Em Defesa do Marxismo e do Partido Revolucionário

Por caminhos diferentes o Zé Neves e o Carlos Vidal destratam Lenine. O primeiro acusando Lenine de ter semeado o estalinismo com a concepção de Partido revolucionário, o segundo comparando Lenine a Estaline, o homem que assassinou o comité central do PCUS e de quem Lenine escreveu que não devia assumir o poder.

Bernardo Cerdeira

O artigo abaixo foi originalmente publicado na Revista Outubro nº 3 como parte de um debate sobre se o bolchevismo dos primeiros anos da Revolução Russa já trazia em si os elementos que levaram à degeneração stalinista.

Bolchevismo e estalinismo: um velho debate

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O artigo de Michael Löwy, neste número da revista Outubro, é uma digna homenagem à figura de Leon Trotsky, o grande dirigente da Revolução de Outubro, presidente do Soviet de Petrogrado e fundador do Exército Vermelho. Löwy faz uma brilhante análise do papel de Trotsky como pensador e teórico marxista, aquele que melhor soube prever o desenvolvimento das contradições sociais e da luta de classes que culminaram na Revolução de Outubro e na formação do Estado operário soviético. No entanto, analisando a atuação de Trotsky como dirigente do Estado soviético, Löwy a caracteriza como parte de um período autoritário que teria marcado todo o regime implantado pelos bolcheviques. Indo um pouco mais além, Löwy afirma que “de uma maneira geral, Trotsky irá desenvolver, dentro desse período, idéias e argumentos fortemente marcados por um autoritarismo de inspiração ‘jacobina’”.

Mas é ao final do artigo que o autor coloca a questão decisiva. Löwy assinala os argumentos com que Trotsky rebatia a acusação de que o stalinismo era, em certa medida, herdeiro do bolchevismo. O organizador e comandante do Exército Vermelho demonstra que o stalinismo, para consolidar-se, necessitou aniquilar fisicamente a vanguarda operária e, principalmente, os velhos bolcheviques. Löwy reconhece a correção da defesa mas lança a dúvida: “O argumento é justo, mas não se pode deixar de questionar o papel de certas tradições autoritárias do bolchevismo de antes de 1917 e de práticas antidemocráticas dos anos 1918-23, na escalada do stalinismo: os revolucionários de Outubro não contribuíram, até um certo ponto – involuntariamente – para a gênese do gulag burocrático que os iria destruir?”

A pergunta é, ao mesmo tempo, antiga e atual. Antiga porque foi colocada desde, no mínimo, a década de 30 pelos que acusavam o bolchevismo de ser a matriz do stalinismo ou de ter facilitado, com seus erros, o caminho para o surgimento e consolidação da burocracia.

Por outro lado, a pergunta é extremamente atual porque, depois da queda dos regimes stalinistas em 1989/1990 e da restauração do capitalismo nos antigos Estados operários burocráticos, o debate sobre a natureza e a origem da burocracia stalinista voltou a ganhar enorme importância.

Nossa intenção não é polemizar com o artigo de Löwy em si. Isso porque o autor, ao contrário de um setor da esquerda, evidentemente não vê o stalinismo como continuidade do bolchevismo. Sua pergunta é se os erros dos bolcheviques “não contribuíram – involuntariamente –, e somente até um certo ponto” para o surgimento do stalinismo.

Mas, sem dúvida, é muito importante entrar no debate proposto, porque discutir os erros dos bolcheviques e suas conseqüências significa discutir como, no curso de uma revolução socialista, deve agir um futuro governo operário que enfrente uma situação de guerra civil e de isolamento internacional. Ou seja, diante de um quadro semelhante ao apresentado durante o período 1917-23, qual deveria ser a política de um partido revolucionário no poder?

Os primeiros anos

Nossa opinião é que a questão proposta por Löwy abarca pelo menos três grandes aspectos:

O primeiro é se de fato podemos caracterizar o primeiro período de governo dos bolcheviques (1917-1923) como um período predominantemente autoritário.

O segundo é se a defesa da revolução e do Estado operário, principalmente em meio a uma guerra civil, autorizam ou exigem a utilização de medidas autoritárias – que de fato foram tomadas pelos bolcheviques – contra as classes dominantes e seus agentes.

E, por último, cabe discutir se as medidas tomadas pelos bolcheviques provocaram ou facilitaram o caminho para o stalinismo, ou seja, se, mesmo involuntariamente, o bolchevismo não contribuiu para o surgimento do stalinismo.

