL_GOBIERNO_1996-2000/PODER_EJECUTIVO/_GOBIERNO_PP_/1996-2000/elpepiesp/19980131elpepinac_2/Tes)
    Serao fabricadas pela comunicacao social? Sao as mortes justificadas?

    Pode dizer uma razao porque um dos meus amigos, portugues, tive que ter guarda costas durante uma obra no Pais Vasco (TGV) porque a obra nao foi sancionada pela ETA? Sera justificavel que protestos que em qualquer pais se fazem de forma pacifica resultem em imediatas ameacas de morte a inocentes?

    A tentativa de politizar um evento festivo como o de San Fermin nao é inocente porque parte de uma tentativa de inclusao do povo navarro na luta basca que constantemente tem sido derrotada nas urnas (O UNP, que é governo é claramente anti nacionalismo basco e o voto basco representa 20% dos votos). Este instinto expansionista comum a todos os nacionalismos, dá bem ideia do fascismo latente no movimento basco.

    Vivi varios anos em Santander, Cantabria, trabalhei com muitos bascos e conheco muito bem o Pais Vasco, os seus dilemas, o racismo e principalmente o prejudicial que tem sido a accao da extrema esquerda para a causa da autonomia e, porque nao, de uma futura independencia. O clima criado é de que ao aceitar a independencia Espanha esta a abandonar os seus cidadaos que nao sendo bascos de sangue estao plenamente integrados na sociedade mas que nao sao aceites por parte dessa sociedade como iguais e que mais tarde ou mais cedo vao sofrer as consequencias dessa situacao.

    A Esquerda Portuguesa deve afastar-se o mais possivel destes fascistas.

  3. Bruno Carvalho diz:

    É pena que não tenha tido uma única palavra para todos aqueles que foram vítimas do Estado espanhol e que nunca na vida pegaram numa arma. E é pena que tome por inocentes – independentemente de estar ou não a favor da violência – quem tem grandes responsabilidades pela situação que vivem os trabalhadores de todo o Estado espanhol. Para si, um polícia torturador e assassino é um inocente, assim como os responsáveis políticos que o encobrem.

    Quanto ao que se passa em Navarra, tem piada que classifique de expansionismo a vontade de uma parte do povo basco de unir a Comunidade Autónoma Basca com a Comunidade de Navarra. É típico do fascismo espanhol – que pelos vistos você defende – acusar os bascos de fascistas. É uma reacção de defesa do espanholismo mais reaccionário ao medo de perder a sua Espanha una e indivisível, como proclamou Franco. Pois bem, Navarra é o coração do País Basco. O primeiro Estado basco foi o Reino de Navarra e foi ali que nasceu a língua basca, o euskara. Vir agora fazer tábua rasa disso e inventar que Navarra não tem nada a ver com o País Basco é, isso sim, um revisionismo histórico defendido pelo fascismo espanhol. E tudo isto para justificar aquela carga policial fascista sobre cidadãos indefesos que só queriam abrir a bandeira – legal – do seu país.

    Curiosamente, já que fala de racismo, o País Basco é dos sítios onde os imigrantes são melhor tratados. O sindicalismo independentista de esquerda – para si, terrorista – que representa a segunda maior força sindical no País Basco integra os imigrantes e organiza a sua luta. Aliás, a esquerda independentista basca considera que basco é todo aquele que viva e trabalhe no País Basco. Para si, tudo isto é fascismo ao mesmo tempo que continua a defender o Reino de Espanha, esse exemplo de democracia.

    • Daniel Marques diz:

      Eu parto do principio que todas as pessoas são inocentes até prova em contrario e que caso haja essa prova essa pessoa nao perde os seus direitos nomeadamente o de nao ser executada com um tiro na nuca num beco qualquer. Obviamente a minha solidariedade se extende a todas as vitimas de abuso de poder por parte do Estado Espanhol. Não tenho conhecimento no entanto que o Estado Espanhol sancione a morte de membros da ETA. Pelo contrario a guerra suja contra a ETA foi investigada e sancionada resultando inclusive na prisao de varios governantes e altos membros das forcas de seguranca.