Abordando o primeiro aspecto, em nossa opinião os fatos desmentem totalmente Löwy. Ao contrário de se caracterizarem pela “restrição crescente às liberdades democráticas”, os primeiros anos do poder soviético significaram um grau de liberdade para a classe trabalhadora desconhecido não só no anterior regime kerenskysta, como nas próprias “democracias” burguesas.

Mesmo nos momentos de guerra civil, com todas as óbvias limitações que essa luta implacável impunha, o regime bolchevique de 1917 a 1923 foi extremamente democrático para a classe operária e os setores populares a ela aliados. Apesar de atacado por todos os lados, pelo exército branco e pelas tropas de 14 nações comandadas pelos maiores países imperialistas; apesar de sabotado internamente pelos partidos oportunistas, como os socialistas-revolucionários e mencheviques; apesar de tudo isso, foi o regime mais democrático para a classe operária e para o povo que a história já conheceu.

Em primeiro lugar, porque era baseado em um organismo que era ao mesmo tempo órgão de mobilização e base do Estado operário: os conselhos de representantes dos operários e camponeses (sovietes). Segundo, porque o regime soviético garantiu amplas liberdades para a classe operária e o povo, assegurando o direito das organizações dos trabalhadores, sindicatos, comitês de fábrica, etc. Existia plena liberdade partidária para os partidos soviéticos, não só para os que estavam no governo (bolcheviques e socialistas-revolucionários de esquerda num primeiro momento), mas inclusive os mencheviques e socialistas-revolucionários de direita, até sua adesão à contra-revolução. E, principalmente, porque o regime instituiu as maiores liberdades políticas, culturais, artísticas, científicas, de reunião e de imprensa que já existiram.

Dentro do próprio partido bolchevique a liberdade era enorme. Polêmicas fundamentais como a paz de Brest-Litovsk, a organização do Exército Vermelho e a utilização de oficiais czaristas, a discussão sobre os sindicatos e a militarização do trabalho, eram feitas publicamente nos jornais do partido, chegando muitas vezes a exageros “democratistas”, criticados por Lênin.

A sobrevivência da URSS

No entanto, esse regime enfrentou uma enorme contradição: durante o período de 1918 a 1921, os líderes bolcheviques estiveram obrigados a colocar acima de tudo a defesa da jovem república soviética. O que estava em jogo era a sobrevivência do Estado operário diante da guerra civil, que combinava o ataque dos Guardas Brancos com a invasão da Rússia por 14 exércitos estrangeiros. A situação exigia uma dura repressão, ou seja medidas autoritárias, contra a burguesia, a aristocracia e seus agentes. Trotsky definiu bem qual era a grande tarefa da classe operária e do partido revolucionário naquele momento, quando afirmou: “A missão e o dever da classe operária que se apossou do poder depois de uma longa luta, era fortalecê-lo inquebrantavelmente, assegurar definitivamente sua dominação, cortar toda tentativa de golpe de Estado por parte dos inimigos e procurar, dessa forma, a possibilidade de realizar as grandes reformas socialistas. Não valia a pena conquistar o poder, para fazer outra coisa”.

Trotsky explicava o uso da violência pelo proletariado revolucionário pela necessidade deste defender o poder recém-conquistado com todas as suas forças e através de todos os meios: “A revolução não implica ‘logicamente’ o terrorismo, como também não implica a insurreição armada. Solene vulgaridade. Mas, ao contrário, a revolução exige que a classe revolucionária faça uso de todos os meios possíveis para alcançar seus fins: a insurreição armada, se é preciso; o terrorismo, se é necessário. A classe operária, que conquistou o poder com as armas na mão, deve desfazer pela violência todas as tentativas destinadas a arrebatá-lo.

Neste sentido, o terror vermelho não se diferencia em princípio da insurreição armada, da qual não é mais que a continuação. Não pode condenar ‘moralmente’ o terror governamental da classe revolucionária a não ser aquele que, a princípio, reprove (de palavra) toda violência em geral”.

Quase meio século antes, Engels, falando sobre autoridade, violência e Estado operário, respondia aos anarquistas em palavras que pareciam prever as circunstâncias que cercariam o nascimento do primeiro Estado operário da história: “os anti-autoritários exigem que o Estado político autoritário seja abolido de um golpe, mesmo antes de terem sido destruídas as condições sociais que o fizeram nascer. Exigem que o primeiro ato da revolução social seja a abolição da autoridade. Será que esses senhores jamais viram uma revolução? Uma revolução é, indiscutivelmente, a coisa mais autoritária que existe; é o ato através do qual uma parte da população impõe sua vontade à outra parte por meio de fuzis, baionetas e canhões, meios autoritários desde que existam; e o partido vitorioso, se não quiser ter lutado em vão, tem que manter esse domínio pelo terror que as suas armas inspiram aos reacionários. A Comuna de Paris teria por acaso durado um só dia se não fosse empregada essa autoridade do povo armado frente aos burgueses? Não podemos, ao contrário, criticá-la por não se ter servido bastante dela?

Portanto, uma das duas: ou os anti-autoritários não sabem o que dizem, e nesse caso não fazem senão semear a confusão; ou sabem e nesse caso traem o movimento do proletariado. Num e noutro caso, servem à reação”.

Nessa situação de guerra civil e brutal crise econômica, os bolcheviques viram-se obrigados a proibir o funcionamento de partidos soviéticos, como os socialistas-revolucionários e os mencheviques. Líderes de ambos os partidos tomaram parte de governos contra-revolucionários. O exemplo mais famoso é a participação de dirigentes dos SR no governo do general branco Kolchak, instalado em Samara. Os socialistas revolucionários de esquerda, que antes haviam participado do primeiro governo soviético, chegaram a desencadear uma onda de atentados contra os bolcheviques, ferindo Lênin e matando Uritsky, membro do Comitê Central.

Apesar dessas atitudes abertamente contra-revolucionárias, as medidas que os bolcheviques tomaram – proibição da imprensa e dos próprios partidos – foram limitadas. Com idas e vindas, estes permaneceram em atividade inclusive durante a guerra civil. Os líderes do Partido Comunista sempre defenderam a medida de proibição dos partidos como provisória, justificada apenas pela necessidade de defesa da república soviética. Com mais razão, aplicaram o mesmo critério quando tiveram que proibir as frações internas no seio do partido bolchevique.

Nesse ponto é preciso abordar a questão que sempre aparece como pano de fundo do debate dos supostos erros e tradições autoritárias dos bolcheviques. Trata-se da famosa discussão: bolchevismo e stalinismo são duas caras de uma mesma moeda? O stalinismo é filho, ainda que degenerado, do bolchevismo? Ou seja, trocando em miúdos, o processo de burocratização stalinista foi uma decorrência natural, uma evolução, mesmo que qualitativa, dos erros ou da política autoritária dos bolcheviques?

O erro básico de raciocínio por trás de questões formuladas dessa maneira, é conceder a um fator subjetivo, o partido bolchevique, um papel superior, decisivo, capaz de reverter os processos objetivos da história. O processo de burocratização foi um fenômeno objetivo, que dependeu diretamente do desenvolvimento da luta de classes. No caso concreto, da derrota da revolução mundial e do conseqüente isolamento da União Soviética, potencializados pelo tremendo atraso do país e do desgaste das massas com a guerra civil. Ou seja, fenômenos opostos aos que levaram os bolcheviques a liderar o proletariado até a conquista do poder. Apesar de lutarem contra eles, os bolcheviques não puderam, nem podiam, inverter o curso objetivo da luta de classes.

Incompatibilidade

Polemizando contra os que viam o stalinismo como continuidade do bolchevismo, Trotsky expunha a contradição dessa conclusão: se o stalinismo é herdeiro do bolchevismo porque teve necessidade de aniquilar fisicamente toda a velha guarda bolchevique para consolidar seu poder? “Depois da purga, a divisória entre o stalinismo e o bolchevismo não é uma linha sangrenta, mas sim toda uma torrente de sangue. A aniquilação de toda a velha geração bolchevique, de um setor importante da geração intermediária, a que participou na guerra civil, e do setor da juventude que assumiu seriamente as tradições bolcheviques, demonstra que entre o bolchevismo e o stalinismo existe uma incompatibilidade que não é só política, mas também diretamente física”.