      Quanto a Navarra a sua resposta só me vem dar razão. A maior parte da populacao de Navarra é a favor de uma Navarra autonoma integrada em Espanha. 80% das pessoas votaram em partidos declaramente anti-nacionalismo basco, sejam do arco espanhol (PSOE) sejam do arco do autonomico (UPN que é o partido mais votado). Sáo os Navarros que não querem ser vistos como Bascos não eh Espanha. Que há de mais fascista que a ideia que a vontade do povo basco em unir Navarra ao Pais Basco por questoes historicas e raciais se sobrepoe à vontade do povo Navarro?

      Nao sei em que momento lhe pareceu que eu defendo uma Espanha una. Eu sou a favor de que as pessoas sejam livres de escolher por quem querem ser governados. A questao é todavia uma incognita no Pais Vasco porque não há uma maioria clara. A minha opiniao é que a extrema esquerda basca prejudicou esse processo e atrasou o processo de obtençao dessa maioria. A minha opiniao eh tambem que continuara a prejudicar.

      Quanto ao seu ultimo paragrafo, como lhe disse, vivi na regiao e sei de primeira mao como as coisas sao assim que dispenso a propaganda.
      http://www.elcorreo.com/vizcaya/v/20110419/pvasco-espana/cada-tres-inmigrantes-asegura-20110419.html

      El 30% de los extranjeros afincados en el País Vasco, es decir, uno de cada tres de las 144.551 personas empadronados a 1 de enero de 2011, afirma haber sido objeto de insultos o comentarios xenófobos. Y el 10% confiesa haber sufrido algún tipo de menosprecio o trato displicente en un servicio público o privado. El País Vasco es una de las CCAA con el índice de inmigración más bajo de España.

      • Rocha diz:

        Escusa de mentir Daniel, o povo Navarro deu em eleições para o parlamento navarro, seriamente manipuladas por manobras anti-democráticas (não esquecemos a tentativa de ilegalização de Bildu e muitas outras golpadas) do Estado Espanhol e da sua sucursal franquista da UPN, uns 18 deputados nacionalistas, inpendentistas e soberanistas bascos – 7 a Bildu, 8 a NaBai e 3 à Ezqerra. A UPN teve 19 e o PP$OE em conjunto teve 13. Os partidos espanholistas citados tiveram menos de 60% dos votos e os basquistas tiveram mais de 30%.

        Se houvesse liberdade (de expressão, política, laboral, etc) e acabasse a repressão, censura e perseguição dos bascos navarros, os resultados poderiam ser ainda mais favoráveis aos basquistas.

        • Daniel Marques diz:

          Eu nao menti. Simplesmente utilizei os dados das ultimas eleicoes gerais que penso menos afectados por questoes locais. Mas admito que tenha razao. De qualquer forma 30% nao deixa de representar uma minoria.

          • Bruno Carvalho diz:

            Volto a referir que há partidos ilegalizados e que enquanto assim for não se podem usar dados eleitorais para aferir o que quer que seja.

        • José diz:

          Os navarros da UPN tiveram sozinhos mais votos do que o NaBai, a Bildu e a Izquierda/Ezquerra.

    • Rocha diz:

      Bruno não lidamos com democratas. Mas sim com gente que chama de fascistas ou até terroristas a um grupo de pessoas que leva a sua bandeira basca a uma festa popular em Navarra para ser espancada selvaticamente pela polícia – porque são bascos e porque são navarrenses (mais precisamente as duas coisas). A mesma polícia que é capaz de proteger tipos com cruzes suásticas, símbolos falangistas e retratos do fascista Franco. Estes tipos da boa vida burguesa se vivessem na Alemanha dos anos 20 iriam jurar que Hitler era apenas um populista inofensivo e que os comunistas eram a ameaça terrorista a derrotar por quaisquer meios.

      Já a tua referência aos indignados, só o José comenta, já que o José ao menos já não tem os pruridos moralistas hipócritas do Daniel. Se alguém pede democracia é chamado de fascista. Se alguém pede a paz é chamado de terrorista.

      Há gente que não se vê ao espelho, eu percebo… é esta pequena (ou média) burguesia que não suporta que “essa ralé do povo” lhes vá gritar aos ouvidos, nem lhes importa minimamente o teor das reivindicações. A vida devia ser só putas e vinho verde para os engenheiros, doutores, directores, etc enquanto os escravos carregam as pedras/carris e o povo carrega com as marcas de obras que não só não são úteis como também são destrutivas ambiental, social e economicamente.