Trotsky explica essa “torrente de sangue” que separa o bolchevismo do stalinismo justamente pelos elementos objetivos que motivaram o aparecimento e o desenvolvimento de ambos. O bolchevismo chegou ao poder no bojo da vaga revolucionária que surgiu no fim da Primeira Guerra Mundial. Somente esse enorme impulso pode explicar como o Exército Vermelho, formado da noite para o dia, pôde sair vitorioso de uma guerra tão desigual contra os exércitos brancos, armados e apoiados por tropas de países imperialistas. O stalinismo, ao contrário, foi fruto do retrocesso e derrota da revolução internacional entre 1919 e 1923, com especial destaque para a derrota da revolução alemã. Esse refluxo foi potencializado pelo atraso da Rússia e pela aniquilação de grande parte da classe operária, especialmente os elementos mais valorosos da vanguarda, durante a guerra civil. O stalinismo, portanto, é produto e expressão do retrocesso da revolução, e por sua vez, ao consolidar-se como burocracia, agente da maré contra-revolucionária que durou de 1923 até a derrota do nazismo na Segunda Guerra Mundial.

O caráter inconciliável do bolchevismo e do stalinismo foi demonstrado não só pela sanha assassina com que a burocracia stalinista se lançou contra toda a “velha guarda” bolchevique, mas também pela resistência que os verdadeiros bolcheviques ofereceram ao processo de burocratização. O primeiro a lutar contra a burocratização foi o próprio Lênin. Foi seu último combate, só interrompido por sua morte em 1924. A bandeira da luta contra a burocracia foi arrebatada pela Oposição de Esquerda, dirigida por Trotsky que a sintetizou em forma de programa político de transição na luta pela Revolução Política, uma das bases para a fundação da Quarta Internacional.

Bernardo Cerdeira é do Conselho Editorial da revista Marxismo Vivo

 

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24 respostas a Em Defesa do Marxismo e do Partido Revolucionário

  1. silva diz:

    A DGERT tem por missão apoiar a concepção das políticas relativas ao emprego e formação profissional e às relações profissionais, incluindo as condições de trabalho e de segurança saúde e bem-estar no trabalho, cabendo-lhe ainda o acompanhamento e fomento da contratação colectiva e da prevenção de conflitos colectivos de trabalho e promover a acreditação das entidades formadoras.
    Tudo uma grande mentira, as provas são dadas com o despedimento colectivo de 112 pessoas do CASINO ESTORIL
    “Para Os Trabalhadores da empresa casino estoril no final se fará justiça, reconhecendo a insustentabilidade de um despedimento Colectivo oportunista promovido por uma empresa que, para além do incumprimento de diversas disposições legais, apresenta elevados lucros e que declara querer substituir os trabalhadores que despede por outros contratados em regime de outsoursing”.

  2. Pedro Lérias diz:

    Vocês vivem mesmo isto, não é? Parece uma discussão de exegese judaica entre dois rabinos há dois mil anos, um na Babilónia, outro na Judeia.
    maradona, sei que é feio mandar ler alguém alguma coisa, e logo eu que pouco leio, mas sugiro que desenterrem os textos de Rosa Luxemburgo, que tomou o lado dos mencheviques e previu com clareza o futuro da revolução, a sua progressiva burocratização e que acabaria numa brutal ditadura. E foi morta em 1919. E vocês ainda andam a discutir estas coisas?
    É a semântica, não é? É como interpretar a Bíblia, vocês adoram semântica.

  3. Carlos Vidal diz:

    Deixa-me começar por algo que nem sequer me diz muito respeito: o tal Zé Neves; creio que o Zé Neves não só diz que Lenine fez despontar o estalinismo, ou que este estava no primeiro em germen, como ainda a acreditar no pensador/ídolo do tarado do “Vias” – Castoriadis -, por lá, por esse blogue, deve achar-se mesmo que Lenine é o criador do totalitarismo.
    Algum trotskismo foi alimentando esta tese, pois de tanto estalinista e anticomunista, Castoriadis foi, na sua etapa primeira, foi – dizia eu – militante trostskista. Portanto, há um trotskismo que alimenta um anti…….. não apenas estalinismo, mas mesmo leninismo (sem que Trotsky possa aqui ser acusado do que quer que seja, reconheço).
    Quanto a mim – não comparei Lenine, revolucionário, genial estratego, político e filósofo, a Estaline, um governante, basicamente um governante que creio que deve ser estudado e reavaliado. E disse, parafraseando Francisco Martins Rodrigues, que Estaline tentou salvar a revolução perigada pelo avanço nepista. Portanto, o inimigo principal de Estaline não creio ter sido Trotsky (que tal se veio a tornar desde o exterior, mas antes não faria sentido ser “inimigo 1º), este inimigo foi Bukarine, e ideologicamente a via social-democrática que se vinha impondo.
    (E não pude ler o teu post por completo. Logo verei melhor.)

    • Niet diz:

      C. Vidal:Foi Zinoviev- e nao Boukharine- que contribuiu para o advento de Estaline como Secretário-Geral no 11° Congresso do PCURSS, em 1922. Tudo por divergências do ” animador ” com as teses de Trotsky/Boukharine sobre a ” democracia operária e campesina “… E, devem ter pesado por ricochete os efeitos da repressao de Kronstad no ano anterior… Smirnov tinha sido apontado como sucessor de Lénine, mas este inviabilizou a escolha, alegando que Smirnov fazia muita falta para continuar a dirigir a Sibéria. O que se sabe, no entanto, é que o comité central já era dominado aritmeticamente por comparsas em torno de Estaline, e Smirnov era dado como um trotskista de grande qualidade. A entrada da Guepeou/KGB nos sindicatos e no partido data dessa altura.Boukharine só aparece a jogar contra Trotski no rescaldo do XIII Congresso em 1923,apoiando as teses de controlo político nas estruturas do parido, ao lado de Estaline, Zinoviev e Kamenev, com Zinoviev e o georgiano a escreverem incendiários libelos contra Trotski no Pravda. Niet

    • Vasco diz:

      Essa é a tese de todos os «historiadores» anticomunistas da história. Primeiro, o génio do mal é o Stáline, depois «descobre-se» que afinal o Stáline apenas seguiu Lénine. Mas, no fim de tudo, Lénine era um marxista… Apaguemos então o marxismo da história. Grande ZNeves!!!! E eras tu da JCP…

  4. Niet diz:

    Textos para discutir-que coisa positiva e retemperadora!O comentário ao texto do M Löwvy parece-me um pouco ao lado. E o Löwvy é um grande trotskista. Alguns dados- já que perdi um texto agora mesmo no comentário. O partido bolchevista- Comité Central foi fundado em Londres em Maio de 1905, do lado da linha minoritária alinhavam caracteres como os de Axelrode, Plekhanov e Martov,de primeira água, face a Lénine e os seus mosqueteiros. A par da Guerra Civil(17/20) e do ” Comunismo de Guerra(18/21), os Bolcheviques e os Mencheviques partilharam o poder até 8 de Julho de 1918. E a 12 de Agosto de 1908 Lénine desarma os Sovietes de Petrogrado e Moscovo. O poder revolucionário em Outubro 1917 foi dividido pelos socialistas revolucionários( cinco tendências), os mencheviques ( três tendências) ,os bolchevistas ( duas tendências), os apaniguados de Plekhanov, os maximalistas, os anarquistas…Pluralismo e democracia directa,pois. Niet

  5. Niet diz:

    Pot-pourri para o inefável C. Vidal: Oh, CV, o Castoriadis- que faz parte do ” património ” do Vias, claro- foi comunista e trotskista, esta fase já no exilio em França desde 1945. E depois foi Conselhista e Autonomista, parceiro de Adorno, Pannekoek e Paul Mattick. E ferozmente Anti-Estalinista, por coerência e dignidade! Trotski diz de Estaline:” era um troglodita”…Niet

    • Carlos Vidal diz:

      Não Niet, não é património do “Vias”, é património apenas do amanuense lá do sítio. Entretanto, uma ressalva: não sei se ZNeves embarca nessa “via” – talvez se lhe derem uns “bifes” (como se dizia antigamente).

    • Vasco diz:

      E era um troglodita só por Trótsky o dizer?

  6. Carlos Carapeto diz:

    Não é o assunto mas tem alguma coisa a ver.

    http://www.hist-socialismo.net/

  7. Bruno Carvalho diz:

    Na sua biografia, A Minha Vida, Trotsky diz o seguinte “O II Congresso foi uma grande etapa na minha vida, pelo menos em virtude de me ter separado de Lénine por vários anos”. Depois acrescenta, “Regressei a Lénine mais tarde do que muitos outros, mas regressei a ele pelo meu próprio caminho, tendo atravessado e meditado a experiência da revolução, da contra-revolução e da guerra imperialista. Graças a essas circunstâncias, regressei a ele mais firmemente, mais seriamente do que os seus «discípulos».”