      • Daniel Marques diz:

        Caro Rocha, Toda a gente sabe quem fez um pacto com Hitler e com a Alemanha Nazi. Não eh so a pequena burguesia que leva bagagem historica nesses tempos.
        Quanto aos indignados nao comentei porque nao tenho nada a dizer. Considerando que tive que emigrar para conseguir um trabalho com um salario digno sou obviamente solidario com parte das reclamacoes do movimento. Nao gosto no entanto de cheques em branco e quero ver o que esta realmente por detras do movimento (nomeadamente o papel do PSOE que é especialista nestas manobras). Obviamente que a radicalizacao dos protestos não vai favorecer o movimento e as suas reinvidicacoes.
        Eu sou declaradamente e orgulhosamente pequeno-medio burgues.
        Suponho que o Rocha seja working class puro sangue?

      • José diz:

        “Se alguém pede a paz é chamado de terrorista.”

        É claro que foi isso que se passou no parlamento catalão!
        Já nem falo do ocorrido com o deputado invisual, para não “bater mais no ceguinho”…

        Democrata? O Rocha não faz ideia do que tal significa.

  4. José diz:

    “Aliás, a esquerda independentista basca considera que basco é todo aquele que viva e trabalhe no País Basco.”
    Nem a brincar isso lhe fica bem. Só quem não conhece o País Basco pode dizer isso.
    É a minha região preferida do país vizinho e não me limito às grandes cidades. Tenho amigos de longa data, alguns deles com responsabilidades políticas.
    E essa afirmação não é verdade. Os migrantes internos não são muito bem vistos pela esquerda independentista.

    • Bruno Carvalho diz:

      O que não lhe fica bem é mentir. Não deve conhecer o País Basco tão bem como eu e a forma como são bem recebidos, na maioria dos casos, os imigrantes. Dou-lhe o caso dos imigrantes senegaleses que substituem hoje os bascos na indústria piscatória e que não só são muito bem recebidos como têm prazer em integrar-se na comunidade. Falam o euskara e participam na vida das suas cidades e aldeias.

      • Daniel Marques diz:

        http://www.noticiasdegipuzkoa.com/2010/07/31/sociedad/euskadi/senegaleses-afincados-en-euskadi-denuncian-un-incremento-de-las-agresiones-

        Un centenar de personas se han concentrado hoy en Gasteiz para condenar el ataque que sufrieron cuatro trabajadores senegaleses en Lantarón

        Un centenar de personas, la mayoría inmigrantes subsaharianos, han secundado este llamamiento, respaldado por sindicatos como CCOO, ELA y ESK.

        Interesante mas não esta a aqui o LAB (o sindicato abertzale) a repudiar os ataques. Diferenca entre discurso e accao????

        • Bruno Carvalho diz:

          Se quiser, ponho aqui dezenas de notícias em que só o LAB é que se solidariza com os imigrantes. Deixo esta relacionada com a morte de um emigrante português:

          http://paisbasco.blogspot.com/2009/09/denuncia-e-homenagem-operarios.html

          Em relação a Navarra, apenas lhe disse que há razões históricas para que Navarra esteja integrada no País Basco. Se houver um referendo e a maioria da população o rejeitar acho bem que isso não aconteça. Agora, não me venha é com esses dados eleitorais como se o Estado espanhol fosse uma democracia e não houvesse várias organizações partidárias ilegalizadas.

      • José diz:

        Não vou discutir nesses termos, em que teria de lhe devolver as acusações de mentiroso.
        Conheço o que conheço e bem sei a hostilidade latente – e não só – para com os migrantes internos, que foi do que falei.
        Para que vem com o exemplo de imigrantes africanos, que nem sequer podem votar nas eleições realizadas no País Basco, e, portanto, não têm voz no conflito?

        • Bruno Carvalho diz:

          Cá está a sua postura de anti-democrata. Ou seja, os imigrantes que não votam – votam nas eleições municipais – não têm direito a opinar! Trabalham e produzem para as burguesias bascas e espanholas mas não podem dizer o que pensam. Tristeza.

          • José diz:

            O Bruno é precipitado ou manipulador ou ambos.
            O que disse é que, como os imigrantes não têm capacidade de voto nas eleições forais ou nacionais, ao contrário dos migrantes internos, e como estes têm um voto contrário maioritário às teses independentistas, são alvo da hostilidade que aqueles se escapam.
            Embora, pelos vistos, o seu exemplo foi mal escolhido.
            Tristeza, realmente.

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