    Para além da sua típica arrogância superior, ao considerar-se mais ‘leninista’, digamos assim, que os que sempre estiveram ao lado de Lénine, Trotsky faz uma ginástica interessante para justificar os longos anos que esteve afastado de Lénine. Ou seja, o argumentário é o seguinte: não houve mal nenhum em ter estado contra Lénine entre 1903 e 1917 porque tornei-me, dessa forma, no melhor dos ‘leninistas’.

    Algures, num livro, aparece uma pergunta bastante interessante: Teria Trotsky a oportunidade de se ligar ao bolchevismo em 1917 se todos os discípulos tivessem seguido o seu caminho, abandonando e combatendo Lénine após o II Congresso?

    A mim, pessoalmente, irrita-me que os trotskistas tentem embelezar o passado de Trotsky e pô-lo como o fiel seguidor da teoria e prática leninistas. Ele, efectivamente, rompeu com Lénine e fez muito mal ao leninismo. Podemos discutir durante horas se Estaline era ou não um bárbaro que assassinou meio Comité Central. Não é isso que vai apagar o papel que Trotsky escolheu para si, antes e depois da revolução.

    • Vasco diz:

      Em 1904 chamava coisas terríveis a Lénine. Digamos que Trótsky «regressou» a Lénine quando viu qual o partido que iria, efectivamente, liderar uma revolução na Rússia… Qual é a dúvida?…

      • Miguel Lopes diz:

        E mesmo que isso fosse verdade, só seria relevante para uma discussão biográfica, e não para uma discussão teórica como esta.
        A discussão é sobre a hipotética existência de sementes autoritárias no leninismo, que fizeram o Estado Operário desaguar no estalinismo. E por alguma razão, que eu desconheço, vocês fogem a sete pés desta discussão. Não é discutir ainda que de forma grosseira, é fugir mesmo.
        O Bruno até convoca biografias para uma discussão que não as pede – é o que se chama responder ao lado. Ele deve pensar assim: “como os trotskistas são portadores de uma das premissas, a de que o estalinismo constituiu um desvio autoritário que degenerou a experiência, então é melhor atacar a pessoa que veicula a ideia, e não a ideia em si (que isso dá muito trabalho): pois se ele próprio se desviou de Lenine durante tanto tempo, como poderia agora acusar os outros de desvio?”. Poderia sim, e pensar o contrário é apelar ao pensamento falacioso.
        É melhor começarem a jogar ao ataque, a defender com factos a obra de Estaline – se é essa a vossa posição -, em vez de convocarem a vida daqueles que a criticam.

      • Trotsky adouptu o leninismo em Abril de 1917 – agora parece difícil acreditar nisso (afinal, poucos meses depois…) mas nessa altura os bolcheviques não tinham grande implementação – se fosse por oportunismo, faria mais sentido juntar-se aos socialistas-revolucionários (ou ter ficado nos mencheviques, que estavam a ganhar força dentro do governo provisório)

      • António Paço diz:

        A sério, Vasco? E quando é que ele terá visto isso: antes ou depois de o Lenine, com a ajuda dele e do seu sector (que, diga-se, estava longe de ser um grupinho; tinha um jornal que vendia mais que a Pravda e forneceu um bom contingente de dirigentes do partido) ter derrotado aqueles que no CC do Partido Bolchevique defendiam a entrada no Governo Provisório (incluindo o Estaline) e depois se opuseram à insurreição? Já para não falar de pormenores como o seu papel destacado nos Sovietes ou a organização do Exército Vermelho… tudo coisas típicas de um arrivista.

        • Vasco diz:

          Ah Trótsky “ganhou” essa votação a Stáline? Deve ter sido a única ou perto disso… Quanto ao Exército Vermelho, efectivamente teve um destacado papel na sua criação, ao passo que Stáline liderou várias frentes, sobretudo a de Tsaritsine, com considerável sucesso…

  8. niet diz:

    ” Plekhanov é um ” lebreiro”, mordisca mas acaba sempre por largar; você é um bouldogue: quando morde nao larga mais. Lénine ficou radiante com esta comparaçao”.
    In ” Lénine “, L.Trotski.

  9. ezequiel diz:

    Cara Raquel,

    Este debate acerca das origens ou causas da malfadada “perversão” (do centralismo democrático!?? lol contradição absurda: centralismo democrático!) decorre há muito e parece-me algo fútil. A vulnerabilidade não é psico-política (terá sido Lenine ou Estaline a semear o autoritarismo-totalitarismo??) na minha opinião. É e continua a ser filosófica-ideológica. As pretensões cientificas do marxismo, a presunção hedionda da infalibilidade etc ETC…fizeram do marxismo uma ideologia intrinsecamente vulnerável ao totalitarismo.

    Parece-me evidente que qualquer revolução contem os elementos da sua possível degeneração. Nada mais natural. Os primeiros e mais importantes elementos são de natureza filosófica e pouco ou nada tem que ver com a pessoalização x ou y do processo revolucionário.

    Talvez gostes de ler isto. Eu gostei.
    Cumprimentos,
    ezequiel

    http://www.foreignpolicy.com/articles/2011/06/20/everything_you_think_you_know_about_the_collapse_of_the_soviet_union_is_wrong

  10. Niet diz:

    Lénine e Trotski conheceram-se no Inverno de 1902 em Londres. Foi na capital britânica que Trotski entrou para a redacçao da importante revista Iskra( Faúlha),plataforma europeia de alto nivel teórico apadrinhada por Kautsky e Plekahnov; e Bronstein entrou pela mao convicta e certeira de Ulianov. É uma história deliciosa e soberba, claro. Durante 15 anos, os dois amigos cúmplices ” viveram ” as suas vidas, participaram em muitos combates e odisseias, mas sempre sem incompatibilidades maiores ou paralizantes. Trotski retrata no seu livro sobre Lénine uma amizade altiva, sem preconceitos ou equívocos dilacerantes e, sobretudo, é narrada- o que acontece também na sua Biografia- uma crescente sintonia teórica e política com a visao estratégica de Lénine, crescente e profundamente solidária desde a Revoluçao de 1905 até à conferência de Lénine em Zimmerwald, Suiça, em Setembro de 1915. Pode-se adiantar que, mesmo na revoluçao de 1905, os dois estrategos se uniram para fazer triunfar o Soviete de Petrogrado. Só por má-fé ou delírio persecutório se podem tentar manobras de falsificaçao históricas. Por outro lado, as ideólogos históric0s do Estalinismo sempre tentaram cavar diferenças entre Lénine e Trotski, esquecendo-se da cumplicidade total dos dois titans na consolidaçao da Revol. de Outubro. Niet

    • Vasco diz:

      E onde estava Stáline nessa altura? Construindo o Partido na Geórgia, assumindo a responsabilidade pelo Pravda. Tagarelando menos, é certo, mas os partidos precisam mais do que de palavras para se implantarem junto das massas. Sobretudo partidos clandestinos.

  11. Niet diz:

    Koba, o pseudónimo de Estaline quando saiu do seminário, era um propagandista pela altura da fundaçao da Iskra. O representante de Lénine – na Iskra,era no Caúcaso o engenheiro Viktor Kournatovsky, que tinha estado deportado com Ulianov na Sibéria. A Pravda nunca existiu na Georgia e teve muitas refundaçoes.Niet

    • Raquel Varela diz:

      É raro neste debates haver mais do que insultos e intenções. Agradeço os factos, que não conhecia alguns. Factos têm a cabeça dura, já diz o ditado.

      • Niet diz:

        Raquel Varela: Vem tudo nos três livros do Trotski, que citei. O último dos quais é o sobre” Estaline “. Claro, existe toda uma ” literatura ” lendária sobre isso, escrita pelo J.J. Marie e o Mandel, acima de tudo. Depois temos o ortodoxo trotskista Pierre Broué, verdadeiramente minuncioso e apologético. Félix Guattari, co-autor com G.Deleuze do ” Anti-Édipo “, escreveu coisas maravilhosas em torno de ” Ma Vie ” de Bronstein. O Castoriadis sublinha que os anos 1917/21, da Revoluçao Russa, sao dos mais densos e cerrados, a vários titulos, da história e teoria revolucionária de todos os tempos. Por isso, urge evitar blasfémias e tentar procurar pontos originais e significativos de análise compreensiva, como é evidente. Salut! Niet

  12. Estaline arrumou com os revolucionátios de 1917, com os que tentaram implementar o Comunismo nos países de Leste no período entre-guerras e com os resistentes marxistas na Guerra Civil Espanhola. Proibiu greves e sindicatos livres e manteve o poder reduzido a uma cúpula castradora de direitos dos trabalhadores. Fez um acordo com Hitler em 1939 e reconheceu sem reservas o estado israelita.

    Só virtudes, políticas e ideológica, portanto

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